O artigo a seguir foi enviado pelo nosso Conselheiro Rodrigo Saraiva Marinho e reproduz um comentário de Ricardo Sondermann em defesa de Winston Churchill. O artigo reflete a opinião do autor, e não a do Instituto Mises Brasil.
Para outros artigos sobre Churchill, acesse:
Como Churchill criou o estado de bem-estar social na Grã-Bretanha
Churchill, Hitler e a guerra desnecessária
Uma Defesa Necessária: Churchill e os Fatos Históricos
Recentemente, deparei-me com um artigo publicado aqui no Mises Brasil sobre o livro de Ralph Raico criticando Winston Churchill. Como autor de dois livros sobre o estadista britânico e presidente do Capítulo Brasil da International Churchill Society, sinto-me na obrigação de trazer à luz alguns esclarecimentos históricos que julgo essenciais para um debate sério e fundamentado.
Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que minha crítica não se dirige ao Instituto Mises Brasil, entidade que conheço, respeito e da qual fui frequentador de muitos eventos. Justamente por valorizar a busca pela verdade que deve caracterizar o pensamento liberal é que me proponho a este exercício de correção histórica.
A Importância da Precisão no Debate de Ideias
Nós da direita, sejamos liberais, conservadores, ancaps, objetivistas ou libertários, deveríamos estar unidos em alguns pontos essenciais. Se perdemos espaço para a esquerda há décadas, é também porque desperdiçamos energia em disputas internas sobre questões que deveriam ser pontos de convergência. Churchill, imagino, deveria ser um desses pontos, e pode continuar sendo, desde que baseemos nossa análise em fatos, não em narrativas ideológicas.
O que me chamou atenção no artigo foi a ausência de fontes confiáveis e a aparente predominância da retórica sobre a análise histórica. A própria classificação de Raico como “historiador libertário” já denota que a narrativa política pode estar se sobrepondo à isenção e ao rigor acadêmico. Sem fontes, sem citação de outros autores, apenas um aparente ressentimento juvenil. E assim, perdemos todos.
Permita-me trazer luz a alguns pontos apresentados com os devidos esclarecimentos históricos:
1. Sobre os bombardeios a áreas civis
É fundamental estabelecer a cronologia. Foram os alemães que iniciaram os bombardeios sistemáticos contra populações civis em setembro de 1939, na Polônia. A Blitz sobre a Inglaterra começou em setembro de 1940 e se estendeu até maio de 1941, com o objetivo explícito de quebrar a resistência britânica, destruir fábricas e campos de pouso e preparar a invasão da ilha.
Os ataques alemães nunca cessaram completamente, evoluindo para tecnologias cada vez mais mortais como as bombas voadoras V1 e V2. Os bombardeios britânicos sobre a Alemanha não ocorreram em um vácuo moral, mas como resposta a uma guerra total iniciada pelo regime nazista. É bom lembrar que os bombardeios a Londres e outras cidades nunca pararam e seguiram com intensidades e tecnologias diferentes.
2. O objetivo de prolongar a guerra
Esta afirmação simplesmente não faz sentido quando confrontada com os fatos. A Inglaterra lutou sozinha entre maio de 1940 e dezembro de 1941. Se não fossem os japoneses atacarem Pearl Harbor, talvez os americanos nunca tivessem entrado na guerra.
A URSS só se tornou aliada depois de ser invadida por Hitler no verão de 1941, após ambos terem dividido a Polônia entre si numa aliança entre duas ideologias nefastas. Prolongar uma guerra na qual se está isolado e sob ataque constante seria uma estratégia suicida, não uma escolha política racional.
3. Entusiasta do poder estatal e planejamento central
Isto é mais opinião do que informação histórica. Muito pelo contrário. Churchill esteve em dois partidos: o conservador até 1904 e o liberal até 1924. Saiu dos liberais justamente porque estavam se aproximando dos socialistas e dos trabalhistas. Churchill migrou para os liberais em 1904 precisamente por discordar da política de taxas sobre importações e da atuação dos conservadores contra o livre mercado.
Um dos motivos pelos quais os conservadores perderam a eleição de 1945 foi justamente porque queriam aprimorar o modelo liberal com menos governo. Perderam porque os trabalhistas prometiam o welfare state.
4. O pai do bem-estar britânico
Nada mais incorreto. O welfare state britânico foi desenvolvido a partir do Beveridge Report de 1941, capitaneado pelos trabalhistas no governo de coalizão e adotado por Clement Attlee como plataforma eleitoral em 1945.
Sugiro a leitura deste documento que prevê educação e saúde gratuitas, moradia subsidiada e nacionalização de empresas. Lord Beveridge era trabalhista, e os milhões de soldados que voltavam da guerra queriam um governo que lhes retribuísse os anos de sacrifício pela nação.
5. A nacionalização das estradas de ferro
Essa informação, sem fonte ou data de quando teria dito isso, sem o contexto ou o momento histórico é de pouca utilidade. Em meu novo livro “Churchill, o homem certo na hora certa”, a autora americana Cita Stelzer declara: “Grandes homens mudam de ideia”. Churchill pode ter dito isso, mas pode ter mudado de ideia. De fato, ele estatizou as estrades de ferro? Não. Churchill passou 60 anos na vida pública, trocou de partido duas vezes, ocupou os mais variados cargos em diferentes níveis de governo, errou muito e mudou de ideia inúmeras vezes. Talvez por isso tenha se tornado o grande homem que é.
6. O fascínio pela guerra
Sim, Churchill era militar formado em Sandhurst e participou de seis conflitos: Cuba como observador do exército espanhol, Índia lutando contra insurgentes muçulmanos no atual Afeganistão, Sudão contra os muçulmanos que atacaram os ingleses, África do Sul como correspondente de guerra na Segunda Guerra dos Bôeres, e ambas as Guerras Mundiais. Em nenhum desses conflitos foi a Grã-Bretanha quem iniciou as hostilidades.
Como observou Boris Johnson, há diferença entre um warlord e um warmonger. Churchill lutava guerras para terminá-las. Quanto à afirmação de que “adorava explosões”, sim, como qualquer jovem militar. A ação o motivava, a adrenalina é o alimento de um militar, aqui e na Cochinchina. Mas extrapolar isso para dizer que seria um líder sanguinário que se divertia com a guerra é absolutamente sem sentido. Segundo seu neto, Lord Soames: “Meu avô odiava a guerra”.
7. A guerra como um fim em si mesmo
Isto é opinião, não informação.
8. Os crimes de guerra
Lembremos: quem começou a Primeira e a Segunda Guerra Mundial? Quem bombardeou populações civis na Polônia, Holanda, Bélgica, França, Reino Unido e Rússia? Quem atacou primeiro? Nenhuma guerra é bonita, mas para terminá-las é preciso lutar e vencer.
Justamente porque os Aliados venceram é que este “historiador libertário” tem liberdade para questionar, mesmo que com pouco conhecimento ou viés prévio. Voltaire já disse: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”. Churchill viveu essa máxima em sua plenitude.
9. Dresden e os números
A afirmação de “600 mil mortos e 800 mil feridos” em Dresden é factualmente impossível. Quantas pessoas moravam em Dresden em 1945? Hoje são 560 mil habitantes e em 1945 eram 370 mil. Uma rápida pesquisa resolve isso. Em Dresden morreram aproximadamente 25 mil pessoas no bombardeio, uma tragédia que podemos debater se foi necessária ou não.
Segundo o historiador Andrew Roberts, Churchill foi contra, mas o Marechal do Ar Arthur “Bomber” Harris achou importante dar uma lição aos alemães. Como Churchill não passava por cima das decisões de seus chefes militares, não lhe restou alternativa além de aceitar a ação. Pode não ter sido culpa direta de Churchill, mas acaba caindo em sua conta como líder responsável. É como uma postagem ou artigo: pode não ser culpa de alguém específico, mas acaba sendo responsabilidade de muitos.
10. Sobre padrões éticos
O autor comenta “…político belicoso, estatista e responsável por massacres … rebaixa os padrões éticos da política e da história”. Normalmente eu não entro em discussões onde o que está posto são adjetivos. Logo, nada há para discutir aqui. Mas, para não baixar os padrões “éticos da política e da história” eu gostaria que fossem citados os massacres perpetuados pelos aliados, não só por Churchill. Já eu poderia aqui usar umas centenas de páginas para ilustrar os massacres que nazistas, japonese e russos (e depois os comunistas) fizeram.
11. O sucesso da Segunda Guerra Mundial
A frase de que “a Segunda Guerra Mundial não foi um sucesso” é bonita retoricamente, mas ignora o essencial: era preciso derrotar quem começou. Nenhuma guerra é boa. É sangrenta, é horrível, e os responsáveis por iniciá-la não devem ser celebrados. Devem ser julgados, condenados e pagar por seus crimes. Coisa que os criminosos nazistas e militaristas japoneses não ofereceram às suas vítimas.
Quem deve ser celebrado e reverenciado são aqueles que morreram lutando pela liberdade, contra a barbárie, por deixar um mundo onde até o “historiador libertário” pode dizer o que quiser e sair impune. Ou quase isso.
Uma Reflexão Final
Minha crítica não é contra o Instituto Mises Brasil. Meu comentário se dirige àqueles que tocam o dia a dia da instituição: se pretendem preservar a memória de Von Mises, entendam que a verdade é essencial. Vale lembrar que Von Mises sobreviveu ao nazismo. E sempre com a verdade.
Churchill nunca temeu reconhecer seus próprios erros. “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. “O sucesso não é final. O fracasso não é fatal. É a coragem de continuar que conta”. “Melhorar é mudar. Ser perfeito é mudar com frequência”. “Engolir minhas palavras nunca me causou indigestão”.
Me pergunto se o autor do post original terá, como disse o Dr. Jorge Gerdau, “a grandeza da humildade” de Winston Leonard Spencer Churchill.
Os autores do artigo terminam pergundando se existe humildade de quem publicou o artigo original criticando Churchill. Pois bem, aqui está a prova: uma defesa deste estadista publicado no site do Instituto Mises Brasil, instituto que publicou o artigo original. Prova maior não existe! Agora fica aqui meu questionamento: o Capítulo Brasil da International Churchill Society teria a mesma humildade de fazer o mesmo? Publicar críticas ao inquestionável estadista?
“Deixe que fique livremente concedido que em 1940 Churchill desempenhou seu papel com soberania… Ele foi um homem moldado em forma heroica, um ‘berserker’ sempre pronto para liderar uma esperança desesperada ou storm a breach [atacar uma brecha], e no seu melhor quando as coisas estavam no seu pior.”
Adaptado de “Rethinking Churchill” (citando a análise de Mises sobre o papel de Churchill em 1940).
Não sou historiador nem especialista no assunto, mas tenho algumas discordâncias a respeito desse artigo.
A primeira é sobre a expressão “Nós da direita, sejamos liberais, conservadores, ancaps, objetivistas ou libertários, deveríamos estar unidos em alguns pontos essenciais”. Libertários e ancaps não são “direita”, e isso já foi explicado por Hayek décadas atrás:
https://mises.org.br/artigos/17296/por-que-nao-sou-um-conservador/
É um hábito desagradável dos conservadores atribuir-se o monopólio da virtude anti-esquerda e tratar liberais e libertários como ajudantes que deveriam “unir-se” a eles.
Quanto aos demais pontos, sigo a numeração do artigo:
1 – Bombardeiros a alvos civis:
Parece-me que o argumento dos autores é que Hitler era um monstro por bombardear civis mas Churchill era um herói por fazer a mesma coisa.
Para mim, mesmo em uma guerra, algumas coisas são morais e outras não.
6 – O fascínio pela guerra:
Aqui os autores recorre ao surrado sofisma do “quem iniciou a guerra”, tão na moda atualmente na Ucrânia. Citar guerras na Índia e na África do Sul, ambas colônias britânicas, e dizer que “não foi a Grã-Bretanha quem iniciou as hostilidades” é, desculpe a franqueza, baixar o nível. E o neto de Churchill não é exatamente uma “fonte confiável” sobre os defeitos ou qualidades do avô.
8 – Os crimes de guerra:
Quem começou a Primeira Guerra? Se não foi Churchill, certamente não foi Hitler. Buchanan argumenta que as ações da Inglaterra transformaram uma guerra que talvez nem chegasse a acontecer, ou seria curta, em um conflito mundial.
Quem começou a Segunda Guerra? Aqui a resposta é mais fácil: a Segunda Guerra começou com o Tratado de Versailles. Se Churchill não foi o principal responsável, pouco se opôs a ele.
9 – Dresden e os números:
Aqui os autores se equivocam. A alegação “o bombardeio terrorista das cidades da Alemanha que no final custou a vida de cerca de 600.000 civis e deixou cerca de 800.000 gravemente feridos” não se refere apenas a Dresden, mas a todas as cidades bombardeadas.
E, novamente, dizer que Churchill era contrário, mas “não passava por cima das decisões” de seus subordinados, é baixar o nível do debate.
11 – O sucesso da guerra:
De novo o sofisma do “quem começou”. Aparentemente a Europa em 1939 era um paraíso onde elfos e unicórnios brincavam entre as árvores quando de repente, surgiu do nada um bruxo malvado chamado Adolf que decidiu conquistar o mundo. É um argumento fraco, que repete o velho hábito: quem ganhou a guerra é sempre justo, correto e heróico; quem perdeu é sempre vil, covarde e bárbaro. E o perdedor é sempre declarado o causador e culpado pela guerra, revogados os fatos em contrário.
O debate é interessante, mas na minha humilde opinião a contribuição deste artigo é muito pequena.
“Se perdemos espaço para a esquerda há décadas, é também porque desperdiçamos energia em disputas internas sobre questões que deveriam ser pontos de convergência.”
E esse texto continua fazendo isso…
Neste site, existem excelentes artigos, existem artigos ok, existem artigos não tão bons e existem algumas perolas muito ruins.
Este é sem dúvida alguma uma destas perolas de baixa qualidade.
O fato de o texto estar escrito de maneira infantil é o menor de seus problemas.
Claramente trata-se um autor com amor juvenil pelo Wiston Churchill, que não leu e não lerá Raico, Buchanan ou qualquer outro autor da tradição paleo-conservadora/paleo-libertária.
Espero que o texto tenha sido imposto ao editor do blog, ou simples soluço, e não o indício de uma guinada nesta direção de glorificação de estatistas amantes da guerra.
O ponto alto desta publicação esta na nota antes de seu início. Depois, é ladeira abaixo.
Leiam:
“Para outros artigos sobre Churchill, acesse:
Como Churchill criou o estado de bem-estar social na Grã-Bretanha
Ralph Raico sobre Churchill
Churchill, Hitler e a guerra desnecessária
A verdade sobre Churchill”