Nota da edição:
O artigo a seguir é uma adaptação de um trecho do ensaio do historiador libertário Ralph Raico, Rethinking Churchill [Repensando Churchill]. No trecho, o autor ressalta a atuação do político Winston Churchill em cargos estatais antes de assumir como Primeiro Ministro, mostrando que qualquer figura pública tida como “heroica” merece críticas.
Em 1900, Churchill iniciou a carreira para a qual parecia evidentemente destinado. Sua origem — neto de um duque e filho de um famoso político Tory [como é conhecido o partido conservador britânico] — garantiu-lhe um assento na Câmara dos Comuns como Conservador. A princípio, ele parecia distinguir-se apenas por sua ambição inquieta, notável até mesmo nos círculos parlamentares. Mas, em 1904, ele atravessou o plenário e passou para o Partido Liberal, supostamente em razão de suas convicções a favor do livre-comércio. No entanto, Robert Rhodes James, um dos admiradores de Churchill, escreveu: “Acreditava-se [na época], provavelmente com razão, que, se Arthur Balfour lhe tivesse concedido um cargo em 1902, Churchill não teria desenvolvido um interesse tão ardente pelo livre-comércio nem ingressado nos Liberais.” Clive Ponting observa que: “como ele já havia admitido a Rosebery, estava à procura de uma desculpa para desertar de um partido que parecia relutante em reconhecer seus talentos”, e os Liberais não aceitariam um protecionista.
Arrastado pelas marés das opiniões da moda, sem princípios próprios e faminto por poder, Churchill logo se tornou adepto do “Novo Liberalismo”, uma versão atualizada da “Democracia Tory” de seu pai. O liberalismo “novo” diferia do “antigo” apenas na pequena questão de substituir o laissez-faire por um ativismo estatal incessante.
Embora seus idólatras conservadores pareçam alegremente ignorar esse fato — para eles, é sempre 1940 —, Churchill foi um dos principais arquitetos do estado de bem-estar social na Grã-Bretanha. O estado de bem-estar moderno, sucessor do estado assistencialista do absolutismo do século XVIII, teve início na década de 1880, na Alemanha, sob Bismarck. Na Inglaterra, o ponto de inflexão legislativo ocorreu quando Asquith sucedeu Campbell-Bannerman como primeiro-ministro em 1908; seu gabinete reorganizado incluía David Lloyd George no Tesouro e Churchill na Câmara de Comércio [chamada de Board of Trade em inglês].
É claro que “a dimensão eleitoral da política social estava muito presente no pensamento de Churchill”, escreve um historiador simpático a ele — isto é, Churchill a compreendia como uma forma de conquistar votos. Ele escreveu a um amigo:
“Nenhuma legislação atualmente em vista desperta o interesse da democracia. Todas as mentes estão se voltando cada vez mais para a questão social e econômica. Essa revolução é irresistível. Eles não tolerarão o sistema existente pelo qual a riqueza é adquirida, compartilhada e empregada(…) Colocarão seus rostos como se fossem de pedra contra o poder do dinheiro — herdeiro de todos os outros poderes e tiranias derrubados — e contra suas injustiças evidentes. E essa repulsa teórica acabará por se estender a qualquer partido associado à manutenção do status quo… Padrões mínimos de salários e conforto, seguro em alguma forma efetiva contra doença, desemprego e velhice, estas são as questões, e as únicas questões, pelas quais os partidos irão viver no futuro. Ai do Liberalismo, se elas lhe escaparem por entre os dedos”.
Churchill “já havia anunciado sua conversão a uma política social coletivista” antes de sua ida para o Board of Trade. Seu tema constante passou a ser “a justa precedência” dos interesses públicos sobre os privados. Ele adotou os clichês de engenharia social em voga à época, afirmando que “a ciência, tanto física quanto política, se revolta diante da desorganização que nos salta aos olhos em tantos aspectos da vida moderna” e que “a nação exige a aplicação de processos corretivos e curativos drásticos”. Segundo essa visão, o estado deveria adquirir canais e ferrovias, desenvolver certas indústrias nacionais, prover uma educação amplamente ampliada, introduzir a jornada de trabalho de oito horas, impor impostos progressivos e garantir um padrão mínimo nacional de vida. Não é de se admirar que Beatrice Webb tenha observado que Churchill estava “definitivamente apostando na ação construtiva do estado”.
Após uma visita à Alemanha, Lloyd George e Churchill foram ambos convertidos ao modelo bismarckiano de esquemas de seguro social. Como Churchill disse a seus eleitores: “Meu coração se encheu de admiração pelo gênio paciente que acrescentou esses baluartes sociais às muitas glórias da raça alemã”. Ele se propôs, em suas próprias palavras, a “lançar uma grande fatia de bismarckianismo sobre toda a parte inferior de nosso sistema industrial”. Em 1908, Churchill anunciou, em um discurso em Dundee: “Estou do lado daqueles que pensam que um maior sentimento coletivo deve ser introduzido no estado e nas municipalidades. Eu gostaria de ver o estado assumindo novas funções”. Ainda assim, o individualismo deveria ser respeitado: “Nenhum homem pode ser apenas coletivista ou apenas individualista. Ele deve ser ambos, individualista e coletivista. A natureza do homem é uma natureza dual. O caráter da organização da sociedade humana é dual”. Isso, diga-se de passagem, é um bom exemplo de Churchill como filósofo político: raramente melhora muito além disso.
Mas, embora tanto a “organização coletiva” quanto o “incentivo individual” devessem receber sua devida consideração, Churchill tinha certeza de qual deles havia prevalecido:
“Toda a tendência da civilização é, no entanto, em direção à multiplicação das funções coletivas da sociedade. As complicações sempre crescentes da civilização criam para nós novos serviços que precisam ser assumidos pelo estado, e promovem a expansão dos serviços existentes(…). Há uma determinação bastante constante (…) de interceptar todo o incremento não auferido futuro que possa surgir do aumento do valor especulativo da terra. Haverá uma área cada vez mais ampla de empreendimento municipal”.
A tendência estatista encontrou plena aprovação em Churchill. Como ele acrescentou:
“Vou mais longe; eu gostaria de ver o estado se lançar em diversos experimentos novos e aventureiros(…). Lamento muito que ainda não tenhamos as ferrovias deste país em nossas mãos. Talvez possamos fazer algo melhor com os canais”.
Esse neto de um duque e enaltecedor de seu antepassado, o arqui corrupto Marlborough, não hesitava em apelar aos ressentimentos das classes mais baixas. Churchill afirmava que “a causa do Partido Liberal é a causa dos milhões deixados de fora”, ao mesmo tempo em que atacava os Conservadores como “o Partido dos ricos contra os pobres, das classes e seus dependentes contra as massas, dos afortunados, dos ricos, dos felizes e dos fortes, contra os milhões excluídos e afastados, os fracos e pobres”. Churchill tornou-se o perfeito empreendedor político incansável, ansioso por politizar uma área da vida social após a outra. Ele repreendia os Conservadores por não possuírem sequer “um único plano de reforma social ou reconstrução”, enquanto se gabava de que ele e seus aliados pretendiam propor “um amplo, abrangente e interdependente esquema de organização social”, incorporado em “uma grande série de propostas legislativas e atos administrativos”. Nesse período, Churchill caiu sob a influência de Beatrice e Sidney Webb, os líderes da Sociedade Fabiana. Em um de seus famosos jantares estratégicos, Beatrice Webb apresentou Churchill a um jovem protegido, William — mais tarde Lord — Beveridge. Churchill trouxe Beveridge para o Board of Trade como seu assessor em questões sociais, dando assim início à sua ilustre carreira. Além de impulsionar uma variedade de esquemas de seguro social, Churchill criou o sistema de bolsas nacionais de trabalho: ele escreveu ao primeiro-ministro Asquith sobre a necessidade de “espalhar (…) uma espécie de rede inspirada no modelo germânico de intervenção e regulamentação estatal” sobre o mercado de trabalho britânico. Mas Churchill acalentava objetivos muito mais ambiciosos para o Board of Trade. Ele propôs um plano pelo qual:
“O Board of Trade deveria atuar como o ‘departamento de inteligência’ do governo, prevendo o comércio e o emprego nas regiões para que o governo pudesse alocar contratos às áreas mais merecedoras. No topo (…) haveria um Comitê de Organização Nacional, presidido pelo Chanceler do Tesouro, para supervisionar a economia”.
Por fim, plenamente consciente do potencial eleitoral do trabalho organizado, Churchill tornou-se um defensor dos sindicatos trabalhistas. Ele foi, por exemplo, um dos principais apoiadores do Trades Disputes Act de 1906. Essa lei reverteu as decisões judiciais de Taff Vale e outras, que haviam considerado os sindicatos responsáveis por ilícitos civis e danos cometidos em seu nome por seus agentes. A lei indignou o grande historiador liberal do direito e teórico do estado de Direito, A. V. Dicey, que afirmou que ela:
“confere a um sindicato uma liberdade de responsabilidade civil até mesmo pela prática dos mais graves ilícitos por parte do sindicato ou de seus servidores e, em suma, confere a todo sindicato um privilégio e uma proteção que nenhuma outra pessoa ou grupo de pessoas, na forma de uma corporação ou não, possui em todo o Reino Unido(…). Ela transforma um sindicato em uma corporação privilegiada, isenta da lei ordinária do país. Nenhum corpo assim privilegiado jamais havia sido deliberadamente criado antes pelo Parlamento inglês”.
É irônico que o imenso poder dos sindicatos britânicos, o grande inimigo de Margaret Thatcher, tenha sido criado com a ajuda entusiástica de seu grande herói, Winston Churchill.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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