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Carl Menger e as figurinhas da Copa do Mundo

Nota da edição:

Com a Copa do Mundo em andamento, torna-se oportuno revisitar uma das tradições mais populares do torneio: o álbum de figurinhas. Este artigo, analisa como esse fenômeno ajuda a compreender a teoria do valor subjetivo de Carl Menger.

O texto também faz parte do e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, e pode ser acessado aqui.


Por que um pedacinho de papel com a foto de um jogador pode valer R$ 5.000? Por que o mesmo colecionador que compra centenas de pacotes por R$ 7 cada um recusa-se a pagar R$ 50 por uma figurinha específica, mesmo que essa troca fosse matematicamente mais eficiente? A resposta não está no custo de produção da figurinha, nem no trabalho envolvido na sua impressão. Ela está, inteiramente, na mente do colecionador.

Carl Menger (1840–1921), fundador da Escola Austríaca de Economia, antecipou esse fenômeno 150 anos antes de a Panini vender seu primeiro álbum. Em seus Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (Princípios de Economia Política, 1871), Menger demoliu a teoria do valor-trabalho dos economistas clássicos e estabeleceu que o valor de qualquer bem é, exclusivamente, um julgamento subjetivo do indivíduo. As figurinhas da Copa do Mundo são, nesse sentido, um laboratório vivo e perfeito da teoria mengeriana.

Os quatro pilares da teoria do valor de Menger adaptadas ao contexto das figurinhas
  1. O valor é subjetivo e individual. Dois colecionadores distintos atribuem valores completamente diferentes à mesma figurinha. Quem já tem a de Messi não lhe atribui valor algum; quem precisa dela para completar o álbum pode pagar centenas de reais.
  2. O valor deriva da utilidade marginal, não da utilidade total. A utilidade total da água é imensamente superior à do diamante, mas, como a água é abundante, cada gota adicional contribui pouco para a satisfação do indivíduo, sua utilidade marginal é baixíssima. O diamante, sendo escasso, tem utilidade marginal elevada. O mesmo raciocínio se aplica às figurinhas: a centésima repetição da figurinha de um jogador comum tem utilidade marginal zero.
  3. O valor é determinado pela unidade marginal, não pela coleção inteira. Menger demonstrou que o valor de um bem específico equivale à satisfação que seria perdida pela ausência de sua última unidade disponível. Para o colecionador que falta apenas uma figurinha para completar o álbum, essa unidade final vale muito mais do que cada uma das 979 anteriores.
  4. O valor não existe fora da consciência humana. Nas palavras de Carl Menger:  “Valor é um julgamento que os agentes econômicos fazem sobre a importância dos bens à sua disposição para a manutenção de sua vida e bem-estar e, portanto, não existe fora da consciência humana”. Uma figurinha esquecida numa gaveta, sem que o mercado saiba que existe, não tem valor algum.
A tabela de Menger e a escala de necessidades

Para ilustrar sua teoria, Menger criou um quadro analítico onde cada coluna (numerada de 1 a 10) representa um tipo de necessidade (sendo 1 a mais urgente, como alimentação, e 10 a menos urgente, como entretenimento) e os números em cada célula representam a intensidade decrescente de satisfação à medida que mais unidades do bem são consumidas. O agente econômico racional aloca recursos de modo a igualar as utilidades marginais entre necessidades distintas.

Aplicando esse quadro às figurinhas, ao abrir o décimo pacote seguido, o colecionador já satisfez o impulso imediato de descoberta. A utilidade marginal do décimo primeiro pacote é menor que a do primeiro. Porém, quando ainda faltam figurinhas específicas para completar o álbum, a utilidade marginal da figurinha certa, e não qualquer figurinha, dispara. Esse é o mecanismo que gera o mercado de trocas e o mercado secundário de compra e venda de figurinhas avulsas.

A estrutura de preços e o mecanismo de escassez artificial

O modelo de negócio da Panini é um estudo de caso em engenharia de valor subjetivo:

ItemPreço oficial
Envelope com 7 figurinhasR$ 7,00 (R$ 1,00 por cromo)
Álbum capa moleR$ 24,90
Álbum capa duraR$ 74,90 a R$ 79,90
Box premium (edição luxo)R$ 359,90
Custo mínimo teórico para completarR$ 1.004,90
Gasto médio real (com repetições)R$ 1.500,00 a R$ 6.200,00

A distribuição aleatória dos cromos é o mecanismo central que gera escassez subjetiva. A probabilidade de adquirir todas as figurinhas sem repetições é equivalente a ganhar na Mega-Sena com uma aposta simples 55 vezes consecutivas, segundo o matemático Gilcione Nonato da UFMG. O professor estimou que o gasto médio para completar o álbum, sem trocas, seria de R$ 6.200.

Isso cria exatamente o cenário que Menger descreveu: bens subjetivamente escassos (a figurinha que falta) convivendo com bens de utilidade marginal zero (centenas de repetições).

O paradoxo mengeriano das figurinhas

O fenômeno das figurinhas resolve um paradoxo análogo ao do diamante e da água. Duas figurinhas podem ter o mesmo custo de produção e a mesma impressão gráfica, mas valores radicalmente distintos:

  • A figurinha de um jogador menos conhecido (que o colecionador já tem em triplicata): utilidade marginal zero, ele a descartaria de graça.
  • A última figurinha necessária para completar o álbum (qualquer que seja o jogador): utilidade marginal máxima, o colecionador pagaria muito acima do preço de tabela.

Isso demonstra empiricamente que o custo de produção não determina o valor. Uma figura de celulose com tinta de impressão, idêntica fisicamente à centésima repetição, vale centenas de reais porque é a peça que falta. O valor não adere ao bem; ele existe apenas no julgamento do agente.

Figurinhas raras e a formação espontânea de preços

O mercado secundário de figurinhas da Copa 2026 exibe uma estrutura de preços que reflete com precisão cirúrgica a teoria mengeriana. A Panini criou categorias de raridade explícita para as 20 figurinhas da categoria “Legends“, de jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo, Vinicius Jr., Mbappé e Lamine Yamal, com quatro níveis de escassez programada:

NívelFrequência de apariçãoFaixa de preço
Lilás1 a cada 190 pacotes~R$ 150,00
Bronze1 a cada 317 pacotes~R$ 200,00
Prata1 a cada 900 pacotesR$ 180 a R$ 400,00
Dourada1 a cada 1.900 pacotesR$ 300,00 a R$ 5.000,00

A figurinha dourada de Cristiano Ronaldo da coleção “Crumple Gold Edition” comercializada exclusivamente nos EUA e Canadá foi listada por até US$ 999 no eBay. O valor não reflete custo de trabalho nem utilidade objetiva. Reflete escassez subjetivamente percebida por uma demanda global concentrada.

O processo de descoberta e as feiras de troca

Menger via o mercado não como um mecanismo de equilíbrio mecânico, mas como um processo social de descoberta de informações dispersas, ideia que Hayek desenvolveria décadas depois. As feiras de troca de figurinhas são o exemplo mais puro desse processo.

Quando dois colecionadores se encontram para trocar figurinhas, cada um cede algo que tem valor marginal baixo (a repetição) para obter algo de valor marginal alto (a que falta). Ambos saem ganhando, porque o valor é subjetivo e a troca revela e realiza preferências individuais. Cada troca é, nesse sentido, um ato de criação de valor e não de transferência de riqueza existente.

A temporalidade do valor das figurinhas

A teoria de Menger implica que o valor desaparece quando a relação entre o bem e a necessidade se altera. Nada ilustra isso tão bem quanto o mercado de figurinhas após o encerramento da Copa: figurinhas que valiam R$ 300 durante o torneio caem abruptamente de valor ao término da competição. O bem não muda fisicamente; muda apenas a necessidade subjetiva do colecionador. Isso distingue o valor das figurinhas do valor de bens com utilidade mais perene.

A estratégia da panini sob a ótica mengeriana

A Panini detém direitos exclusivos de licenciamento da FIFA desde 1970 e fatura entre R$ 800 milhões e R$ 1,2 bilhão por Copa no Brasil. Sua estratégia empresarial é, em essência, uma engenharia do valor subjetivo aplicada em escala industrial:

  1. Distribuição aleatória cria escassez subjetiva diferenciada para cada colecionador — o mesmo produto (pacote) tem utilidade marginal diferente para cada comprador.
  2. Raridades programadas (figurinhas Legend Gold, brilhantes, metalizadas) criam estratos de mercado com diferentes curvas de disposição a pagar.
  3. Prazo limitado (o álbum perde relevância após a Copa) cria urgência que eleva temporariamente a utilidade marginal de cada unidade adquirida.
  4. Preço unitário baixo dissolve a resistência psicológica à compra, em termos mengerianos; é uma calibração do preço abaixo da utilidade marginal percebida de cada pacote individual.
Conclusão

O álbum de figurinhas da Copa do Mundo é muito mais do que um produto de entretenimento ou um fenômeno de nostalgia. É um experimento econômico em larga escala que reproduz, com extraordinária fidelidade, os princípios que Carl Menger articulou em 1871.

O valor subjetivo se manifesta quando figurinhas fisicamente idênticas tem valores diferentes. A utilidade marginal decrescente explica por que o décimo pacote entretém menos que o primeiro. A imputação de valor explica por que a última figurinha vale mais que todas as anteriores juntas. A ordem espontânea explica por que as feiras de trocas surgem sem que ninguém as planeje. E a preferência temporal explica por que os preços sobem conforme a Copa se aproxima e colapsam quando ela termina.

Menger e, mais tarde, Hayek mostraram que os preços de mercado não são números arbitrários, resultados de exploração nem reflexos de custo de produção, são informação: o sinal mais concentrado e preciso disponível sobre o estado das preferências humanas num dado momento. Que essa informação se revele com tanta clareza num pacotinho de papel impresso com fotos de jogadores de futebol é, ao mesmo tempo, uma prova da universalidade da teoria e um lembrete de que a economia não estuda apenas grandes números, estuda a ação humana em toda a sua complexidade e riqueza.

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