
Nota do editor:
O segundo semestre de 2026 no Brasil começa com uma perspectiva deprimente. Em termos econômicos, os dados apontam para um futuro nefasto. A sanha arrecadatória do governo não tem conseguido cobrir a sua ainda maior sanha de gastos. Os gastos públicos têm crescido mais rapidamente do que a receita, apesar do hiperfoco petista em aumentar impostos.
O resultado disso é um déficit primário cada vez pior e uma dívida estratosférica. Na metodologia de cálculo utilizada pelo governo brasileiro, a relação dívida/PIB está em 81%. Se utilizarmos a metodologia internacional, adotada inclusive pelo FMI, chegamos a incríveis 94,3% – um patamar próximo ao observado durante a pandemia. E isso para uma economia que ainda não está em recessão.
Enquanto isso, a direita brasileira briga publicamente e abre o caminho para Lula nas eleições deste ano. As casas de apostas preveem mais de 60% para a vitória de Lula, enquanto pesquisas apontam enorme rejeição a Flávio Bolsonaro.
Confira a leitura do nosso conselheiro Fernando Ulrich sobre os indicadores recentes da economia brasileira e a perspectiva eleitoral. O artigo a seguir é uma transcrição de um trecho do vídeo de Ulrich publicado no YouTube.
As contas do governo continuam fora de controle. O resultado de maio mostrou um déficit primário de mais de R$ 50 bilhões e quase R$ 150 bilhões nos últimos 12 meses, o que mostra que não há nenhuma responsabilidade fiscal.
Além disso, a questão eleitoral se deteriorou bastante na última semana, com todas as polêmicas envolvendo a direita, a família Bolsonaro, Flávio e Michelle. É uma lavagem de roupa suja em público que só prejudica a direita. É uma direita autofágica. Enquanto isso, a esquerda apenas observa o que está acontecendo e aguarda a eleição se desenrolar.
Comecemos com as principais notícias econômicas e como isso tem refletido nos mercados. Primeiro de tudo, tivemos os dados das contas públicas de maio de 2026, que foi um dos piores meses de maio em muitos anos. Talvez só 2023 tenha sido tão ruim, naquele que foi o primeiro ano de Lula III. O destaque maior, que nem aparece tanto nesses dados que foram divulgados, é a situação do endividamento brasileiro. O dado de R$ 53 bilhões é apenas o déficit primário do governo central. Considerando o setor público consolidado — estados, municípios e estatais — e o endividamento que o Brasil elevou no último mês para conseguir pagar as contas, agora temos a dívida pública sobre PIB superando 81%. Mas isso, como sempre ressalto, é na contabilidade brasileira.
Pela contabilidade ao critério internacional, que o FMI também divulga, a nossa dívida pública já está em 94,3%. Noventa e quatro! Estamos nos aproximando do patamar da pandemia, sendo que não temos pandemia e o Brasil ainda não entrou em recessão. É um cenário perigoso e mostra como não há nenhuma preocupação fiscal de fato. Por mais que às vezes haja algum discurso, são palavras ao vento de que o governo quer controlar as contas ou de que vai atingir as metas do arcabouço. Na prática, o que vemos é a dívida aumentando. Mesmo que o governo atinja as metas muito lenientes do arcabouço fiscal, ainda assim o endividamento está subindo, e subindo mais rápido do que a economia. Por isso que a dívida/PIB não para de subir. Em termos de déficit total, já estamos com R$ 1,26 trilhões, ou 9,6% do PIB, e sem nenhum sinal de mudança.
O problema não está na arrecadação, já que o governo colocou todos os seus esforços e foco principal em aumentar a receita tributária — e isso até está aumentando. O problema é que as despesas estão subindo mais rapidamente do que a arrecadação. E aí não tem como a conta fechar. Por isso, permanecemos com déficit primário. Deveria ser, no mínimo, um resultado com déficit zerado, pelo menos no resultado primário. E nem isso estamos conseguindo, porque a meta do governo, de fato, é gastar mais.
Claro que isso se reflete nos mercados. Na última semana, as séries B, como Tesouro IPCA+ 2029, 2032 e os mais longos, estiveram todas ainda em nível muito estressado, acima de 7%. Alguns papéis, como 2032, voltaram acima de 8,30%, quase 8,40%. Isso significa retornos de IPCA mais essa taxa fixa, o que mostra que o receio fiscal permanece.
E a coisa para o Brasil piora. O prognóstico para as eleições deste ano estão se deteriorando, com Lula agora à frente pelo Polymarket, subindo mais de 60%, perto da máxima histórica. Ele chegou a 63% no ano passado e agora volta acima de 61% nos mercados preditivos, enquanto estão caindo tanto Flávio Bolsonaro quanto Renan Santos. Nesse momento, parece que Lula de fato está garantindo a sua reeleição. Em paralelo, o principal candidato para enfrentar Lula, Flávio Bolsonaro, continua se enrolando com polêmicas e bate-bocas, especialmente com Michelle Bolsonaro. Enfim, a própria direita tem gerado muito mais ruído e piorado a perspectiva de que Flávio Bolsonaro consiga ganhar de Lula na eleição. A coisa chegou a tal ponto que, na pesquisa que saiu na semana passada, Flávio Bolsonaro registrou uma rejeição até maior que a de Lula, o que não costumava acontecer. O momento atual realmente é muito ruim.
Todo esse cenário acaba sendo precificado nas principais variáveis. O dólar, por exemplo, aumentou e chegou a passar de R$ 5,20 — embora tenha aumentado em todo o mundo. Mas o principal indicador dessa descrença no fiscal brasileiro — e, se Lula for reeleito, essa descrença permanece — é a taxa de juros. As séries B longas seguem estressadas, o Tesouro Prefixado está muito alto, DI futuro também ainda muito alto e a Selic tem perspectiva de acabar o ano em 14%. Além disso, há alguns sinais importantes de que o Tesouro Nacional não está conseguindo colocar no mercado toda a dívida que gostaria. Em alguns leilões desta semana, o governo não conseguiu demanda para todos os seus títulos e, por isso, vemos as taxas ainda muito estressadas.
Portanto, não dá para dourar a pílula para o Brasil. O momento é de fato ruim e isso está sendo precificado nas principais variáveis do mercado financeiro.
Assista ao vídeo completo de Fernando Ulrich no YouTube:
