Nota da Edição:
O artigo a seguir é um resumo do trabalho de conclusão de curso apresentado pelo autor na sua Pós-Graduação em Escola Austríaca. O trabalho foi orientado pelo nosso Senior Fellow Antony Mueller, enquanto a banca de defesa contou com a participação do nosso presidente Sergio Alberich e do nosso editor-chefe Samuel Vaz-Curado.
O Conselho Alemão de Especialistas Econômicos (Sachverständigenrat zur Begutachtung der gesamtwirtschaftlichen Entwicklung – SVR) é um dos órgãos de assessoria econômica mais influentes da Alemanha. Desde sua fundação em 1963, fornece anualmente diagnósticos e recomendações sobre a conjuntura econômica – moldando de forma significativa o discurso de política econômica do país.
A presente análise submete os relatórios anuais da década de 2015 a 2025 a uma avaliação sistemática sob a perspectiva da Escola Austríaca de Economia. Três perguntas centrais orientam a investigação: Qual é a precisão das previsões do SVR? Quais fundamentos teóricos dominam suas recomendações? E em que medida essas recomendações se alinham aos princípios de uma ordem econômica orientada ao mercado, no sentido de Mises, Hayek e Rothbard?
Qualidade das previsões: entre pretensão e realidade
Já no primeiro nível de análise emerge um resultado decepcionante: as previsões econômicas. Nenhum dos cenários de crescimento para os anos de 2015 a 2024 se confirmou com exatidão.
Particularmente expressivos são os desvios nos anos de 2020 e 2022: nem a profundidade da recessão provocada pela pandemia de Covid-19, nem os efeitos imediatos da crise energética decorrente da guerra na Ucrânia foram corretamente antecipados. O mesmo vale para as previsões de inflação: a onda inflacionária de 2022 – com taxa efetiva de 8,7% ante uma previsão do SVR de 2,6% – representa o maior fracasso preditivo de toda a década.
Esses resultados se encaixam perfeitamente nas posições epistemológicas da Escola Austríaca. Ludwig von Mises afirmou em sua obra central Ação Humana (1949) que a ciência econômica pode explicar princípios e leis do mercado, mas não predizer com precisão desenvolvimentos futuros concretos. Friedrich August von Hayek, cuja contribuição sobre o uso do conhecimento na sociedade foi reconhecida com o Prêmio Nobel em 1974, denominou a crença em previsões econômicas exatas de “pretensão do conhecimento“. Os chamados “cisnes negros” – eventos imprevisíveis de grande impacto – confirmam empiricamente essa postura epistemológica.
Composição teórica: uma assimetria estrutural
Quem são os cinco sábios que elaboram essas previsões e formulam as recomendações de política econômica? A análise dos membros do Conselho entre 2015 e 2025 revela um quadro claro. Dos dez membros identificados, quatro podem ser classificados como ordoliberais (Lars P. Feld, Christoph M. Schmidt, Isabel Schnabel, Martin Werding), dois como keynesianos (Peter Bofinger, Achim Truger), dois como situados na interseção entre ordoliberalismo e análise baseada em evidências (Veronika Grimm, Monika Schnitzer), um como neutro-comportamental (Ulrike Malmendier) e um como novo-keynesiano (Volker Wieland).
Nenhum representante da Escola Austríaca integrou o SVR em nenhum momento. Essa ausência não é acidental, mas estruturalmente condicionada: a metodologia praxeológica dos austríacos, seu ceticismo em relação à econometria e à gestão macroeconômica, sua insistência na teoria subjetiva do valor e na estrutura do capital se encaixam mal no aparato institucionalizado de assessoria de um estado regulador.
O SVR sempre teve uma maioria ordoliberal – três membros liberais contra dois antiliberais. A partir de 2022, a composição se deslocou levemente: um antiliberal (Truger), um neutro (Malmendier) e três liberais (Grimm, Schnitzer, Werding). A perspectiva austríaca permaneceu completamente ausente.
Áreas problemáticas de política econômica: cinco pontos críticos
1) Política fiscal e freio do endividamento
A recomendação mais frequente do SVR na década analisada diz respeito à política fiscal – nove dos onze anos dedicam-lhe uma seção central. A defesa básica do freio constitucional ao endividamento é perfeitamente compatível com os princípios austríacos: Murray Rothbard defendeu que os gastos estatais representam a maior ameaça à liberdade econômica. No entanto, as recorrentes recomendações sobre investimentos públicos em infraestrutura e programas de reforma geridos pelo estado merecem avaliação crítica: sob a ótica austríaca, os investimentos mais eficientes surgem do capital privado orientado por sinais de preços de mercado – não do planejamento estatal.
2) Governança do euro e união bancária
Oito relatórios anuais tratam extensamente da arquitetura da união monetária. O SVR recomenda maior coordenação supranacional, aprofundamento da união bancária e mecanismos europeus de estabilização. Da perspectiva austríaca, é necessária cautela: Mises alertou que intervenções estatais nos processos de mercado sempre resultam em sua perturbação. O sistema bancário é um prestador de serviços à economia real – não um objeto de engenharia política. A criação do instrumento “Next Generation EU” durante a pandemia – apoiada pelo SVR em 2020/21 – representa, sob esse ângulo, uma problemática mistura de mutualização de dívidas e redistribuição política.
3) Política climática e precificação do CO₂
O capítulo sobre política climática talvez revele o dissenso mais fundamental em relação à Escola Austríaca. Desde 2018/19, o SVR propugna consistentemente a precificação do CO₂ como instrumento central de controle. Sob a ótica austríaca, trata-se de uma forma de sistema de preços ditado pelo Estadoestado: Hayek argumentou que os preços naturais de mercado constituem o único mecanismo eficiente para a alocação de recursos escassos. Sinais de preço fixados ou politicamente calibrados pelo estado estado distorcem esse mecanismo – mesmo que a intenção seja ecológica. Acrescente-se o componente social da redistribuição das receitas do CO₂: Mises via nesse tipo de medida redistributiva uma erosão sistemática das estruturas de incentivo econômico.
4) Finanças sociais e política demográfica
Na política previdenciária, o SVR adota uma postura ambivalente: por um lado, defende a sustentabilidade do sistema público e a elevação da idade de aposentadoria – posições compatíveis com a visão austríaca. Por outro, deposita confiança na integração via estado, em programas de requalificação fomentados pelo governo e na imigração dirigida como soluções. A Escola Austríaca, em contraste, apostaria na previdência privada, na responsabilidade individual e em incentivos orientados pelo mercado. Hayek enfatizou: a tarefa de adaptação às condições econômicas mutáveis cabe ao indivíduo – não à comunidade política.
5) Produtividade e Inovação
Neste campo, o SVR apresenta a maior interseção com as posições austríacas fundamentais. A ênfase no empreendedorismo, na redução da burocracia e nas startups corresponde ao que Kirzner designou como “descoberta empreendedora“. No entanto, o Conselho permanece vinculado a uma promoção da inovação conduzida pelo estado: subsídios à pesquisa, programas de infraestrutura digital, fomento industrial dirigido. Os austríacos responderiam que a inovação nasce da concorrência livre e não pode ser orquestrada por instâncias de planejamento central.
O SVR como espelho do discurso político
Um problema estrutural torna-se evidente na leitura dos relatórios: o SVR reflete crescentemente o discurso midiático-político em vez de questioná-lo criticamente. Os temas seguem o espírito do tempo – mudança climática, pandemia, crise energética – e as recomendações se movem dentro do politicamente aceitável. Isso resulta em uma espécie de microgestão econômica: anualmente, são formuladas dezenas de recomendações específicas em campos políticos determinados, que em sua soma constroem a imagem de uma economia controlável e moldável.
Do ponto de vista austríaco, esse é precisamente o problema fundamental. A ordem espontânea do mercado defendida por Hayek não emerge de um ajuste fino administrativo, mas da interação descentralizada de milhões de decisões individuais. Um órgão consultivo que formula anualmente recomendações de política econômica em onze áreas temáticas corre o risco de ultrapassar os limites do conhecimento econômico científico e de conferir o verniz de legitimidade científica ao ativismo político.
Conclusão: competência com pontos cegos
O SVR é, sem dúvida, um órgão competente, independente e cientificamente rigoroso. Suas análises são metodologicamente sólidas e seus membros são especialistas reconhecidos. A presente investigação demonstra, contudo, que a monocultura teórica do Conselho – dominada pelo ordoliberalismo, flanqueada pelo keynesianismo, completamente desprovida de perspectiva austríaca – deixa marcas perceptíveis em suas recomendações.
A humildade preditiva diante da complexidade do mercado, o ceticismo consequente em relação à intervenção estatal, a confiança nos processos descentralizados de formação de preços e a ênfase na liberdade empreendedora como motor de prosperidade e inovação – esses conceitos centrais da Escola Austríaca são praticamente inencontráveis em uma década de relatórios do SVR.
Esta não é uma crítica a pessoas ou decisões políticas específicas. É o diagnóstico estrutural de um ponto cego no sistema alemão de assessoria econômica. Se a próxima década trará uma abertura a tradições teóricas mais plurais – e com isso também à Escola Austríaca – permanece em aberto. O balanço empírico dos últimos dez anos oferece, em todo caso, razões suficientes para levantar essa questão com seriedade.
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