Nota do autor:
Israel Kirzner é um dos grandes nomes da Escola Austríaca de Economia. Revolucionário no conceito de empreendedorismo, as obras de Kirzner influenciaram toda uma corrente do pensamento que explica o processo de mercado. Essa corrente, por sua vez, expandiu as influências de Kirzner e colocaram a Escola Austríaca na vanguarda do debate sobre a função empresarial.
O texto a seguir é adaptado de parte de um artigo maior publicado na Revista Acadêmica do Instituto Mises Brasil. Em homenagem aos 96 anos de Israel Kirzner, o texto aborda o papel e as características do empreendedor segundo a obra kirzneriana. Nosso público pode aprofundar a leitura aqui no site do Mises Brasil, baixando gratuitamente os livros “Competição e Atividade Empresarial”, de Kirzner, e “O Empreendedorismo de Israel Kirzner”, de Adriano Gianturco.
O conceito de empreendedor é essencial para os economistas austríacos. A ação empreendedora é responsável por resolver incongruências nos mercados e coordenar as interações econômicas. Apesar de receber críticas dentro da própria perspectiva austríaca, Israel Kirzner exerceu ampla influência sobre a pesquisa em empreendedorismo.
Como ponto de partida, Kirzner reconhece o caráter contínuo do processo de mercado e aponta que ele nunca se encontra em estado de equilíbrio. Existem mudanças endógenas no mercado que representam uma tendência ao equilíbrio, mas essas tendências nunca se concretizem plenamente, pois mudanças exógenas as perturbam. Ainda assim, Kirzner argumenta que as tendências endógenas são responsáveis pela eficiência alocativa e pelo potencial de crescimento dos mercados.
Na perspectiva de Israel Kirzner, o empreendedorismo é concebido como a descoberta de oportunidades para criar e capturar valor econômico. Essa descoberta também pode ser entendida como a identificação ou o reconhecimento de oportunidades. Há ainda interpretações que consideram o empreendedorismo como a avaliação e a exploração de oportunidades. As oportunidades, portanto, são situações nas quais o empreendedor introduz novidades — desde produtos e serviços até métodos de produção — com o objetivo de obter lucro.
O empreendedorismo consiste em encontrar oportunidades e aproveitá-las. A abordagem de Kirzner envolve as fontes das oportunidades, isto é, a forma como elas são descobertas, avaliadas e exploradas. Apesar de Kirzner tratar as oportunidades “puramente empreendedoras” como objetivas, seu foco não está na natureza do sucesso empreendedor, mas nas oportunidades como um mecanismo da tendência dos mercados ao equilíbrio. Ao aproveitar essas oportunidades de arbitragem, o empreendedor atua como um instrumento de compensação do mercado.
O empreendedor é uma figura que se distingue pela capacidade de perceber oportunidades. Há duas formas de descobrir chances de lucro: a primeira está relacionada à descoberta fortuita, enquanto a segunda é resultado de uma busca motivada, na qual a pesquisa empreendedora consiste no reconhecimento de oportunidades. As oportunidades existem sob duas formas: na teoria de Joseph Schumpeter, elas são inovadoras, raras e fora do equilíbrio; no modelo de Kirzner, são menos inovadoras, mais comuns e próximas ao equilíbrio.
As oportunidades schumpeterianas decorrem da introdução de novas informações, que surgem a partir de mudanças de natureza tecnológica, política ou social. As oportunidades kirznerianas, por outro lado, são tratadas como descobertas, nas quais o empreendedor percebe erros ou omissões ocorridos em estágios anteriores do processo de mercado.
A economia austríaca enfatiza que o processo de mercado é inerentemente incerto. Essa incerteza genuína impõe limitações ao sistema de preços e, consequentemente, à alocação eficiente de recursos. A informação fornecida pelo sistema de preços é incompleta e, por isso, os agentes tomam decisões subótimas e, frequentemente, equivocadas. Cabe à função empreendedora reconhecer esses erros e tirar proveito deles, explorando as oportunidades de lucro deixadas por empreendedores anteriores. É nesse sentido que a ação empreendedora implica um processo de arbitragem sistemática.
O “estado de alerta” (alertness) a que Kirzner se refere pode ser descrito, por um lado, como sensibilidade à informação de mercado e, por outro, como a capacidade de utilizá-la criativamente. Assim, o alertness kirzneriano implica uma abertura mental para inconsistências, assimetrias e mudanças que possam gerar oportunidades de lucro. O empreendedor não deve apenas ser sensível na identificação de oportunidades, mas também estar atento para explorá-las.
No modelo de Kirzner, o empreendedor é um agente passivo que, a partir de seu alertness, percebe oportunidades e delas se aproveita. As mudanças nos dados ocorrem de forma independente, e o empreendedor as percebe passivamente, beneficiando-se delas. Para Kirzner, as características de um empreendedor ativo e agressivo pertencem ao modelo schumpeteriano.
No entanto, a concepção de “passividade do empreendedor” no modelo de Kirzner é controversa dentro da Escola Austríaca. Para os críticos austríacos de Kirzner, em geral, o empreendedorismo é um atributo da ação – não há empreendedorismo sem ação. Mas o modelo de alertness inclui a descoberta como um fator meramente aleatório e fortuito. Ele distingue entre “busca” e “descoberta” para concluir que o empreendedor descobre por acaso. Em outras palavras, o alertness kirzneriano é um estado, e não uma ação.
Kirzner argumenta que não há ação anterior ao momento em que a oportunidade surge, no sentido de escolher estar alerta. Não se trata de uma decisão estar atento às oportunidades, pois não é possível não estar alerta. Kirzner desconsidera os demais aspectos do mundo real para concentrar-se exclusivamente na característica essencial do empreendedorismo, no que chamou de “um mundo de um único período, sem produção e sem incerteza”.
Mas esse mundo não existe. Ao introduzir a incerteza em seu modelo, Kirzner busca aproximá-lo do mundo real. O alertness em um mundo essencialmente incerto, indefinido e que considera o fator tempo exige que o empreendedor seja ousado, autoconfiante, criativo e capaz de inovar. Tais características apontam para “o caráter intrinsecamente ativo da ação”. Mais do que simplesmente estar alerta, o empreendedorismo requer especulação e imaginação — ambas implicando atividade.
A obra de Israel Kirzner foi seminal dentro da Escola Austríaca e despertou linhas de pesquisas críticas e conciliadoras. Grandes nomes do austrolibertarianismo moderno avançaram a partir de Kirzner, como Nicolai J. Foss, Peter G. Klein e Per Bylund, para citar apenas três. Reconhecer a importância de Kirzner é fundamental para celebrarmos não apenas a profundidade, mas também o alcance da pesquisa dentro da tradição austríaca – e nada melhor do que fazer isso no aniversário deste que é um dos maiores da Escola Austríaca.