Dentre
as várias notícias oriundas de todas as partes do mundo sobre recessão, novos
bombardeios aéreos, tentativas de secessão e mudanças climáticas, a questão do
comércio internacional — o qual, em 2008, passou pela maior crise da sua
história — tem estado majoritariamente fora do radar.
No
entanto, essa ausência de debate não deve gerar nenhuma preocupação, pois,
segundo nos dizem, a Organização Mundial do Comércio — o mais proeminente órgão
global na promoção do comércio multilateral, dirigida
pelo brasileiro Roberto Azevêdo — permanece atenta e vigilante, e está otimista
de que os esforços para a liberalização do comércio gerarão frutos no futuro
próximo.
Lamentavelmente,
o otimismo da OMC não se justifica: a Rodada de Doha, que começou em 2001 e que
tinha o intuito de discutir a ampliação do livre comércio mundial, não se
concretizou após longos 13 anos, e não há êxito nenhum a ser mostrado.
Procurando
atender às preocupações e exigências dos países menos desenvolvidos em relação
à liberalização do comércio, a Rodada de Doha deveria culminar em 2005 com um
novo acordo comercial. O acordo deveria
envolver uma redução nas tarifas de importação sobre commodities e sobre
serviços, bem como um novo arcabouço internacional para os direitos de
propriedade intelectual.
Porém,
tão logo as negociações começaram, tanto os governos dos principais países em
desenvolvimento — Índia, Brasil, China e África do Sul — quanto organizações
não-governamentais (ONGs) reclamaram que tais acordos internacionais impediriam
que seus respectivos governos adotassem políticas protecionistas para blindar
seus setores e suas indústrias (supostamente ainda em desenvolvimento), bem
como dificultariam a regulação de serviços financeiros.
Após
o fracasso da Conferência Ministerial de Cancun em 2004, os defensores dos
acordos internacionais começaram a se preocupar com a hipótese de que Doha não
fosse completada dentro do seu prazo original.
Ainda assim, mantiveram as esperanças de que as negociações
continuariam. No entanto, as negociações
chegaram a um impasse em 2006, 2009 e 2011, majoritariamente por causa de
discordâncias sobre as políticas agrícolas.
Os EUA e a União Europeia chegaram até mesmo a revogar acordos firmados
anteriormente sobre uma redução aos seus subsídios agrícolas e às suas exportações,
argumentando que não queriam enfraquecer suas posições de barganha na Rodada.
Desde
então, tentativas de reconciliar divergências entre os países foram em
vão.
No
entanto, em dezembro de 2013, novos ventos pareciam empurrar a Rodada de Doha
para direções mais favoráveis. A
Conferência Ministerial de Bali, a qual foi concluída com a assinatura de um
pacote de acordos sobre o recolhimento de tarifas alfandegárias e com a
divulgação de uma agenda de desenvolvimento, foi proclamada como tendo “alcançado aquilo
que muitos acreditavam ser impossível”: fez com que todos os 160 membros da
OMC concordassem pela primeira vez em doze anos.
Porém,
ainda que o pacote de Bali não tivesse muito a ver com livre comércio — o
acordo facilitava o recolhimento, mas não a redução, de tarifas alfandegárias
–, o acordo, até de julho de 2014, ainda não foi assinado por todos os
membros. A Índia vetou a ratificação do
acordo para ganhar mais poder de barganha para seu programa de subsídios aos seus
alimentos domésticos. A Reuters
anunciou que “os diplomatas em Genebra se disseram ‘estupefatos’, ‘atônitos’,
‘decepcionados’, e descreveram a posição da Índia como ‘suicida’ e típica de
quem quer ‘fazer reféns’.”
O
fato é que ninguém, muito menos articulistas econômicos, deveria se surpreender
com esse impasse. Ele é da própria
essência da Organização Mundial do Comércio.
O que é a OMC
Entender
a OMC requer uma percepção um tanto contra-intuitiva: embora a entidade se diga
uma proponente do livre comércio, ela na realidade representa a maior ameaça ao livre comércio.
Como
todas as burocracias, a OMC está majoritariamente preocupada em expandir seus
poderes e sua jurisdição, o que significa que ela não tem nenhuma objeção em
fazer do comércio internacional um veículo para a imposição de “direitos
trabalhistas” universais e de regulamentações ambientalistas paralisantes. A simples ideia do livre comércio clássico, o
qual não requer nenhum controle centralizado, é a verdadeira vítima da OMC.
A
OMC não passa de uma assembléia de governos que, por meio de seus burocratas
representantes, brigam entre si para ver quem irá efetivamente controlar os
formidáveis poderes da entidade e, com isso, intermediar contendas comerciais e
impor sanções. Todos os países membros
— tanto os desenvolvidos quanto os em desenvolvimento — querem o poder de nomear
juízes que irão burlar as regras em benefício de suas próprias indústrias e
contra os concorrentes externos.
Neste
cenário, quaisquer promessas sobre “abrir as fronteiras para o comércio
internacional” são meras palavras ao vento.
Um genuíno livre comércio e uma genuína concorrência externa iriam
solapar o poder dos grandes empresários que fazem lobby para que os burocratas
da OMC defendam seus interesses. Um
genuíno livre comércio e uma genuína concorrência externa iriam driblar e
abolir toda essa estrutura de intervenção governamental.
Um genuíno livre comércio
O
livre comércio não requer tratados. Tudo o que ele necessita é que se removam
(unilateral ou multilateralmente) todas as barreiras artificiais ao comércio: a
Inglaterra fez isso em meados do século XIX, Hong Kong o fez em
meados do século XX. Para se ter uma
ideia, em 1879, a Constituição dos Estados Unidos usou apenas 54
palavras para estabelecer o livre comércio entre os estados. Já o NAFTA, o
acordo de “livre” comércio entre o Canadá, o México e os EUA tem duas
mil páginas, novecentas das quais se referem unicamente a tarifas.
O
tamanho mastodôntico desses acordos de comércio, com suas miríades de
estipulações e controles — tais como regras sobre a origem e a correspondente
inspeção de produtos, exigências de verificação, e a interferência em assuntos
soberanos, como leis trabalhistas — desvirtuam completamente seu nome.
Acordos
de comércio vêm sempre cheios da palavra “exceção”. Aqueles que sabem manusear suas influências
políticas por meio de grupos de interesses sempre recorrem a
“favores” para se protegerem da concorrência externa. Em vez de livre comércio, o que esses acordos
criam é um sistema de comércio dirigido e manipulado, além de — como era de se
esperar — muitos, caros e inúteis empregos para burocratas, empregos estes que
só servem para destruir a riqueza dos países envolvidos.
Supervisionar
e controlar o comércio entre dois países faz tanto sentido econômico quanto
supervisionar e controlar o comércio entre os estados de um mesmo país.
Acordos
comerciais têm também outras implicações prejudiciais. Eles discriminam importações de baixo custo de
países que não fazem parte do tratado. O
comércio com estes países é ignorado em prol de fornecedores que, apesar de
serem mais caros, gozam de isenções fiscais, pois pertencem a países
signatários do acordo. E parte da
receita tributária de que o governo abriu mão por causa do uso de isenções
tarifárias acaba se transformando em renda para o bolso do fornecedor
privilegiado.
Políticos
que falam em livre comércio estão iludindo o eleitorado. Várias indústrias de seus respectivos países
entrariam em colapso caso as importações estrangeiras fossem totalmente
liberadas.
Qualquer
indivíduo que realmente tenha a paciência de ler, na íntegra, os acordos
comerciais atuais não se surpreenderia em descobrir que eles se concentram cada vez menos na redução das tarifas de
importação e cada vez mais no “desenvolvimento da indústria nacional”, na
promoção de exportações, e na afirmação de uma política doméstica. Seu verdadeiro propósito — um protecionismo
discreto — é ocultado por termos vagos como “comércio mais livre e mais
justo”, “liberalização gradual”, “concessões recíprocas” e “pacotes de
desenvolvimento”.
No
entanto, os benefícios do comércio internacional não estão na moderação e no
grau de reciprocidade. Uma genuína
política de livre comércio seria a abolição de toda e qualquer barreira
comercial, e esse deve ser o objetivo unilateral de todo e qualquer país. Se os mercados fossem libertos da mão pesada
dos governos, o livre comércio internacional seria o resultado automático e
inevitável.
Até
o início do século XX, o comércio entre as nações funcionava sem a intervenção
de um organismo legalmente nomeado para ser o arbitrador dos termos do
comércio. É verdade que, em algumas
ocasiões, os governos impunham pesadas restrições às importações e às
exportações, mas as contendas eram majoritariamente solucionadas pelos próprios
agentes envolvidos na transação. A Lex mercatoria regulava os contratos, ao
passo que confiança, reputação e soberania do consumidor eram as forças autônomas
que mantinham todos honestos.
A
grande constatação dos liberais clássicos britânicos foi justamente a de que o
comércio não precisava ser controlado nem domesticamente e nem
internacionalmente. Consumidores e
produtores, independentemente de em que país viviam, eram capazes de negociar
seus próprios acordos, ao passo que tarifas e outras barreiras comerciais não
apenas prejudicavam os produtivos e eficientes, como beneficiavam apenas os
incompetentes. Por isso, os liberais
clássicos defendiam a eliminação de todas as restrições sobre o comércio, e se
opunham a todo e qualquer tipo de gerenciamento governamental do comércio.
Mas
os governos não gostam desse sistema justamente porque ele os deixa de fora do
esquema. É por isso que, desde o início
do século XX, os governos se organizaram para criar uma estrutura internacional
para gerenciar o comércio global.
Conclusão
A
economia mundial está hoje mais integrada do que jamais esteve, e a isso
devemos uma grande parte de nossa atual prosperidade. Ao mesmo tempo, o comércio mundial nunca
esteve tão politizado.
Nunca
antes na história do mundo os sindicatos, os ambientalistas e os reformistas
sociais tiveram o poder que têm hoje para impor sua agenda sobre o comércio
internacional. Nunca antes os governos
protecionistas — e os EUA são um dos principais — tiveram tamanho acesso ao
litígio e à intervenção. Nunca antes uma
economia em desenvolvimento como a China teve de se rastejar perante um cartel
de governos apenas para ser admitida no arranjo do comércio mundial.
A
OMC, assim como qualquer organismo burocrático global, não é nenhuma aliada de
uma ordem econômica internacional genuinamente liberal. Há uma inerente incompatibilidade entre livre
comércio e um crescente controle governamental sobre o comércio. Quanto mais um país se envolve com organismos
internacionais voltados para a “promoção” do livre comércio, mais ele se fecha
ao comércio estrangeiro.
Apenas
duas coisas são necessárias para que haja um genuíno livre comércio: um sistema
monetário sólido e total liberdade de empreendedorismo.
Por
isso, uma genuína política de livre comércio deve começar pela abolição da OMC.
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Leia
também:
A filosofia da miséria e o
novo nacional-desenvolvimentismo do governo brasileiro
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Participaram deste artigo:
Lew Rockwell, chairman e CEO do Ludwig von
Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.
Carmen Dorobat, pós-doutoranda
em economia na Universidade de Angers e professora na Bucharest Academy of
Economic Studies.
Manuel Ayau, (1925 —
2010), foi acadêmico, intelectual e empresário da Guatemala. Era engenheiro mecânico e foi o fundador do Centro de Estudios Económico-Sociales (CEES),
da Universidad Francisco Marroquín e de outras instituições dedicadas à difusão
do liberalismo clássico.
Excelente timing. Há poucas semanas, discutia exatamente sobre a OMC na sessão de comentários.
E se um país simplesmente sai da OMC? O que acontece?
ótimo artigo sobre a OMC. Alguém conhece algum artigo similar e esclarecedor sobre a ONU?
Gostaria que perguntassem a uma mãe que passa fome junto com seus filhos em baixo de uma ponte o que ela acha do capitalismo e do livre mercado…
1) e quanto aos milhões de miseráveis estadunidenses, o que acham de viver no império neoliberal?
2) o governo está lutando para valorizar o real, coisa que o candidato neoliberal tucano quer que flutue
3) se perguntássemos a essa mulher se ela gostaria de viver em um país com impostos baixos como a Bolívia ou o Paraguai, ou em um país como a Noruega, o que acha que ela iria dizer?
Entendo que o livre comércio seja o caminho para o desenvolvimento da humanidade.
Dito isto, penso que embora ideal, não conseguiríamos adotar o livre comércio como estilo de vida do dia para noite.
Primeiramente, precisamos nos livrar do controle pernicioso do estado sobre nossa economia (impostos, taxas, regulamentações), permitindo assim que o empresário brasileiro, seja ele do setor agrícola, industrial ou de serviços, possa recuperar o tempo perdido e se organizar para trabalhar em um ambiente global (lembrando que devido aos subsídios governamentais em alguns setores nos países “desenvolvidos” há injustiça na competição).
Penso não ser viável simplesmente “zerar” impostos de importação, antes de nos livrarmos da raiz de nosso atraso, nossas políticas governamentais e através disto concedermos a oportunidade ao empresariado brasileiro sério (não os amamentados pelo governo) de lutar por seu lugar ao sol.
OFF:
Putz, acabei de ler os comentários na página do Mises Brasil no facebook, é desolador…
A resposta do Silvio pode ser muito boa, mas creio que não seja muito precisa. Na minha humilde opinião, a OMC é só mais um dos diplomáticos e ‘engenhosos’ meios que a natureza politico-burocrática do ser humano criou para resolver os problemas de ordem mundial. E que, se pensarmos bem, gosta mesmo de fazer essas coisas: reunir autoridades e representantes de várias nacionalidades; realizar fóruns, conferências; discursar, discutir e decidir visando garantir (regular) o que é melhor para o futuro da humanidade. Um ofício nobre e muito importante.
O artigo sintetiza quase que primorosamente bem o que representa a OMC. Eu só não iria tão longe ao supor que a organização serviria apenas como mais uma forma de difundir e encobrir um “protecionismo discreto”. Sim, certamente tem dessas coisas também. Mas o que me vem à mente ao pensar na OMC é mais aquela metáfora para criar empregos, que é muito utilizada por aqui: a de se cavar um buraco em um dia para tapá-lo no outro.
Então, por um lado podemos com certeza dizer é que a OMC está anos luz de contribuir em alguma coisa para o livre comércio. Mas por outro lado não podemos dizer que seja ela quem o atrapalha. E se há algum benefício ao país que retirar-se dela, é o de que ele vai acabar com o próprio embuste de que tem alguma intenção em promover o livre comércio. Se assim o querer, ele simplesmente acaba com protecionismo em seu próprio território, reduzindo subsídios a determinados setores e parando de tributar outros, sendo rígido com sindicalistas e ambientalistas, e parando de impor impostos aos importados e tarifas alfandegárias… Daí ele mostrará seu legítimo interesse no livre comércio e isso sim vai fazê-lo se desenvolver. Tomando essas medidas, ele pode até continuar participando e mandando representantes para as reuniões da OMC, da ONU, do comitê da Basileia, da Liga da Justiça, dos Vingadores, etc., que vai ser irrelevante. Não é a OMC que impõe as posturas protecionistas.
Volto a dizer que essa é só uma humilde opinião minha, portanto sintam-se à vontade para mostrar os equívocos em minha objeção.
Grande abraço e até a próxima.
Ah, por favor, perdoem o total deslocamento do meu comentário. Eu quis me referir à resposta dada pelo @ Silvio (08/10/2014 15:49:26) à pergunta “E se um país simplesmente sai da OMC? O que acontece?“, feita pelo @ anonimo (08/10/2014 15:43:54).
Bom artigo.
Há um tempo atrás tivemos uma simulação de debates da OMC na faculdade, se referindo ao caso do embargo russo à carne bovina brasileira.
Pelo que eu pude perceber, o objetivo geral da organização até que é razoável, mas notei que há possibilidade de que por trás dela se escondam grupos poderosos, que irão usar a força centralizadora e monopolista da organização para benefício próprio.
Além disso, a OMC é outra contradição – assim como o Banco Central, cuja 'missão' é manter o poder de compra da moeda, sendo que quem reduz a cada dia o poder da compra da moeda é justamente o Banco Central ao criar dinheiro artificial –, pois quer ampliar o livre comércio mundial, mas se evidencia contra a liberdade econômica (ao defender os direitos de 'propriedade intelectual', por exemplo), sendo um juiz supremo dos governos do que deve ou não deve ser comercializado.
Texto decepcionante. Foi muito raso, mais repetindo chavões do que aprofundando a análise sobre a OMC. Pior, ignora completamente a realidade política atual. Parece até que os autores acham que num passe de mágica todos os países vão virar libertários. Não se pensa um minuto em como melhorar a situação do comércio internacional na perspectiva atual, fazendo o que for possível, ainda que não seja o ideal. Esse julgamento utilitário nunca é feito, enfraquecendo bastante o texto.
A criação da OMC representou sim um aumento quantitativo no comércio mundial, nos anos 90. É só ver os números para perceber isso. O grande problema da organização é a ausência de resultados concretos após o surto inicial de liberalização. Faz mais de uma década que os resultados são pífios. O protecionismo é muito forte no mundo, e há interesses demais a serem conciliados. Daí podemos questionar a relevância da OMC nos dias de hoje, discutindo até mesmo se esse órgão é viável. Pessoalmente, não a vejo com bons olhos, pois tendo a achar que dificilmente continuará a avançar e só servirá para retirar o foco de acordos bilaterais. Serve ainda como um conjunto mínimo de regras, para evitar retrocessos no comércio internacional. Acreditem: se não fosse a OMC, o Brasil seria muito mais protecionista do que é hoje.
No entanto, dizer que a OMC é a maior ameaça ao comércio mundial sem dar nenhum exemplo concreto para embasar essa afirmativa é risível. Não foi apresentado no texto nenhuma medida protecionista que não fosse adotada com ou sem OMC. Não se apresentou nenhuma estatística ou conjunto de dados. A única justificativa é que se trata de uma burocracia, e por isso é ruim.
Na legislação brasileira, por exemplo, vemos vários casos de reformas benéficas ao comércio internacional a partir das regras e princípios da OMC. Nada do que se possa esperar da “maior ameaça ao comércio internacional”.
Enfim, estou longe de ser um defensor ardoroso da OMC, mas acredito que a questão deveria ser tratada de forma mais científica. É perfeitamente possível fazer uma análise da organização embasada nos conhecimentos da Escola Austríaca de forma séria e objetiva. Infelizmente, o texto perdeu uma ótima oportunidade de fazer isso.
Se eles realmente querem livre comércio, então simplesmente parem de obstruí-lo!
* * *
Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica
Ha-Joon Chang
São Paulo: Editora UNESP, 2004.
A versão original desse livro foi publicada em inglês, em 2002, e foi traduzida para uma série de idiomas. Seu autor, Ha-Joon Chang, é um coreano, professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, desde 1990, e diretor-adjunto do Departamento de Estudos sobre Desenvolvimento. Ha-Joon vem sendo considerado um líder da nova geração de economistas heterodoxos que tentam revitalizar os trabalhos e debates na área de desenvolvimento econômico
Em 2003, o livro, cujo título original em inglês é Kicking away the ladder: development strategy in historical perspective, foi o vencedor do Prêmio Gunnar Myrdal, dado pela EAEPE (European Association for Evolutionary Political Economy) para a melhor publicação.
Seu autor, Ha-Joon Chang, dividiu o Prêmio Leontief (Wassily Leontief Prize for Advancing the Frontiers of Economic Thought) de 2005, dado pela Universidade de Tufts, com Richard R. Nelson, professor da Universidade de Columbia. O Prêmio Leontief foi recebido pela sua contribuição para o estudo do desenvolvimento econômico de países pobres e pelos seus trabalhos tentando desvendar a problemática relação existente entre metas de desenvolvimento e uma economia globalizada.
O título do livro, Chutando a escada, faz referência a parte de uma frase de Friedrich List, economista alemão do século XIX (1789-1846), defensor do protecionismo à indústria nascente. Em seu trabalho, Ha-Joon afirma que os países em desenvolvimento estão sendo pressionados pelos países desenvolvidos a adotar o que chamam de “boas políticas e boas instituições”, capazes de promover o desenvolvimento econômico. As “boas políticas” seriam as recomendadas pelo Consenso de Washington, dentre elas podemos citar políticas macroeconômicas restritivas, liberalização comercial e financeira, privatização, e desregulamentação. As “boas instituições” seriam as existentes nos países desenvolvidos, principalmente nos anglo-saxões, por exemplo, a democracia, um poder judiciário e banco central independentes e uma forte proteção aos direitos de propriedade. Os argumentos utilizados são que “políticas e instituições boas” foram adotadas pelos países desenvolvidos quando estavam em processo de desenvolvimento. Chang mostra que não faltam evidências históricas sugerindo o contrário.
O principal questionamento de seu trabalho é: “Como os países ricos enriqueceram de fato?” Esta pergunta é o título do primeiro capítulo do livro.
A obra é dividida em quatro capítulos. O primeiro é introdutório, discutindo o método de análise utilizado e os questionamentos do autor, antecipando também algumas conclusões finais do trabalho. O capítulo 2 aborda as chamadas políticas de ICT (políticas industrial, comercial e tecnológica). Segundo Chang, são as diferenças nestas políticas que, para ele, separam os países bem-sucedidos, em termos de desenvolvimento econômico, dos outros países, deixando claro que não nega a importância de outras políticas. O terceiro capítulo analisa um grande número de instituições. Ha-Joon afirma que (p. 25), “[…]Tanto quanto me é dado saber, este livro é o único que oferece informações em um espectro tão amplo de instituições, passando por um grande número de países”. No último capítulo, intitulado “Lições para o presente”, o autor tenta responder os seus questionamentos iniciais, dando algumas sugestões para os países em desenvolvimento.
Após a análise do desenvolvimento econômico sob um prisma histórico, Ha-Joon conclui que se os países desenvolvidos tivessem mesmo adotado as políticas que recomendam aos países em desenvolvimento, não seriam o que são hoje. Muitos deles, ao longo de sua trajetória de desenvolvimento, recorreram a políticas comerciais e industriais protecionistas, atualmente consideradas políticas “ruins”. Além disso, no século XIX e início do século XX, antes de se tornarem países desenvolvidos, possuíam poucas das instituições que agora recomendam aos países em desenvolvimento. Em outras palavras, os países desenvolvidos, pregando políticas ortodoxas, estariam hoje “chutando a escada” para que os países em desenvolvimento não consigam seguir os mesmos caminhos trilhados por eles para se desenvolver.
O ponto alto do livro são os dados históricos que questionam determinados mitos em relação aos países desenvolvidos. Por exemplo, na tabela 2.1 (pág. 36), fica claro que, de 1820 até 1931, os EUA e alguns outros países hoje desenvolvidos adotaram políticas altamente protecionistas para defender a sua indústria nascente, mas eles alegam que fizeram o contrário: que liberalizaram seus mercados. Em um trecho do livro (pág. 66), que analisa as políticas de ICT adotadas pela Alemanha, menciona-se a utilização de espionagem industrial patrocinada pelo Estado e a cooptação de trabalhadores da Inglaterra, práticas que seriam consideradas “ruins” nos dias de hoje. Em uma outra parte do livro (págs. 127-36), Ha-Joon demonstra que, nos países desenvolvidos, a democracia, durante muito tempo, não foi muito democrática, porque excluía pessoas por renda, sexo, cor… Existia também compra de votos, fraude eleitoral e corrupção. Segundo o autor, os países em desenvolvimento, nas fases iniciais da democracia, não tiveram tantos problemas como os países desenvolvidos.
O livro é de leitura fácil, com abundância de dados históricos não só de países tradicionalmente analisados como EUA, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Japão, mas também de países menores, como a Bélgica, Suíça, Holanda, etc. Apresenta, assim como em outros livros do mesmo autor, uma visão crítica em relação ao papel do Estado no desenvolvimento econômico e em relação às políticas recomendadas aos países em desenvolvimento pelos órgãos de fomento internacional como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
É um trabalho original, recomendado para leitura a economistas e pessoas com diversas áreas de formação, inclusive a formuladores de políticas públicas. Contém inúmeras referências bibliográficas e estimula a repensar as estratégias de desenvolvimento econômico que vêm sendo adotadas pelos países pobres e em desenvolvimento.
Carmen Augusta Varela
Professora da Escola de Administração
de Empresas de São Paulo
da Fundação Getúlio Vargas
minhateca.com.br/rosangela.leite1/HA-JOON+CHANG—CHUTANDO+A+ESCADA,178795938.pdf
É verdade que os EUA detém 90% do setor de cinema num acordo com esse OMC? Ou é puramente economia de mercado?
Na realidade, não pesquisei em fontes. Simplesmente ouvi de uma professora em uma aula sobre cultura. Aí procurei sobre esse OMC e vi que os EUA estavam na lista de países membros. É só porque estranhei mesmo, nunca tinha ouvido falar disso. Se souber me explicar como funciona essa questão da indústria cinematográfica e como estão essas coisas de tarifas, regulamentação ou mesmo como é o processo que determina quais filmes de determinado país passarão aqui. Digo isso por causa da predominância de filmes norte-americanos. Se é um mercado livre lá ou há subsídios do governo envolvidos. Sobre os nacionais não é necessário.
Desde já, obrigada pela resposta.
Ótimo artigo.
Here we go again!