
Mark Twain popularizou a frase: “Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”. Essa frase poderia igualmente ser adaptada para retratar o papel das narrativas socialistas ensinadas como “história” — narrativas que causam ainda mais estragos econômicos do que mentiras escancaradas. As mentiras podem ser desmascaradas com fatos, mas as narrativas socialistas apelam para ideologias políticas e morais que são menos facilmente arrancadas uma vez que criam raízes.
A visão socialista da história econômica ensina que o capitalismo se baseia na exploração dos pobres. Ela alega que as nações ocidentais são ricas por terem colonizado o Terceiro Mundo. Como observou o economista Peter Bauer:
“A principal suposição por trás da ideia da responsabilidade ocidental pela pobreza do Terceiro Mundo é que a prosperidade de indivíduos e sociedades geralmente reflete a exploração de outros”.
Diz-se que a revolução industrial foi impulsionada pelo roubo de países pobres, com as nações brancas adquirindo riqueza ao subjugar outras raças. Bauer detalha os fatos essenciais que provam que essas crenças são falsas. Ele também identifica algumas das razões pelas quais esses tipos de narrativas anticapitalistas são tão influentes, argumentando que “a aceitação das alegações enfáticas e rotineiras de que o Ocidente é responsável pela pobreza do Terceiro Mundo reflete e reforça os sentimentos de culpa do Ocidente”.
Essas narrativas de culpa, que se disfarçam de “fatos históricos”, são mais perniciosas e mais difíceis de derrotar do que mentiras evidentes porque, assim como as estatísticas, presume-se que sejam objetivas e factuais — mesmo quando não têm qualquer relação com a verdade. Bauer as descreve como “não apenas falsas, mas quase o oposto da verdade”.
Esses mitos alimentaram a tendência predominante de ver o “capitalismo” como uma expressão genérica que denota crueldade contra os menos afortunados. Em Capitalism and the Historians [Capitalismo e os Historiadores, em tradução livre], Hayek explica que essa visão hostil do capitalismo se baseia em uma história falsa:
“Quem nunca ouviu falar dos ‘horrores do capitalismo primitivo’ e não ficou com a impressão de que o advento desse sistema trouxe um sofrimento novo e incalculável a grandes classes que antes estavam razoavelmente contentes e confortáveis? Poderíamos justificadamente manter em descrédito um sistema ao qual se atribui a culpa de que, ainda que por um tempo, tenha piorado a posição da classe mais pobre e mais numerosa da população. A generalizada aversão emocional ao ‘capitalismo’ está intimamente conectada a essa crença de que o inegável crescimento da riqueza que a ordem competitiva produziu foi adquirido ao preço de deprimir o padrão de vida dos elementos mais fracos da sociedade”.
Que isso tenha sido o caso foi, em determinado momento, de fato amplamente ensinado por historiadores econômicos.
Hayek argumentou que, apesar da “refutação minuciosa dessa crença”, ela não perdeu sua influência — “No entanto, uma geração depois de a controvérsia ter sido decidida, a opinião popular ainda continua como se a crença mais antiga tivesse sido verdadeira”. Ele advertiu que essa “interpretação socialista da história”, e em particular da história econômica, havia “governado o pensamento político nas últimas duas ou três gerações”. Assim como Bauer, ele enfatizou que ela não tem qualquer fundamento na verdade:
“A maioria das pessoas ficaria muito surpresa ao saber que a maior parte do que acreditam sobre esses assuntos não são fatos estabelecidos de forma sólida, mas mitos, lançados a partir de motivos políticos e depois espalhados por pessoas de boa vontade em cujas crenças gerais eles se encaixavam(…) a maior parte do que se acredita comumente sobre essas questões, não apenas por radicais, mas também por muitos conservadores, não é história, mas lenda política”.
Essas lendas políticas são retratadas como meramente descritivas da realidade histórica. Hayek atribuiu isso em parte à pretensão de alguns historiadores de serem objetivos:
“Uma razão para isso provavelmente é a pretensão de muitos historiadores modernos de serem puramente científicos e completamente livres de todo preconceito político. (…) Não há, de fato, nenhuma razão legítima para que, ao responder a questões sobre fatos históricos, historiadores de diferentes opiniões políticas não sejam capazes de concordar. Mas, logo no início, ao decidir quais questões valem a pena ser feitas, juízos de valor individuais fatalmente entram em cena”.
Sem uma quantidade enorme de tempo para estudo independente, muitas pessoas dependem dos historiadores para a análise factual. Quando historiadores profissionais empurram sua ideologia como “história”, seus leitores muitas vezes não percebem. Hayek via isso como uma das principais razões pelas quais a ideologia socialista havia se entrincheirado na sociedade:
“O notável nessa visão [socialista] é que a maioria das afirmações às quais ela conferiu o status de ‘fatos que todos conhecem’ foi, há muito tempo, provada não ter sido de forma alguma fatos; e, no entanto, elas continuam, fora do círculo dos historiadores econômicos profissionais, a ser quase universalmente aceitas como base para a avaliação da ordem econômica existente”.
Por que alegações falsas que “há muito tempo foram provadas não ter sido de forma alguma fatos” ainda são ensinadas como realidade histórica? Não é necessariamente porque os historiadores socialistas tentam deliberadamente promover sua própria ideologia — embora esse seja às vezes o caso. A questão mais séria é a incapacidade de perceber que a interpretação da história exige seleção e interpretação. Como disse Hayek, os juízos de valor necessariamente influenciam a interpretação histórica:
“E é mais do que duvidoso que uma história conectada de um período ou de um conjunto de eventos pudesse ser escrita sem interpretá-los à luz não apenas de teorias sobre a interconexão dos processos sociais, mas também de valores definidos — ou, pelo menos, é duvidoso que tal história valesse a pena ser lida”.
Além disso, a disseminação de narrativas históricas não se limita ao estudo formal. Quando uma narrativa histórica é dominante, da maneira descrita por Hayek, ela se incrusta como parte da cultura geral e é geralmente aceita como sendo “obviamente verdadeira”.
“(…) é por meio do romance e do jornal, do cinema e dos discursos políticos e, em última instância, da escola e da conversa comum que a pessoa comum adquire suas concepções da história. Mas, no fim, até mesmo aqueles que nunca leram um livro e provavelmente nunca ouviram os nomes dos historiadores cujas visões os influenciaram acabam vendo o passado através das lentes deles”.
Hayek enfatizou a importância de acertar os fatos, pois “dificilmente podemos esperar tirar proveito da experiência passada a menos que os fatos dos quais extraímos nossas conclusões estejam corretos”. E certamente poder-se-ia fornecer aos detratores do capitalismo os fatos sobre produtividade e progresso econômico. O trabalho de Bauer sobre desenvolvimento econômico é um ótimo recurso para esse propósito.
Mas não se trata de uma simples questão de apresentar os fatos. Dada a compreensão prévia das pessoas sobre o que supõem significar “capitalismo”, que reflete as narrativas comumente aceitas, qualquer defesa do capitalismo apenas reforça sua objeção moral e ideológica. Tais defesas parecem estar dizendo: “sim, os ricos exploram brutalmente os pobres, mas vale a pena”.
Para ilustrar esse ponto, tome o exemplo da observação de Bauer de que o colonialismo, de fato, introduziu progresso econômico. Ele explicou:
“No início da década de 1890, não havia na Costa do Ouro ferrovias ou estradas, mas apenas algumas trilhas na selva. O transporte de mercadorias era feito por carregadores humanos ou canoa. Na década de 1930, havia ferrovias e boas estradas; as viagens por estrada exigiam um número menor de horas do que haviam exigido de dias em 1890. Na África Ocidental Britânica, a segurança pública e a saúde melhoraram para além de qualquer reconhecimento ao longo do período. Viagens pacíficas se tornaram possíveis; a escravidão, o tráfico de escravos e a fome foram praticamente eliminados, e a incidência das piores doenças foi grandemente reduzida”.
Você esperaria que isso encerrasse a questão para qualquer um que esteja genuinamente preocupado com os fatos. Mas, pelo contrário, os socialistas respondem com ainda mais escárnio — “só porque você construiu ferrovias não significa que a brutalidade colonial fosse aceitável”. Eles perdem completamente o ponto, porque se agarram à sua visão errônea do que é o capitalismo em primeiro lugar. A propaganda se baseia em ideologia falsa e não pode ser deslocada destacando os fatos. A própria ideologia subjacente precisa ser combatida.
Tampouco basta informar às pessoas a definição correta de capitalismo, porque a ideologia socialista não pode ser deslocada por debates semânticos. Em vez de meramente informar aos socialistas que eles não entendem o que é o capitalismo “de verdade”, é necessário também derrotar a ideologia subjacente, defendendo os princípios fundadores da civilização — propriedade privada, liberdade individual, troca voluntária e governo limitado.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


