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Liberdade e guerra – uma breve história

 

Saul atacando David (1646) – Guercino (1591–1666)

Em seu livro A Anatomia do Estado, Murray Rothbard escreveu:

Assim como as duas interrelações humanas básicas e mutuamente exclusivas são a cooperação pacífica ou a exploração coerciva — produção ou depredação –, a história da humanidade, em particular a sua história econômica, também pode ser considerada uma disputa entre estes dois princípios. 

Essa disputa tem sido unilateral. No mundo antigo, impérios dominavam a vida política. Sistemas impiedosos baseados na escravidão, no roubo e na guerra eram a regra ao redor do mundo. 

Uma exceção, em um território rodeado por impérios desse tipo, eram as tribos de Israel. Mesmo alertados pelo próprio Deus sobre a miséria que enfrentariam caso renunciassem voluntariamente à liberdade que gozavam sob o regime descentralizado dos juízes em favor de um rei terreno que os governasse, eles clamaram pela própria escravização.  

É instrutivo que a recompensa que os israelitas julgavam justa, não obstante seu alto preço, fosse a de ter um rei que os liderasse em batalha. Tendo Saul como rei, Israel não mais desfrutou de períodos de paz como quando sob a liderança dos juízes; esteve constantemente em guerra.  

Como Samuel havia alertado, Saul tomou seus filhos como soldados, suas filhas e seus empregados como escravos, suas melhores terras, suas colheitas e seus rebanhos, assim reduzindo os israelitas à servidão.[1]

Os israelitas não seriam o último povo a sucumbir ao canto de sereia da guerra. A respeito da importância da guerra como um instrumento para o engrandecimento do poder do estado em sua disputa contra a liberdade, Rothbard escreveu:

Em uma guerra, o poder do estado é levado ao extremo, e sob os slogans da “defesa” e da “emergência”, ele pode impor uma tirania ao público que, em tempos de paz, enfrentaria franca e aberta resistência. Desta forma, a guerra provê muitos benefícios a um estado e, de fato, todas as guerras modernas trouxeram aos povos envolvidos um permanente legado de maiores encargos estatais sobre a sociedade. 

A guerra não apenas amplia enormemente as transferências de riqueza da sociedade para o estado para que este fortaleça seu regime, como também promove a ideologia pró-estado.  

Como o estado vive parasiticamente da produção de seus hospedeiros, aqueles que se beneficiam destas transferências de riqueza devem ser sempre uma minoria da população. As vítimas do estado têm de ser a maioria e, portanto, sua aceitação da depredação promovida pelo estado deve ser cuidadosamente engendrada, caso contrário será o fim desse mesmo estado.

A legitimidade do estado deve ser fabricada e mantida por meio da ideologia. Do despotismo oriental à hegemonia americana, o estado nunca falhou em atrair, com seu poder e riqueza, aqueles que se esforçassem para criar sua apologia.  

Mas mesmo toda a litania de alegações — que nossos governantes são sábios e seus governos são beneficentes, que nossos governantes nos protegem de perigos
terríveis, que nossos governantes mantêm a coesão social, que nossos governantes preservam a tradição gloriosa de nossos ancestrais, que nossos governantes incorporam os interesses da sociedade, que nossos governantes são designados por Deus, que nossos governantes trazem ciência e razão à sociedade, que nossos governantes são capazes de controlar a economia e assim por diante — nunca conseguiu explicar como é possível transformar hegemonia em associação voluntária, tributação em oferenda espontânea, coerção em liberdade de escolha, homicídio em massa em defesa, regulação econômica em prosperidade e enriquecimento de todos.  

Se o estado é a fonte de onde jorram todas as benesses sociais, então por que seus apologistas estão sempre tentando fortalecer seu poder instigando um sentimento de culpa nos bem-sucedidos e de inveja nos mal-sucedidos?

Nós libertários conseguimos ver através das mentiras e dos sofismas da ideologia
pró-estado porque soubemos aceitar a verdade promovida por aqueles que sempre defenderam a liberdade. Extrapolando da nossa experiência, podemos ver que a ideologia anti-estado é condição necessária para se estabelecer e manter a liberdade. As vantagens que ela tem sobre a ideologia pró-estado são que, primeiro, ela recorre aos interesses da maioria, e segundo, ela se apoia na verdade a respeito da natureza da ação humana.  

Ao passo que a liberdade é consistente com a ação humana, o estado está fundamentado em uma flagrante contradição, a saber: a ideia de que a única maneira de haver uma instituição que proteja nossos direitos é criando uma instituição que se baseie totalmente na própria violação dos nossos direitos.

Os antigos israelitas seguiam uma ideologia que possuía muitas das qualidades necessárias para manter o poder estatal restringido, como, por exemplo, uma lei superior à qual todo homem estava sujeito, e um sistema de governo descentralizado. Por algumas gerações, os reis de Israel foram um tanto quanto contidos pela lei superior. Mas à medida que a perversidade dos reis posteriores foi aumentando, a lei superior foi sendo finalmente abandonada, até que as liberdades dos israelitas foram extintas.[2]

Levaria muitos séculos para que o mundo testemunhasse outra faísca de liberdade. Ela foi acesa sob Sólon, em Atenas, e sua brasa brilhou mais vivamente durante o reinado de Péricles. Mas a liberdade durou somente enquanto Péricles e sua geração estiveram vivos.  

De acordo com Lord Acton, o sistema ateniense não foi capaz de proteger as minorias e de colocar o estado sob o domínio da lei. A democracia de Atenas, no final, levou ao conflito de classes, o que destruiu o sistema. A Guerra do Peloponeso extinguiu tanto Péricles quanto a chama da liberdade ateniense.[3]

Em Roma, os estoicos redescobriram o conceito de lei superior à qual todos os homens estão sujeitos. Em sua maior formulação, nas mãos de Cícero, Sêneca e Fílon, os estóicos afirmaram que há uma comunidade universal dos filhos de Deus e que Sua voz deveria ser obedecida. A liberdade seria alcançada por meio da obediência das leis naturais de Deus. Com uma ideologia melhor que a dos gregos, a nova batalha pela liberdade durou bem mais em Roma do que em Atenas. Mas ela nunca atingiu na prática as elevadas expressões alcançadas na teoria.[4] 

Como Acton escreveu,

Indivíduos e famílias, associações e dependências eram material mais do que suficiente para o poder soberano consumir para seus próprios objetivos. O que o escravo era nas mãos de seu mestre, o cidadão era nas mãos da comunidade. As mais sagradas obrigações desapareceram ante as vantagens públicas. Os passageiros existiam para sustentar o navio.[5]

No auge de seu poder, antes que as guerras do império abortassem sua liberdade e prosperidade embrionárias, Roma encontrou uma esperança de liberdade nos homens livres das comunidades teutônicas. Quando seus líderes foram convertidos ao cristianismo, eles converteram seu povo. Após a queda de Roma, seus governos descentralizados persistiram uma vez que a Igreja resistia à centralização do poder estatal, permitindo um longo período de incubação para o nascimento da liberdade.[6]

A vez da liberdade chegou durante o século X, quando os escandinavos interromperam suas invasões agressivas à Europa e passaram a praticar o livre comércio de forma pacífica. 

No século seguinte, o Mediterrâneo estava seguro para a navegação europeia. Veneza e as cidades do norte da Itália prosperaram expandindo suas rotas comerciais e levando a divisão do trabalho às cidades do interior. As cidades hanseáticas fizeram o mesmo no norte da Europa. Como escreveu Henri Pirenne, a Europa tornou-se uma região de cidades construídas pelo capital.[7]

O florescimento do comércio na Europa foi fortalecido pelo desenvolvimento de uma ideologia pró-liberdade, elevada a um apogeu inédito pela doutrina cristã do indivíduo. O próprio Deus havia encarnado e vivido como um homem. Jesus Cristo sofreu e morreu para assegurar a salvação de cada indivíduo. No Céu, Deus glorificará cada pessoa com um corpo espiritual para viver em comunhão com Ele e com o próximo. Nações prosperam e entram em decadência, mas o indivíduo viverá pela eternidade.

Como mostrou Harold Berman, no século XI, a Igreja reformulou o direito canônico em linhas mais favoráveis à propriedade privada e ao contrato. A lei canônica funcionou como um fermento para os diferentes sistemas legais, tanto o civil quanto o comercial.[8]  

Berman escreveu:

Talvez a característica mais distintiva da tradição legal ocidental seja a coexistência e a competição dentro da mesma comunidade de jurisdições diferentes e de sistemas legais diferentes. É essa pluralidade de jurisdições e sistemas legais que torna a supremacia da lei necessária e possível.

O pluralismo legal originou-se na diferenciação entre o governo eclesiástico e os governos seculares. A Igreja declarou sua independência do controle secular, sua jurisdição exclusiva em determinados assuntos, e sua jurisdição concorrente em outros assuntos … A lei secular, por sua vez, estava
dividida em vários tipos concorrentes, incluindo a lei real, a lei feudal, a
lei senhorial, a lei urbana, e a lei comercial.[9]

Na medida em que a proteção legal da propriedade privada ia sendo lenta mas decisivamente ampliada da Igreja e dos mercadores para qualquer indivíduo, o progresso econômico foi levado às massas. A pequena revolução industrial, engendrada pela proteção da propriedade privada e dos contratos, atraiu a atenção de estudiosos que queriam explicar o funcionamento da economia florescente.  

Jean Buridan e Nicolas de Oresme escreveram trabalhos no século XIV explicando a atividade econômica tendo como moldura a sociedade como uma ordem natural surgida do funcionamento das leis que Deus imprimiu à natureza das coisas. A lei natural também formou a base para leis feitas pelo homem na alta Idade Média. Como Berman escreveu:

Na era formativa da tradição jurídica ocidental,  a teoria da lei natural predominou. Era consenso geral que o direito humano, em última análise, derivava, e deveria ser aprovado, pela razão e pela consciência. De acordo não  apenas com a filosofia do direito da época, mas também com o próprio direito positivo, qualquer lei positiva, fosse ela editada ou baseada em costumes, deveria estar em conformidade com a lei natural, caso contrário ela careceria de validade como lei e poderia ser ignorada.  

Esta teoria era baseada tanto na teologia cristã quanto na filosofia aristotélica. Mas ela também estava baseada na história da  luta entre autoridades eclesiásticas e seculares, e na política do pluralismo.[10]

Quando irrompiam guerras no contexto desta ideologia cristã pró-liberdade, elas meramente desaceleravam, em vez de interromperem por completo, o ímpeto da liberdade. A Guerra dos Cem Anos veio para consolidar o poder estatal e fomentar a ideologia pró-estado. As forças reacionárias eram fortes o bastante para inaugurar a era do absolutismo monárquico. A ascensão do estado-nação começou a ameaçar a liberdade no Ocidente como até então nada havia ameaçado antes, desde o poder estatal de Roma.  

Assim como autores mercantilistas vocalizavam a ideologia pró-estado nos séculos XVI e XVII, os pós-escolásticos revidavam com suas visões pró-liberdade.

A Escola de Salamanca desenvolveu uma visão sobre política e economia fundada na lei natural. O fundador da escola, Francisco de Vitória, argumentou que todos os indivíduos merecem a mesma proteção legal para suas pessoas e para suas propriedades. Como Tom Woods escreveu:

Vitória afirmou que o homem não podia ser privado da sua capacidade civil por estar em pecado mortal, e que o direito de possuir coisas para uso próprio (isto é, o direito à propriedade privada) pertencia a todos os homens, mesmo que fossem pagãos ou tivessem costumes considerados bárbaros. Os índios do Novo Mundo eram, portanto, iguais aos espanhóis em matéria de direitos naturais. Possuíam as suas terras de acordo com os mesmos princípios pelos quais os espanhóis possuíam as deles.[11]

A visão da lei natural dos escolásticos foi elevada por Hugo Grócio em sua obra sobre o direito internacional no século XVII, e a ideologia pró-liberdade foi posteriormente refinada nas obras sobre direitos naturais de Locke e Jefferson nos séculos XVII e XVIII.

A América provou ser terreno fértil para a ressurreição da liberdade. O poder estatal não foi capaz de reprimir as tendências de pessoas possuidoras de uma ideologia pró-liberdade de viverem respeitando a propriedade privada e os contratos, no território aberto e nos governos descentralizados da América do Norte colonial. Estados-nações tiveram de se contentar com limitações ao seu poder diante das possibilidades que suas vítimas tinham de escapar de suas depredações.  

Durante o seu apogeu no século XIX, o liberalismo clássico espalhou os frutos da liberdade, da paz, da prosperidade e da prosperidade humana. Mas a ideologia pró-liberdade refinada pelos liberais clássicos não estava livre de impurezas.  Seu defeito fatal estava patente na centralização do poder estatal através da constituição americana, que impunha um formato de estado-nação sobre o sistema de governos descentralizados dos 13 estados. Como Hans-Hermann Hoppe escreveu,

A filosofia política liberal clássica — como personificada por Locke e mais proeminentemente demonstrada na Declaração de Independência de Jefferson — era antes e acima de tudo uma doutrina moral.  

Inspirada na filosofia dos estóicos e dos pós-escolásticos, ela estava centrada ao redor das noções de soberania do indivíduo, apropriação original de recursos naturais (sem dono), na propriedade e no contrato como sendo um direito humano universal implícito na natureza do homem enquanto animal racional. No ambiente de governantes monárquicos (reis e príncipes), esta ênfase na universalidade dos direitos humanos colocou a filosofia liberal em radical oposição a todo e qualquer governo estabelecido.  

Para um liberal, todo homem, rei ou aldeão estava sujeito aos mesmos princípios universais e eternos de justiça. E um governo, ou ele conseguia justificar sua existência como sendo um contrato entre proprietários privados, ou ele não poderia ser justificado de forma alguma.[12]

Tragicamente, da genuína proposição de que uma ordem social liberal requer que seus membros utilizem violência defensiva para suprimir a agressão contra a pessoa e a propriedade, liberais clássicos incorretamente concluíram que deveria haver um provedor monopolístico dessa violência defensiva.  

De acordo com a visão de que o estado é essencial para uma ordem social liberal, os liberais clássicos permitiram que o poder estatal mantivesse um ponto de apoio que ele mais uma vez utilizaria para atacar a liberdade.

Esse momento veio em 1914. Como Rothbard escreveu,

Mais do que qualquer outro período, a Primeira Guerra Mundial foi o crítico divisor de águas para o sistema empresarial americano. A economia transformou-se em um “coletivismo de guerra”, uma economia totalmente planejada e conduzida amplamente pelos interesses dos grandes negócios e por meio da intervenção do governo central, o qual serviu como o modelo, o precedente e a inspiração para o capitalismo corporativo de estado pelo restante do século XX.[13]

Como um prelúdio para a sua destruição na Grande Guerra, a ideologia pró-estado havia desferido um ataque frontal à liberdade no século XIX. Hunt Tooley registrou a função das ideologias no ímpeto à guerra em seu livro The Western Front.[14]

Como Ralph Raico observou[15] em sua crítica ao livro de Tooley:

Tooley lida habilmente com as correntes intelectuais e culturais da Europa pré-guerra. Contribuindo para a propensão à violência havia o anarco-sindicalismo de Georges Sorel e uma forma degenerada de nietzscheanismo; porém, acima de tudo, havia o darwinismo social — na realidade, somente Darwinismo –, que ensinava o conflito eterno entre raças e tribos de humanos e de outras espécies.

Mesmo na América, a ideologia pró-estado havia conseguido degenerar o pensamento cristão durante a Era Progressista, despindo-o de sua forma pró-liberdade.  

Richard Gamble documenta esta degeneração em seu livro The War for Righteousness.[16]  Como Raico escreveu em sua crítica ao livro de Gamble,

Ao final do século XIX, protestantes progressistas, frequentemente influenciados pela Teoria da Evolução, estavam pregando pela transformação sucessiva da igreja, depois da sociedade americana, e finalmente do mundo todo. Ao rejeitarem o calvinismo tradicional, eles rejeitaram também a distinção agostiniana entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem.  

A Cidade do Homem deveria ser transformada na Cidade de Deus, aqui na Terra, por meio de uma alteração do cristianismo, o qual deveria ser redefinido como uma doutrina socialmente ativista.[17]

A Grande Guerra liberou as forças coletivistas do socialismo e do fascismo ao longo de todo o mundo ocidental. Como Raico escreveu,

A Primeira Guerra Mundial foi o ponto de inflexão do século XX. Se ela não houvesse ocorrido, os Hohenzollern da Prússia muito provavelmente permaneceriam como chefes da Alemanha, com seu arsenal de reis e nobres subordinados encarregados dos estados germânicos menores.  

Com qualquer vitória que Hitler pudesse ter obtido nas eleições do Reichstag, poderia ele ter erigido sua ditadura totalitária e homicida em meio a esta poderosa superestrutura aristocrática? Altamente improvável.  

Na Rússia, os poucos milhares de comunistas de Lênin confrontaram o imenso exército imperial russo, o maior do mundo. Para que Lênin tivesse qualquer chance de sucesso, aquele exército deveria ser antes pulverizado, que foi exatamente o que os alemães fizeram. Portanto, um século XX sem nazistas ou comunistas. Imagine isso.  

Foi o ponto de inflexão na história da nação americana, que sob a liderança de Woodrow Wilson transformou-se em algo radicalmente diferente do que havia sido antes.[18]

Em nenhum outro lugar a transformação radical foi mais evidente do que no direito. A tapeçaria legal do Ocidente, tecida por mais de um milênio, foi esgarçada e fendida na Primeira Grande Guerra. Harold Berman escreveu,

Quando os diferentes regimes legais de todas essas comunidades — locais, regionais, nacionais, étnicas, profissionais, políticas, intelectuais, espirituais, e outras — são engolidos pela legislação do estado-nação … [isso] é, de fato, o maior perigo representado pelo nacionalismo contemporâneo. 

As nações da Europa, que se originaram de sua interação umas com as outras no contexto da cristandade ocidental, tornaram-se cada vez mais separadas entre si no século XIX. Com a Primeira Guerra Mundial, elas se separaram violentamente e destruíram os laços comuns que as haviam mantido previamente ligadas, ainda que frouxamente.  

E, no final do século XX, ainda sofremos com a historiografia nacionalista originada no século XIX, que apoiou a desintegração do patrimônio legal comum ao Ocidente.[19]

Mesmo na terra onde a liberdade ardia com maior brilho, a guerra provou ser uma força potente para o retrocesso. Como Rothbard escreveu:

Historiadores têm geralmente tratado o planejamento econômico da Primeira Guerra Mundial como um episódio isolado, ditado pelas necessidades da época, e tendo pequena significância posterior. Mas, ao contrário, o coletivismo de guerra serviu como uma inspiração e um modelo para um temível conjunto de forças destinadas a moldar a história da América no século XX.[20]

A Primeira Guerra Mundial destruiu a economia mundial que havia sido construída durante o século XIX sob o liberalismo clássico. Como Maurice Obstfeld e Alan Taylor demonstraram em seu livro Global Capital Markets: Integration, Crisis, and Growth, o nível de integração da economia mundial subiu de moderadamente baixo em 1860 para moderadamente alto em 1914.  

A Grande Guerra desintegrou a economia mundial, retornando-a a um nível substantivamente abaixo daquele vigente em 1860. E, ao final da Segunda Guerra Mundial (que foi uma continuação da Primeira Guerra Mundial), o nível de integração era metade do nível de 1860. O nível de integração da economia mundial só foi superar aquele de 1914 no século XXI.[21]
 

Os governos levaram 70 anos para realizar aquilo que a liberdade fez em questão de dias.

A Grande Guerra destruiu o padrão-ouro clássico e introduziu uma era de moedas fiduciárias de papel. Hiperinflações e depressões foram o resultado. Como Steve Hanke e Nicholas Krus documentaram, dos 56 episódios de hiperinflação da história apenas um ocorreu antes de 1920.[22]
 

E como George Selgin, William Lapstras e Lawrence White demonstraram, os cem anos de política monetária do Federal Reserve resultaram em mais instabilidade econômica e financeira do que o menos insolvente sistema bancário americano existente antes de o Fed ser criado.[23]

A Grande Guerra aniquilou o mundo liberal clássico e iniciou um século de ascensão do estado coletivista. A civilização ocidental, tendo dado à luz a liberdade e a alimentado, sacrificou sua cria antes que ela tivesse tido a oportunidade de atingir a maturidade ao redor do mundo.  

Em vez de liberdade, a hegemonia americana espalhou o corporativismo pelos quatro cantos da Terra.

Como nós, nossos predecessores trabalharam para divulgar a ideologia pró-liberdade durante dias negros, quando a liberdade havia sido eclipsada pelo poder estatal. Sua estratégia envolvia a criação de instituições independentes.  

Christopher Dawson, em seu livro The Crisis of Western Education, demonstrou que os movimentos intelectuais da Renascença e do Iluminismo se desenvolveram ao largo do estado. Dawson escreveu:

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, a tradicional relação entre a igreja, a escola e o sistema medieval de independência corporativa conseguiu sobreviver, não obstante os ataques de reformadores políticos e educacionais.  

Os abusos do antigo sistema e a negligência da educação primária certamente não eram menos flagrantes na Inglaterra do que no continente europeu. 

Mas a força do princípio do livre-arbítrio e a ausência de um estado autoritário fizeram com que o movimento reformista na Inglaterra seguisse um caminho independente e criasse suas próprias organizações e instituições.[24]

Para restaurar a liberdade em nossa era, devemos erigir empreendimentos genuinamente privados e instituições educacionais independentes. Por meio de organizações como o Instituto Mises, podemos fazer a nossa parte no século XXI para reverter essa maré do estatismo coletivista que se ergueu no século XX, exatamente como nossos predecessores fizeram ao reverter o absolutismo no século XVIII. Não devemos repetir seus erros.  

Desta vez, nossa ideologia pró-liberdade deve abraçar suas implicações lógicas e rejeitar completamente a ideia de estado. Somente assim pode todo o potencial da vida, da liberdade e da propriedade ser concretizado na prosperidade de toda a raça humana.

[1]
I Samuel 8.

[2]
I Reis e II Reis.

[3]
Lord Acton, Essays in the History of Liberty, Vol. 1, (Indianapolis: Liberty
Classics, 1985), pp. 12-13.

[4]
Acton, Essays in the History of Liberty,
pp. 24-25.

[5]
Acton, Essays in the History of Liberty,
p. 18.

[6]
Acton, Essays in the History of Liberty,
pp. 30-33.

[7]
Henri Pirenne, Medieval Cities (Princeton, N.J.:
Princeton University Press, 1925); idem, Economic
and Social History of Medieval Europe (London: Routledge, 1936); and Acton,
Essays in the History of Liberty, pp.
35-36.

[8]
Harold Berman, Law and Revolution (Cambridge, Mass.:
Harvard University Press, 1983).

[9]
Berman, Law and Revolution, p. 10.

[10]
Berman, Law and Revolution, p. 12.

[11]
Tom
Woods, Como a Igreja Católica Construiu a
Civilização Ocidental (São Paulo: Quadrante, 2010),

[12]
Hans Hoppe, Democracy, the God that Failed (New Brunswick, N.J.:
Transaction Publishers, 2001), p. 225.

[13]
Murray Rothbar, War Collectivism: Power, Business, and the Intellectual Class in World
War I (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2012), p. 7.

[14]
Hunt Tooley, The Western Front: Battle
Ground and Home Front in the First World War (New York: Palgrave McMillan, 2003).

[15]
Ralph Raico, Great Wars and Great Leaders: A Libertarian
Rebuttal (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2010), p. 230.

[16]
Richard Gamble, The War for Righteousness: Progressive
Christianity, the Great War, and the Rise of the Messianic Nation (Wilmington, Del.:
ISI Press, 2003).

[17]
Raico, Great Wars and Great Leaders, p. 193. Itálicos no original.

[18]
Raico, Great Wars and Great Leaders, pp. 1-2.

[19]
Berman, Law and Revolution, p. 17.

[20]
Rothbard, War Collectivism, pp. 34.

[21]
Maurice Obstfeld and Alan
Taylor, Global Capital Markets:
Integration, Crisis, and Growth (Cambridge: Cambridge University Press, 2004).

[22]
Steve Hanke and Nicholas Krus,
“World Hyperinflations,” Cato Working
Paper (Washington:
Cato Institute, 2012). A exceção foi na França, durante a Revolução, em 1795.

[23]
George Selgin, William
Lastrapes, and Lawrence
White, “Has the Fed Been a Failure?” Cato
Working Papers (Washington:
Cato Institute, 2010).

[24]
Christopher Dawson, The Crisis of Western Education
(Steubenville, Oh.: Franciscan Press, 1989), p. 67.

 

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122 comentários em “Liberdade e guerra – uma breve história”

  1. Este artigo acaba de entrar na minha lista top 10, e está em análise pra ver se entra na lista top 5.

    E essa frase é simplesmente espetacular:

    “Se o estado é a fonte de onde jorram todas as benesses sociais, então por que seus apologistas estão sempre tentando fortalecer seu poder instigando um sentimento de culpa nos bem sucedidos e de inveja nos mal sucedidos?”

  2. Sábio este texto. O autor faz diferença entre os impérios totalitários, e os governos descentralizados, que via de regra permitem muito mais liberdade às pessoas. Interessante a compreensão do autor sobre o momento em que os EUA mudaram o registro, de uma nação onde o normal era a liberdade para uma nação centrada no estado. Eu nunca havia percebido isso, como a Primeira Guerra foi o ponto de inflexão do mundo, de volta aos caminhos do totalitarismo.

    Achei a visão do autor sobre a alta idade média demasiadamente otimista. Até onde me é dado conhecer, foi um período de menos liberdade que o século XIX.

    Quanto ao início da idade moderna, conhecendo agora um pouquinho dos escolásticos tardios, através do IMB, reconheço a imensa liberalidade de suas idéias. Mas é certo que essas idéias foram muito pouco aplicadas na própria nação espanhola, onde viviam muitos desses pensadores. Ao contrário, a Espanha foi a encarnação do mercantilismo no início da idade moderna. E nunca deixou de ser mercantilista. Mas, por algum motivo, tenho esperança de que a Espanha ainda será uma luz de liberdade para o mundo. Eles tem uma tradição que teria evitado muitos dos grandes males da humanidade, se fosse aplicada. Imagino que no futuro, talvez muitos espanhóis se deem conta disso.

  3. “De degrau em degrau, vamos descendo ao grunhido” disse em entrevista o saudoso Saramago referindo se aos 140 caracteres do Twitter e a tendência na internet em tornar-se os diálogos cada vez mais simples.

    Com todo respeito ao escritor, mas os artigos aqui do Mises como este, são exemplos aplaudíveis de como é possível encontrar boa informação no ambiente virtual, e de como alguns minutos de leitura ou releitura possam ser tão construtivos e gratificantes.

    Um segundo aplauso é sobre uma indignação que eu tinha quando pensava – O que ainda faltaria surgir para impactar os ‘mistérios’ da ideologia cristã? Seriam novas descobertas antropológicas? Ossadas disso ou daquilo? – No entanto, nunca pensei (e para uma maravilhosa surpresa) que relatos ou personagens bíblicos pudessem ser analisados sob o olhar da economia, mais especificamente uma Escola de Economia que ousadamente descarta pra lixeira muito do que se escreveu de economia até hoje.
    Isso vale mais do que pesquisadores fazendo análises de Carbono 14 sobre mantos sudários, não desmerecendo o trabalho de qualquer intelectual. Mas este artigo está sim de parabéns pelo seu valor inestimável que acrescenta às análises histórico-sociais.

    Compreensível o desabafo que Saramago tenha feito das tolices das redes sociais. Mas bom saber que aqui neste degrau (o Mises, e inclusive seu espaço de comentários) não estamos fatídicamente nos direcionando para a eclosão da comunicação.

    Parabéns ao autor e a quem nos prestigia com a oportunidade (tradução)do artigo!

  4. Sendo Cristão, gostei de ver o autor citar Samuel 8 para demonstrar alguns princípios de liberdade. Sempre utilizo esse artigo para mostrar às pessoas que o estado não é coisa de Deus, e sim coisa de Homem, portanto falho por natureza.

    No entanto em diversas discussões a respeito as pessoas insistem em citar Romanos 13, focando a argumentação sempre em torno de “Toda autoridade provém de Deus”. Tento contra argumentar que o Estado não é autoridade, uma vez que se baseia em princípios de violência para se auto estabelecer, mas as pessoas em geral não aceitam essa argumentação. Tento também mostrar que a mesma lógica que diz que o estado é autoridade sobre o cidadão permite inferir que um estuprador é autoridade sobre a estuprada, um assassino é autoridade sobre a vítima e assim por diante. Obviamente sou taxado de anarquista louco nessas horas e a discussão produtiva cessa por completo.

    Enfim, alguém por aqui conhece algo mais a respeito do estudo da liberdade segundo a palavra de Deus? Eu me interesso muito sobre o assunto mas vejo poucos autores a comentar, por isso fiquei contente de ver alguma coisa nesse texto.

    Obs: aos que não creem na palavra Deus: favor não se incomodar em responder esse post.

  5. Sou novato nas leituras do instituto Mises. É tudo novo, diferente, muito longe das nossas escolas, e das nossas vidas. Continuem. Parabéns.

  6. Emerson Luis, um Psicologo

    Artigo profundo e surpreendente, mesmo já tendo visto parte dessas informações em outros posts.

    Algumas observações:

    1- O cristianismo começou a se dividir e a se degenerar depois dos apóstolos, mas o que o corrompeu de vez foi ter sido estatizado no século IV.

    2- O catolicismo foi a religião estatal da Europa por séculos;

    3- Por que a religião é tão dinâmica nos EUA e tão morna (para não dizer morta) na Inglaterra e outros países europeus? Porque nos EUA existe separação entre Igreja e Estado: os religiosos influenciam sim a política, mas não existe religião estatal ou “religião oficial”.

    Conclusão: A estatização corrompe a religião.

    * * *

  7. Vale ressalvar a premissa da descentralização do Estado, mas não sua aniquilação.
    Não podemos conviver com um único centro de poder, mas não podemos também conviver sem uma regulamentação básica das relações sociais, já que, os princípios moralidades estão difusos na sociedade atual.

  8. De fato um artigo instigante , sem duvida um dos mais interessantes que já li. Mas eu confesso que é cada vez mais complicado defender uma posição Libertária num País onde as pessoas acham que a salvação virá do Estado e de seus “Burrocratas”.

  9. O Desenvolvimento do Estado

    O ESTADO é uma evolução útil da civilização; ele surgiu para representar o ganho líquido que a sociedade retirava das devastações e dos sofrimentos da guerra. Até mesmo a arte política do estadista, desde a antiguidade, tornou-se meramente uma técnica acumulada para ajustar a disputa competitiva de forças, entre as nações em luta.

    O estado moderno é a instituição que sobreviveu na longa luta pelo poder grupal. O poder maior finalmente prevaleceu, e gerou uma criação de fato — o estado — e, junto, o mito moral da obrigação absoluta de o cidadão viver e morrer pelo estado. Mas o estado não tem uma gênese divina; nem mesmo é um produto da ação humana volitiva intencional; é uma instituição puramente evolucionária e a sua origem foi totalmente automática.

    1. O Estado Embrionário

    O estado é uma organização social territorial reguladora; o estado mais forte, o mais eficiente e duradouro, é composto de uma nação única, cujo povo tem uma língua, costumes e instituições em comum.

    Os primeiros estados eram pequenos, resultantes todos de conquistas. Eles não se originavam de associações voluntárias. Muitos foram fundados por nômades conquistadores, que se arremetiam sobre grupos de pastores pacíficos ou colônias de agricultores, para subjugá-los e escravizá-los. Tais estados, resultantes de conquistas, ficaram forçosamente estratificados; as classes tornaram-se inevitáveis, e as lutas de classes sempre foram seletivas.

    As tribos de homens vermelhos, ao norte da América, nunca chegaram a se organizar de fato em um estado. Nunca progrediram mais adiante do que até uma confederação afrouxada de tribos, uma forma muito primitiva de estado. A que mais se aproximou de um estado foi a federação iroquesa, mas esse grupo de seis nações nunca funcionou de fato como um estado e não conseguiu sobreviver por causa da falta de alguns elementos essenciais à vida moderna nacional, tais como:

    1. A aquisição e a herança da propriedade privada.
    2. Cidades providas de agricultura e de indústrias.
    3. Animais domésticos úteis.
    4. Uma organização prática da família. Esses homens vermelhos ativeram-se à família materna e à herança de tio para sobrinho.
    5. Um território definido.
    6. Um chefe executivo forte.
    7. A escravização dos prisioneiros — ou eles os adotavam ou os massacravam.
    8. Conquistas decisivas.

    Os homens vermelhos eram democráticos demais; eles tinham um bom governo, mas este fracassou. Teriam finalmente evoluído até um estado, caso não tivessem encontrado prematuramente a civilização mais avançada do homem branco, que estava buscando os métodos de governo dos gregos e dos romanos.

    O êxito do estado romano baseou-se:

    1. Na família paterna.
    2. Na agricultura e na domesticação dos animais.
    3. Na concentração da população — as cidades.
    4. Na propriedade e nas terras privadas.
    5. Na escravatura — nas classes de cidadania.
    6. Na conquista e na reorganização dos povos fracos e atrasados.
    7. Num território definido e com estradas.
    8. Em governantes pessoais e fortes.

    A grande fraqueza da civilização romana e um fator do colapso final do império foi a disposição, supostamente liberal e avançada, para a emancipação do jovem, aos vinte e um anos de idade, e a liberação incondicional das moças, de modo que ficassem livres para casar-se com os homens da sua própria escolha, ou para circular pelo país tornando-se dissolutas. O dano à sociedade não consistiu nessas reformas em si mesmas, mas muito mais na maneira súbita e disseminada com que foram adotadas. O colapso de Roma indica o que pode ser esperado, quando um estado é submetido a uma rápida expansão, associada à degeneração interna.

    O estado embrionário tornou-se possível pelo declínio dos laços consanguíneos, em favor da ligação territorial; e essas federações tribais foram, em geral, firmemente cimentadas pelas conquistas. Ainda que uma soberania que transcende a todas as lutas menores e a todas as diferenças grupais seja característica do verdadeiro estado, muitas classes e castas ainda persistem nas organizações estatais posteriores, como remanescentes dos clãs e das tribos de dias passados. Os estados territoriais mais recentes e maiores tiveram uma longa e amarga luta com esses grupos de clãs consanguíneos menores, o governo tribal passando pela provação de uma transição valiosa, da autoridade da família, para a do estado. Durante tempos mais recentes, muitos clãs surgiram do comércio e de outras associações econômicas.

    O fracasso na integração do estado resulta no retrocesso às condições técnicas governamentais do pré-estado, tais como o feudalismo da Idade Média europeia. Durante essas idades das trevas, o estado territorial entrou em colapso; e houve um retrocesso até surgirem os pequenos grupos encastelados, com o reaparecimento do clã e dos estágios tribais de desenvolvimento. Semi-estados semelhantes existem, até mesmo atualmente, na Ásia e na África, mas nem todos representam retrocessos evolucionários; muitos formam núcleos embrionários de estados do futuro.

    2. A Evolução do Governo Representativo

    A democracia, como um ideal, é um produto da civilização, não da evolução. Ide devagar! Escolhei com cuidado! Pois os perigos da democracia são:

    1. A glorificação da mediocridade.
    2. A escolha de governantes vis e ignorantes.
    3. O fracasso em reconhecer os fatos fundamentais da evolução social.
    4. O perigo do sufrágio universal nas mãos de maiorias pouco instruídas e indolentes.
    5. A escravidão à opinião pública; a maioria nem sempre está certa.

    A opinião pública, a opinião comum, sempre atrasou a sociedade; contudo, ela é valiosa, pois, conquanto retarde a evolução social, ela preserva a civilização. A educação da opinião pública é o único método seguro e verdadeiro de acelerar a civilização; a força é um expediente apenas temporário, e o crescimento cultural irá acelerar cada vez mais, se a arma que desfere projéteis der lugar à arma do voto. A opinião pública e os costumes são a energia básica e elementar da evolução social e do desenvolvimento do estado, mas para que tenha valor, para o estado, deve ser não violenta na sua expressão.

    A medida do avanço da sociedade é diretamente determinada pelo grau com que a opinião pública pode controlar o comportamento pessoal e pelas regulamentações do estado, por meio de expressões não violentas. Um governo realmente civilizado terá chegado quando a opinião pública estiver investida dos poderes do voto pessoal. As eleições populares nem sempre podem decidir corretamente as coisas, mas elas representam o modo certo, até mesmo de fazer uma coisa errada. A evolução não produz, de imediato, a perfeição superlativa, ela faz um ajustamento antes comparativo e de avanço prático.

    Há dez passos, ou estágios, na evolução de uma forma de governo representativo que seja prática e eficiente, e esses passos são:

    1. A liberdade da pessoa. A escravidão, a servidão e todas as formas de sujeição humana devem desaparecer.
    2. A liberdade da mente. A menos que um povo livre esteja bem instruído — preparado para pensar inteligentemente e para planejar com sabedoria —, a liberdade, em geral, causa mais mal do que bem.
    3. O âmbito da lei. A liberdade pode ser desfrutada apenas quando as vontades e os caprichos dos governantes humanos são substituídos pelos atos do legislativo, de acordo com a lei fundamental aceita.
    4. A liberdade de discurso. Um governo representativo é inconcebível sem liberdade para todas as formas de expressão, para as aspirações e as opiniões humanas.
    5. A segurança da propriedade. Nenhum governo pode resistir muito, se deixar de proporcionar o direito ao desfrute da propriedade privada de alguma forma. O homem anseia pelo direito de usar, controlar, dar, vender, alugar e legar a sua propriedade pessoal.
    6. O direito de petição. O governo representativo assume o direito, que os cidadãos têm, de serem ouvidos. O privilégio de petição é inerente à cidadania livre.
    7. O direito de governar. Não é suficiente ser ouvido; o poder de reivindicar deve progredir até à administração factual do governo.
    8. O sufrágio universal. O governo representativo pressupõe um eleitorado inteligente, eficiente e universal. O caráter desse governo será determinado sempre pelo caráter e pelo calibre daqueles que o compõem. À medida que a civilização progride, o sufrágio, ainda que permanecendo universal, para ambos os sexos, deverá ser efetivamente modificado, reagrupado e diferenciado de outros modos.
    9. O controle dos servidores públicos. Nenhum governo civil será útil e eficiente, a menos que os cidadãos possuam e façam uso de técnicas sábias para conduzir e controlar os cargos e os funcionários.
    10. Uma representação inteligente e treinada. A sobrevivência da democracia depende de um governo representativo que tenha êxito; e isso é condicionado à prática de eleger aos postos públicos apenas os indivíduos tecnicamente treinados, que sejam intelectualmente competentes, socialmente leais e moralmente adequados. Apenas com essas precauções pode o governo do povo, pelo povo e para o povo ser preservado.

    3. Os Ideais do Estado

    A forma política ou administrativa de um governo tem pouca importância, desde que forneça os elementos essenciais ao progresso civil — liberdade, segurança, educação e ordem social. Não é o que um estado é, mas o que ele faz, que determina o curso da evolução social. E, afinal, nenhum estado pode transcender aos valores morais dos seus cidadãos, tais como exemplificados pelos seus líderes eleitos. A ignorância e o egoísmo assegurarão a queda, mesmo do mais elevado tipo de governo.

    Por mais que seja de se lamentar, o egoísmo nacional tem sido essencial à sobrevivência social. A doutrina do povo eleito tem sido um fator primordial na fusão das tribos e na edificação da nação, até os tempos modernos. Mas um estado só pode atingir os níveis ideais de funcionamento quando todas as formas de intolerância sejam controladas; elas são, para sempre, inimigas do progresso humano. E a intolerância é mais bem combatida sob a coordenação da ciência, do livre comércio, das diversões e da religião.

    As leis do estado ideal são poucas em número e passaram da idade do tabu negativo para a era do progresso positivo, da liberdade pessoal, consequência de um autocontrole individual mais acentuado. O estado superior não apenas compele os seus cidadãos ao trabalho, mas também os incita a uma utilização proveitosa e enaltecedora do tempo crescente de lazer, resultante da liberação do trabalho pesado, advindo com a idade da máquina. O lazer deve produzir, tanto quanto consumir.
    Nenhuma sociedade tem avançado o suficiente quando permite a ociosidade ou tolera a pobreza. Mas a pobreza e a dependência nunca poderão ser eliminadas se tais famílias infortunadas forem sustentadas livremente, sem uma contrapartida em resultados práticos de autossuficiência futura, e também se lhes for permitido reproduzir-se sem restrição nem planejamento.

    Uma sociedade moral deveria almejar preservar o autorrespeito dos seus cidadãos e proporcionar a cada indivíduo normal uma oportunidade adequada de autorrealização. Esse plano de realização social produziria uma sociedade cultural da mais elevada ordem. A evolução social deveria ser encorajada pela supervisão governamental exercendo um mínimo de controle regulador. O melhor estado é aquele que coordena o máximo, enquanto governa o mínimo.

    Os ideais do estado devem ser alcançados pela evolução, pelo crescimento lento da consciência cívica: o reconhecimento da obrigação e do privilégio do serviço social. Depois do fim da administração por empreguismo e oportunismo político, a princípio, os homens assumem as responsabilidades do governo, como um dever, porém, mais tarde, eles buscam essa ministração como um privilégio, como a maior honra. O status da civilização, em qualquer nível, é fielmente retratado pelo calibre dos cidadãos que se apresentam voluntariamente para aceitar as responsabilidades do estado.

    Numa comunidade real, a questão de governar cidades e províncias é conduzida por especialistas e é administrada exatamente como quaisquer outras formas de associações econômicas e comerciais de pessoas.

    O estado que almeje tornar-se avançado, o serviço político deve ser considerado como sendo digno da mais elevada devoção dos cidadãos. A maior ambição dos cidadãos mais sábios e mais nobres seria ganhar o reconhecimento civil, seria ser eleito ou apontado para alguma posição de confiança no governo, e esses governos confeririam as suas mais elevadas honras de reconhecimento por serviços aos seus servidores civis e sociais. Na sequência da ordem, as honras seriam concedidas em seguida aos filósofos, aos educadores, aos cientistas, aos industriais e aos militares. Os pais seriam devidamente recompensados pela excelência dos seus filhos.

    4. A Civilização Progressista

    A economia, a sociedade e o governo devem evoluir, se querem permanecer. As condições estáticas, em um mundo evolucionário, indicam decadência; apenas perduram aquelas instituições que se movem para a frente, junto com a corrente evolucionária.
    O programa progressivo de uma civilização em expansão abrange:

    1. A preservação das liberdades individuais.
    2. A proteção do lar.
    3. A promoção da segurança econômica.
    4. A prevenção das doenças.
    5. A educação compulsória.
    6. O emprego compulsório.
    7. Uma utilização proveitosa do lazer.
    8. Os cuidados pelos desventurados.
    9. O aperfeiçoamento, por parte da medicina, da imunidade e sanidade humana.
    10. A promoção da ciência e da arte.
    11. A promoção da filosofia — da sabedoria.
    12. A ampliação do discernimento cósmico — da espiritualidade.

    E esse progresso nas artes da civilização conduz diretamente à realização das metas humanas mais elevadas — a realização social da fraternidade dos homens que se torna revelado dentro de cada indivíduo.

    O surgimento da fraternidade genuína significa que foi alcançada uma ordem social na qual todos os homens rejubilam-se de carregar o fardo uns dos outros; de fato, eles desejam praticar a regra dourada. Mas essa sociedade ideal não pode ser realizada, se os fracos ou os perversos ficam à espera para tirar vantagens injustas e ímpias daqueles que estão principalmente possuídos pela devoção ao serviço da verdade, da beleza e da bondade. Nessa situação, apenas uma linha de conduta torna-se prática: os "adeptos da regra de ouro" podendo estabelecer uma sociedade progressista, na qual eles vivem de acordo com os seus ideais, enquanto mantêm uma defesa adequada contra os companheiros ignorantes que poderiam procurar explorar as suas predileções pacíficas ou destruir a sua civilização em avanço.

    O idealismo não poderá sobreviver nunca, em um planeta em evolução, se os idealistas de cada geração permitirem a si próprios ser exterminados pelos níveis mais vis da humanidade. E aqui está o grande teste do idealismo: pode uma sociedade avançada manter aquela prontidão militar que a torna protegida contra todos os ataques dos seus vizinhos, amantes da guerra, sem cair na tentação de empregar essa força militar em operações ofensivas contra outros povos, com propósitos de ganho egoísta ou de engrandecimento nacional? A sobrevivência nacional demanda a prontidão, e só o idealismo da liberdade, em união à capacidade intelectual avançada de um povo, pode impedir que a prontidão seja prostituída pela sua transformação, em agressão.

    5. A Evolução da Competição

    A competição é essencial ao progresso social, mas a competição desordenada gera a violência. Na sociedade atual, a competição está, aos poucos, substituindo a guerra, ao determinar o lugar do indivíduo na atividade produtiva, bem como ao decretar a sobrevivência das próprias indústrias. (O assassinato e a guerra diferem entre si pelo status perante os costumes; o assassinato tendo estado fora da lei desde os primeiros tempos da sociedade, ao passo que a guerra nunca foi totalmente proscrita pelas leis da humanidade).

    O estado ideal assume regulamentar a conduta social apenas o suficiente para afastar a violência da competição individual e para impedir a injustiça na iniciativa pessoal. E aqui está um grande problema de ordem estatal: como garantir a paz e a tranquilidade na atividade produtiva, como pagar os impostos para sustentar o poder do estado e, ao mesmo tempo, impedir que os impostos prejudiquem essas atividades e que o estado se torne um parasita ou um tirano?

    Durante as idades iniciais de qualquer mundo, a competição é essencial à civilização progressiva. À medida que a evolução do homem progride, a cooperação torna-se cada vez mais eficaz. Nas civilizações avançadas, a cooperação é mais eficiente do que a competição. O homem primitivo é estimulado pela competição. A evolução primitiva é caracterizada pela sobrevivência do mais apto biologicamente; mas as civilizações posteriores são mais bem promovidas pela cooperação inteligente, por um espírito de fraternidade compreensiva e pela irmandade espiritual.

    Bem verdade é que a competição, na indústria, leva a desperdícios excessivos tornando-se altamente ineficaz; mas nenhuma tentativa de eliminar essa perda na atividade econômica deveria ser encorajada, se os ajustamentos acarretarem, até mesmo, a mais leve anulação de qualquer das liberdades fundamentais do indivíduo.

    6. A Motivação do Lucro

    A economia atual, motivada pelos lucros, está condenada, a menos que a motivação do lucro possa ser acrescida da motivação de servir. A competição impiedosa, baseada somente em interesses egoístas e de horizontes estreitos, é terminantemente destrutiva, até mesmo daquelas coisas que busca manter. A motivação exclusiva do lucro individualista é incompatível com os ideais humanos.

    Na economia, a motivação do lucro está para a motivação do serviço, como o medo está para o amor, na religião. Mas a motivação do lucro não deve ser destruída, nem removida, subitamente; ela mantém muitos mortais no trabalho duro, os quais, de outro modo, ficariam indolentes. Não é necessário, contudo, que esse estimulador das energias sociais, para sempre, tenha objetivos puramente egoístas.

    O motivo do lucro nas atividades econômicas é de todo vil e totalmente indigno de uma ordem avançada de sociedade; contudo, é um fator indispensável no decorrer das primeiras fases da civilização. A motivação do lucro não deve ser afastada dos homens, até que eles estejam imbuídos de tipos superiores de motivações não lucrativas, para os seus esforços econômicos e para os seus serviços.

    7. A Educação

    O estado duradouro é fundamentado na cultura, dominado pelos ideais e motivado pelo serviço. O propósito da educação deve ser adquirir habilidade, buscar a sabedoria, realizar a individualidade e alcançar os valores espirituais.

    No estado ideal, a educação continua durante a vida e, algumas vezes, a filosofia torna-se a principal busca dos seus cidadãos. Os cidadãos dessa comunidade buscam a sabedoria como uma ampliação do seu discernimento dos significados nas relações humanas, das significações da realidade, da nobreza dos valores, das metas da vida e das glórias do destino cósmico.

    Nós podemos e devemos ter a visão de uma nova sociedade cultural bem mais elevada. A educação saltará para novos níveis de valor, quando ultrapassar o sistema da economia, baseado puramente na motivação do lucro. A educação tem sido, por muito tempo, regionalista, militarista, exaltadora do ego e buscadora do sucesso; ela deve finalmente ser aberta para o mundo, tornar-se idealista, auto realizadora e abrangente do ponto de vista holístico.

    A educação passou, recentemente, do controle do clero para o dos advogados e homens de negócios. E finalmente deve ser entregue aos filósofos e cientistas. Os educadores devem ser seres livres, líderes de fato, com o fito de que a filosofia, a busca da sabedoria, possa tornar-se a busca principal na educação.

    A educação é a ocupação maior da vida; deve continuar durante toda a vida e de um modo tal que a humanidade possa gradualmente experimentar os níveis ascendentes da sabedoria mortal, que são:

    1. O conhecimento das coisas.
    2. A compreensão dos significados.
    3. A apreciação dos valores.
    4. A nobreza do trabalho — o dever.
    5. A motivação das metas — a moralidade.
    6. O amor pelo serviço — o caráter.
    7. A clarividência cósmica — o discernimento espiritual.
    8. O Carácter Estatal

    O único aspecto sagrado de qualquer governo humano é a divisão do estado nos três domínios de funções, o executivo, o legislativo e o judiciário. Pouco importa a forma de estado que um povo possa escolher, desde que os cidadãos estejam sempre progredindo no sentido da meta de um autocontrole maior e de um serviço social ampliado. A depuração intelectual, a sabedoria econômica, a habilidade social e a força moral de um povo são, todas, fielmente refletidas no estado.

    A evolução do estado requer progresso, de nível para nível, do seguinte modo:

    1.A criação de um governo tríplice, com as ramificações de um poder executivo, um legislativo e um judiciário.
    2.A liberdade para as atividades sociais, políticas e religiosas.
    3.A abolição de todas as formas de escravidão e de servidão humana.
    4.A capacidade dos cidadãos de controlar a arrecadação de impostos.
    5.O estabelecimento da educação universal — o aprendizado, abrangendo do berço ao túmulo.
    6.O ajustamento próprio, entre o governo local e o governo nacional.
    7.O estímulo à ciência e ao controle das doenças.
    8.O devido reconhecimento da igualdade dos sexos e do funcionamento coordenado de homens e mulheres no lar, na escola e na igreja; e com o serviço especializado das mulheres, na indústria e no governo.
    9.A eliminação da escravidão do trabalho, substituída pelo aprimorado uso de tecnologias (máquinas).
    10.A conquista dos dialetos — o triunfo de uma língua universal.
    11.O fim da guerra — o julgamento internacional das diferenças nacionais e raciais, por intermédio das cortes continentais das nações, a que presidirá um supremo tribunal planetário, automaticamente recrutado, dos chefes que, periodicamente, se aposentam nas cortes continentais. As cortes continentais têm autoridade executiva; a corte mundial é consultivo-moral. A tendência mundial da busca da sabedoria — a exaltação da filosofia.

    Esses são os pré-requisitos do governo progressivo e os sinais de identificação do estado ideal.

    Ainda estamos longe da realização desses ideais elevados, mas já tivemos um começo — a humanidade está na marcha em direção a destinos evolucionários mais elevados.

    ——————————————
    Texto contido em: O Livro de Urântia (Doc. 71). -Há uma ou outra modificação/troca/retirada de palavras/frases neste texto, em relação ao original.

  10. Ao ler todo o conteúdo anterior ao tópico 6, você verá que o que se prega, no trecho refutado por você, é uma análise passado/presente/futuro do estado, visando uma análise mais aprofundada sobre o estado.

    Repare na frase: “Mas a motivação do lucro não deve ser destruída, nem removida, subitamente”

    Ou seja, faz-se necessário, no futuro e não agora, que repensemos filosoficamente os reais objetivos da busca pelo lucro. Tal questão (LUCRO) provavelmente terá profundas mudanças ideológicas, no futuro [reitero], por meio da evolução cultural e dos conceitos da humanidade.

    Vamos em frente, aguardo suas refutações para debatermos.

    .

  11. O direito ao trabalho é um direito natural, como o direito que eu tenho à vida? Precisamos, exceto os dependentes, de trabalhar para sobreviver…qual é a relação, que se propõe aqui, entre o trabalho e os outros direitos naturais?

  12. Jairdeladomelhorqptras

    Voltando ao artigo do Mises. Creio que os comentários desviaram-se um pouco.

    A importância da Primeira Guerra, creio, sempre foi subestimada. Ela quebrou as pernas de um mundo livre. Pela primeira vez as “Razões de Estado” obliteraram qualquer liberdade indivídual.

    O genenral Ludendorf, por exemplo, tornou-se, praticamente, um ditador na Alemanha. Sempre alegando “Razões de Estado”.

    O texto é corretissimo quando alega que sem a “Grande Guerra”, (como era chamada antes da Segunda Guerra) não existiria nazismo, nem comunismo. E nem o fascismo do Mussolini.

    Antes desta Guerra a intervenção dos governos na economia era quase nula, ou nula. Durante e após, sempre alegando “Razões de Estado”, tornou-se rotina.

    E o pior é que todas as “causas da Primeira Guerra” são questionáveis. O escritor Stephan Zweig, que a vivenciou, afirmou que não existia razão alguma para a eclosão desta Guerra. Todos os paises europeus estavam prosperando. O assassinato de um herdeiro de um império decadente não seria motivo para o extermínio de milhões de pessoas. Alás, os assassinatos políticos, na época, eram comuns.

    O gigantesco poder dos Estados de hoje foi parido e nutrido na Primeira Guerra.

    Abraços

  13. Seculo XIX apogeu da liberdade?

    Crianças trabalhando 14 horas por dia em fábricas, minas de carvão etc.

    O mundo inteiro virou colônia das potências europeias.

    China viciada em ópio em favor de uma única empresa.

    Guerras movidas não pelos estados mas pelas grandes corporações.

  14. A expressão “Estamos em Guerra” sempre é usada como desculpa para atacar a liberdade da população civil. Pode-se citar aí impostos emergenciais, regulamentações pesadas, restrição de liberdades individuais. E frequentemente os governos “esquecem” de fazer as coisas voltarem ao normal quando a guerra acaba.

  15. gean vugo :::::::::> BAD MALUCO

    A melhor forma de matar um hospedeiro é retirando seu alimento.

    estado = ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA = PARASITA

    Para matar o hospedeiro :

    1- SONEGAÇÃO

    2- DESOBEDIÊNCIA CIVIL

    3- MOEDAS DIGITAIS

    4- NÃO DAR QUALQUER TIPO DE SUPORTE. ( não cometer os erros dos liberais clássicos )

    Obs : a lista vai longe , mas para começar já esta bom.

  16. Cada povo tem o rei que merece

    Interessante o autor usar a religião e suas crenças como embasamento do seu argumento. Tem todo o direito, óbvio, mas é só mais um lembrete de como somos suscetíveis a sucumbir ao auto engano (e como nossas crenças mais arraigadas determinam nosso modo de pensar e limitam nossa capacidade crítica).

    Questiona (corretamente) a existência do estado e toda deturpação causada por ele na sociedade, mas parece não ser capaz de questionar porque seu deus (o qual nunca deu nenhuma prova de existência) era tão irascível e vingativo no passado – alguém se lembra do dilúvio? – e é tão impotente hoje diante de toda maldade existente no mundo.

    Se esse deus existe e ficou assistindo de camarote ao holocausto, às guerras, ao comunismo, ao estado islâmico, etc, etc, e toda maldade perversa e doentia que o ser humano é capaz de fazer com seus pares, então esse deus ou é impotente e incapaz de fazer qualquer coisa pra evitar tudo isso; ou tem o poder de evitar, mas é indiferente a tudo isso; ou então ele é um sádico que quer ver o circo pegar fogo. De toda forma, se existe, esse deus é indigno de respeito e atenção. Eu rejeito esse deus e qualquer alegação de moralidade advinda dele.

    Pautar sua vida e todas suas análises em última instância pela crença numa religião sempre te impedirá de pensar de maneira realmente livre.

  17. Muito bom o artigo. Devemos lembrar que Deus não é gênio da lâmpada, não está aí pra servir os homens e realizar todos os seus desejos. O mundo é uma construção para o homem cuidar. Evoluir. As guerras ainda existem porque existem as pessoas que invejam (cometem o pecado contra Deus) e por isso roubam e matam pra tomar o que é do outro como meio de vida. E quando a pessoa se defende, eles o culpam.

    Deus disse para não matar, mas não no sentido de você tomar iniciativa de ir e atacar o outro para lhe roubar os bens. Nunca proibiu a legítima defesa. Esse mundo não é perfeito. Se você tem como desarmar o assassino, faça. Mas se vc não tem os recursos, ser manso também é um desrespeito a própria vida.

  18. “De onde vc. tirou esses dados tão precisos? 99% dos religiosos, segundo vc., são hipócritas.

    Pergunta: vc. conhece/conheceu 99% dos religiosos do mundo?” – Liberdade Econômica.

    “Oras, de onde vc. tirou esse número tão exato? Quem expertise a sua, hein? Vc. tem a fonte desses dados tão precisos, de 99%???” – Anônimo.

    Gozado, sério que à única coisa que esses caras conseguiram criticar foi minha hipérbole utilizada para manifestar meu ponto de vista? Não conseguem criticar nada além do mais óbvio?

    Até que eu não sou alguém muito literário sei discenir frases e palavras puramente retóricas dás afirmações sérias.

  19. Falando em liberdade, hoje eu li esse artigo falando de como o Bolsonaro ameaça a liberdade de imprensa. Eu tenho minhas dúvidas se deixar de destinar uma verba para uma emissora e destinar mais para outras seria uma ameaça à liberdade de imprensa. O Bolsonaro, se for analisar, defende mais a liberdade de expressão do que muita gente que se diz direitista (ainda que ele tenha contradições nisso). Ele chegou a vetar sobre o trecho daquele “pacote anticrime” que triplicaria a pena para “crimes contra a honra” (mas o Congresso derrubou o veto).

    Com o tanto de difamação, injúria e calúnia que ele sofreu da imprensa, ele poderia simplesmente, se quisesse, sair processando vários meios de imprensa (coisa que muitos políticos fazem). Aquele trecho que ele falou sobre a MP dos balanços de jornais eu acho que foi uma piada, uma brincadeira, porque realmente essa obrigação de publicar balanço em jornal beneficiava certos jornais, afinal tinha uma demanda artificial e compulsória (felizmente essa obrigação acabou nesse ano).

    Se realmente a maioria acreditasse na imprensa como o artigo diz, o Bolsonaro já teria caído há muito tempo, e os protestos do dia 12 do MBL estariam infestados de gente, infestados mesmo.

    O que pensam sobre o texto?

  20. Marionete do Nego Ney

    “A Rússia está com sérios problemas de logística de guerra, tanques estão parados sem combustível e munição, soldados russos já estão saqueando mercados, restaurantes, lanchonetes, etc… na Ucrânia à procura de comida.”

    A Rússia tem uma força militar muito maior do que a da Ucrânia (do a que a da maior parte do mundo na verdade), mas a grande maioria se trata de sobras da finada URSS (E a qualidade dos equipamentos desta já era um tanto questionável), eles tem mais de 5000 tanques de guerra, sim, mas quantos sequer estão em condição de operar? Não há números confiáveis, mas não duvido que uma parte bastante considerável disso esteja lá só pra inflar números. A mesma história com aviões, caças de alto nível são uma meia dúzia, a maioria são pilhas de ferrugem com asas, tanto que a Ucrânia derrubou alguns.

    O que as Putinetes não entendem (Obviamente não estou chamando você de Putinete, isso aqui é direcionado para aqueles adolescentes com tendências protosocialistas que lambem o saco do careca do Kremlim até sangrar), é que a Rússia é um país pobre e que boia em corrupção (há quem diga que a corrupção brasileira é um piquenique comparado ao que acontece por lá), não tem condições de manter um exército sequer remotamente próximo ao dos EUA e só bota medo na Europa por causa das armas nucleares, que aliás, também são sobras da era soviética.

    Não sou especialista em nada envolvendo conflitos armados, mas tenho a impressão que se a Rússia tivesse pelo menos metade de toda a grandiosidade militar que a mídia muitas vezes pinta a Ucrânia já estaria implorando por piedade à essa hora, mas não, não só a Rússia ainda não conseguiu tomar nenhuma grande cidade como já teve que pedir ajuda pra Bielorrússia e Chechênia, sem falar nos vários aviões, helicópteros e tanques deles reduzidos à ferro-velho.

  21. Um fato interessante que ficará marcado nessa guerra entre Ucrânia e Russia é a quantidade de sanções econômicas e sociais que estão sendo aplicadas à Russia, principalmente às empresas estatais. A pouca riqueza que a Russia conseguiu nos últimos anos foi graças ao método de capitalismo de estado, tendo um grande controle econômico nas mãos e agora com esses tipos de sanções direcionadas a tendência é a Russia regredir muito na sua riqueza. Nesses nossos tempos de economia eletrônica e global as sanções serão muito eficientes e isso vai criar um belo caos social interno no país afetado. Ou seja, esse tipo de país ficou indesejadamente muito dependente do capitalismo. Os comunas e socialistas não terão vida longa com o arranjo do capitalismo de estado. Esses países agora pensarão duas vezes antes de iniciar uma guerra. Os países contra farão pactos globais cada vez mais fortes nessas sanções. Até países neutros militarmente entrarão nessa. Por exemplo, a China, se ela resolve invadir Taiwan as gigantes empresas estatais chinesas serão destruídas com sanções e isso é tudo que a China não quer.

  22. Em tempo: … e o poder estatal sobre nossas vidas privadas só aumenta….. as sanções elevam a patamares altíssimos o poder de intervenção nos Estados Ocidentais…..

  23. Bom artigo. Porém, liberdade nada têm à ver com uma “verdade superior”, verdade é um mero fruto temporário da lógica e razão, e ela não pode ser garantida contra à passagem do tempo: é uma mera substância que dura até eventualmente ser corrompida depois de permitir o desenvolvimento da sociedade humana por um período limitado, pois para se manter intacta, é necessário que à busca pela verdade sempre seja renovada, e por meio disso, à liberdade. Mesmo se os homens conseguissem criar uma sociedade verdadeiramente anarcocapitalista, haveria eventualmente à criação do Estado pelos homens mais ambiciosos e com sede de poder em lugares aonde o desejo constante pela liberdade não conseguiria se manter, muitos permaneceriam fora do Estado, mas assim como tudo hoje é controlado pelo Estado, tudo poderia voltar à ser controlado pelo Estado amanhã se não houvesse qualquer resistência legítima contra sua expansão violenta, tal como começou à ocorrer em meados do século XIX. À sociedade humana é ditada pela luta dificultosa do dia a dia aonde grupos de pessoas trabalham tanto em comunhão quanto sozinhos pelo seus próprios interesses, o que sempre acabou beneficiando tanto eles quanto outros, pois para atender seus próprios interesses, e necessário que o indivíduo também atenda os de outrem. O Estado, uma instituição coerciva e violenta, sempre foi originada pelas falhas humanas no meio de tudo isso: individuos psicopatas que sempre anseiam dominar e controlar outros, fazendo falsas promessas de proteção e prosperidade enganosa tirando dos outros o que não são deles, e seus argumentos muitas vezes são sustentados pelo desejo dos indivíduo em fazer parte da sociedade em desenvolvimento, o que lhes aliena à se submeter aos novos governantes, algo que predominou nos tempos antigos até à criação do Estado moderno.

    Se fossemos perfeitos, nunca ninguém criaria uma organização coerciva, mas como não somos, podemos apenas resistir contra à vontade dos indivíduos que pregam à violência por meio das idéias e dos mecanismos de auto-defesa. Portanto, não devemos ser utópicos, devemos apenas lutar pelo que é correto, e cultivar uma cultura de auto-preservação e renegação à qualquer suposto “bem comum” furado e sem cabimento com à realidade é o caminho para isso, só há a ética e a moral que não violam os direitos de outrem, à lei natural, e logo, ninguém deve ter obrigação à nada enquanto estiver em sua própria propriedade propriamente dita, mas para preservar e lutar pela liberdade (assim como por qualquer outra causa), é necessário que os indivíduos ergam às mãos juntos e se apóiem no processo do cumprimento de tais objetivos.

    O estoicismo e o cristianismo falharam em manter à conservação da liberdade do indivíduo pois ambas eram apenas verdades temporárias, mantidas por uma fé por um ser superior que irá nos salvar se fizermos tudo corretamente ou por uma crença de que à ociosidade em conluio com à virtude cria uma superioridade moral dos homens, que supostamente devem trabalhar em prol da sociedade enquanto agentes superiores (estoicismo). Os economistas clássicos falharam em conter o crescimento dos economistas que trabalhavam em prol do Estado, pois todo o sistema funcionava contra eles, era apenas questão de tempo até que os governantes deixassem de lado às idéias de liberdade, atraídos pelos progressistas que pregavam exatamente o que queriam: os meios para o poder superior que esperavam ser “divino”, capaz de lhes tornar criadores de suas próprias sociedades (tal como Napoleão, Hitler e Mussolini imaginaram enquanto criavam seus impérios). Enquanto não houver qualquer resistência contra aqueles que reinam e governam, sempre será assim, só poderemos nos contentar em opor suas políticas e fugir do autoritarismo, mas como buscamos à liberdade, o correto é buscar libertar à mente de outrem até houver algum concenso sobre como agir em comunhão contra o autoritarismo, alguns vão para à política ver se conseguem algo, outros desenvolvem projetos independentes ambiciosos como bitcoin ou Liberland, o importante é tentar algo e não se submeter incondicionalmente, pois à resistência é também a defesa das idéias, e a verdade só pode ser garantida quando não nos iludimos.

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