Marxistas,
social-democratas e demais defensores do intervencionismo estatal sempre
afirmaram que determinados setores da economia — principalmente saúde,
educação e segurança, mas também o setor elétrico e de telecomunicações — não
podem ficar por conta do livre mercado e da livre concorrência porque a
ganância e a busca pelo lucro não apenas são incompatíveis com tais setores,
como também levariam a preços absurdamente caros, o que prejudicaria
principalmente os mais pobres.
Já
os economistas seguidores da Escola Austríaca sempre afirmaram categoricamente
que é justamente a busca pelo lucro em um ambiente sem protecionismos, sem
privilégios, sem agências reguladoras e sem subsídios o que gera serviços da
alta qualidade e preços baixos.
E
a explicação é simples: como empresários, no geral, não gostam de concorrência,
eles sempre se mostram ávidos por fazer lobby e utilizar o poder estatal em seu
próprio interesse com o intuito de banir a concorrência e solidificar sua
posição de domínio. Eles conseguem isso
por meio de tarifas protecionistas, subsídios e agências reguladoras que
cartelizam o mercado e impedem a entrada de concorrentes.
Já
o livre mercado, arranjo em que não há protecionismo, subsídio e agências
reguladoras, é um sistema em que são os consumidores que controlam os
empresários. No livre mercado, as empresas não têm opção: ou elas servem
o consumidor de maneira eficaz ou elas fecham as portas. E servir o
consumidor de maneira eficaz significa estar sempre ofertando bens e serviços
de qualidade crescente a preços cada vez menores.
É
justamente o governo — com seus subsídios, privilégios especiais (como tarifas
protecionistas e execução de obras públicas com empreiteiras privadas) e
restrições à concorrência (por meio de agências reguladoras e exigências
burocráticas) — quem promove monopólios e oligopólios, e consequentemente
preços altos e serviços de baixa qualidade. Sendo assim, se você quiser serviços de qualidade
a preços cada vez menores, você tem de defender o livre mercado.
Sabe
quem concorda com tudo isso? Ninguém
menos que Karl Marx. Não deixa de ser
curioso constatar que Marx entendeu perfeitamente essa realidade. Mais ainda: ele foi explícito em demonstrar
isso. No quesito “efeitos benéficos da
livre concorrência”, Marx concorda com os austríacos e discorda de todos os
atuais marxistas e demais intervencionistas.
Veja o que ele escreveu logo nas páginas
iniciais do Manifesto Comunista:
A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os
instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta
todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos
das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as
muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos
bárbaros ao estrangeiro, com que compele todas as nações a apropriarem o modo de
produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem
no seu seio a chamada civilização, i. e., a tornarem-se burguesas. Numa palavra,
ela cria para si um mundo à sua própria imagem.
Em
suma: além de creditar à burguesia e aos seus instrumentos de produção — isto
é, ao sistema de lucros e prejuízos — a façanha de retirar nações da barbárie
e levá-las à civilização, Marx afirma categoricamente que o modo de produção
burguês — que nada mais é do que a busca pelo lucro — gera mercadorias a preços baratos.
E não apenas isso: ele afirma que o sistema de lucros e prejuízos
compele todas as nações a adotarem este modo de produção, sob pena de se
arruinarem por completo caso não o façam.
Ou
seja, o real problema dos atuais marxistas e demais intervencionistas que se
dizem contrários a serviços de saúde, educação, segurança, energia e
telecomunicações serem ofertados em um ambiente de livre concorrência, pois
seriam caros e inacessíveis para os pobres, é que eles certamente não leram
Marx. Se leram, não entenderam. Marx entendeu perfeitamente que a busca pelo
lucro sob um arranjo de livre concorrência leva ao barateamento dos produtos e
serviços, e que tal barateamento é “a artilharia pesada com que [o sistema de
lucros] … compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da
burguesia [e se tornarem civilizadas], se não quiserem arruinar-se.”
Ao
contrário dos marxistas atuais que defendem a estatização de vários serviços sob
o argumento de que isso reduziria seus preços, Marx entendeu que é a busca pelo
lucro o que realmente derruba os preços, e não a estatização destes serviços.
Como
se não bastasse, Marx também disparou um petardo contra keynesianos defensores
de estímulos fiscais e de políticas de endividamento estatal. Marx zombou o keynesianismo antes mesmo de
este sistema ter sido criado — algo possível porque não havia absolutamente
nada de original nas ideias de Keynes.
Eis
o que escreveu Marx em O
Capital, capítulo 24, seção 6, “A
Gênese do Capitalista Industrial“:
A única parte da chamada riqueza nacional que realmente
está na posse coletiva dos povos modernos é a sua dívida pública.
Daí … a doutrina moderna de que um
povo se torna tanto mais rico quanto mais profundamente se endividar. A dívida pública torna-se o credo do capital. E, com o surgir do endividamento do Estado,
vai para o lugar dos pecados contra o Espírito Santo — para os quais não há
qualquer perdão — o perjúrio contra a dívida do Estado.
Como com o toque da varinha mágica, [a dívida pública]
reveste o dinheiro improdutivo de poder procriador e transforma-o assim em
capital. … [Mas] a moderna política
fiscal… traz em si própria o germe da progressão automática. A
sobretaxação não é um acidente, mas sim um princípio.
Conclusão
Eis,
portanto, as duas crenças que um genuíno seguidor de Karl Marx deve apresentar:
a busca pelo lucro em um ambiente de livre mercado gera redução de preços, e
políticas fiscais keynesianas, além de serem um método de escravização, fazem
com que dinheiro improdutivo seja ilusoriamente visto como capital gerador de
riqueza. Mais ainda: segundo Marx,
criticar o endividamento do estado passou a ser visto pelos defensores da
gastança estatal como um ato equivalente a uma blasfêmia contra o Espírito
Santo.
Logo,
se você é um marxista defensor dos pobres e quer que eles tenham acesso a bens
e serviços de qualidade a preços baixos, você tem de defender o livre
mercado. Se você defende que o povo
tenha poder sobre as empresas, você tem de defender o livre mercado. E se você é contra a escravização do povo
pelas elites financeiras, você tem de defender que os gastos do governo sejam
restringidos ao máximo.
Agora,
se você defende que o governo regule o mercado e gaste demasiadamente, você
estará defendendo os interesses das grandes empresas e das elites financeiras,
e estará defendendo que elas tenham privilégios sobre os pobres e que elas os
oprimam com a abolição da concorrência, com preços altos e com serviços precários.
Palavras
de Marx.
Muito bom! Aliás, há várias passagens no Manifesto Comunista que são verdadeiras odes ao capitalismo. Não entendo como os marxistas não sacaram que Marx, na realidade, via o capitalismo com admiração, e justamente por isso o temia e o atacava.
Interessante análise, Leandro. O estranho é o fato de Marx ter feito essas asserções e, ainda assim, defender o contrário: a estatização dos meios de produção a fim de atingir o socialismo. No mínimo, bizarro.
O pior é ver muitos comunistas afirmando que empresas que foram tomadas pelos trabalhadores não só conseguiram se manter, mas como, também, produziram mais e deixaram todos no pé da igualdade. E outros, além, defendendo que povos autóctones, como as mais variadas etnias indígenas que viviam no Brasil antes de seu ”descobrimento”, formavam uma espécie de coletivismo e possuíam um bem estar geral.
Conheço até um professor que teve a infelicidade de dizer que os índios pré-descobrimento viviam melhor do que nós hoje. Haja paciência!
Abraços.
Marx também defendia o livre comércio, ao menos em alguns trechos de sua obra. E era contra os sindicatos. Como escreveu Mises,
"Karl Marx, no segundo estágio de sua carreira, não era um intervencionista; ele era um defensor do laissez-faire. Como ele imaginava que o colapso do capitalismo — e sua consequente substituição pelo socialismo — ocorreria somente quando a capitalismo estivesse plenamente maduro, ele era a favor de deixar o capitalismo se desenvolver plenamente. Sob esse aspecto ele era, em suas escritas e em seus livros, um defensor da liberdade econômica.
Marx acreditava que medidas intervencionistas eram prejudiciais, pois elas atrasavam a chegada do socialismo. Como os sindicatos sempre exigiam intervenções, Marx era contra eles."
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1170
Excelente artigo, Leandro.
Obrigado, Erick.
Incrível que exatamente ontem terminei de ler uma pequeno livro de Marx endereçado aos operários em que o propósito dela era explicar um pouco de economia. O nome do livro é “Trabalho Assalariado e Capital”.
Ele nitidamente reconhece que o capital é essencial para o aumento da produtividade e que sem isso não é possível o aumento dos salários dos operários. Ele falha pois a argumentação dele se baseia simplesmente na inveja, pois de acordo com ele mesmo que haja, tanto para o empregador como para o empregado um aumento em seus rendimentos, o aumento do proprietário do capital é maior e, por isso, de acordo com Marx, a escravidão aumenta por causa da diferença relativa entre os ganhos dos dois.
Ele também compreende a relação entre o aumento do capital e o aumento da mão de obra e diz que existe uma tal relação entre os dois que o aumento de um implica no futuro o aumento de outro. Mais pra frente ele então se contradiz quando fala que o aumento do capital causa demissões e então critica a posição que os liberais defendiam de que esses trabalhadores seriam realocados no futuro. Mas observe que essa argumentação que ele critica está ligada ao que ele reconhece como sendo a relação entre capital e trabalho antes, ou seja, de que o aumento de um implica no aumento do outro no futuro.
Conclui, portanto, que ele conhece, se não muito bem ao menos relativamente bem, a ponto de reconhecer questões fundamentais ao funcionamento do mercado, mas acaba cometendo erros lógicos terríveis quando conecta esses fatos à realidade. Outros dois erros dele é dizer que os ganhos relativos tornam os trabalhadores escravos do capital pela mesma relação explicada antes e que o valor dos produtos estão embutidos o valor do trabalho. É triste saber que depois dele tão poucas pessoas foram capazes (se bem que quem sabe não foi preguiça de ler seus escritos) de rebater suas afirmações errôneas, pois ele reconheceu os benefícios do mercado, mas ainda sim repudiava a principal figura que o movia, o empreendedor mais conhecido como burguês.
É preciso entender a diferença de estatização de empresas e socialização dos meios de produção. Não sou um estudioso da obra de Marx, mas o que para mim sempre pareceu muito claro, e que a maioria das pessoas parece se confundir, é que, no comunismo defendido por Marx, as empresas, seus lucros e despesas, são de propriedade dos trabalhadores, todos tem igual responsabilidade e participação nos ganhos, não havendo assim a figura de um empregador que enriquece graças ao trabalho de outras pessoas.
Outro bom argumento contra os intervencionistas é dizer que muito mais importante do que saúde, educação e segurança é a COMIDA, pois sem ela todos MORREM DE FOME, em pouquíssimo tempo.
E como sabemos sempre que o governo assumiu o controle da produção e distribuição de alimentos houve fome em massa. O que prova que nada deve ser controlado pelo governo, pois o controle/intervenção do governo só gera escassez além da que já existe naturalmente.
Vide Venezuela hoje:
Nesse ritmo daqui há alguns anos Venezuela será como Cuba. O governo dirá que tudo é maravilhoso mas ninguém que está dentro poderá sair sem deixar parentes como reféns e quem está fora não poderá entrar com câmeras para mostra as “maravilhas” do socialismo para o resto do mundo.
O problema com o socialismo em particular, mas com qualquer forma de estatismo, é que ele presume pessoas perfeitamente morais em controle do estado.
Quando o dito “contrato social” criou o estado como um super-homem, para concentrar todos os direitos de que o homem abriu mão para viver em sociedade, ele não previu que seriam justamente homens que tomariam conta desse super-homem, o que, na prática, divide a sociedade nos que têm poder ilimitado e nos que não têm poder algum.
Pessoas perfeitamente morais (ou super-homens) não existem. Quanto antes a sociedade perceber que esse é o erro fundamental do estatismo, mais cedo teremos uma sociedade ancap. Quanto antes a sociedade se der conta que o que mantém o homem “na linha” é a propriedade privada e o sistema de lucros e prejuízos, melhor.
Excelente, Leandro. Entretanto, temo pelo cenário intelectual econômico moderno quando esse nos força a estabelecer uma intersecção entre o pensamento marxista e austríaco.
Tendo eu experimentado da maré vermelha no passado, foi de caráter único reviver um paralelo entre Marx e Bastiat que notara no passado quando movido pela curiosidade de construir uma opinião econômica racional.
É mister perguntarmo-nos: Que ocorrera ao debate econômico ocidental entre Stuart Mill, Marx e Keynes que motivara toda uma geração de economistas a abandonar o bom-senso e a menor capacidade de auto-crítica quanto às medidas por ela estabelecidas para atingir seus fins?
Pensamentos semelhantes aos de Keynes já prosperavam na periferia do pensamento econômico em meados do século XIX(Vide Gesell), entretanto, que absurdos ocorreram à geração de nosso Lord predileto para que viessem a estabelecer um pensamento econômico e social baseado no evangelho do gasto estatal e na sabedoria da demanda agregada?
Mas se Marx sabia dos benefícios do livre mercado, porque ele era contra a propriedade privada?
Por que na Inglaterra os operários eram “explorados”,isto é,que fatores levavam a salários baixos? Eram somente empresários ruins ou há outra explicação?
Garanto que eles não o fariam se não fosse o melhor na época.
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1056
Por exemplo quando um consumidor estiver insatisfeito com a qualidade do serviço ofertado a quem ele podera recorrer, sendo a parte hipossuficiente da relação?
muito provavelmente ao Estado que deve sim regular as diversas situações sociais, como no exemplo em comento.
Parabéns, brilhante texto.
Mas acho que esse texto é melhor para aqueles que não leram Marx e se dizem defensores do Livre Mercado, “Capitalistas” e afins… Assim eles passam a ler um pouco Marx… (Sou a favor de que devemos ler de tudo).
Assim como Marx também criticava o Estado por ser o motor do Capitalismo, pois cede aos donos do Capital a ajuda necessária durante as crises (ao invés de deixar acontecer) [Como vc explicou].
Lembro-me de uma vez, em lista de estudantes de economia, ao criticar a ajuda dos EUA a certos bancos durante a crise do Sub-Prime, ter sido dado a minha pessoa “parabéns” pelo pensamento neo-liberal…
Na verdade, a “trindade” Smith, Ricardo e Marx deve ser lida com cuidado, antes de partirmos para as críticas fundamentadas, de economistas/pensadores posteriores.
Um Estado se forma pela Política. Os acordos entre seus agentes. Se não fizer, outros farão no seu lugar, á moda deles. O Estado se torna então relativo.
E não vivemos mais essa época de anti-marxismo. Nem anti Nova Esquerda, etc. O que acredito que vivemos mesmo é a discussão entre conservadorismo e libertarianismo (anarquismo ao extremo) e os diversos graus entre um e outro. Entre os mais diversos assuntos, desde os que passam pela religião á política e economia. E´ mais difuso. Diferentes escopos. Um indivíduo sendo libertário em um assunto e conservador em outro. Ao final das contas, ele é livre.
Muito bom artigo, impressionante.
Excelente artigo.
O que vocês liberais acham de uma economia de livre mercado de cooperativas, sendo proibida a propriedade privada de quem não trabalhe (ou seja, os capitalistas)?
excelente texto.
Leandro
Comprei o livro ” A grande depressão americana” de Rothbard, para dar de presente ao meu irmão. Como íamos demorar um pouco para nos vermos, não aguentei e li antes dele. O livro é extremamente elucidativo (só fiquei decepcionado por não abordar o período de FDR). Entretanto, parece-me que houveram pequenas falhas de tradução e/ou revisão. Em particular, chamo a atenção para a página 336. O segundo parágrafo termina com o seguinte período: “Shaviro mostra que, em 25 das principais indústrias manufatureiras, o registro de rendimentos médios monetários e reais durante aqueles anos era o seguinte”.
O parágrafo seguinte começa com este período “Assim vemos que os salários monetários se mantiveram praticamente no mesmo valor nominal até a segunda metade de 1931, ao mesmo passo que os salários reais na verdade aumentaram em mais de 10%.”
Ficou a nítida impressão de que faltou alguma coisa entre os dois parágrafos, talvez uma tabela.
Se houverem realmente falhas suficientes para justificar a publicação de uma errata, ficarei feliz em obtê-la.
E parabéns pela publicação dessa obra importantíssima. Comprei também “A lei” de Bastiat e “Seis lições” de Mises. Dinheiro muito bem gasto.
Algumas notas importantes sobre o pensamento de Marx que Liberais tendem a não entender direito:
– Para Marx, Capitalismo não tem nada haver com o ideal Liberal de “livre-mercado” ou a visão dos que imaginam um “Capitalismo ideal” como os Austríacos. Marx chamava a economia de mercado competitiva de “commodity production” ou “commodity circulation” (um conceito separado do Capitalismo), e notava que ela existiu de formas diferentes em vários modos de produção. Commodity production é caracterizado pelo ciclo da circulação de commodities (C-M-C).
“Capitalismo”, para Marx, é o modo de produção caracterizado pelo trabalho assalariado em larga escala (ou o ciclo da acumulação de Capital “M-C-M1”), uma forma *específica* de economia de mercado (ou talvez nem economia de mercado precisa ser, já que economias planificadas podem ter acumulação de Capital e M-C-M1). Não existe “Capitalismo ideal” ou “príncipios do Capitalismo”, existe apenas Capitalismo REAL, ou seja, o status quo desde a revolução industrial.
Quando Marx (e Proudhon, Bakunin, etc) falava sobre “propriedade privada”, ele mencionava específicamente a “propriedade privada Capitalista” ou “propriedade burguesa”, e diferenciava esta da “propriedade individual” ou “simple commodity production”. Propriedade individual é aquela que resulta do trabalho de um indivíduo (a produção de um agricultor ou artesão dono dos próprios meios de produção), enquanto a propriedade burguesa é aquela em que uma pessoa é dona de meios de produção e outras trabalham para ele.
Liberais em geral tendem a confundir estas propriedades (a tratando como iguais), mas para Marx, não são apenas diferentes mas diamétricamente opostas: Uma só existe sobre o cadáver da outra. O processo histórico pelo qual a propriedade individual foi destruída e nasceu a produção Capitalista Marx chamava de “acumulação primitiva”, e ele a debate nos últimos capítulos de Das Kapital (capítulos que recomendo a todos os Austríacos que tem um interesse em entender Marx).
– Para Marx (e Socialistas em geral), o Capitalismo sempre terá intervenção Estatal. Para ele, o Estado intervém na economia por três motivos:
1. Fortalecer o poder da classe Capitalista sobre o trabalhador em geral. A acumulação primitiva, as guerras imperialistas, subsídios aos grandes produtores, manipulação de crédito, a manutenção de uma taxa de desemprego, todos esses são armas da classe dominante que objetivam aumentar a dependência do trabalhador e poder diminuir salários e obter monopólios.
2. Fortalecer certos setores da classe Capitalista sobre outros. Capitalistas competem entre si pela quantia total de mais-valia, e logo utilizam do lobby e da intervenção para obter vantagens sobre os outros. Austríacos reconhecem isso, mas imaginam esse fato como um fator “externo” ao Capitalismo imposto por um Estado, enquanto para Marx isso é algo inerente ao Capitalismo que existe desde que este nasceu.
3. Minimizar os piores efeitos do Capitalismo. Quando a crise está severa demais e a insatisfação popular cresce, o Estado precisa intervir para manter a sociedade passiva. O “Welfare-State” é o maior exemplo disto. Mas note: A teoria Marxista não vê a intervenção do Welfare-State como algo Socialista (muito pelo contrário, ela visa a manutenção do Capitalismo) ou libertador (ele visa manter o proletariado dependente do Estado burguês, e não melhorar a sua condição permanentemente). Mesmo assim, depois que crises passam e políticos querem destruir o “Welfare-State” (já que no momento ele não é mais necessário), Marxistas tendem a defendê-lo (argumentando que a sua existência é positiva para o proletariado durante a luta de classes, e que ele só deveria ser abolido quando não fosse mais necessário, ou seja, após o Capitalismo ser superado).
Daí é que vem a oposição de esquerda ao chamado “Neoliberalismo”. Os governantes “Neoliberais” (Reagan, Thatcher, Collor, Menem, Pinochet, etc) todos visaram cortar gastos com o Welfare-State, cortar impostos sobre a renda dos os ricos (enquanto aumentaram impostos sobre salários e consumo) e privatizar empresas Estatais. Enbora a teoria Socialista não veja o Welfare-State como um fim em si, ela o vê como uma arma na luta de classes, algo a proteger durante o meio termo. (Por esse mesmo motivo Mutualistas e Anarco-Comunistas tendem a defender o Welfare-State apesar de querer destruí-lo, eles querem destruir o Welfare-State apenas quando ele não for mais necessário, ou “abolir o Estado na ordem certa”).
– Marx tinha uma posição mais crítica quanto ao dinamismo tecnológico do Capitalismo e a sua capacidade de diminuir preços do que o artigo imagina. Marx escreveu bastante sobre como o Capitalismo foi o primeiro sistema a favorecer incrívelmente o desenvolvimento tecnológico e a produção em massa (a competição econômica generalizada e a necessidade de cortar custos para oferecer produtos mais baratos são algo que interessava muito a Marx), e neste quesito ele viu o Capitalismo como um passo positivo para a humanidade.
Mas cuidado, a visão dele era mais complexa que isso. Para Marx, o motivo do por que a tecnologia era importante para o Capitalismo era algo destrutivo para o próprio Capitalismo e para a sociedade ao longo prazo, e o grande desenvolvimento tecnológico seria utilizado de forma errônea ou destrutiva.
Na teoria de Marx sobre a formação da taxa de lucro, os Capitalistas competem entre si por um pedaço maior do grande bolo de “mais-valia”. Quando um Capitalista investe em novas tecnologias que o permitem produzir com um eficiência maior que a média do mercado atual (“produzir abaixo do tempo de trabalho socialmente necessário”, em sua linguagem), ele consegue obter um pedaço maior desse bolo (mais lucro), mas ele diminui o tamanho do bolo (pois a quantidade de valor-de-troca média produzida pela indústria diminui).
O resultado é que ao longo prazo existe uma “tendência às quedas nos lucros” conforme a produção de valor cai, e quando esta tendência chega a níveis críticos, ocorrem crises econômicas. Durante estas crises, a produção Capitalista para: Existe Capital que não acha investimento, trabalhadores que não acham trabalho, produtos que não acham consumidores, etc. Mas, durante este período de crise, a destruição de Capital acumulado e outros fatores eventualmente fazem a taxa de lucro subir de novo e a economia de recuperar (pelo menos até a próxima crise acontecer). Ou seja: O Capitalismo é um modo de produção com grande dinamismo tecnológico, mas o modo como a produção acontece faz a tecnologia desestabilizar a economia, o Capitalismo se torna inerentemente instável e eventualmente insustentável como resultado.
no brasil oq existe eh uma simbiose entre empresarios e setores do governo…
sempre foi assim e sempre será até q O POVO PEGUE EM ARMAS E INVADA BRASILIA
Simplesmente perfeito o seu texto! Será que isso seria ensinado nas escolas públicas??
O texto é instigante e muitos dos comentários o complementam. Não li todos, mas, em geral, estou impressionado com a serenidade e a lucidez, raras entre marxistas, com que vejo liberais debatendo e discorrendo sobre Marx.
Lembro que fiquei surpreso ao ler o início d'”O Manifesto…”; poucos esperariam do autor aquela epopeica narrativa dos feitos da burguesia. Dentre as diferentes leituras possíveis, eu atribuiria àquele tom de “elogio” ao capitalismo um certo fascínio por essa antessala do “paraíso na terra”, por um sistema superior a todos os demais que historicamente já existiram. Algo entre o fascínio do cientista diante de tão evoluído objeto de estudo e o do militante defronte a tão fabuloso inimigo.
Brilhante artigo.
Pessoal, pelo que entendi nos debates acalorados do pessoal.
Os liberais entendem melhor de Marx que os Marxistas e Marx foi o maior capitalista de todos. certo ou errei?
“[…]compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização[…]”
Está ai, o problema é que os marxistas não gostam de civilização. O próximo passo deles seria esquecer que a religião é um ópio e seguir as vontades de Hitler de restaurar o paganismo. Para começar com a idolatria do partido, representante dos deuses na Terra.
Um debate maravilhoso e de bom nível!
Mas…
Vocês esquecem do Ser Humano! Nossa imperfeição impede que qualquer sistema funcione! Para mim, que sou leigo e aprendi muito lendo os comentários, percebi que todos “provam” a imperfeição do outro com o Ser Humano em ação!
Uma pena!
A livre concorrência nunca existiu, em toda a história há maiores e menores graus de interferência, tanto dos governos, quanto dos monopólios no inicio do séc. XX.
Nem na época de industrialização dos EUA, Alemanha e França houve uma livre concorrência, na verdade pode ter havido com certas “restrições”, mas sem incluir a própria Inglaterra que era extremamente protecionista.
comunismo=fascismo
comunismo=fascismo=nazismo=racismo
Essas afirmações sobre Marx que você fez apenas confirmam que você:
a) ou não leu Marx;
b) ou leu e não entendeu Marx;
Marx usa linguagem metafórica e metonímica.Primeiramente, o termo “civilização” é usado irônica e pejorativamente por Marx justamente porque os capitalistas
o empregavam como sendo o futuro do progresso da humanidade em suas bases produtivas. E é lógico que o sistema capitalista
aperfeiçoa cada vez mais seu sistema produtivo, afinal o negócio é vender mais ao mínimo custo produtivo e máximo lucro. E esse
sistema tende a crescer e superar cada vez mais as barreiras geográficas para expandir sua zona de influencia de comércio (globalização).
Por isso é que ele “deita por terra todas as muralhas da China”. E essa estrutura é posicionada no lugar de um todo, um mundo no qual o modus operandi é a reflexão
da imagem burguesa de produção. É o que ele coloca no final. Ou seja, ele tá fazendo uma afirmação de como o capitalista vê o mundo. Por isso que ele fala que se não compelir
ao sistema as nações tendem-se a arruinarem.
Segundo o Estado pra Marx é a superestrutura à qual se funda sobre uma infraestrutura econômica. Quer dizer que o Estado não faz ações por si só, ele o faz sob uma base
econômica correspondente. Ora, o Estado de dívida representa uma face do capitalismo a partir da igualdade “dinheiro=dívida”.
Quando ele fala em relação ao Estado ele não fala do Estado em si (justamente o que ele refutou em Hegel), mas o Estado como superestrutura fundado sobre a base econômica capitalista.
É o Estado capitalista! (e não o Estado Keynesiano ou Friedmaniano…)
Você fez uma confusão maior do que muitos comunistas que você critica, pelo amor de Deus!