Em
sua última coluna
semanal no The New York Times, o
vencedor do Prêmio Nobel Paul Krugman esgrime argumentos tão inacreditáveis,
que o comitê do Nobel de Economia em Estocolmo deveria pedir a devolução da
medalha.
Antes
de comentar alguns parágrafos, permita-me apenas mencionar a única coisa que
Krugman acerta em sua coluna: ele menciona o fato de que a moeda chinesa, o renminbi,
está artificialmente subvalorizada; e que, como resultado disso, ela está
causando distúrbios na economia global.
Quanto
a isso, ele está certo. Mas a questão é
que ele realmente desconhece quais são os reais problemas e o que ocorrerá tão
logo a moeda chinesa seja valorizada.
Sim, ele de fato ganhou o Prêmio Nobel de Economia; porém, se o comitê
adotasse a política de pedir a devolução de seus prêmios para aqueles laureados
que demonstrassem uma completa falta de noções econômicas, certamente Paul
Krugman seria o primeiro nome da lista de chamada. Com efeito, após essa última coluna ele
realmente deveria devolver espontaneamente sua medalha, pois ficou claro que
não há motivos para ele mantê-la.
Eis
um dos parágrafos de seu artigo:
O que você deve perguntar é: o
que aconteceria se a China tentasse vender uma grande parte de seus títulos
americanos? As taxas de juro iriam
disparar? As taxas de juro de curto
prazo dos Estados Unidos não se alterariam: elas já vêm sendo mantidas próximo
de zero pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que não irá
elevá-las enquanto a taxa de desemprego não cair. As taxas de longo prazo poderiam aumentar
levemente, mas elas são determinadas principalmente pelas expectativas de
mercado quanto às taxas de curto prazo futuras.
Não,
elas não são! As taxas de juros de longo
prazo [aquelas vigentes para títulos com
prazo de maturação maiores que dois anos] se formam de acordo com as
expectativas de inflação. E se os credores
perceberem que a política monetária do Fed está muito frouxa, que ele está
mantendo a taxa básica de juros em níveis extremamente baixos, as taxas de
juros de longo prazo irão subir. Krugman
se perdeu e entendeu tudo errado.
E
aí ele finaliza o parágrafo:
Além disso, se os chineses
pararem de comprar títulos americanos, o Fed poderia compensar o impacto que
isso teria sobre as taxas de juros aumentando suas próprias aquisições de
títulos de longo prazo.
É
aqui que ele se revela. O que Paul
Krugman está sugerindo é que, se a China parar de comprar títulos da dívida
americana, não haverá problemas, pois o Fed poderá comprá-los – é só imprimir
dinheiro.
Ora,
uma coisa é haver compradores legítimos para os títulos da dívida; outra,
totalmente diferente, é colocar o Fed para monetizar a dívida, isto é, imprimir
dinheiro para comprar os títulos. Quando
o governo chinês compra os títulos do governo americano, é a oferta monetária
chinesa que cresce [como a taxa de câmbio
entre o dólar e o renminbi é fixa, o banco central chinês tem de imprimir
dinheiro para comprar dólares para poder comprar os títulos]; porém, quando
é o Fed quem compra os títulos americanos, é a oferta monetária dos EUA que
cresce. Há uma enorme diferença entre os
dois métodos.
Se
o que Krugman está falando estivesse certo, se o fato de não haver demanda
(interna e externa) pelos títulos da dívida do governo de um país não fosse
algo importante, e se, consequentemente, cada país pudesse sair imprimindo
dinheiro para comprar esses títulos que ninguém quer, então nunca haveria
hiperinflação. O Zimbábue seria hoje uma
potência.
Outra
coisa que Krugman não entende é que não seria apenas a China quem estaria se
livrando dos títulos americanos. Se o
Fed realmente começasse a fazer o que Krugman está sugerindo – colocar as
impressoras a pleno para comprar todos os títulos americanos que os chineses
quisessem vender -, então todos os outros países que também possuem títulos do
governo americano iriam fazer o mesmo: os japoneses, os sauditas, os europeus,
os latino-americanos, todos eles também começariam a vender os títulos
americanos. Ninguém iria querer ficar
por último, com o risco de não receber nada.
E,
é claro, uma outra coisa que Krugman não entende é que os chineses não precisam
ter o trabalho de vender os títulos americanos que possuem. Eles simplesmente podem não aceitar rolá-los
[trocar um título vincendo por outro com
prazo de maturação maior]. Como o
grosso da dívida dos EUA é de curto prazo, os chineses nem precisam vender os
títulos que possuem; tudo o que precisam fazer é esperar os títulos maturarem e
simplesmente pedir o pagamento do principal.
Agora
leia o parágrafo seguinte, no qual ele vai do sublime ao ridículo:
É verdade que, se a China
liquidasse seus ativos dos Estados Unidos, o valor do dólar cairia frente ao de
outras moedas importantes, como o euro. Mas isso seria bom para os Estados
Unidos,
Ou
seja, o dólar perdendo valor é uma coisa boa para os EUA. Eis o porquê, segundo Krugman:
uma vez que tornaria nossos bens
mais competitivos e reduziria nosso déficit
comercial.
De
quais bens ele está falando? O déficit
comercial americano não vai cair porque as suas exportações ficarão mais
competitivas; ele vai cair porque os EUA não serão mais capazes de importar. O resultado imediato de uma queda do dólar
não será uma explosão das exportações; será um colapso das importações. E o fato de os americanos não mais terem
acesso a esses produtos importados não vai ajudar em nada a economia dos
EUA. No longo prazo, é claro que isso
terá de acontecer, mas Krugman acha que tal medida é uma panacéia. Não é.
É um remédio extremamente amargo que os americanos terão de
engolir. E, no final, quem sairá
perdendo serão os americanos, e não os chineses.
Finalmente,
Por outro lado, seria ruim para
a China, que sofreria grandes perdas em seu patrimônio em dólares. Em resumo,
agora os Estados Unidos colocaram a China em uma sinuca, não o contrário.
Ou
seja, se o dólar entrar em colapso, a China sofrerá um baque por causa de suas
enormes reservas em dólares. Mas, e os
americanos? Qual será o baque? Tudo o que os americanos têm são
dólares. A poupança, os salários, tudo
está em dólar. É verdade que a China tem
um trilhão de dólares em reservas, mas isso é apenas uma parte do seu
portfólio. A moeda dos chineses é o
renminbi, seus salários estão em renminbi, o grosso de sua poupança está em renminbi. Mesmo que o dólar perca seu valor, os
chineses ainda terão sua capacidade produtiva, sua mão-de-obra, suas indústrias
e seu capital. Sim, eles sofrerão um
baque; eles descobrirão que estavam financiando a fundo perdido os americanos,
e, consequentemente, vão parar de fazer isso.
Mas o maior estrago ocorrerá nos EUA.
Com uma moeda sem valor, toda a poupança e poder de compra do país serão
aniquilados.
A
título de comparação, pense no final da década de 1990, no estouro da bolha das
empresas pontocom. Várias empresas
estavam financiando as pontocom, emprestando dinheiro para que elas comprassem
produtos. Quando a bolha estourou, essas
empresas financiadoras sofreram grandes baques em suas receitas; porém elas
sobreviveram e prosperaram. Já as
pontocom sumiram. É isso que vai
acontecer entre China (empresas financiadoras) e EUA (as pontocom); trata-se de
uma relação que não pode persistir. O modo
como Krugman analisa a relação comercial entre os dois países é mais insana do
que o modo como as pessoas pensavam que a bolha imobiliária americana era algo
sólido e que iria durar para sempre.
A
ideia de que uma economia como a chinesa depende de exportações é uma
falácia. Ela depende de produção. O fato de que eles decidiram exportar sua
produção é, na verdade, uma perda. Eles
estariam em melhor situação se estivessem eles próprios consumindo sua produção
– algo que eles poderiam facilmente fazer caso o governo permitisse que o
renminbi se apreciasse, o que geraria um declínio nos preços internos.
As
pessoas creem que os chineses são muito pobres, e que não há demanda suficiente
na China para consumir toda a sua produção.
Tolice. Como ensinou Jean-Baptiste
Say, a oferta cria demanda; o fato de que os chineses podem produzir significa
que eles podem consumir. O que faz uma
pessoa produzir é justamente seu desejo de consumir. Ninguém produz por esporte. E o fato de que os EUA não mais podem produzir
significa que eles não mais deveriam consumir – não no nível atual.
Os
EUA só continuam consumindo no nível atual porque outras nações produtivas
estão permitindo isso. Elas exportam sua
produção para os EUA e ao mesmo tempo emprestam o dinheiro para os americanos
pagar por elas. Isso um dia vai acabar.
Infelizmente,
pessoas como Paul Krugman ainda não entenderam isso, ainda não conseguiram
ligar os pontos. Elas percebem que há um
problema, mas não conseguem entendê-lo.
Acham ridiculamente que os americanos colocaram os chineses numa sinuca,
quando a situação é praticamente oposta.
E essa ideia, então, de que os chineses irão financiar os americanos
eternamente, e que outros países farão o mesmo, apenas porque não querem perder
o dinheiro de seus investimentos? Acham
que os americanos poderão impunemente continuar pegando dinheiro do resto do
mundo? E que, caso esse processo seja
interrompido, os americanos poderão simplesmente imprimir todo o dinheiro que
quiserem sem que isso cause inflação de preços e sem que afete os juros? Que teoria é essa?
De
acordo com Krugman, enquanto os EUA tiverem uma alta taxa de desemprego, o país
poderá imprimir o tanto de dinheiro que quiser, pois os juros não subirão e não
haverá inflação.
Aviso
àqueles que pensam assim, inclusive Krugman: o despertar para a realidade será
mórbido. Tal postura, repito, é ainda
mais irracional do que a daquelas pessoas que acreditavam que a bolha das
pontocom representava uma nova era da economia e que os altos preços
imobiliários eram justificáveis pelos fundamentos, sendo que, por isso, eles
iriam subir eternamente.
No
futuro, quando historiadores estiverem escrevendo sobre esse período, as
pessoas que lerem vão dizer: “É inacreditável que as pessoas daquela época tenham
sido tão idiotas assim”.
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Mais
sobre a questão chinesa: O mercantilismo asiático, o calote
americano e suas consequências
Krugman ganhou seu Nobel por dizer coisas não menos estúpidas, Obama ganhou o Nobel da paz(!!!!), não acho que eles devam devolvê-las. Por outro lado se eu fosse o Peter Schiff e fosse convidado para receber uma me sentiria extremamente ofendido.
Mais uma aula de Peter Schiff. Com certeza virá uma turbulência mundial com a derrocada americana, mas o fundo do poço será nos EUA. Quem tiver dolar na mão por ultimo é que ficou com o mico.
Bom site sobre esse ser das profundezas:
krugman-in-wonderland.blogspot.com/
Analysis and criticism of America’s most prominent public intellectual and champion of Keynesian economics. I am part of the Austrian School of Economics, and I critique Krugman’s writings from that perspective.
Peter Schiff para Presidente!!!\r
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E esse Krugman é um piadista, não dá pra ententer como é que o Keynesianismo continua sendo levado à sério. Até a astrologia é mais confiável do que isso.
Olá,
Sou estudantes de economia e estou estudando um semestre na Argentina. Acompanho o site do instituo há tempos e gostaria de saber se alguem conhece para me indicar algo parecido aqui na Argentina, ou blog com artigos de cunho liberal.
Leandro,\r
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Concordo com a análise do Schiff, porém o raciocínio que os chineses não tem poder aquisitivo para comprar os produtos que eles produzem faz sentido. Se o yuan se apreciasse em relação a outras moedas de países com renda per capita muito maior que a chinesa fazendo com que os produtos ficassem menos atrativos, não faz sentido achar que os chineses teriam condição de consumir estes produtos sem que houvesse um ajuste de preços para esse novo consumidor. Por mais que a economia chinesa venha crescendo nas últimas décadas, a China ainda é um país pobre.\r
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Acho que faz mais sentido imaginar que com a flexibilização cambial haveria liberação de recursos atualmente investidos no setor de exportação para setores que reflitam as demandas mais urgentes do consumidor chinês, gerando crescimento em outros setores. Além disso o chinês teria acesso a outros produtos importados devido ao aumento no poder de compra do yuan.\r
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abraços\r
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@Pescador
“E esse Krugman é um piadista, não dá pra ententer como é que o Keynesianismo continua sendo levado à sério. Até a astrologia é mais confiável do que isso.”
A questão é que mesmo astrologia e similares são levadas a sério.
É um bom artigo, porém tenho alguns comentários.\r
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O Schiff não entendeu que a China não “manipula” sua moeda. Já escrevi isso em alguns comentários anteriores. O regime chinês tem se comportado como um virtual “currency board”, e nos momentos em que não se comportou assim, foi porque eles valorizaram o Renminbi, ao contrário do que diz o Schiff.\r
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Não é difícil ver que se estivéssemos hoje no regime do padrão-ouro, as reservas em ouro da China estariam crescendo talvez até mais rápido que no sistema atual. Como a China produz cada vez mais, e na média há um consumo menor do que sua produção, o ouro fluiria para a China. E a quantidade de dinheiro na China cresceria por consequência disso, não por “manipulação”, mas por fatos do mundo real. Ou seja, ou a) o Schiff não percebe que haveria rápido crescimento das reservas da China (mesmo no padrão-ouro), ou b) ele próprio tem tendências mercantilistas.\r
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O Schiff afirma que concorda com o Krugman de que “a China está causando distúrbios na economia global, por conta do renminbi artificialmente desvalorizado”. Causando distúrbios? Ao passo em que Schiff aplaude a capacidade exportadora e de poupança chinesas, ele não quer aceitar a consequência disso – um fluxo de moeda para a China vindo dos outros países, inclusive EUA. Ora, se coletivamente os chineses poupam mais que consomem, alguém no resto do mundo está comprando seus produtos, e é inevitável que a moeda flua para a China. Os americanos, por outro lado, escolheram (coletivamente) consumir mais do que produzem. E há, por enquanto, financiadores deste comportamento. Isso não é um distúrbio. E se for, ele é originado nos EUA, e não na China. Pois quem consome mais que produz terá que pagar a conta no futuro. Quem produz mais que consome coleta juros e dividendos advindos de sua poupança, e portanto não possui problema. Jogar a culpa nos chineses pelo distúrbio americano tem uma semelhança com o que os americanos fizeram nos anos 1970 – jogaram a culpa na inflação e na crise do petróleo nos árabes, uma grande falácia só hoje totalmente compreendida e reconhecida.\r
\r
Outra bobagem foi a afirmação de Schiff de que as exportações são “uma perda” para os chineses, pois “estariam em melhor situação de estivessem consumindo eles próprio sua produção”. Perda? Quem pode dizer que poupar é uma perda? Certamente nenhum austríaco genuíno diria isso.\r
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Esqueci de assinar o comentário anterior.
Carlos, aqui há um bom evento da Fundación Bases – http://www.austrianeconomicsconference.org/esp/inicio_esp.php\r
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O site da Fundación Bases – http://www.fundacionbases.org/cms/\r
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Vale a pena conhecer o Eduardo Marty, diretor geral da Junior Achievement Argentina – ele é um grande liberal.\r
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A Fundación Hayek também vale a pena – http://www.hayek.org.ar/new/es/index.php.\r
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Boa sorte.
Bom, para equilibrar o debate, vou (tentar) fazer o papel de advogado do Schiff:
1) Por mais que a política monetária chinesa se aproxime de um currency board, ainda assim tal política configura intervencionismo. Afinal, as autoridades monetárias chinesas determinaram arbitrariamente um valor para um dólar (6,3 renminbi) e passaram a trabalhar sobre ele. Não é muito diferente do câmbio fixo adotado no início do plano real (embora neste a opção tenha sido pela sobrevalorização). No mundo atual, em que vários papeis-moeda flutuam entre si, não é desarrazoado dizer que o regime monetário chinês seja (mais) intervencionista.
O mesmo não poderia ser dito caso todo o mundo estivesse no padrão-ouro puro. Nesse caso, o ouro fluiria livremente dos países consumidores para os países poupadores, sem que isso, no entanto, fosse resultado de manipulações cambiais, pois a moeda – o ouro – seria a mesma em qualquer país do mundo.
2) Consequentemente, se assumirmos que o que eu disse acima está correto, seria válido dizer que a política monetária chinesa está sim causando distúrbios, embora seja insustentável afirmar que tais “distúrbios” sejam ruins para o mundo. Na minha humilde opinião, a política é ruim apenas para os chineses, que trabalham, produzem, mas não podem usufruir os frutos desse esforço.
Assim, mantendo o papel de advogado do Schiff, não parece ter ficado claro que ele quis dizer que esses distúrbios sejam ruins para o mundo. Tampouco ele culpa a China pelos distúrbios americanos. Aliás, ele sempre deixou claro que os maiores prejudicados são os próprios chineses, como explico abaixo.
3) Quanto à afirmação de Schiff de que as exportações são “uma perda” para os chineses, pois “estariam em melhor situação se estivessem consumindo eles próprio sua produção”, sua intenção – e isso eu sei pois ele sempre fala isso em suas entrevistas – é dizer que a política monetária da China é obsessivamente voltada para exportações, algo que não faz mais sentido quando se vê o que está acontecendo com o dólar e quando se leva em conta o enorme potencial de seu próprio mercado interno.
Os chineses trabalham muito e praticamente não usufruem os frutos desse esforço, pois seus produtos são exportados em troca de títulos da dívida americana – algo que, convenhamos, não é muito inteligente. É como se os chineses fossem escravos de seu governo, cuja política cambial não lhes permite se beneficiar dos frutos de seu enorme esforço.
Ninguém discute que poupança é importante, porém não se pode dizer que os chineses estejam poupando de fato. Afinal, poupança significa deixar de consumir agora para consumir apenas no futuro. Porém, os chineses sequer estão podendo adiar esse consumo, já que estão dando para os outros seus bens produzidos. Eles estão trabalhando duro e produzindo apenas para entregar tudo aos americanos, e recebendo em troca títulos da dívida americana. Algo que, repito, não é uma estratégia muito inteligente. E também não pode ser encarado como poupança.
Ou seja, vou enfatizar – com o risco de soar repetitivo – qual é o ponto de Schiff: Os chineses trabalham, produzem, mas não ficam com a abundância de produtos típica de uma genuína poupança, que é o que genuinamente aumenta o bem-estar. Os produtos são criados e são dados aos americanos em troca de nada. Consequência inevitável da política cambial do governo chinês e sua neurótica preocupação com exportações.
Bobagem! A mera determinação de um valor de “câmbio” não configura “intervencionismo”. O padrão-ouro nada mais é que um currency board com o ouro atuando como moeda de reserva. Veja, no padrão-ouro, o dólar foi fixado pelo banco central americano em 1/20 de uma onça de ouro, já o franco foi fixado pelo BC francês a 1/100 de uma onça de ouro, e o pound pelo BoE a ¼ de uma onça de ouro. Os bancos centrais compravam e vendiam ouro (e sua moeda) para manter essa relação. Seguindo seu raciocínio acima, você também deveria chamar esse fenômeno de intervencionismo. O fluxo de moeda para a China, sob regime de padrão-ouro, faria com que o banco central chinês comprasse o ouro entrante emitindo renminbi para manter a paridade com o renminbi fixado ao ouro. Ou seja, faria exatamente o que faz hoje, com a diferença de que a moeda de reserva usada pela China é hoje o dólar, no lugar do ouro. Assim como o ouro o fazia, hoje o dólar flui livremente para todos os países do mundo.\r
\r
Me parece irônico que o padrão-ouro – regime mais fixo que pode existir – seja defendido por você e o Schiff, porém, vocês defendem ao mesmo tempo o câmbio flutuante como alternativa melhor, por ser livre de “manipulação”. Intervencionismo de verdade é imprimir dinheiro e forçar a desvalorização de sua moeda em regime flutuante, sem as algemas de um currency board, seja de dólar, ouro ou qualquer outro lastro.
Bom, eu estava me referindo ao padrão-ouro puro*, e não ao padrão-ouro clássico, que de fato tem esses defeitos que você delineou – os quais, concordo, são sim intervencionismo.
Já o padrão-ouro puro não tem nada de intervencionista – afinal, está-se apenas trocando moedas de ouro, as quais não são fixadas em relação a nenhum outro valor.
Por fim, eu também prefiro um currency board ao atual regime “flutuante” – mas eu não iria tão longe a ponto de afirmar que aquele é menos intervencionista que este. Afinal, no currency board, queira ou não, um valor aleatório está sendo definido pela autoridade monetária – e não há como provar que esse valor definido é o melhor.
O único padrão totalmente livre de intervenção seria o padrão-ouro puro – mas esse é praticamente uma utopia.
* Só pra esclarecer o que é um padrão-ouro puro: nesse sistema, a moeda de todo o mundo é o ouro, e os preços são cotados em gramas de ouro (ou em libras de ouro, ou em onças de ouro, o que dá tudo no mesmo).
Não existe banco central confiscando ouro pra imprimir um quantidade arbitrária de papel no seu lugar, e falar que esse papel é o equivalente a ouro – que é o que ocorre no padrão-ouro clássico, ou num currency board.
É utópico? É. Mas não seria intervencionista.
O padrão-ouro clássico não configura intervencionismo não, da mesma maneira que usar papel-moeda de um banco qualquer (100% lastreado por ouro) tampouco configura. O banco central é também um banco, que emite papel-moeda lastreado (no caso do padrão-ouro clássico), assim como um banco qualquer poderia fazer. Ou seja, um currency board não é intervencionista per se.\r
\r
Eu não estou discutindo a forma como o banco central adquiriu o ouro (confisco ou não), e tampouco o cenário de papel não lastreado por nada. Esses são assuntos distintos.\r
\r
O fato é que o padrão-ouro clássico, durante sua vigência, não tinha nada de intervencionismo, pois os papéis que circulavam no mundo inteiro, eram meras denominações para o lastro, no caso o ouro. No currency board vale o mesmo. Hong Kong diz usar o HK dollar, mas de fato usam o US dollar, assim como todos os países que possuem um currency board lastreado no dólar.\r
\r
Muito Obrigado Hélio!
Grande abraço,
Carlos
Espera aí, que agora a discussão ficou muito centrada num só ponto. Vou clarificar meus pensamentos apenas para não deixar margens para dúvidas.
Sim, é verdade que a maneira como o padrão-ouro clássico foi concebida não era intervencionista. Afinal, tudo o que foi feito foi dar um nome a um peso específico de ouro. Assim, uma onça de ouro passou a ser chamada de 20 dólares, e por aí vai. De fato, isso não é intervencionismo – assim, como não é intervencionismo dizer que duas moedas de 50 centavos são iguais a 1 real.
Porém, o intervencionismo começou a existir quando os bancos começaram a praticar reservas fracionárias, pois aí havia mais cédulas do que ouro. E quando os bancos centrais entraram em cena, então, aí é que lascou tudo, pois, como você corretamente disse acima, os bancos centrais, que começaram a criar dinheiro do nada, passaram a comprar e vender ouro (e sua moeda) para tentar manter essa relação. Ou seja, a coisa passou a ser totalmente artificial.
O mesmo raciocínio vale para um currency board. Quando este é criado do nada, adotando-se uma paridade qualquer entre, por exemplo, o dólar e uma moeda nativa, não há intervencionismo. O problema é manter as coisas dessa forma, pois sabemos que o currency board só poderia imprimir moeda estritamente em relação às suas reservas. Eles fazem isso na China? Duvido. Como também não fizeram na Argentina (não sei de Hong Kong).
Ou seja, a menos que o currency board se mantenha estritamente da maneira como começou, não é incorreto dizer que se trata de um sistema intervencionista. E como a China tem banco central, eu pessoalmente duvido que eles emitam renminbi estritamente de acordo com as reservas.
Em resumo: em sua concepção original, tanto o padrão-ouro clássico quanto o currency board de fato não são intervencionistas. Porém, quando se analisa no que eles foram transformados, aí não restam dúvidas de que ambos passaram a sofrer maciças intervenções das autoridades monetárias.
Mas essa é uma discussão subjacente e relativamente desimportante ao ponto central do artigo do Schiff, que diz que a política cambial chinesa é pior para os chineses do que para o resto do mundo.
A discussão ficou centrada neste ponto pois em seu primeiro post você sustenta a defesa da posição do Schiff toda neste ponto – “Consequentemente, se assumirmos que o que eu disse acima está correto, seria válido …”\r
\r
No currency board não há reserva fracionária – a reserva é de 100%, sempre. As compras e vendas de ouro (ou dólar) e de moeda local só existem para fazer cumprir esta reserva de 100%. Não há nada de artificial nestas compras e vendas.\r
\r
Em um currency board não se “adota uma paridade qualquer”. O padrão-ouro clássico era um currency board!!!! Em um currency board a denominação da moeda local (1 dinheiro, 5 dinheiros, 10 dinheiros) é irrelevante, pois o que importa é que a moeda local é um papel que representa uma unidade da moeda da reserva. Da mesma forma que no padrão-ouro o papel-moeda local representa uma unidade de ouro.\r
\r
Eu não disse que a China tem um regime de currency board, mas apenas que o BC chinês tem se comportado (sem a obrigação) como um currency board. Eles na verdade tem mais reservas em dólar que um currency board teria (tem lastro >100%). Na Argentina, o BC desobedeceu a constituição e alterou o lastro para menos que 100%, e o sistema quebrou. HK tem cumprido o lastro de 100%.\r
\r
E a posição do Schiff é que a política cambial chinesa é artificial, e danosa aos outros países. É como dizer que aquele indivíduo que vende sua mão-de-obra “barata” é imoral e prejudica terceiros, e a si próprio. Quanta baboseira mercantilista.\r
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\r
\r
Olá, Helio,\r
\r
Muito interessante a sua visão. Você poderia indicar alguns artigos que falam sobre o assunto (a política monetária na China)?\r
\r
Abracos
Mauricio, não me lembro de nenhum artigo interessante. Mas sugiro ler sobre currency boards (Steve Hanke é uma boa fonte), e sobre a história do padrão-ouro (What Has Government Done to Our Money, do Rothbard).\r
\r
Abs
Paul Krugman acredita ser possível transigir leis naturais impunemente.
* * *
Leandro, o que aconteceria se a China tentasse vender uma grande parte de seus títulos americanos?