O
que você prefere: ter uma televisão LCD agora ou só daqui a cinco anos? Um laptop hoje ou só daqui a sete anos? Uma barra de ouro agora ou daqui a uma década? Caso você saiba dirigir e goste da liberdade
de viajar segundo seu próprio horário, você preferiria ter um carro hoje ou só
daqui a dez anos, e ficar andando de ônibus até lá?
Embora
as respostas para as perguntas acima pareçam muito óbvias, sua implicação para
toda a teoria econômica é incomparável.
Trata-se da manifestação de um princípio básico da ação humana: o homem
prefere o usufruto de um bem no presente ao usufruto desse mesmo bem no
futuro. Esse é conceito da preferência temporal.
É
esse fenômeno natural que explica por que os bens presentes possuem um valor
maior, um prêmio, em relação aos bens futuros – e é esse fenômeno que fornece a
origem e a justificativa para o pagamento de juros.
O
fenômeno da preferência temporal, que é observável em inúmeros aspectos da vida
humana, é na verdade uma simples questão de bom senso: o homem prefere uma dada
quantia de um bem no presente à mesma quantia desse bem no futuro. Mais ainda: somente uma maior quantia desse
bem no futuro pode persuadir o homem a abrir mão desse bem no presente.
Afinal,
as pessoas não tratam uma dada quantia de um bem no presente e a mesma quantia
desse mesmo bem daqui a alguns anos como sendo o mesmo bem. Por exemplo, mesmo que não houvesse inflação,
as pessoas não consideram 100 reais hoje e 100 reais daqui a dez anos como
sendo o mesmo bem. Do ponto de vista
econômico, são dois bens diferentes.
Qualquer
um que se recuse a reconhecer o fenômeno da preferência temporal está
absolutamente incapacitado para entender fenômenos econômicos básicos. Por exemplo, uma indústria pode aumentar sua
produtividade e a qualidade de seus produtos caso ela adote um processo de
produção mais longo, mais metódico e, consequentemente, mais demorado. Se a preferência temporal não existisse,
todas as indústrias poderiam optar por esse procedimento, preferindo o processo
de produção que gerasse a maior quantidade de produtos sem se preocupar com
quanto tempo isso iria levar. O fato de
as indústrias nem sempre procederem assim é um exemplo da preferência temporal
em ação. Como explicou Mises, é a
preferência temporal que
“explica por que métodos de
produção menos demorados são escolhidos, não obstante o fato de que métodos
mais demorados gerariam um maior produto por unidade de insumo”.
Outro
exemplo prático da preferência temporal em ação, e do qual poucas pessoas se
dão conta, é o preço de um pedaço de terra.
Se a preferência temporal não existisse, o preço de qualquer pedaço de
terra produtivo seria infinito. Por
quê? Porque se não levássemos em conta a
existência da preferência temporal, esse pedaço de terra teria de ter hoje o
mesmo valor que teria no futuro, após ter produzido várias colheitas. Assim, o preço da terra hoje teria de ser
igual à soma de toda a sua produção durante todo o período futuro até o fim dos
tempos. Assim, se fosse estimado que um
determinado pedaço de terra pode gerar uma produção de 100.000 reais por ano,
alguém que fosse comprar essa terra teria de pagar um valor equivalente a 100.000
multiplicado pelo tanto de anos que ele estimasse que faltaria para o mundo
acabar a partir do momento da sua compra.
O fato de ninguém precificar as coisas dessa forma indica a existência
de preferência temporal.
Aplicações
Tendo
entendido a inevitabilidade da preferência temporal, o fenômeno dos juros fica
mais claro. Como um bem futuro tem menos
valor pra você do que esse mesmo bem no presente, você só irá aceitar abrir mão
desse bem no presente caso lhe seja prometida uma quantia maior desse mesmo bem
no futuro.
Por
exemplo, suponha que você é o único habitante de uma pequena cidade a ter um
laptop, o qual você usa diariamente. Eis
que surge um empreendedor local e lhe pede emprestado esse laptop por, digamos,
três anos, para que ele possa utilizá-lo como capital para fazer algum
investimento. Você só vai aceitar abrir
mão do seu laptop por três anos caso esse empreendedor lhe prometa pagar, após
esse período de três anos, um valor que seja maior do que o valor presente do
seu laptop. O mais natural é que você
exija, além da devolução do laptop, o pagamento de um valor adicional (se ele
vai pagar em dinheiro ou qualquer outro bem que você queira é o de menos). O fato é que você quer ser recompensado por
ter de abrir mão do seu laptop no presente.
Agora,
suponha que você tenha dois laptops e esse empreendedor lhe peça emprestado
apenas um. Nesse cenário, é provável que
a recompensa que você cobre por esse empréstimo seja menor que no primeiro caso
– afinal, você tem um laptop sobressalente, e não vai ficar de todo desprovido
de seu capital. Ou seja, como havia uma
maior abundância de capital (laptop) a ser emprestado, o preço cobrado pelo
empréstimo de uma unidade foi menor. O
custo de se abrir mão dessa segunda unidade é menor do que no primeiro caso. Consequentemente, quanto maior for seu
capital disponível para ser emprestado, menor o valor que você exigirá por
abrir mão de cada unidade.
Expandindo
esse exemplo para a economia de toda a cidade, fica mais fácil perceber como a
preferência temporal coordena os juros e como isso se reflete no processo de
crescimento econômico. Por exemplo,
imagine que os habitantes da cidade são indivíduos poupadores – isto é, são
indivíduos que consomem muito pouco. O
fato de eles consumirem pouco significa que eles estão mais voltados para o
futuro. Logo, a preferência temporal
deles é menor. Eles não são tão ávidos
para desfrutar bens no presente. Estão
dispostos a algum sacrifício (poupança sempre é sacrifício) para adiar o
usufruto desses bens.
Justamente
por consumirem pouco, por terem uma preferência temporal baixa, eles permitem
que haja mais bens disponíveis para ser emprestados e aplicados em processos de
investimento. Uma preferência temporal
baixa gera uma maior abundância de bens livres para ser emprestados.
Assim,
suponhamos que uma grande empresa dessa cidade queira iniciar um grande
empreendimento – por exemplo, a construção de um shopping. Para fazer esse investimento, a empresa vai
precisar de uma grande disponibilidade de capital: desde cimento, argamassa e
tijolo até tratores, escavadeiras, caminhões, maquinário pesado etc. Quanto maior for a poupança das pessoas desta
cidade, isto é, quanto menos elas tiverem consumido, maior será a
disponibilidade desses elementos (afinal, aquilo que não é consumido é poupado). E quanto maior essa disponibilidade, menor o
preço cobrado pelo uso de cada unidade deles.
Logo, a baixa preferência temporal das pessoas dessa cidade gerou uma
maior poupança – isto é, mais capital disponível para empréstimo -, o que fez
com que fossem menores os juros exigidos por cada unidade de capital.
Nesse
cenário – observe que ainda não estamos lidando com dinheiro – a poupança
disponível é genuína. A empresa que vai
fazer o empreendimento sabe com antecedência qual a real quantidade de capital
disponível para ela utilizar em sua obra, bem como quanto terá de pagar pelo
uso desse capital. O cenário observado é
o cenário real; não houve manipulações.
A quantidade de capital disponível (poupado) é aquela realmente
observada. Assim, a empresa estará apta
a calcular corretamente quanto capital está disponível para ser usado e quanto
irá gastar para adquiri-lo. Caso esteja
dentro do orçamento, a obra será empreendida sem sustos e, ao ser finalizada,
haverá consumidores aptos para consumir os bens gerados por ela, pois pouparam
para isso.
Agora
imagine que essa cidade, contrariamente ao exemplo anterior, seja povoada por
pessoas com alta preferência temporal – ou seja, voltadas para o presente. São pessoas consumistas, avessas à poupança. Querem o máximo possível para hoje. Nesse caso, o capital disponível foi quase
todo exaurido (quase todos os tijolos e cimentos já foram usados, os tratores e
as escavadeiras estão gastos, os caminhões estão dilapidados, há poucos laptops
disponíveis para rodar os programas de cálculo estrutural etc.). É óbvio que, nesse cenário, não há capital
disponível para sustentar um investimento vultoso como a construção de um
shopping. A empresa que fosse fazer tal
empreendimento rapidamente seria demovida da ideia ao ver a escassez de capital
disponível. Essa escassez de capital –
consequência natural da alta preferência temporal das pessoas – se traduziria
em um alto preço (juros) cobrado pelo uso do pouco capital que ainda resta,
pois a empresa estaria disputando o uso desse escasso capital com os moradores
consumistas, que cobram um preço muito alto para deixar de usá-los.
Em
ambos os casos, a introdução do dinheiro em nada muda o raciocínio. O fato de as pessoas terem baixa preferência
temporal, como no primeiro caso, se traduz em mais dinheiro disponível para
empréstimo. O fato de haver mais
dinheiro disponível para empréstimo é consequência de ter havido pouco
consumo. Logo, há uma relação direta
entre a quantidade de dinheiro poupada (disponível para empréstimos) e
quantidade de bens disponíveis no mercado.
Portanto, nesse caso, a empresa que quer construir o shopping não
precisa ir a campo para pesquisar qual a real disponibilidade de bens capital
(ferramentas) para sua obra – tudo o que ela precisa fazer é ver qual a taxa de
juros monetários cobrada para empréstimos.
Essa taxa de juros será um retrato fiel da real disponibilidade de
poupança (bens de capital).
O
mesmo é válido para o segundo caso. A
alta preferência temporal das pessoas resulta em mais consumo e menos dinheiro
disponível na poupança, o que consequentemente significa menos bens de capital
disponíveis para serem utilizados em investimentos. Por haver menos dinheiro na poupança, os
juros cobrados para empréstimos serão altos, sinalizando a inviabilidade do
investimento.
Ambos
os cenários relatados acima mostram como os juros funcionariam num ambiente de
genuíno livre mercado, onde não há manipulações monetárias, não há criação de
dinheiro e não há manipulação de juros por parte de alguma autoridade
governamental. Os juros monetários vigentes
na economia representariam fielmente a real disponibilidade de bens de capital
que podem ser utilizados em investimentos.
Da mesma forma, os juros também sinalizariam o poder de consumo da população:
uma baixa taxa de juros estaria indicando que as pessoas têm dinheiro poupado
e, consequentemente, poderão consumir mais no futuro (o que tornam viáveis
investimentos de longo prazo). Uma alta
taxa de juros estaria indicando que as pessoas não têm dinheiro poupado e,
consequentemente, não poderão consumir muito no futuro (o que inviabilizaria os
investimentos de longo prazo. Afinal,
quem iria consumi-los?).
Assim,
em um livre mercado, a taxa de juros – que é formada pela preferência temporal
das pessoas – coordena automaticamente a alocação de recursos na economia. Não haveria como haver investimentos errôneos
simplesmente porque estes seriam caros demais para ser iniciados. Um investimento de longo prazo só seria
empreendido se os juros vigentes indicassem haver uma possibilidade de lucros
futuros.
Como
explicou Rothbard,
“Em um mercado livre e
desimpedido, a taxa de juros é determinada puramente pelas preferências
temporais de todos os indivíduos que compõem a economia de mercado.
A essência de um contrato de empréstimo é que um “bem presente”
(dinheiro que pode ser usado no momento) está sendo trocado por um “bem
futuro” (um título de dívida que só poderá ser utilizado em um dado momento
futuro). Como as pessoas sempre preferem ter o dinheiro agora ao invés da
perspectiva de receber a mesma quantia em algum momento futuro, o bem presente
sempre exige um prêmio no mercado em relação ao bem futuro. Este prêmio é
a taxa de juros, e seu valor irá variar de acordo com o grau em que as pessoas
preferem o presente em relação ao futuro, ou seja, o grau de suas preferências
temporais.”
Como atrapalhar tudo
Insatisfeitos
com a baixa taxa de poupança da população do segundo exemplo, os políticos
locais criam uma entidade poderosa o suficiente para fazer parecer com que haja
mais capital disponível para o empreendimento do que realmente há.
Essa
entidade, que vamos chamar aqui de banco central, é dotada do monopólio da
criação de moeda, sendo que ela pode alterar toda quantidade de dinheiro da
economia a bel-prazer.
Assim,
para evitar que a empresa que quer construir o shopping desista da ideia por
causa da escassez de poupança (e dos juros altos, que é a consequência natural),
o banco central imprime dinheiro e o injeta no sistema bancário. Essa maior oferta de dinheiro irá fazer com
que o preço dele (os juros) caia.
Consequentemente,
animada com essa queda nos juros, a empresa agora passa a achar que vale a pena
fazer a construção do shopping – afinal, o investimento ficou barato e
certamente trará lucros futuros. As
obras começam.
Mas
há aí um severo desequilíbrio econômico: a preferência temporal dos habitantes
continua alta e eles continuam consumindo muito no presente – logo, há menos
bens de capital do que os juros fazem supor e, de quebra, a empresa terá de
disputar com a população consumista esses bens de capital.
No
início do processo, a sensação é de prosperidade. A empresa está contratando, empregando gente,
pagando salários e consumido bens de capital.
Os fornecedores ficam animados, pois veem um aumento das encomendas e de
sua renda. O crescimento econômico
parece sustentável.
Com
o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes. A escassez de bens de capital começa a ficar
aparente. Os preços deles sobem. Essa subida de preços faz com que a empresa
tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo esses bens de capital. Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem. O empreendimento vai ficando cada vez mais
inesperadamente caro. Os bens de capital
estão cada vez mais escassos. A espiral
escassez de bens/aumento dos juros vai se tornando mais intensa. Até que a empresa desiste e interrompe o
investimento. Os trabalhadores são
demitidos e os fornecedores são dispensados.
A aparente prosperidade econômica revelou-se insustentável. Capital e mão-de-obra foram desviados para um
investimento que não deveria estar ocorrendo.
O aumento do desemprego é inevitável.
Instala-se a recessão, que é o período de se corrigir esse
desequilíbrio.
A
fonte do problema é que a empresa iniciou um investimento voltado para o longo
prazo na crença de que havia capital suficiente para finalizá-lo. Os juros artificialmente baixos levaram-na a
crer que havia poupança disponível tanto para financiar as obras quanto para permitir
que os consumidores futuramente pudessem consumir o produto final. Mas não havia nem uma coisa nem outra.
Tudo
que havia era mais papel-moeda na economia.
Mas aumentar o dinheiro na economia não faz com que surjam mais bens de
capital para se fazer os investimentos.
O aumento do volume de dinheiro apenas faz com que os juros monetários
caiam sem que tenha havido um simultâneo aumento na poupança. O desequilíbrio econômico passa a ser inevitável.
Não
tivesse havido essa manipulação monetária, não teria por que se iniciar tal
investimento.
Finalizando
Como
vimos, os juros são fenômenos naturalmente oriundos da preferência temporal dos
indivíduos. Em um genuíno livre mercado,
os juros sinalizam a quantidade de poupança genuinamente disponível. Por ‘poupança’ entenda a quantidade de bens
que não foram consumidos e que, portanto, estão disponíveis para serem
utilizados em investimentos. Mesmo em
uma economia monetária os juros continuam sendo oriundos da preferência
temporal das pessoas. Quanto maior a
poupança, maior a disponibilidade de bens e menor os juros monetários. A quantidade de dinheiro poupada passa a ser
um reflexo da abundância de bens. A
existência do dinheiro facilita em muito a questão da contabilidade – ao invés
de ir a campo pesquisar quantos bens existem no mercado, basta olhar a taxa de
juros vigente.
Quando
uma entidade como o banco central é criada, os juros passam a ser
manipulados. Não há mais um livre
mercado na oferta de poupança e os juros monetários não mais são determinados
pela preferência temporal das pessoas. A
manipulação dos juros por um banco central nada mais é do que um controle de
preços, gerando escassez de capital da mesma forma que o controle do preço do
arroz faz com que esse produto suma das prateleiras. Os ciclos econômicos tornam-se recorrentes.
Por
fim, apenas uma consideração técnica adicional: no nosso atual arranjo
econômico, no qual transacionamos com dinheiro e há incertezas futuras, embora a
preferência temporal sozinha não determine os juros de mercado (juros de
mercado são os juros bancários e não a taxa SELIC), ela é um
ponto de partida. Segundo Hayek, a
preferência temporal determina o quanto as pessoas irão poupar, mas não
determina a taxa de juros de mercado.
Além da preferência temporal, coisas como produtividade marginal, risco,
oferta monetária, demanda por dinheiro, demanda por empréstimos etc., todas
elas têm um papel determinante na formação dos juros de mercado.
Mas
se a taxa básica da economia, que é a taxa SELIC, é manipulada pelo banco
central, as chances de as taxas de juros de mercado refletirem adequadamente a
disponibilidade de capital é praticamente nula.
Daí a recorrência dos ciclos econômicos.
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Para
ver uma ilustração animada de todo esse processo, assista a essa insubstituível
apresentação de PowerPoint
(em português).
Muito bom! Obrigado pelo didatismo e clareza. Aos poucos esse quebra-cabeça de juros, poupança e capital (que eu sempre tive dificuldade) vai se fechando.
Leandro Roque faz um trabalho excelente disseminando o verdadeiro conhecimento científico.
A praxeologia para Escola Austríaca é um Ás de espadas.
Este foi o melhor artigo sobre a crise que eu vi!Leandro Roque deve ser um ótimo professor!
Parabéns Leandro pelo excelente trabalho, com lógica e bom senso podemos compreender por que as atuais políticas econômicas intervencionistas se tornam desastrosas e consequentemente os politicos tenham que usar um bode expiatório (o “livre mercado”).
Prezados, agradeço muito todos os encômios. Mas, Carlos, não: não sou professor. E acho que nem quero. Abraços!
Permita-me colocar uma dúvida: como ficaria essa análise incluindo economia aberta e câmbio. Haveria a possibilidade de tanto governo, como setor privado, usarem o estoque de capital e poupança de outros países. Ou melhor, nem seria uma possibilidade, pois é quase obrigatório recorrer as importações pois elas são um meio de transmissão do progresso técnico
Também tenho uma dúvida muito semelhante a do Edson… pode a inflação monetária de um governo criar uma bolha em outro país? (eventualmente um país que atraia mais os investidores do país onde o governo infla). Ou o câmbio flexível eliminaria esse risco?
\n
\nE, de fato, esse artigo está muito bom. Explica muito claramente como deveriam ser os juros. Parabéns!
O trecho do texto:
“No início do processo, a sensação é de prosperidade. A empresa está contratando, empregando gente, pagando salários e consumido bens de capital. Os fornecedores ficam animados, pois veem um aumento das encomendas e de sua renda. O crescimento econômico parece sustentável.
Com o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes. A escassez de bens de capital começa a ficar aparente. Os preços deles sobem. Essa subida de preços faz com que a empresa tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo-os. Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem. O empreendimento vai ficando cada vez mais inesperadamente caro. Os bens de capital estão cada vez mais escassos. A espiral escassez de bens/aumento dos juros vai se tornando mais intensa. Até que a empresa desiste e interrompe o investimento. Os trabalhadores são demitidos e os fornecedores são dispensados. A aparente prosperidade econômica revelou-se insustentável. Capital e mão-de-obra foram desviados para um investimento que não deveria estar ocorrendo. O aumento do desemprego é inevitável. Instala-se a recessão, que é o período de se corrigir esse desequilíbrio.
A fonte do problema é que a empresa iniciou um investimento voltado para o longo prazo na crença de que havia capital suficiente para finalizá-lo. Os juros artificialmente baixos levaram-na a crer que havia poupança disponível tanto para financiar as obras quanto para permitir que os consumidores futuramente pudessem consumir o produto final. Mas não havia nem uma coisa nem outra.”
explica exatamente o que aconteceu em Dubai. Duabai é um exemplo perfeito para corroborar a teoria dos ciclos econômicos. Quanta areia e trabalho não foi desperdiçada lá?
O artigo é excelente. Parabéns!
Edson,
Bom, em primeiro lugar, poupança externa pode ser interpretada de duas maneiras, ambas equivalentes: 1) dinheiro que os estrangeiros pouparam e nos enviaram; e (2) produtos que os estrangeiros pouparam e, consequentemente, nos permitiram comprar.
Portanto, em uma economia aberta e com câmbio, a coisa em nada muda. Para um país poder importar poupança, ele precisa pagar por ela. Como ele paga? Com a própria poupança – no caso, os produtos que a população local se absteve de comprar (poupança) são enviados para o exterior em troca dessa importação.
Os EUA, por serem o único país com o privilégio de ter a moeda internacional de troca, podem simplesmente imprimir dinheiro e trocá-lo por produtos estrangeiros. Mais detalhes sobre isso e outras questões cambiais podem ser vistas aqui: (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=419)
Thiago,
Quando um país infla sua oferta monetária e exporta essa inflação, o banco central dos países que recebem esse dinheiro tem duas opções: ou deixa a moeda estrangeira entrar livremente e apreciar a moeda local (uma opção política que desagrada o setor exportador), ou compra essas divisas e expande a base monetária (o que faz com que os juros caiam). Os governos normalmente escolhem essa segunda opção, o que pode sim criar bolhas.
Um câmbio puramente flexível poderia eliminar essas bolhas, mas desagradaria o poderoso setor exportador. Por isso, câmbio flexível puro é ficção.
Rodrigo,
Obrigado. Nesse fim de semana estaremos publicando um artigo completo sobre Dubai.
Concordo com os demais. Esse artigo é excelente! Tanto didaticamente como logicamente.
Senhores Libertários\n\nVamos o sair do sonho e discutir a realidade:\n\nComo, e por que meios, essa escola pretende extinguir o Estado?\n\nProcurem não pareçer muito socialistas na resposnta\n
O Estado merece ser dispensado por Justa-Causa:\nA superioridade dos sistemas auto-organizadores é ilustrada pelos sistemas biológicos, em que produtos complexos são formados com uma precisão, uma eficiência, uma velocidade sem iguais.” (BIEBRACHER, C., NICOLIS, G.; SCHUSTER; Self Organizations in the Physico-Chemical and Life Sciences; Relatório EUR 16546, European Commission, 1995; cit. PRIGOGINE, I.,: 75)
De primeira não havia entendido muito bem, mas agora está na ponta da língua.
Leandro merece o Prêmio Nobel de Ciências econômicas
Todos que cremos na economia de mercado, devemos publica-la o dia inteiro e todo dia e em todos os lugares\n\n
Bela tentativa para justificar a cobrança dos juros bancários.\n\nSupondo-se uma situação onde a taxa de juros seja absurda, nós chegaríamos ao ponto onde a preferência temporal não poderá ser mais satisfeita. O que isso alteraria na premissa incial? Nada. Nós estaríamos nos parágrafos iniciais deste artigo.\n\nPortanto, a cobrança de juros só serve para onerar o não-trabalho, para os possuidores do grande capital manterem o controle sobre uma economia com grave hemorragia. É só observar a quantidade de capital produtivo nos dias de hoje em comparação ao volume das “aplicações financeiras” dos “livres mercados”…\n\nChegará em breve NOVAMENTE a época quando a humanidade se libertará da escravidão dos juros.\n\nA hora está chegando, a hora da Luta contra as Altas Finanças.
Discurso economicamente prosaico. Em um genuíno livre mercado – que é o cenário apresentado no artigo -, se as preferências temporais fossem tão altas ao ponto de elevar os juros a uma “taxa absurda”, essa “taxa absurda” inevitavelmente atrairia mais poupança (tanto interna quanto externa), e essa maior oferta de poupança faria com que as taxas caíssem.
Portanto, em um livre mercado, taxas de juros extremamente altas – além de provocarem o benéfico efeito de compatibilizar o nível da poupança com os reais recursos disponíveis – não teriam como se manter em nível alto por muito tempo.
Mas como no cenário atual temos bancos centrais manipulando os juros, sem quaisquer considerações por leis econômicas, então as chances de estar havendo um descasamento entre o nível real de poupança e as taxas de juros praticadas são de fato enormes – e é essa intervenção que você deveria atacar.
Voltemos agora à realidade dos fatos.\n\nPode ser que – na teoria econômica ortodoxa – uma alta taxa de juros atraia mais poupança, porém, a prática mostra que certas “aplicações” especulativas “roubam” esses recursos da poupança tradicional.\n\nMas mesmo que isso fosse corrigido, nada justifica a escravização do povo pelo juros. O Brasil e todas as outras grandes nações pagam trilhões todos os anos somente a título de juros para refinanciar suas dívidas internas. É uma sangria dos recursos públicos e das forças produtivas da nação. Imaginem quanto de imposto poderíamo abaixar caso fosse repensado o sistema econômico baseado nos juros bancários. \n\nAlém disso, a prática atual perpetua no poder certas dinastias financeiras, ao contrário da saudável alternânica deste poder por parte das grandes indústrias através de suas respectivas descobertas.\n\nLeiam o artigo \n\nO governo mundial de facto da atualidade \n\nno link:\n\nhttp://www.inacreditavel.com.br/novo/mostrar_artigo.asp?id=588
Inacreditáveis são as confusões que você está fazendo.
\nA sociedade brasileira é espoliada em bilhões anualmente para pagar juros que uma instituição em particular (governo) assumiu. Isso por si só é desonesto, assumir dívida e obrigar outros a pagarem. Óbvio que uma coisa tão desonesta e violenta vai gerar péssimos efeitos e desperdício de riqueza.
\nMas daí a concluir que os juros em si são um problema? Os juros são algo perfeitamente natural – e necessário – pra o funcionamento da economia, como esse artigo demonstra. Não dá pra simplesmente “acabar” com os juros, é impraticável. O que tem que acabar é o controle estatal sobre os juros, assim como a possibilidade do governo de se endividar. É isso que beneficia tanto os grandes lobistas, que podem usar a poupança alheia sem autorização.
Sem juros não existe empréstimo, simples assim.\nInacreditável que existam pessoas que não pensem nem por um segundo nas coisas que dizem.
Caríssimos,\n\npara o povo, é irrelevante se ele paga 8, 15 ou 20% de juros ao ano.\n\nO que ele analisa é somente se as mensalidades passam ou não no orçamento.\n\nOs juros são a remuneração do não-trabalho.\n\nÉ preciso repensar a economia. Sei que é difícil, pois as mentes foram condicionadas ao longo das décadas por esta obviedade.\n\nMas vale o esforço.
haha, inacreditável, comece você a emprestar tua grana a juros 0. \nCada uma…
Tenho certeza que muita gente vai gostar.
\nVocê é contra aluguel também? Quem tem mais do que uma casa tem que ceder as outras pra quem quiser morar lá a custo zero?
olá, Leandro,\r
\r
Numa de suas repostas vc postou isso:\r
\r
Um câmbio puramente flexível poderia eliminar essas bolhas…\r
\r
Vc poderia explicar com detalhes como isso funcionaria?\r
\r
Abraços
Prezado Maurício,
Acho que está havendo uma pequena confusão. O que eu disse é que mesmo um câmbio puramente flexível não pode impedir o fenômeno da inflação simples.
Está nos comentários desse artigo, e é exatamente o último comentário:
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=651
Leandro,
Acho que o Maurício se referia à resposta que você deu a mim, dizendo que um câmbio flexível poderia evitar a “exportação” de uma bolha.
Eu confesso que ainda tenho um pouco de dúvida sobre como…
Se um país expande sua base monetária para abaixar os juros, e as pessoas pegam empréstimos nesse país para emprestar em outro com taxas “naturais” (e maiores), isso não vai derrubar a taxa de juros no país destino? Um câmbio flexível faria a moeda do país destino se valorizar em relação a do país expansionista, o que é ainda mais um incentivo para os investidores continuarem a prática – além dos juros mais altos, lucram com a alta da moeda estrangeira…
Isso não transferiria a bolha para o outro país no final das contas?
Abraços,
Tiago.
Tiago, aí a abordagem é diferente. Se a dúvida do Maurício era essa também, então permitam-me reformular o que disse.
Veja bem: se um país expande sua base monetária para diminuir os juros, e as pessoas pegam empréstimos nesse país para emprestar para outro país com taxas maiores, isso somente irá derrubar a taxa de juros no país destino caso o Banco Central imprima dinheiro para comprar essas divisas. Porém, caso o BC opte por não intervir, o que vai acontecer é que o câmbio desse país vai ficar apreciado.
É verdade que tal apreciação cambial irá continuar estimulando os investidores externos a investir aqui, principalmente comprando títulos públicos. Porém, enquanto o BC se eximir de criar dinheiro para comprar essas divisas, não há motivos para os juros caírem (tudo o mais constante, obviamente).
Agora, é óbvio que não é isso que ocorre na realidade. O BC sempre intervém para comprar divisas. E, na maioria dos casos, ele imprime dinheiro para fazer essa compra – o que provoca, sim, uma queda nos juros.
Aliás, foi exatamente isso o que aconteceu no Brasil antes da crise, como explicitado aqui: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=249
Portanto, a bolha é transferida de um país para outro apenas se o BC do país-destino intervir no mercado de câmbio, criando moeda para comprar essas divisas. Como é isso que ocorre na prática, então é um fato que as bolhas são exportadas.
Por outro lado, um sistema de câmbio flutuante puro (algo fictício no mundo de hoje), poderia sim impedir a formação de bolhas originadas de fora. Acho que realmente era a isso que o Maurício se referia.
Olá, Leandro, era a isso que eu me referia mesmo.\r
\r
Mas deixe eu explorar um pouco mais os seus conhecimentos:\r
\r
1) Num cenário de câmbio flutuante puro (sem expansão da base monetária), vc poderia descrever ( as etapas ) como funciona o mecanismo de entrada e saída de dólares do país?\r
\r
2) O país não estaria sujeito a uma bolha independente do cambio ser flutuante caso país fosse inundado por “fiat money” e subitamente esse dinheiro desaparecesse? \r
Esse dinheiro criado do nada (dólares) pode ir para o consumo, investimento, bolsa de valores etc. Este montante de dólares envia sinalizações para o mercado interno de que há oportunidade de ganhos redirecionando reais para determinados setores criando uma bolha. No momento que esse dinheiro desaparecesse a estrutura de capital não é recomposta provocando o estouro da bolha?\r
\r
Abraços,\r
\r
Maurício
Maurício,
1) Seria como é hoje. Os dólares entram no país na conta do exportador, que tem de convertê-los em reais. Os reais ficam com o exportador e os dólares ficam na carteira do banco com quem o exportador negociou a conversão de dólares em reais.
Nas importações, ocorre o inverso. O importador tem de trocar reais por dólares e enviá-los para o exterior. O banco de quem ele compra os dólares fica com seus reais, e o dólar vai pra fora.
2) Supondo-se que o câmbio seja flutuante puro, esse cenário ocorreria apenas caso a moeda estrangeira – por exemplo, o dólar – pudesse ser utilizada livremente aqui. Como ela não pode, seu efeito é apenas sobre o câmbio. Repito: como não está havendo criação de moeda (está havendo apenas entrada de uma moeda estrangeira que não pode ser usada aqui dentro) e nem queda nos juros (tudo o mais constante), não há motivos para haver bolhas.
A menos que essa entrada de dólares provocasse, por um algum motivo, um redirecionamento maciço de reais para uma área muito específica da economia. Aí seria o equivalente aos royalties de petróleo do Rio de Janeiro (pode causar bolhas, mas não ciclos econômicos). Mas tal hipótese é tão improvável quanto a existência de um câmbio flutuante puro.
Sendo assim, só pra deixar claro: no mundo real, não há câmbio flutuante puro, o que significa que uma entrada maciça de dólares acaba gerando expansão da base monetária (o BC imprime reais para comprar o dólar) e queda de juros.
O BC também pode vender títulos e utilizar o dinheiro arrecadado para comprar os dólares, mas se fizesse isso em grande escala causaria um aumento dos juros e da dívida.
Portanto, sim, no mundo real a entrada de dólares pode provocar bolhas – bolhas essas que seriam improváveis num ambiente de câmbio flutuante puro.
Digamos que o governo extinguisse hoje o Bacen e parasse de tentar controlar a economia. Deixando que os bancos criem suas moedas como desejarem e concorram entre sí pela melhor moeda. O risco de começarmos a usar dolares não seria enorme? O que nos colocaria a mercê do FED!\r
Acredito que nós que entendemos um pouco de ciclos economicos, inflação, poupança… não iriamos usa-lo, pelo menos não em larga escala ou como unica moeda ou principal moeda, usariamos mais sabiamente. Eu só usaria se realmente precisasse, por exemplo. Porém a economia no geral não ficaria dependente do FED e vulneravel por suas ações de política monetária?
Não necessariamente, Zéh. Nesse cenário, você teria a completa liberdade de escolher com qual moeda quer transacionar. A partir do momento que o dólar começasse a se desvalorizar — característica que precede os ciclos econômicos — as pessoas passariam a utilizar outras moedas mais fortes.
O fenômeno dos ciclos economômicos e da inflação ocorre justamente porque não há a opção de se utilizar outras moedas — você fica à mercê daquele monopólio monetário.
Além do mais, muitas outras qualidades dum sistema de moedas concorrenciais iriam beneficiar a sociedade. Por exemplo, duas escolas de pensamento econômico discordam sobre o uso do sistema bancário de reservas fracionárias. Em um mercado de moedas concorrenciais, essa discórdia não precisa de uma resolução. Aqueles que estão confortáveis com as reservas fracionárias podem fazer depósitos ou utilizar o dinheiro emitido por instituições que façam uso de reservas fracionárias. Os que não gostam, poderiam utilizar a moeda daquelas instituições que praticam reservas de 100%.
Enfim, dizer que uma maior opção de moedas seria mais perigoso que o atual arranjo monopolizado pelo governo é o mesmo que dizer que a existência de uma grande diversidade de marcas de carro é mais perigoso do que se houvesse apenas uma marca, com tudo padronizado.
Olá, Leandro,\r
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Obrigado pelas respostas. Só mais alguns pontos para exercitar:\r
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1) Qual o destino dos dólares que ficam na carteira do banco? Eles tem de ir obrigatoriamente para o BC e este pode fazer alguma outra coisa com os dólares além de comprar títulos da dívida americana?\r
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Vc pode indicar uma literatura que fale um pouco sobre este assunto no Brasil?\r
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No cenário de câmbio flutuante puro vc está considerando que a moeda é totalmente conversível?\r
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2) Ainda considerando um cenário em que o país mantenha a base monetária constante e que o Fed imprima dinheiro e baixe a taxa de juros artificialmente.\r
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O fato de termos inúmeras multinacionais no país e elas terem acesso a dívida barata em dólares fazendo com que o custo de capital da empresa caia e consequente viabilizando investimentos que outrora não seriam aprovados a taxas naturais de mercado não faria com que se criassem bolhas (não ciclos econômicos) em determinados setores também?\r
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Se tivessemos membros da autoridade monetária que conhecessem a teoria austríaca e estes soubessem que estes dólares não são dólares “bons” e que poderiam ocasionar os efeitos num cenário hipotético (e extremo) do item 2 do meu primeiro comentário (que vc considerou equivalente aos royalties do Rio) e este que mencionei agora no item 2.\r
A atitude de intervir no mercado cambial para impedir a entrada destes dólares, neste caso não seria uma intervenção “boa”?\r
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Abraços\r
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Maurício,
1) Qual o destino dos dólares que ficam na carteira do banco? Eles tem de ir obrigatoriamente para o BC e este pode fazer alguma outra coisa com os dólares além de comprar títulos da dívida americana?
Os dólares ficam nas carteiras dos bancos (e em suas casas de câmbio), que podem fazer o que quiser com eles. Os bancos não são obrigados a dar alguma destinação especial a eles.
Vc pode indicar uma literatura que fale um pouco sobre este assunto no Brasil?
Ih, especificamente sobre isso não conheço, não. Você aprende mais conversando com quem é da área bancária.
No cenário de câmbio flutuante puro vc está considerando que a moeda é totalmente conversível?
Não. Totalmente conversível significa que ela também pode ser usada como moeda corrente, o que não é o caso.
2) Ainda considerando um cenário em que o país mantenha a base monetária constante e que o Fed imprima dinheiro e baixe a taxa de juros artificialmente.
O fato de termos inúmeras multinacionais no país e elas terem acesso a dívida barata em dólares fazendo com que o custo de capital da empresa caia e consequente viabilizando investimentos que outrora não seriam aprovados a taxas naturais de mercado não faria com que se criassem bolhas (não ciclos econômicos) em determinados setores também?
Nesse caso, as multinacionais trocariam dólares por reais, apreciando o câmbio. Poderia haver bolhas apenas se várias multinacionais voltassem seus investimentos para a mesma área, algo um tanto implausível. Assim, por exemplo, se todas se dedicassem à construção de shoppings centers, é provável que ocorressem aumentos nos preços de matérias-primas como cimento, aço e vergalhão, além de uma elevação salarial dos trabalhadores da construção civil.
Sim, é possível, mas o investimento teria de ser vultoso.
Se tivessemos membros da autoridade monetária que conhecessem a teoria austríaca e estes soubessem que estes dólares não são dólares “bons” e que poderiam ocasionar os efeitos num cenário hipotético (e extremo) do item 2 do meu primeiro comentário (que vc considerou equivalente aos royalties do Rio) e este que mencionei agora no item 2.
A atitude de intervir no mercado cambial para impedir a entrada destes dólares, neste caso não seria uma intervenção “boa”?
Não vejo por quê. Essa intervenção geraria expansão na base monetária, diminuindo juros e, aí sim, propiciando ciclos econômicos. No outro caso, quando não há intervenção, tem-se no máximo o fenômeno da inflação simples – fenômeno pontual e muito menos danoso que ciclos econômicos.
Olá, Leandro,\r
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Desculpe-me se estou sendo chato.\r
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Essa intervenção geraria expansão na base monetária, diminuindo juros e, aí sim, propiciando ciclos econômicos. No outro caso, quando não há intervenção, tem-se no máximo o fenômeno da inflação simples – fenômeno pontual e muito menos danoso que ciclos econômicos.\r
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O governo pode, como vc mesmo disse, emitir dívida o q aumentaria a taxa de juros interna. Neste caso não seria melhor que uma inflação simples?\r
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Abraços\r
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Seria meio que enxugar gelo, Maurício. Esse aumento dos juros atrairia mais dólares e reiniciaria todo o ciclo.
Ademais, essa opção do aumento dos juros é politicamente impopular, além de desvirtuar a política monetária já pré-estabelecida.
É verdade, vc tem razão.\r
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Valeu\r
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Abraços
Não tem Lew Rockwell, não tem Tom Woods, não tem Joseph Salerno, nem mesmo Ron Paul. Os melhores artigos, os mais elucidativos, são os do Leandro. Parabéns por mais esse artigo, Leandro.
Abs!!
Concordo com o Caio, e considero esse artigo talvez o mais importante do site. Mostra de maniera bem clara e didática como os ciclos econômicos ocorrem e como poderiam ser evitados.
Infelizmente pouca gente dá atenção a essencial questão da manipulção da moeda.
Prezados Caio e Thames, muito agradecido pelas gentis palavras, bastante exageradas, obviamente.
Mas confesso que esse é um dos meus artigos favoritos. Acho que ele ajuda a esclarecer bem por que as manipulações monetárias não têm como deixar todos mais ricos. Elas apenas enriquecem alguns em detrimento de vários outros, além de toda a destruição de capital que ela provoca – afinal, grande parte do capital que foi direcionado para investimentos errôneos é exaurido, sendo impossível sua recuperação e reaproveitamento. E poucos entendem isso.
Grande abraço!
Olá, Leandro.
Sei que minha pergunta esta fora do escopo da questão. É possível um pais como nosso pagar toda sua divida interna, extinguir a contração de futuras dividas e ter superávit através somente de um imposto digamos justo?
Luiz,
Possível é. Plausível, não. A dívida interna bruta está em 64% do PIB (algo como R$ 2,011 trilhões) – um estrondoso aumento quando se considera que ela era de 56,4% ainda em 2008.
Como você paga esse valor num prazo humanamente suportável? Você poderia vender todos os ativos do governo e, ainda assim, creio que o valor não seria atingido.
Voltar a arrecadação tributária para o pagamento da mesma também seria possível, mas não plausível. Teria de haver corte de gastos em vários setores, e isso é constitucionalmente proibido.
Ademais, há também um fator moral em jogo. Quando o governo contrai dívidas, ele toma o dinheiro de terceiros para pagá-la. Ou seja, o governo não compromete os seus ativos, mas sim os ativos dos contribuintes, estando o credor ciente de que o principal e os juros serão pagos através do confisco involuntário da propriedade privada. Ora, por que tem de ser assim? É como se eu me endividasse para comprar um carro e prometesse à concessionária que pagaria a dívida, mas com o seu dinheiro. É algo moralmente aceitável duas partes incorrerem num acordo que será saldado com o confisco do dinheiro de terceiros?
É por isso que há aqueles que dizem que o calote dessa dívida não seria absolutamente nada errado. Afinal, quem comprou títulos do governo deveria estar ciente de que tanto ele quanto o governo são cúmplices na violação, que ocorrerá no futuro, dos direitos de propriedade de terceiros, algo que dificilmente deve ser considerado como contrato.
Ademais, se a compra de títulos da dívida é de fato considerada um investimento (como todos consideram), então ela também tem de estar sob o risco de não dar retorno, como qualquer investimento.
De fato, o ideal seria a proibição de toda e qualquer contração de dívida futura, obrigando o governo a se financiar somente via impostos. O simples fato de não haver mais títulos da dívida do governo à venda faria com que a poupança fosse destinada ao financiamento de atividades mais produtivas, ao invés de desperdiçada com o sustento da burocracia – que é exatamente o que ocorre hoje.
Esse arranjo é mais propício em um sistema de padrão-ouro – embora, obviamente, possa ocorrer também no atual sistema de dinheiro de papel-pintado.
Realmente a maneira mais rápida de acabar com a dívida pública é através de um calote total, mas com uma sequência absolutamente catastrófica de eventos seguindo, como o colapso do sistema bancário, pensionistas sem poder receber suas pensões, grupos de pressão em guerra civil nas ruas, a ascenção de novos movimentos políticos. É o que vimos na Argentina e na Rússia. Toda esta volatilidade e destruição acarreta custos extras. E o que sai deste caos não há como saber.
A Argentina hoje ainda tem uma dívida no mesmo nível da brasileira, enquanto a Rússia hoje é praticamente debt-free, uma posição bastante invejável no cenário atual.
Como efeito colateral, os mercados não vão emprestar a juros baixos para estes países caloteiros durante décadas.
Mas há uma maneira muito mais ordenada de acabar com a dívida pública. É necessário que o governo mostre austeridade em períodos de crescimento prolongado. Isto faz o denominador (PIB) aumentar, reduzindo a razão dívida/PIB. Aí qualquer receita maior do que o esperado pode ser usada para progressivamente abater a dívida.
Da mesma maneira que o jogo político contingencia entradas futuras para gastos, também poderia se comprometer a uma redução anual da dívida. Mas a tentação para o político oportunista vai ser grande: para um país com baixo endividamento o mercado vai oferecer taxas cada vez melhores. É preciso mudar esta idéia encrustrada a décadas no mainstream econômico de que a dívida pública seja algo natural ou desejável.
Ref. para este comentário: [www.reocities.com/projetoperiferia2/secC2.htm#secc27]\r
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Me diga o seguinte: Por quê, numa decisão de não fazer nada (i.e. não consumir), uma pessoa (juntamente com seus ou suas herdeiras) pode receber para sempre uma recompensa divorciada de qualquer atividade produtiva ?????? \r
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Mesmo que as pessoas efetivamete trabalhem (criando mercadorias), apenas serão recompensadas através de um ato de abstenção???? \r
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Ora, dificilmente isto pode ser considerado um sistema justo!!! \r
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Conforme David Schweickart declarou, “O capitalismo recompensa alguns indivíduos perpetuamente. Ora, se isto pode ser justificado pelo critério da contribuição, qualquer pessoa pode argumentar que algumas contribuições tem um caráter eterno”. [Against Capitalism, p.17]. \r
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Além do mais, aquele ou aquela que recebe o juro pode passar o benefício dessa sua decisão única para sua família após ele ou ela morrer, o que debilita ainda mais a teoria da “abstinencia”. \r
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Em virtude dessa debilidade da teoria da “abstinencia” e da “espera” Bohm-Bawark apresentou a teoria da “preferencia de tempo” (onde a mais valia é gerada pela troca de bens atuais por bens futuros, como, em sua hipótese, bens futuros valem menos que bens atuais surge uma “preferencia de tempo”). \r
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A psicologia dos indivíduos é condicionada pela situação social onde se encontram! Nada pode ser mais certo!\r
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Atitudes como “abstenção” ou “espera” são muito fáceis de ser executadas quando se é rico!\r
Algumas “preferencias de tempo” são também determinadas pela posição social. Se alguém tem dinheiro mais que suficiente para suas necessidades do dia-a-dia, essa pessoa pode mais facilmente “descontar” o futuro (por exemplo, o produto futuro que surge com o labor dos trabalhadores se valorizará mais que seus correntes salários simplesmente porque sem seus salários não haveria futuro para os trabalhadores). E se alguma “preferencia de tempo” é dependente de fatores sociais (tais como acesso a recursos, classe social, etc.), então o juro não pode estar baseado em nenhuma avaliação subjetiva, uma vez que não existe o fator independencia. Em outras palavras, poupar não expressa “preferencia de tempo”, ela simplesmente expressa aumento da desigualdade.\r
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Mesmo se ignorassemos o problema da influencia das desigualdades na “preferencia de tempo” subjetiva dos indivíduos, mesmo assim essa teoria não justificaria a existencia do juro. Isto é devidamente explicado pelo destacado economista Joan Robinson nestes termos: \r
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“A noção de que seres humanos descontam no futuro certamente parece ter correspondecia com a experiência subjetiva de alguém, mas a conclusão extraída disso é um non sense, mesmo que as pessoas tenham suficiente senso para desejar a capacidade de exercitar o poder de consumo tanto quanto sua sorte o permita, e muitas pessoas possuem renda mais alta no presente do que esperam possuir no futuro (rendimentos de salário retrocederão e os empresários parecem estar melhor agora do que esperam estar no futuro, etc.). Muitos olham ao longo de suas próprias existencias e desejam proporcionar poder de consumo para seus herdeiros. Assim, um grande número de pessoas […] procura ávidamente por um veículo seguro onde possam angariar poder aquisitivo no futuro […] É impossível dizer que preço seria pago muma situação onde existe um mercado para o presente versus um mercado para um futuro poder aquisitivo. Insensível a qualquer influência exceto o desejo de indivíduos determinando o padrão de tempo de seu consumo. É como um mercado rendendo uma taxa negativa de desconto…\r
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“A taxa de juros normalmente é positiva por algumas diferentes razões. O atual poder de consumo é até certo ponto valioso porque, sob as regras do jogo capitalista, ele permite aos proprietários […] empregar trabalho e garantir produção que renderá um excedente de entradas sobre os custos. Em uma economia em que a taxa de lucro é presumida como positiva, a taxa de juros é positiva [portanto] o presente valor do poder aquisitivo excede seu valor futuro na mesma amplitude. […] Não existe nada que possa ser feito como a subjetiva taxa de desconto do futuro da preocupação idividual. . . ” [The Accumulation of Capital, p. 395]\r
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Assim, juro nada tem a ver com “preferencia de tempo” e tudo a ver com desigualdades associadas ao sistema capitalista. Com efeito, a teoria da “preferencia de tempo” assume aquilo que tenta provar. O juro é positivo simplesmente porque o capitalista pode se apropriar da mais valia dos trabalhadores, por causa disso o dinheiro corrente é mais valioso que o dinheiro futuro. Na verdade, no incerto mundo do futuro o dinheiro pode ter sua própria recompensa (por exemplo, os trabalhadores desempregados no futuro podem valorizar mais a mesma quantidade de dinheiro que valorizam no presente). Apenas o fato de prover autoridade para alocar recursos e explorar trabalho assalariado é que torna o dinheiro valioso agora. Em outras palavras, o capitalista não oferta “tempo” (como a teoria do “valor do tempo” argumenta), ele provê autoridade/poder. \r
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Será que alguem que poupa merece uma recompensa pela poupança? Em simples palavras, absolutamente não. Por que? Porque o ato de poupar produz tanto quanto adquirir uma mercadoria, ou seja, nada. Evidentemente a recompensa por adquirir uma mercadoria é a própria mercadoria. Análogamente, a recompensa por poupar não é o juro mas a própria poupança — a habilidade de consumir ao longo do tempo.\r
“Agora imagine que essa cidade, contrariamente ao exemplo anterior, seja povoada por pessoas com alta preferência temporal – ou seja, voltadas para o presente. São pessoas consumistas, avessas à poupança. Querem o máximo possível para hoje. Nesse caso, o capital disponível foi quase todo exaurido (quase todos os tijolos e cimentos já foram usados, os tratores e as escavadeiras estão gastos, os caminhões estão dilapidados, há poucos laptops disponíveis para rodar os programas de cálculo estrutural etc.). É óbvio que, nesse cenário, não há capital disponível para sustentar um investimento vultoso como a construção de um shopping. A empresa que fosse fazer tal empreendimento rapidamente seria demovida da ideia ao ver a escassez de capital disponível. Essa escassez de capital – consequência natural da alta preferência temporal das pessoas – se traduziria em um alto preço (juros) cobrado pelo uso do pouco capital que ainda resta, pois a empresa estaria disputando o uso desse escasso capital com os moradores consumistas, que cobram um preço muito alto para deixar de usá-los.”
– Só tem um porém. Se este dono de shopping tiver poupança suficiente para investir num lugar sem precisa recorrer a empréstimo. Ele não poderia investir nesta cidade??? Aliás, se UM só habitante desta cidade, com uma mente empreendedora e inovador, trabalhou e poupou, juntou dinheiro com o seu trabalho, ele não pode aplicar o seu capital (poupança) em um negócio (digamos, um restaurante) e acumular capital? Tu tá generalizando, Leandro. Seria como dizer todo o mundo desta cidade X é perdulário…
Leandro, se uma baixa preferência temporal em um ambiente onde o estado não interfira no crédito e na base monetária necessariamente implicará em uma baixa taxa de juros? Não pode acontecer de a baixa preferência temporal não se converter em baixas taxas de juros, pelo menos no curto prazo?
Se boa parte da população, depois de muito tempo com uma preferência temporal bem alta e acumulando dívidas atrás de dívidas para bancar o consumo, se esta parte da população resolver diminuir drasticamente o consumo para pagar as dívidas sem que a outra parcela da população mude o seu nível de consumo, a preferência temporal da população terá diminuído bastante, não? Olha que loucura: Se estas dívidas teverem sido tamanhas que tenham esgotado a poupança dos credores, e se estas dívidas forem quitadas em várias parcelas pequenas, caso os devedores se mostrem com dificuldades financeiras, o fluxo de dinheiro dos devedores para os credores seria baixo no curto prazo, de tal modo que a quantidade de dinheiro na poupança dos credores(os únicos em condição manter dinheiro em poupança) seria baixa no curto prazo e aumentaria devagar. Estou certo? Se isto acontecer, durante um bom tempo não teríamos uma situação de baixa preferência temporal e altas taxas de juros? Pois, se agora todos estão poupando bastante, a preferência temporal é baixa. Mas, como no curto prazo poucos tem dinheiro aplicado em poupança, e este dinheiro é pouco, os bancos tem pouca oferta para crédito, resultando em altas taxas de juros. Estou certo? Se as parcelas forem divididas em 60 X, por exemplo, o dinheiro disponível no banco para empréstimos terá 5 anos para chegar a oferta condizente com a preferência temporal da sociedade. Ou seja, a taxa de juros terá um longo prazo de 5 anos para descer para o nível condizente com a preferência temporal. Ou seja, um endividamento pode provocar atrasos no principal sinal que o mercado dá para os investidores, ao passo que os recursos podem estar disponíveis em menos tempo para investir.
Faz sentido esta ideia?
Eu tenho um dúvida que me impede de entender satisfatoriamente a TACE. É sobre este lance de o aumento artificial do crédito e da base monetária reduzir artificialmente a taxa de juros. Isto é bem intuitivo, mas eu não sei conciliar esta premissa com a explicação da taxa bruta de juros = taxa natural de juros + premio de risco pela atividade empresarial + expectativa de inflação. É como se tivesse duas explicações para a taxa bruta de juros, uma que vale para o mercado sem interferência, e outra para o mercado manipulado. Ou seja, a fórmula acima só vale para o mercado não manipulado? Pois eu não consigo ver qual das três variáveis a expansão monetária e a expansão do crédito alteram.
Grato pela ajuda.
Leandro,
poderia me ajudar com uma resposta para essa pessoa? Ela simplesmente nega o fenômeno da preferência temporal, e diz que não haveria capitalismo caso isso ocorresse..
“A ficção de que o homem prefere ter agora que no futuro é um axioma que só serve pra justificar positivamente o sistema de produção; não tem sequer um fundo de verdade aí. Aliás, o capitalismo se baseia sempre em valor futuro. O capital, como sendo riqueza que se valoriza, tem maior valor quando promete maior valorização. Se todos preferissem "ter agora do que no futuro", não existiria capitalismo, pois não exigiria emprego de capital (também não explica o sucesso de previdência privada entre tantas outras coisas…)”
O que você diria sobre isso?
Obrigado.
Obrigado, Leandro. Lerei o artigo indicado.
Veja o que ele disse na sequência:
Toda riqueza é produzida pelo trabalho, portanto o trabalho produz a sustentação de toda a instituição econômica. A lógica do sistema capitalista é realmente “lucro, prejuízo e propriedade privada”, mas isso numa visão inicial e mais do que atrasada; uma visão realmente crítica percebe que a lógica do capitalismo é a valorização da riqueza e num sistema que tenha somente essa programação simples, tudo é feito para a potencialização desse propósito (demissões, dano ambiental, assassinato, roubo, defasagem programada). A regulação dessas inconveniências políticas é necessariamente regulada por uma vontade exógena a esse sistema: o direito. Quer dizer, se demissões ocorrem e salários são diminuídos para que o peso da tributação não seja sofrido no lucro (caso essa seja, e realmente é a intenção), é porque a administração desse sistema é imperfeita na medida que não atinge sua finalidade técnico-política. Isso, alias, leva ao próximo ponto…
=)
Abraços e obrigado novamente.
Parabéns também por este texto, Leandro.
Você pode não ser ou querer ser professor, mas tenho aprendido mais do que nunca sobre economia lendo seus artigos.
Espero que todos os elogios e pedidos façam-no, um dia, mudar de opinião. Se não conseguirem, duvido que sua “preferência temporal” por tempo livre/trabalho atual resista a uma proposta satisfatória.
Na verdade, acho que o artigo é tão antigo que você já deve ter mudado de ideia.
Vamos à dúvida:
“Com o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes. A escassez de bens de capital começa a ficar aparente. Os preços deles sobem. Essa subida de preços faz com que a empresa tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo esses bens de capital. Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem.”
Vejo isso no atual cenário brasileiro, mas não sei explicar o porquê plenamente. Com o aquecimento econômico gerado pela redução fictícia de juros, as empresas de bens de capital também passam a produzir mais. Toda a economia da cidade é puxada pelo shopping center. As pessoas consomem muito, mas a produção também aumentou muito. Por que os bens de capital ficam escassos?
Além disso, apesar de consumirem muito, com a expansão econômica, até os gastadores conseguem ter uma sobra. Ou seja, se antes gastavam 99% do que ganhavam, agora ganham mais e conseguem poupar 10%.
Por que, então, o desequilíbrio chega? E eu sei que ele chega, como chegou em 29 e em 2007/8. E parece estar chegando ao Brasil agora também…
Obrigado pelo espaço e parabéns novamente.
Hahahahahha. Não sei onde vc mora, mas eu estou no Brasil, Leandro. Por aqui, masoquismo é meio de sobrevivência. Temos até um slogan lindo, não sei se já o ouviu aí da Áustria: “sou brasileiro e não desisto nunca”. Por mais sofrimento e dor por que tenhamos que passar.
Para desenvolver ainda mais o meu, vou guardar os vídeos para sábado à noite.
Leandro
"Esse dinheiro vai diretamente para os bancos comerciais (caso os títulos estejam em posse de outra entidade qualquer, o dinheiro vai para essa entidade, que acabará depositando-o em sua conta bancária, fazendo com que o destino final do dinheiro também seja os bancos comerciais). Da mesma forma que o preço de um bem qualquer tende a diminuir quando sua oferta aumenta, o influxo de dinheiro recém-criado causa uma diminuição nas taxas de juros, uma vez que os bancos tiveram um aumento nos seus fundos disponíveis para empréstimos." ("1920 – a última depressão na qual um governo não se intrometeu foi também a mais rápida")
"Quando o Banco Central cria dinheiro eletronicamente e utiliza esse dinheiro criado do nada para comprar títulos públicos que estão em posse do sistema bancário, as reservas bancárias aumentam. Este aumento nas reservas bancárias tende a gerar uma diminuição na taxa de juros que os bancos cobram entre si no mercado interbancário. Ou seja, tende a gerar uma diminuição na SELIC. Afinal, com mais dinheiro nas reservas, menos bancos se veem na necessidade de pedir dinheiro emprestado no interbancário, e mais bancos se veem com reservas acima do nível estipulado pelo Banco Central. Ato contínuo, os bancos podem agora criar mais empréstimos para indivíduos e empresas.
[…]
Tendo entendido esse mecanismo, algumas extrapolações se tornam mais claras. Por exemplo, se a economia estiver indo bem e os bancos estiverem otimistas, eles concederão mais empréstimos (tanto para o setor privado quanto para o governo). Isso, por si só, fará com que os juros do interbancário, a SELIC, subam — afinal, como estão concedendo muitos empréstimos, os bancos continuamente terão de recorrer ao mercado interbancário para manter suas reservas naquele nível estipulado pelo Banco Central." ("Sobre a atual inflação de preços no Brasil e o problema da SELIC")
Lendo estes trechos, eu me lembro de que o falecido vice do Lula, José Alencar, vivia reclamando dos juros altos, cobrando do Bacen o recuo das taxas de juros – da Selic, pelo que eu entendia.
Você pode me explicar a relação (que me parece ser de proporcionalidade inversa) entre as taxas de juros bancários e da Selic, se essa relação é relevante, e a pertinência das reclamações do vice – que, como industrial, era tomador de empréstimos – de pedir a baixa da Selic?
Abraço
@Leandro,
Tem como medir o dinheiro injetado na economia pelas reservas fracionárias bancárias?
O que a gente consegue medir com os Mx são somente as variáveis em controle do Banco Central (dinheiro físico e eletrônico produzidos pelo Banco Central), certo? Agora, como saber quanto de dinheiro virtual criado ex-nihilo pelos demais bancos?
@Malthus,
Mea culpa. Me confundi. Obrigado pelo esclarecimento.
Dúvida: se a taxa de juros está baixa, não significa que há pouca demanda por aquele serviço? Sendo assim, como as construtoras achavam que havia demanda suficiente para as habitações?
Esse texto lembra o teste do marshmallow:
* * *
A relação entre poupar para investir é similar ao ficar acordado e dormir? Tipo, para se ter energia para estudar, com foco e produtividade, é fundamental ter períodos de descanso. Essa analogia faz sentido?
Trabalho no mercado da construção, em obras públicas basicamente. Incrível como traduz o atual cenário desse mercado. Primeiro a empolgação, lucros, agora preços dos fatores altíssimos e resultados negativos. Apesar de tirar o sustento da minha família trabalhando para o governo, acho que o livre mercado onde nossos clientes fossem apenas a iniciativa privada não estaríamos vivenciando essa crise. Sou economista formado por universidade que ensinava basicamente Keynes, graças a Deus este site abriu meus olhos, porém tenho dificuldade de me organizar quanto as leituras, me sinto perdido, já comecei com Mises mas não conclui, depois tentei Hayek também não conclui, por falta de uma idéia de que ordem seguir . Se algum dos amigos pudesse me indicar que sequência seguir ficaria muito agradecido.
Henrique
Leandro,
Qual seria o melhor livro para entender os ciclos econômicos:
‘Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos’ ou ‘A grande depressão americana’?
Leandro,
Conforme elucida o artigo, quando os juros estão baixos significa que pessoas estão poupando, e isso viabiliza investimentos de longo prazo e, assim, favorece o crescimento econômico. No exemplo: se o BC baixa os juros (artificialmente) e viabiliza a construção de um shopping (investimento de longo prazo), então a população comprará do shopping e reduzirá gastos em outras lojas da cidade. Isso não significa que apenas houve um rearranjo da economia local e não necessariamente um desestímulo ao desenvolvimento econômico, como seria de se supor com o controle dos juros nas mãos do BC?
Gostaria de tirar uma duvida a respeito desse trecho:
“Agora, suponha que você tenha dois laptops e esse empreendedor lhe peça emprestado apenas um. Nesse cenário, é provável que a recompensa que você cobre por esse empréstimo seja menor que no primeiro caso – afinal, você tem um laptop sobressalente, e não vai ficar de todo desprovido de seu capital. Ou seja, como havia uma maior abundância de capital (laptop) a ser emprestado, o preço cobrado pelo empréstimo de uma unidade foi menor. O custo de se abrir mão dessa segunda unidade é menor do que no primeiro caso. Consequentemente, quanto maior for seu capital disponível para ser emprestado, menor o valor que você exigirá por abrir mão de cada unidade.”
Esse fenômeno de redução de custo por conta de ter uma unidade adicional de laptop pode ser interpretado usando a lei da utilidade marginal decrescente(levando em conta que o custo é algo subjetivo do individuo e cada unidade adicional de bem econômico faz com que se valorize menos cada outra unidade, variando de acordo com propriedades do bem)? Ou é outro fenomeno a parte?
Me surgiu uma dúvida, se as pessoas se tornassem menos orientadas para o futuro no meio da construção do shopping, isto também não inviabilizaria este empreendimento?
Detalhando: as pessoas tornam-se mais orientadas para futuro, o que faz com que a taxa de juros diminua, indicando a viabilidade de se construir um shopping. Suponha que a construção do shopping leve 6 meses e, logo nos primeiros três meses de construção as pessoas tornam-se mais consumistas. Isso não aumentaria a taxa de juros no meio da construção do shopping inviabilizando este empreendimento?
Excelente artigo.
Alguém ja viu uma assembléia de condôminos dar carta branca para o síndico pedir dinheiro empestado nos bancos?
“O ideal seria a proibição de toda e qualquer contração de dívida futura, obrigando o governo a se financiar somente via impostos. O simples fato de não haver mais títulos da dívida do governo à venda faria com que a poupança fosse destinada ao financiamento de atividades mais produtivas, ao invés de desperdiçada com o sustento da burocracia – que é exatamente o que ocorre hoje.”
Leandro,
Conforme exposto no artigo, se as pessoas tem baixa preferência temporal, preferem poupar a consumir; a poupança aumenta e o consumo de bens diminui; há mais bens disponíveis no mercado. O aumento da poupança implica numa redução da taxa de juros, que sinaliza maior disponibilidade de bens no mercado. Correto?
A minha dúvida é a seguinte.
A redução do consumo implicará num novo ponto de intersecção entre a curva oferta x demanda. Ele pode atingido mediante uma redução do preço dos bens, ou mediante uma diminuição da oferta de bens. Estou certo?
Logo, a poupança necessariamente não implicaria numa maior disponibilidade de bens no mercado. Neste caso, o sinal emitido pela taxa de juros não poderia levar os investidores a tomarem uma decisão econômica equivocada?
Agradeço de antemão a resposta.