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Economia

Sobre déficits, oferta monetária e inflação

06/05/2024

Sobre déficits, oferta monetária e inflação

Recentemente, tivemos no fórum de comentários de um artigo deste site uma dúvida com relação a déficit fiscal, moeda em circulação e inflação. A pergunta foi a seguinte:

- Em caso de déficit fiscal sem aumento da oferta monetária, é possível haver inflação?

Por inflação, a pessoa que fez a pergunta se refere ao aumento generalizado do nível de preços. Esta é justamente a razão pela qual os economistas austríacos defendem que se utilize o termo inflação para designar o aumento da quantidade de moeda em circulação, no sentido de inflar a oferta de moeda. A consequência da inflação é o aumento generalizado do nível de preços.

Quando desviamos o termo inflação e o utilizamos da forma como os economistas das correntes mainstream o utilizam, confundimos causa e consequência. Isso gera perguntas tais como: o que causa inflação?

A resposta é simples: o que causa inflação é o poder que o sistema bancário liderado pelo banco central tem de expandir a oferta monetária. Quando esse poder é exercido e há aumento da oferta monetária, isso é inflação. Por sua vez, a inflação provoca aumento generalizado do nível de preços.

Do lado das demais correntes do pensamento econômico, temos as mais espantosas respostas para essa pergunta, sempre tentando desviar a resposta da causa original, o banco central. Por exemplo, há economistas que, analisando caso a caso, chegam à conclusão de que a inflação desta vez é uma “inflação de preços” – por exemplo, provocada pelo aumento do preço do petróleo. Ora, isso é uma contradição. Não se pode explicar um aumento nos preços por um aumento nos preços.

Na década de 1980 no Brasil, economistas como André Lara Resende, o principal nome brasileiro da aberrante teoria monetária moderna, e Pérsio Arida cunharam o termo inflação inercial para justificar a hiperinflação da época. Para eles, os preços estavam altos porque os preços anteriores eram altos. Como a economia era indexada, isto é, os preços eram corrigidos de acordo com o índice de inflação do período anterior, os preços deste período também aumentariam.

Mas isso é um erro, já que sem aumento da oferta monetária, ainda que os preços fossem automaticamente corrigidos para cima, ninguém poderia arcar com essa elevação dos preços. Como pagar cada vez mais caro por todos os bens e serviços se a quantidade de moeda é a mesma? Algum bem deverá ser preterido para que outro tenha sua demanda realizada àquele preço mais elevado.

Esses erros também são resultado do uso dos índices de preços como medidores da inflação. Mas índices de preços medem apenas a variação dos preços de determinados bens e serviços, em que aqueles bens e serviços relativamente mais importantes terão um peso maior no cálculo do índice. Isso é, eles medem os preços de uma cesta de bens e serviços, conforme definida pela instituição que o acompanha. Eles não medem, e nem podem medir, a variação dos preços de todos os bens e serviços de uma economia.

Portanto, voltemos ao conceito original, austríaco de inflação para evitar maiores confusões. Inflação é o aumento da quantidade de moeda em circulação. Sua consequência é o aumento generalizado do nível de preços. Quem tem clara essa distinção não comete erros ao analisar os motivos pelos quais todos os bens e serviços estão ficando mais caros.

É uma questão de lógica e mecânica, pura e simplesmente. Em uma economia onde não há aumento da oferta monetária, o preço de um bem só pode aumentar se o preço de outro bem diminuir. Preços são resultados das interações das forças de mercado: oferta e demanda. Nessa economia sem aumento da quantidade de moeda em circulação, o indivíduo que decide aumentar a demanda pelo bem A deve forçosamente reduzir a demanda pelo bem B. Em poucas palavras, os preços de todos os bens não podem aumentar simultaneamente.

 

Déficit fiscal causa aumento do nível de preços?

Voltemos agora à pergunta do nosso comentarista:

- Em caso de déficit fiscal sem aumento da oferta monetária, é possível haver inflação?

Não, não é possível haver aumento generalizado do nível de preços sem aumento da oferta monetária para financiar um déficit fiscal.

Um déficit fiscal pode ser financiado de três formas.

Primeiro, por um aumento da oferta monetária. Com mais dinheiro na economia, temos um aumento da demanda com relação à oferta e vamos observar um aumento generalizado do nível de preços, isto é, todos os bens e serviços ficarão mais caros. Esse é o chamado imposto inflacionário, uma forma mais silenciosa e indireta de financiar os gastos do governo. Silenciosa porque ocorre lentamente, sem que as pessoas percebam imediatamente as consequências do fenômeno inflacionário, e indireta porque empobrece as pessoas via encarecimento de bens, e não via retirada forçada de sua riqueza.

Segundo, por um aumento dos impostos. Quando o governo aumenta impostos, ele retira dinheiro da população e o transfere para si. Assim, os indivíduos têm menor capacidade de comprar bens e serviços – temos uma redução da demanda. Como o governo utiliza esse dinheiro para pagar por alguma coisa, o nível geral de preços não vai se alterar – houve apenas uma transferência do poder de compra das mãos de uns para as mãos de outros.

Os preços de alguns bens e serviços podem e vão aumentar, mas não os preços de todos os bens e serviços, já que não tem como os consumidores, agora com menor dinheiro em mãos, dado o aumento dos impostos, comprarem a mesma quantidade de bens e serviços. Ademais, o dinheiro retirado via impostos retornará a alguns setores específicos do setor produtivo e, consequentemente, dos consumidores, na medida em que o governo gastar o dinheiro arrecadado.

É importante notar que isso provocará uma alteração na estrutura de consumo e produção da economia – alguns bens serão mais consumidos agora do que antes, pelo governo, o que causa uma adaptação da oferta de bens e serviços. Portanto, maior poder de compra nas mãos do governo desvia a estrutura de produção daquilo que consumidores desejam em direção àquilo que o governo deseja. O dinheiro tenderá a fluir para determinados setores de produção e o nível geral de preços se manterá inalterado.

A terceira e última forma de financiar um déficit fiscal é por endividamento. O governo aumenta a oferta de títulos públicos e o público, primeiro o sistema bancário, compra esses títulos e entrega ao governo o seu dinheiro. Novamente, há uma transferência do dinheiro das mãos de uns para as mãos de outros, o governo. As implicações são semelhantes às da segunda forma de financiamento. O governo tem maior capacidade de gastar em detrimento do restante da população, portanto a demanda em alguns pontos da economia será reduzida para que a demanda em outros pontos seja aumentada. Não pode haver aumento generalizado do nível de preços.

É verdade que o endividamento do governo tem consequências sobre a taxa de juros da economia. Em um cenário de manipulação dos juros pelo banco central, tal qual estamos acostumados a observar, os juros mais baixos se mantêm porque há expansão monetária – e, consequentemente, aumento generalizado do nível de preços. Sem essa inflação da oferta monetária, a taxa de juros, como preço dos empréstimos, só pode se manter mais baixa se houver um aumento da oferta de poupança, isto é, se o público reduzir seu consumo no presente.

 

Considerações finais

Um último comentário importante está na própria noção de nível geral de preços. Como qualquer agregação, o nível geral de preços esconde estruturas complexas de produção e consumo e decisões complexas de produtores e consumidores. Os preços não simplesmente se movem, aumentando ou diminuindo, repentina e simultaneamente.

Os austríacos preferem desagregar a economia e focar no efeito Cantillon, isto é, considerar o local onde a moeda recém-criada é inicialmente gasta e compreender a forma como ela se espalha pela economia. Isso permite entender que alguns recebem o dinheiro antes de outros e, portanto, têm um aumento do poder de compra em detrimento dos demais. Nesse sentido, o efeito Cantillon denuncia que o processo inflacionário provoca vencedores e perdedores.

 

Para continuar a leitura:

A oferta monetária é a medida correta da inflação

Os agregados keynesianos escondem justamente o essencial

A deflação provoca uma redistribuição arbitrária da riqueza?

Cantillon, os ciclos econômicos e a não-neutralidade da moeda

Quatro gráficos que mostram os efeitos Cantillon

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Nota: as visões expressas no artigo não são necessariamente aquelas do Instituto Mises Brasil.

Sobre o autor

Samuel Vaz-Curado

É mestre em Economia pela Universidade Federal de Sergipe. Ex-aluno do Mises Brasil Winter School.

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