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A principal lição da Revolução Cubana nunca esteve tão atual

Fidel Castro morreu. Ele estava com 90 anos de idade. Por coincidência, recentemente assisti ao excelente filme Papa Hemingway in Cuba, de 2015. O filme mostra a vida do escritor Ernest Hemingway em Cuba antes da revolução. O cenário de fundo é a Cuba imediatamente anterior à tomada do poder por Fidel Castro, uma terra de pessoas batalhadoras e que vivenciava dificuldades (como todos os países da época), mas que prosperava. E era governada com mão de ferro pelo brutal ditador Fulgencio Batista (1901-1973).

Trata-se do primeiro filme de Hollywood com locações em Cuba desde a Revolução Cubana.

O filme busca recriar o ano de 1959. Ironicamente, isso não foi difícil de ser feito. A maioria dos filmes ambientados mais de 50 anos atrás teria de ser filmada exclusivamente em bairros mais antigos, utilizando as construções mais antigas disponíveis, os carros mais antigos que ainda existissem, as tecnologias da época, as roupas da época, as ruas sujas da época etc. Este filme, no entanto, provavelmente teve de fazer o contrário: a produção certamente teve de retocar a pintura, reformar as fachadas das casas, reconstruir as ruas e as estradas etc.

Afinal, tudo em Havana continua do mesmo jeito que estava em 1959, só que bem mais deteriorado. A cidade parou no tempo. Ou, de certa forma, regrediu.

Eis o problema. Quando Fidel Castro tomou o poder, suas políticas comunistas não apenas interromperam imediatamente todo o desenvolvimento econômico que vinha ocorrendo, como ainda reverteram. A Cuba de então — depois de Argentina e Uruguai — era o terceiro país mais rico da América Latina (sua renda per capita era a igual à da Itália).

Os defensores de Castro gostam de falar sobre baixas taxas de analfabetismo (que já estavam entre as menores do mundo antes da ascensão de Fidel)[1] e acesso universal ao sistema de saúde (pode até haver “acesso universal”, só não há os serviços), mas as pessoas que viajaram para lá nas últimas décadas facilmente podem observar a falácia. Fosse realmente assim, a população cubana não seria mundialmente conhecida como aquela que arrisca a própria vida e a integridade física atirando-se ao mar sobre qualquer coisa que boie para tentar escapar do país.

E tem sido assim por 50 anos. As pessoas que foram capturadas em sua tentativa de fuga foram ou assassinadas pelo governo ou mandadas para a prisão. Estima-se que 78.000 cubanos morreram ou tentando fugir do regime ou sendo capturados e fuzilados. Outros 5.300 (majoritariamente camponeses e seus filhos) foram mortos lutando contra o regime, nos 6 anos seguintes à revolução, nas montanhas Escambray e na Baía dos Porcos. Há também os 14 mil cubanos que morreram durante as aventuras revolucionárias de Fidel no exterior, especialmente quando ele enviou 50 mil soldados para Angola, na década de 1980, para ajudar o governo local — uma marionete da URSS — a lutar contra a insurgência da UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola).

Hoje, Cuba é literalmente um museu a céu aberto, uma refutação viva àquela alegação — feita há um século — de que o comunismo acabaria com a opressão econômica e criaria riqueza para todos.

Conheça o novo chefe

Como Fidel chegou ao poder? O filme mostra a história. Mesmo que você nada saiba sobre a história de Cuba além desta mostrada no filme, era perceptível que o regime de Batista não duraria muito.

Batista concorreu à presidência em 1952. Sabendo que a derrota era certa, e sendo ele bastante versado nos métodos de um regime militar, ele comandou um golpe de estado que o colocou no poder. Ele não era comunista, mas sim um típico ditador militar. Ele aboliu a imprensa livre. Suspendeu o Congresso. Matou seus inimigos pessoais. Toda e qualquer contestação ao seu governo era violentamente suprimida. Embora fosse amigável aos negócios estrangeiros e alegremente aceitasse propinas de empresas americanas que tinham empreendimentos em Cuba, sua corrupção, suas explícitas ligações com o crime organizado (especialmente com os mafiosos Meyer Lansky e Lucky Luciano) e sua brutalidade criaram as condições que levaram à revolução.

O lema da revolução era “liberdade ou morte”, e Fidel era o líder. E não era um líder qualquer. Ele se tornou uma figura mitológica, adorado especialmente pela imprensa americana. Em 1957, o The New
York Times
, o carro-chefe da esquerda chique, escreveu: “Eis um homem culto, dedicado e fanático; um homem de ideais, de coragem e de extraordinárias qualidades de liderança”.

No entanto, logo após descer a Sierra Maestra, derrubar o governo Batista e tomar o poder, este “homem culto e de extraordinárias qualidades” começou a executar publicamente seus rivais, a confiscar propriedade privada, a proclamar sua lealdade ao ideal marxista-leninista, e a solidificar um regime totalitário que viria a durar mais de meio século. O resultado da queda de Batista não foi a democracia e a liberdade que o povo cubano queria, mas sim um incrível pesadelo.

(Como curiosidade, eis a composição do primeiro gabinete deste “governo anti-burguesia”: 7 advogados, 2 professores universitários, 3 estudantes universitários, 1 médico, 1 engenheiro, 1 arquiteto, 1 ex-prefeito e 1 coronel que desertou do exército de Batista.)

Os EUA, de início abertos ao regime castrista (antes de este se declarar comunista), passaram a reagir com denúncias, sanções e embargos, os quais serviram duplamente aos propósitos do regime: de um lado, Fidel utilizou as sanções e os embargos como desculpa para justificar suas políticas estatais; de outro, as sanções e os embargos se tornaram o bode expiatório perfeito ao qual atribuir o horrendo fracasso de suas políticas econômicas.

Não importa o quão pior estivesse a vida do povo cubano em decorrência do regime comunista, a narrativa dentro de Cuba utilizada pelo governo era sempre a mesma: vejam o mal que os EUA estão fazendo conosco.

A fanática ideologia de Fidel Castro não o protegeu da mortalidade, que é o limite supremo ao poder de todo e qualquer ser humano. Fora isso, seu poder não conhecia limites. Nenhum dos tributos que você ler na imprensa e nos meios intelectuais sobre este “grande revolucionário” pode ocultar a realidade: ele foi um ditador sanguinário que manteve o povo cubano — ao menos aqueles que ele permitiu continuar vivendo — refém de suas próprias ambições totalitárias. Agindo assim, Fidel foi o primeiro a trair sua própria revolução.

Fervendo a panela até o seu derretimento

Mas Cuba é apenas um caso de destaque entre dezenas de outros que ocorreram ao longo do século XX: uma ditadura de direita (ou de esquerda) é derrubada e substituída por uma ditadura de esquerda (ou de direita), a qual, algum tempo depois, é derrubada e substituída por uma ditadura de direita (ou esquerda). E assim vai, sem um fim aparente. Já vimos isso reiteradas vezes.

O desejo por uma revolução é sempre o mesmo: liberdade ou morte. É uma ideia, em si mesma, inspirada e inspiradora. Mas ela rapidamente desaparece tão logo os revolucionários experimentam as delícias do poder e passam a copiar todos os métodos que antes condenavam em seus rivais. E, quando estes são finalmente derrubados, seus sucessores e opositores fazem o mesmo. (Aliás, funciona exatamente da mesma maneira na democracia, mas sem as torturas e os assassinatos).

Em 1944, F.A. Hayek já alertava que, no mundo contemporâneo formado por estados intrusivos, o manto ideológico pode se alterar, mas a ameaça à liberdade permanece a mesma. A ameaça do comunismo leva ao surgimento do fascismo. A realidade do fascismo inspira o comunismo. O inevitável fracasso do comunismo volta a impulsionar novas esperanças no fascismo. E por aí vai. Os detalhes e sequências destes eventos variam de país para país. Mas a dinâmica é a mesma e vive se repetindo.

Há diferenças na ênfase, na propaganda, no tom cultural, e nas prioridades políticas entre essas formas de governo, mas todas têm em comum o mesmo desprezo pela liberdade.

Enquanto o mundo — e isso vale também para os países democráticos — continuar à procura de homens supostamente cultos, iluminados, corajosos e idealistas para exercitar o poder de cima para baixo, seremos eternamente traídos e fustigados, vítimas de justificativas ideológicas em prol do despotismo.

E qual é o erro fundamental? Hayek também já havia respondido: a crença de que toda a ordem econômica e social pode ser moldada por um desejo, por um plano, por um projeto, por uma aspiração. Trata-se de um erro fundamentalmente intelectual. Tal erro conceitual surgiu na academia no final do século XIX. E foi entregue a alguns dos mais sádicos e perversos indivíduos do século XX, os quais o utilizaram para cometer inenarráveis atrocidades contra a humanidade.

Liberdade ou poder?

E então, qual é a alternativa? Uma sociedade pacífica, organizada, ordeira e desenvolvida é um arranjo em contínua evolução; uma instituição que emerge de acordo com as escolhas voluntárias e pacíficas de seus indivíduos; uma na qual eles agem pacificamente, de acordo com considerações mútuas que visam a seu próprio interesse e ao bem-estar dos outros.

Não há um plano feito de cima para baixo com o intuito de corrigir e controlar toda a sociedade. Os únicos planos são aqueles que estão dentro das mentes de cada indivíduo. E mesmo estes planos devem sempre, e continuamente, ser testados e alterados de acordo com as condições vigentes do momento.

No final, a verdadeira batalha não é entre direita e esquerda, mas entre liberdade e poder. Jamais podemos perder de vista esse ponto central, e jamais podemos nos dar ao luxo de interromper a luta em prol de um mundo genuinamente livre.


 

[1] Como bem lembrou o editor do site Spotniks, Rodrigo da Silva:

– Não há uma mísera universidade cubana entre as 500 melhores do mundo. 
– A taxa de analfabetismo em Cuba é a mesma de países como Antígua e Barbuda, Armênia e Tajiquistão. 
– Não há um mísero Nobel, uma Medalha Fields e uma Medalha Copley na história cubana. 
– A produção acadêmica em Cuba é menor que a de Bangladesh. 
– No ranking da World Intellectual Property Organization, Cuba aparece na lista com apenas 10 patentes registradas em 2013.
– Cuba se nega a participar dos principais exames internacionais de educação – como o Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos.

Ou seja, a única coisa que sustenta que a educação cubana seja exemplar para o mundo são os dados oficiais do governo cubano.


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33 comentários em “A principal lição da Revolução Cubana nunca esteve tão atual”

  1. Em uma discussão acalorada com um defensor de Fidel Castro e seu regime comunista, eis que a pessoa diz exatamente isso:

    “Lugares onde querem reduzir o tamanho do estado na marra, como querem fazer no Brasil, é onde mais fome e menos desenvolvimento se tem. O estado tem que ser do tamanho necessário nem máximo, nem mínimo, tem que ser bem administrado e assim teremos mudanças de verdade e não utopias.”

    Então perguntei quais eram os exemplos de “redução de estado na marra” que tem contribuído para mais fome e menos desenvolvimento.

    A pessoa responde: “Guatemala, Bangladesh, Nigéria e Madagascar.

    Pesquisei sobre o assunto, mas não encontrei relação entre as duas coisas. Alguém poderia me elucidar essa questão, ou, então, indicar artigos e estudos sobre isso?

    Grato

  2. A ideia de um salvador da pátria não é nova é só ler a república de Platão. E também sobre a revolução francesa que deu a luz a Napoleão. E a revolução russa, assim como o evento que ocorreu no Brazil em 1889 sem o povo saber que até hoje sofremos a consequência disso. Se quiser resolver um problema faça vc mesmo e não procure um salvador da pátria, porque esse tipo de indivíduo procura apenas poder absoluto e glória pessoal mesmo que custe a vida dos outros.

  3. Quem se lembra de quando, ainda em 2003, José Saramago escreveu uma carta aberta rompendo seu apoio a Fidel Castro?

    Motivo do rompimento: Fidel havia acabado de executar três (sim, "apenas" três) cubanos que estavam tentando sair do país.

    www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1604200323.htm

    O curioso é que, antes disso, Fidel já havia exterminado dezenas de outros, e nada do Saramago se pronunciar. Mas depois de "apenas" mais três mortes, ah, aí sim "passou dos limites" para o Saramago.

    Ou seja, 50.000 mortos? Tudo bem para o Saramago.

    50.003? Ah, aí o Saramago já não aguenta mais!

    O que me lembra desse artigo sobre os intelectuais.

    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1487

  4. Interessante notar que, ao contrário do que muitos hoje acreditam, a base principal da propaganda socialista não era de que este seria mais “justo” que o capitalismo, mas sim mais eficiente! Defendiam este sistema pois ele geraria muito mais riqueza que o capitalismo.

    Depois que viram que ele não era nem de perto tão eficiente quanto o capitalismo é que começaram com esta ladainha de “ah, mas pelo menos todos têm educação, saúde, etc.”

    Se eles estivessem certos, seria Cuba impondo um embargo econômico aos EUA, e não o contrário…

    No alto de suas torres de marfim, eles garantiam que a concentração dos meios de produção nas mãos dos burocratas seria vantajosa, já que eliminaria desperdícios devido à concorrência entre empresários. Bastava ter alguns milhares de computadores — pessoas cuja profissão era fazer cálculos matemáticos — ou, posteriormente, alguns supercomputadores — como tentado no Chile, se não me engano — que toda a distribuição e produção de todos os produtos para todas as pessoas seria facilmente estimada.

    E ainda tem gente que diz que os Austríacos é que são arrogantes…

    História do Debate do Cálculo Econômico Socialista

  5. Tenho lido artigos e visto filmes sobre Cuba. O que parece ter ocorrido (digo parece, porque não estou lá para ver) é que as pessoas têm que se virar em um mercado paralelo, fazer inclusive atividades ilegais e correr riscos altos, para ganhar dinheiro e também para comprar produtos de uso diário.

    Esse subterrâneo da vida econômica gera relações sociais muito marcadas pela desconfiança, pelo medo, e pelo egoísmo. Certamente (penso eu) deve haver tb muita solidariedade entre pessoas muito próximas.

    Mas há um desgaste, um descontentamento grande com as normas e com o jeito do país funcionar.

  6. Em Abril deste ano, minha mulher e eu realizamos um projeto antigo: conhecer Cuba ainda sob o Regime da Revolução.

    Por anos, ouvimos Ron, um amigo canadense cantar loas a Cuba. Como o lugar era lindo, as pessoas felizes, vivendo de forma saudável com acesso à educação e à medicina. Praias maravilhosas, pontos sensacionais de mergulho. E bons amigos, dentre eles os melhores, Juan, Adriana e Pablo. Por alguma razão, sou compelido a usar nomes fictícios nesta história. Meu amigo canadense não falava espanhol.

    Então um dia compramos as passagens e embarcamos. O vôo chegou já à noite, e o canadense nos esperava no aeroporto com Pablo. Dali, cem quilômetros até Varadero. Cansados, pouco conversamos no trajeto.

    Varadero é realmente tudo o que ouvimos. Ruas asfaltadas, enormes resorts das grifes mundialmente conhecidas como Meliá e Iberostar. Os empregados dos hotéis falando inglês, piscinas, uma península cercada de mar verde e limpo. Varadero é uma ilha da fantasia dentro da ilha de Cuba.

    É saindo de Varadero que se conhece a verdadeira Cuba. Nas duas horas de carro no trajeto de Varadero à Baía dos Porcos, Pablo encontrou na Miriam, que tem manifesto interesse em História, e que compreende um pouco melhor o espanhol, uma interlocutora ávida. Foram duas viagens à Baía dos Porcos, no total de 8 horas de aula de sociologia, política, economia e história de Cuba.

    Foi assim que ficamos sabendo, por exemplo, que a educação em Cuba não é tão gratuita assim. Os alunos até poucos anos atrás (5 anos atrás, se não me falha a memória) iam para as Escolas Agrícolas, enormes prédios no campo, onde ficavam em regime de internato toda a semana. Aulas pela manhã, trabalho no campo à tarde plantando e colhendo para o Governo. Alunos de 10 anos de idade. Nossas instituições do Ministério do Trabalho e Ministério Público do Trabalho ficariam horrorizadas.

    Nem sempre era possível as crianças irem para casa ver a família aos Domingos, pois nem sempre o Governo – sempre ele – disponibilizava o transporte. Então era comum que passassem duas semanas sem ver os pais, os irmãos, confinados à Escola no meio do campo.

    E o transporte público também é um pouco deficiente em Cuba. Para locomoverem-se entre os pequenos povoados, fora da Região de Havana, os Cubanos são levados em carros de boi, pelas estradas, ou na caçamba de caminhões. Alguns abertos, outros cobertos por uma lona. Como bóias-frias. Crianças e idosos, sob o sol escaldante. Outro rasgo na imagem paradisíaca da ilha, para o nosso padrão de exigência com a segurança.

    Pablo nos conduzia pela ilha em um carro que pertencia a Juan, mas que só poderia ser utilizado como táxi. Na ilha não são permitidos veículos particulares. Somente para uns poucos escolhidos do Partido, com vínculos governamentais, ou que lá estejam na representação diplomática de outros países.

    Uma noite, foi combinado um jantar na residência de Juan e Adriana. Pedimos a Pablo que nos levasse a um supermercado para comprar vinho, que seria por nossa conta, bem educados que somos. Pablo sugeriu que déssemos 5 dólares ao garçom do nosso hotel e ele separaria duas garrafas de vinho para nós, do estoque do Hotel. Porque em Cuba tudo funciona na base das pequenas corrupções. É a fonte de renda adicional da população. E as maiores possibilidades estão na área do turismo.

    Não é coincidência que os cubanos que trabalham com o turismo (garçons, taxistas, arrumadeiras, cozinheiros) falem inglês. É que eles também são a parcela do povo com maior grau de educação. São professores, advogados, engenheiros, que vão trabalhar em contato com o turista na expectativa das gorjetas. Que também não são liberadas, pois determinada ocasião nosso amigo canadense, com outros amigos, voltavam de um mergulho no barco, na região de Varadero, e os canadenses, inocentemente, juntaram uma “caixinha” em dinheiro para deixar como gorjeta pelo tratamento dispensado pela tripulação.

    Ao chegarem na marina, o exército os esperava, e os militares confiscaram todo o dinheiro dado aos Cubanos, de forma truculenta.

    A residência de Juan e Adriana era uma casinha na vila, construída à base de sobras de material, uma mistura de estilos. Talvez tivesse uns 80 metros quadrados. E era uma das melhores casas do bairro, o orgulho do casal, que a vinha melhorando e construindo há mais de 10 anos.

    Durante o jantar na casa de Juan e Adriana, servido à base de lagosta, salada verde e arroz, acompanhado pelo vinho que levamos, descobrimos mais. Descobrimos que Juan tinha vínculos, obscuros, com o Governo. Era uma espécie de xerife informal da comunidade, e por isso tinha alguns benefícios adicionais, como poder trabalhar no turismo do mergulho, e possuir um taxi – que ele próprio não tinha autorização para dirigir. Outro benefício que ele tinha era poder sair do País em viagem ao Exterior. Mas somente ele. Não era possível o casal viajar junto. Um deles era obrigado a permanecer em Cuba, quando o outro saísse.

    Adriana era médica anestesista. Ela e Miriam, médicas, tiveram a oportunidade de descobrir algumas afinidades pela profissão. Soubemos que ele tinha um salário de 40 dólares mensais; ela, anestesista, tinha salário de 20 dólares mensais. A diária do nosso hotel custava cerca de 150 dólares. Não que o dinheiro fosse fazer alguma diferença, pois Cubanos não são admitidos como hóspedes em hotéis em Varadero.

    Descobrimos que só há quatro canais de TV em Cuba, um de educação, um de música e dois de notícias. Todos pertencem ao Governo. Ouvimos falar de cubanos que conseguiram, de contrabando, receptores que captavam sinal aberto de satélite, onde acessavam canais de outros Países. Mas isto era um comportamento de risco, e só podiam assistir fechados em casa, em segredo. Descobrimos que estávamos comendo lagosta porque Juan a pescara, com arpão, naquela manhã, pois apesar da condição social “diferenciada”, comprar lagosta estava além de suas possibilidades financeiras.

    Teoricamente, há acesso à internet. Mas meu pacote de dados comprado na Vivo não funcionou, e não ouvi falar de nenhum cubano que tivesse acesso à web em casa ou no celular, pelo preço absolutamente proibitivo.

    Há militares por todos os lados. Há checkpoints na estrada, porque só são admitidos a circular em Varadero os Cubanos expressamente autorizados. Não há lugar para todos sob o mesmo sol.

    Pablo, Juan e Adriana são amigos de Ron há quase 20 anos. Por força desde vínculo, estabeleceram conosco uma conexão que foi além do guia turístico. E se sentiram à vontade para prestar confidências. Conhecemos um povo triste, reprimido, carente, com enorme expectativa – que nem é mais velada – de uma nova “invasão” americana. Naquela semana chegou em Cuba o primeiro navio de passageiros vindo dos Estados Unidos. O clima era de festa na rua.

    Sou leigo em política. Nada disso que estou narrando é conhecimento obtido por leitura, ou por estudo. Não há como questionar a fonte. Porque a fonte é a vivência e o contato com o próprio povo, que foi além do superficial do turista. Não compreendo que as pessoas com viés político de esquerda, no Brasil, a quem são tão caros os preceitos do Politicamente Correto, vejam Cuba como modelo de qualquer espécie de sociedade.

    Durante as viagens à Baía dos Porcos, percebi que Pablo olhava com cobiça meu tablet. Ele tem duas filhas, que conhecemos depois e que me lembraram muito as minhas duas princesinhas, em casa. Lindas e meigas, praticamente da mesma idade das minhas. E comentou que era o sonho delas ter um tablet para brincar.

    Inventamos uma história então de que Ron precisava comprar um tablet e pedimos que nos levasse a uma loja. Ele prometeu para a manhã seguinte, onde paramos em um posto de gasolina e um sujeito chegou com um tablet Samsung visivelmente de segunda mão, pelo qual queria 100 dólares. Mais uma das pequenas corrupções que permeiam as relações não governamentais em Cuba. Negociamos o tablet por 80 dólares, e no caminho para Havana entregamos o tablet a ele, como presente para suas filhas. Ele começou a chorar, e nós choramos junto.

    Então morreu Fidel Castro. E só consigo pensar em Juan, Adriana e Pablo. E nas duas menininhas que, espero, um dia venham a conhecer minhas filhas.

  7. Sergio Vasconcelos

    Em Cuba, mentira é verdade, tortura é educação, fome é dignidade, morte é vida, ditadura é democracia, fome é patriotismo, prisão é liberdade.

    A Globo e a Band em tudo se assemelham à Novilíngua ou novafala do governo hiperautoritário da obra literária 1984 de George Orwell. Assim como ocorre em Cuba, a imprensa brasileira repete à exaustão que miséria e fome extremas da Ilha-prisão são indicadores de bem-estar!

    Já a prisão de dissidentes, assassinatos em massa e tortura são atos libertários, e a opressão e repressão política, cultural e social são conquistas da revolução.

    http://www.facebook.com/yusnaby/videos/1251626061579164/

  8. Sr. Sérgio Vasconcelos,

    Muito interessante esse seu comentário. Estive em Cuba em 2012 e fiquei com essa sensação. De que tudo o que me era falado pelos habitantes locais era mentira. Eles vivem um enredo de vida surreal e criam uma série de versões acerca das coisas e das pessoas que os cercam. A falta é troca de experiências com outras sociedades levou a povo cubano a um estado de infantilismo em massa mesmo na fase adulta da vida. O olhar deles é muito triste. Sequer demonstra raiva e vontade de sair daquela situação.

  9. o Mises entrou em contradição, há um artigo argumentando que Fascismo era de extrema esquerda, e esse alega que é de extrema Direita….Não estou defendendo nada, mas somente estou alertando que isso pode confundir pessoas mais leigas, quando o site não têm uma linha de raciocínio coerente.

  10. Gostei do texto, senti uma certa tendência conservadora, principalmente na conclusão quando diz

    “Não há um plano feito de cima para baixo com o intuito de corrigir e controlar toda a sociedade. Os únicos planos são aqueles que estão dentro das mentes de cada indivíduo. E mesmo estes planos devem sempre, e continuamente, ser testados e alterados de acordo com as condições vigentes do momento.”

  11. Porque os países nórdicos de um ótimo sistema de bem- estar social? Lá tem menos usuários do que o SUS brasileiro? Ficaria grato se colocassem fontes ao responder, eu não sabiaquais palavras chaves jogar no Google para obter essas informações.

  12. Cuba pré-castrista tinha saúde e educação notáveis como os atuais, por Demétrio Magnoli.

    Na sua capa, à guisa de epitáfio, a Folha (27/11) ofereceu a Fidel Castro uma espécie de absolvição histórica: “A ditadura é reconhecida por ter melhorado as condições de saúde e educação na ilha caribenha”. O mito da ditadura benigna emergiu, em formulações similares, nas declarações de FHC e José Serra, refletindo um consenso dos que, ao menos, recusam-se a elogiar fuzilamentos sumários ou o encarceramento de dissidentes. Temo estragar a festa contando um segredo de Polichinelo: a Cuba pré-castrista exibia indicadores de saúde e educação tão notáveis quanto os atuais.

    Fulgêncio Batista dominou a política cubana durante um quarto de século, até a revolução de 1959. Em 1937, no seu segundo ano de poder, instituiu o salário mínimo e a jornada de oito horas, antes do Brasil (1940) e de qualquer país latino-americano. No início da segunda década da “era Batista”, em 1955, a taxa de mortalidade infantil em Cuba (33,4 por mil) era a segunda menor na América Latina.

    O embargo econômico dos EUA contra Batista (sim, Batista!) começou em 1957. Naquele ano, a taxa de mortalidade infantil cubana (32 por mil) estava entre as 13 mais baixas do mundo, perto da canadense (31) e menor que as da França (34), Alemanha (36) e Japão (40). Atualmente, segue baixa, mas já não está entre as 25 menores do mundo. No mesmo ano, Cuba aparecia como o país latino-americano com maior número de médicos per capita (um por 957) e a maior quantidade de calorias ingeridas por habitante (2.870).

    Enquanto promovia centenas de execuções sumárias, o regime castrista conduziu campanhas de alfabetização rural tão inúteis quanto o Mobral de Emilio Médici. Como no Brasil, o analfabetismo reduziu-se quase à insignificância pelo efeito inercial da universalização do ensino básico. Mas Cuba partiu de patamar invejável: as taxas de alfabetização de 1956, quando os guerrilheiros chegaram à Sierra Maestra, colocavam a ilha na segunda posição na América Latina (76,4%), bem à frente da Colômbia (62%) e do Brasil (49%). Todas essas estatísticas estão na série da anuários demográficos publicados pela ONU entre 1948 e 1959, hoje disponíveis na internet. O jornalismo prefere ignorá-las, repercutindo a cartilha de propaganda castrista.

    Batista fugiu para a República Dominicana no Ano Novo de 1959. Se, na época, a Folha aplicasse o critério que usa para Fidel, teria escrito que a ditadura de Batista “é reconhecida por ter melhorado as condições de saúde e educação na ilha caribenha”. Por sorte, não o fez: Cuba não foi salva por Fidel nem pelo tirano que o precedeu. Médicos cubanos realizaram a primeira anestesia com éter em terras latino-americanas (1847), identificaram o agente transmissor da febre amarela (1881) e inauguraram a pioneira máquina de raio-X da América Latina (1907). Antes de Batista, em 1931, a taxa de mortalidade geral cubana (10,2 por mil) era menor que a dos EUA (11,1).

    Governos têm importância menor que a “história profunda”. Nos tempos coloniais, Cuba foi a “joia da coroa” espanhola no Caribe, um dos mais dinâmicos centros hispano-americanos, atraindo uma numerosa elite econômica e intelectual. A excelente faculdade de Medicina de Havana, os hospitais e as escolas do país nasceram no mesmo solo cosmopolita que produziu José Martí, apóstolo da independência, a Constituição democrática de 1940 e o Partido Ortodoxo, berço original do grupo revolucionário liderado por Fidel. Dia e noite já se sucediam em Cuba antes do triunfo final da guerrilha castrista, na Batalha de Santa Clara.

    Frei Betto dirá que a presciente ONU falsificou preventivamente as estatísticas colhidas na era pré-revolucionária para presentear o imperialismo ianque com torpes argumentos anticastristas. Apesar dele, os malditos anuários teimam em narrar uma história inconveniente. Hasta siempre, Comandante!

    O copo da utopia“, por Demétrio Magnoli.

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