
Nota da edição:
O artigo a seguir é um trecho de uma entrevista do jornalista libertário Brian Doherty que apareceu na edição de 12 de maio de 1999 do SpintechMag.com como “Libertarianismo e a Velha Direita”. Republicado em 2003 como parte do livro Speaking of Liberty, uma coletânea de entrevistas e discursos de Lew Rockwell.
Brian Doherty: Como surgiu o Mises Institute? Quão difícil foi começá-lo?
Lew Rockwell: Quando eu estava em Washington DC, meus momentos mais felizes eram receber ligações de estudantes que queriam saber mais sobre Ron e suas ideias. Ele tinha um enorme apoio nos campi do Texas. Os estudantes o viam como inteligente, fiel aos seus princípios e radical.
Mas enviar discursos e panfletos aos estudantes só levava as coisas até certo ponto. Eu queria fazer mais, mas, ao olhar ao redor, não via nenhuma organização libertária que se concentrasse em promover a pesquisa acadêmica especificamente voltada à Escola Austríaca.
Além disso, eu me preocupava que Mises estivesse perdendo prestígio como pensador desde sua morte. O lugar de Hayek estava garantido por causa do Prêmio Nobel. Mas o racionalismo de Mises, a qualidade rigorosa de seu pensamento e de sua prosa, a convicção de que a economia é um sistema lógico que pode legitimamente reivindicar o manto da ciência, pareciam estar se desvanecendo.
Os defensores da livre iniciativa voltavam-se para pensadores mais obscuros, monetaristas, positivistas e até institucionalistas que não tinham interesse no grandioso projeto misesiano. Isso também parecia acompanhar uma relutância em considerar questões difíceis e radicais sob o argumento de que eram politicamente inviáveis. Havia aqui uma sobreposição com o que estava acontecendo na política. Desde o início dos anos 1970, o movimento conservador era cada vez mais dominado por antigos membros da Velha Esquerda que haviam migrado para a Direita. Esses chamados neoconservadores fizeram a mudança em oposição ao “isolacionismo” da política externa de George McGovern, mas não haviam realmente mudado suas opiniões sobre questões internas.
Para ser justo com eles, os neoconservadores sempre admitiram que não haviam abandonado os Democratas; os Democratas é que os haviam abandonado. Eles celebravam abertamente os legados de Wilson, FDR e Truman — todos eles aspirantes a ditadores assassinos em massa.
Essa posição precisava ser refutada e combatida, mas, em vez disso, um movimento conservador de mentalidade militarista abraçou os neoconservadores como aliados na única questão que realmente importava para eles: a expansão do estado de guerra. Não havia lugar para Mises, cujos escritos sobre guerra e estatismo eram numerosos e profundos, nesse novo consenso.
Havia poucas alternativas à direita reaganizada. Os libertários de instituições de Washington DC (conhecidos no inglês como Beltway Libertarians) caminhavam cada vez mais em direção a proposição de políticas públicas e a uma preocupação generalizada com a respeitabilidade (as duas coisas andam de mãos dadas), e para longe da economia austríaca e de qualquer coisa que cheirasse a idealismo ou a uma elevada preocupação teórica. O objetivo se tornou receber Alan Greenspan para um coquetel.
Notei uma tendência semelhante entre as instituições que concediam bolsas. Pareciam interessadas em subsidiar apenas estudantes da Ivy-League com uma tendência liberal clássica suave, em vez de promover o desenvolvimento e a aplicação concretos do pensamento radical.
Outra abordagem que rejeitei foi o quietismo. Nunca me impressionei com a ideia de que deveríamos nos recostar em complacente satisfação de que constituímos os remanescentes, enquanto outros eventualmente se juntariam a nós ou não. Certamente as ideias têm consequências, mas a realidade dita que elas precisam de estudiosos apaixonados para fazê-las avançar em todas as frentes.
Assim, Mises como pensador, que tanto fizera para ressuscitar o velho liberalismo de mentalidade rigorosa, estava ficando à margem, vítima de um movimento que evitava todos esses pensadores “não respeitáveis”. A teoria e a prática misesianas se desvaneciam rapidamente. Decidi mudar isso e servir a uma geração negligenciada de estudantes. O idealismo é o que move o coração jovem, e o único idealismo que parecia estar disponível aos estudantes naqueles dias vinha da esquerda. Recorri ao meu amor de uma vida inteira por Mises, por sua genialidade e sua coragem, e conversei com Margit [esposa de Mises] sobre o projeto. Ela ficou empolgada, fez-me prometer que faria disso o trabalho da minha vida, e pusemos mãos à obra.
Quando pedi a Murray para chefiar os assuntos acadêmicos, ele se iluminou como uma criança na manhã de Natal. Concordamos que o objetivo deveria ser fornecer um sistema de apoio que reavivasse a Escola Austríaca como protagonista no mundo das ideias, de modo que o estatismo da esquerda e da direita pudesse ser combatido e derrotado. A principal crítica dirigida à economia austríaca naqueles dias era que ela não era formal nem rigorosa porque rejeitava o uso da matemática como ferramenta para construir a teoria econômica. Mas isso é absurdo. Na verdade, Murray teve duas graduações como estudante: uma em economia e outra em matemática. O que estava em jogo aqui não era a competência dos austríacos, mas uma questão metodológica fundamental: os métodos das ciências físicas podem ser importados para as ciências sociais por meio da economia? A resposta austríaca era não.
Ao mesmo tempo, havia um fundo de verdade nas críticas. A academia americana não oferecia nenhum ambiente formal para estudar economia sob a perspectiva austríaca. A maioria dos praticantes da época era autodidata, de modo que mesmo eles tinham uma perspectiva limitada sobre as possibilidades de criar um sistema formal alternativo de economia. Eu queria suprir essa deficiência criando um ambiente universitário paralelo no qual os estudantes pudessem estudar economia sob a geração de estudiosos austríacos pós-Mises, especialmente Murray. Murray amava nossos programas. Ele lecionava a tarde inteira e ficava acordado até as 3 e 4 da manhã conversando com os estudantes sobre ideias. Ele era sempre acessível, ria com facilidade e nunca era intimidador. Aprendia com todos ao seu redor e rejeitava a persona de “guru” que poderia ter adotado tão facilmente. Os estudantes que vinham até nós esperando um ambiente austero de teorização julgadora ficavam chocados ao descobrir algo mais próximo de um salão onde a investigação intelectual era livre e aberta. Tinha de ser assim para equilibrar o rigor do conteúdo. O espírito de Murray ainda anima todos os nossos programas.
O problema do financiamento foi algo que enfrentei desde o início. Eu queria dar a Murray uma plataforma, mas logo descobri que as fundações tradicionais não ajudariam enquanto ele estivesse a bordo do projeto. Elas certamente não apoiariam uma organização que defendia posições como a abolição do banco central, que financiaria a pesquisa histórica revisionista e que discordava do consenso bipartidário em Washington.
As fundações corporativas, por sua vez, não se interessam muito por ideias em geral, particularmente não por aquelas que ameaçam o status quo. Já é um clichê hoje, mas também descobri que as grandes corporações não são as mais fortes apoiadoras da livre iniciativa. Descobri também que a maior parte do dinheiro das fundações tradicionais e das corporações vem com condições atreladas. E se há uma característica institucional que desejei para o Mises Institute, além de sua postura ideológica, foi a independência. Eu não queria ser arrastado a apoiar projetos políticos esquisitos como vouchers para a educação ou zonas empresariais, e não queria ser forçado a enfatizar alguns aspectos da teoria misesiana simplesmente porque estavam na moda, sentindo-me compelido a minimizar outros. Eu nunca quis me ver censurando um acadêmico associado porque algum figurão de uma fundação não gostou do que ele estava dizendo.
Eu queria ver a plenitude do programa austríaco financiada e representada, de forma consistente, destemida e independentemente das repercussões. O Mises Institute precisava realizar um trabalho profundo e amplo. Precisava ter liberdade para apoiar pesquisas em áreas como a metodologia econômica, que não interessa às corporações, ou para criticar duramente a mais nova jogada de política pública, uma postura que não interessa às fundações. Por fim, o dinheiro do governo nunca foi uma consideração. No final, nosso apoio veio de doadores individuais, e quase exclusivamente assim. Eu tinha uma quantidade de contatos individuais de bom tamanho, então comecei por aí. Ron Paul e outros assinaram cartas para suas listas, o que foi de grande ajuda, e eu tinha economias suficientes para trabalhar alguns anos sem salário. Estamos em atividade agora há 17 anos, e levou muito tempo para nos tornarmos viáveis. Mas construímos lenta e cuidadosamente, tijolo por tijolo, e agora temos um edifício sólido. E ainda temos nossa independência, e ainda temos um diferencial.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


