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Vitória a crédito: os incentivos perversos do futebol brasileiro

Nota de edição:

Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou um concurso de artigos com o tema “Copa do Mundo de 2026“, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores da organização.

O concurso buscou artigos nos quais os alunos selecionassem um tema ligado ao mundo do futebol e o relacionassem a algum aspecto de política, economia, direito ou história.

O artigo abaixo conquistou o primeiro lugar no concurso.


Em qualquer mercado competitivo, organizações que gastam mais do que arrecadam tendem a perder espaço para concorrentes mais eficientes. No futebol brasileiro, ocorre com frequência o contrário, clubes profundamente endividados mantêm elencos caros, disputam títulos e, às vezes, superam rivais muito mais prudentes. Esse paradoxo não é uma anomalia passageira. É sintoma de um problema estrutural de incentivos, e a Escola Austríaca de Economia oferece ferramentas precisas para entendê-lo.

O diagnóstico que elas oferecem é incômodo, a culpa não é de quem gasta demais, mas de quem construiu um sistema onde gastar demais compensa. O futebol brasileiro foi organizado, ao longo de décadas, sem regras sérias que limitassem o endividamento e sem punição que tornasse a irresponsabilidade custosa. As entidades que comandam o esporte, com a CBF à frente, montaram um sistema em que um clube pode se endividar muito além da própria capacidade, atrasar salários, deixar de pagar contratações e seguir competindo no mais alto nível como se nada fosse. É uma espécie de doping financeiro autorizado, quem se dopa não é desclassificado, é premiado com a chance de continuar disputando em pé de igualdade, ou até com vantagem, contra quem jogou dentro das regras.

Ludwig von Mises ensinou que lucros e prejuízos funcionam como mecanismos de correção numa economia de mercado. O prejuízo é um sinal de que algo precisa mudar, que o caminho é insustentável. No futebol brasileiro, esse sinal foi desligado. As consequências do endividamento são adiadas indefinidamente, clubes acumulam passivos bilionários, renegociam dívidas e seguem competindo sem enfrentar o ônus que quem pratica esse comportamento deveria acarretar. O aviso não chega, ou chega tarde demais.

Parte disso vem de uma peculiaridade do modelo, a maioria dos grandes clubes brasileiros é associação civil sem fins lucrativos, com regime jurídico diferente do de uma empresa comum. Eles não quebram da mesma forma. Quando aperta, a saída é a recuperação judicial, um mecanismo criado para proteger o devedor em detrimento do credor, uma intervenção estatal que suspende contratos, renegocia passivos com deságio e devolve o clube à competição sem ter resolvido nada do que o levou até ali. Dezenas recorreram a ela como válvula de escape para décadas de má gestão. O Vasco é um exemplo e o Botafogo, com o segundo pedido em menos de seis anos, é outro. Acionada repetidamente sem mudança estrutural, ela vira mais um recurso do endividamento irresponsável. O clube entra em crise, recorre à proteção judicial, reestrutura dívidas com desconto sobre os credores, volta a competir e recomeça.

Na Europa, alguns países responderam de forma direta. Há ligas que descontam pontos do clube que recorre à insolvência, uma punição esportiva imediata que torna o custo da irresponsabilidade concreto e visível. E ela não vem só depois do colapso, o fair play financeiro da UEFA limita os gastos com elenco a um teto da receita, e quem o ultrapassa pode ser proibido de registrar novos jogadores, perdendo o direito de reforçar o time enquanto não arruma as contas. Se a má gestão pode custar uma temporada de pontos, ou a própria capacidade de contratar, o horizonte de cálculo do dirigente muda. No Brasil, nada acontece, quem entra em recuperação judicial na segunda pode disputar uma final no domingo. Com as regras postas assim, o dirigente irresponsável não é o que erra, é o que entendeu o jogo.

Böhm-Bawerk desenvolveu o conceito de preferência temporal para descrever algo intuitivo: as pessoas valorizam mais o que recebem hoje do que o que receberão amanhã. Pressionados por eleições, pela torcida e pela urgência de resultados, muitos gestores contratam, antecipam receitas e assumem dívidas para vencer no presente, sabendo que a conta cairá sobre administrações futuras. O ponto decisivo é que isso não é falha moral individual, é resposta racional a um sistema que recompensa exatamente esse comportamento. Quando o ambiente não pune o endividamento e premia a vitória a qualquer custo, o dirigente que se arrisca apenas joga bem o jogo proposto.

O Corinthians ilustra a dinâmica. Mesmo com uma das maiores dívidas do país, na casa dos R$ 2,8 bilhões, seguiu apostando pesado em contratações, na lógica de que premiações e patrocínios compensariam os riscos se os resultados viessem. O revelador é que, mesmo quando a aposta dá certo, as receitas extras raramente bastam para corrigir anos de desequilíbrio acumulado.

Talvez nenhum exemplo ilustre melhor a distorção do que o caso entre Corinthians e Athletico Paranaense em 2025. O Corinthians contratou o volante Alex Santana do Athletico por cerca de R$ 12 milhões, não pagou e meses depois usou o mesmo atleta para enfrentar o próprio Athletico numa fase decisiva. O clube que vendeu ficou sem o jogador e sem o dinheiro, e o que comprou ficou com os dois. Em qualquer outro setor seria impensável. No futebol brasileiro virou corriqueiro, e o incentivo é devastador, o clube responsável compete só com os recursos que tem, enquanto o irresponsável compete também com os recursos que ainda não pagou.

O debate público costuma se perder na comparação entre SAFs e clubes associativos, como se o modelo jurídico fosse a variável determinante. Como liberais, não temos dúvida de que a SAF tende a produzir governança superior: com acionistas que têm patrimônio em risco, as decisões tendem a ser mais técnicas e de longo prazo, ao contrário do dirigente associativo, eleito por poucos anos e movido a agradar à torcida e quem o ajudou a se eleger ainda dentro do seu mandato. Mas o Botafogo de John Textor, já uma SAF, jogou o capital novo na montagem de elenco, colheu resultados e logo voltou a sufocar. O caminho oposto aparece tanto em SAFs, como Bahia e Red Bull Bragantino, quanto em associativos, como Flamengo e Palmeiras, que reorganizaram finanças e fortaleceram a base antes de abrir o cofre. Primeiro criaram riqueza, só depois passaram a gastá-la. O problema real não é jurídico, é de incentivos.

A distinção entre investir e apostar é fundamental. O clube saudável que assume risco calculado investe para crescer, o já fragilizado que depende do sucesso imediato aposta a própria sobrevivência em resultados que não controla, e, como lembra Hayek, o desempenho esportivo depende de variáveis imprevisíveis, como lesões, arbitragem e sorte. E pior, num ambiente distorcido por incentivos errados, o cálculo de qualquer gestor perde sentido, porque não há decisão racional possível com os sinais do mercado adulterados. O dirigente responsável navega o mesmo nevoeiro que o irresponsável, só que com menos dinheiro na mão.

A própria CBF parece ter, enfim, reconhecido o problema, e a solução confirma o diagnóstico, faltavam as regras que nunca existiram. O Sistema de Sustentabilidade Financeira, o fair play financeiro brasileiro, entrou em vigor em janeiro de 2026, fiscalizado pela ANRESF, entidade independente e criada para este fim, e parte de uma ideia simples: cada clube só pode gastar o que efetivamente ganha. Clubes em recuperação judicial passam a ter restrições, como congelamento de folha e obrigação de fechar janelas com balanço equilibrado, e as punições vão de advertência e multa a dedução de pontos, transfer ban, rebaixamento e cassação de licença. A adoção é gradual a partir de 2026 e terá sua vigência plena a partir de 2030.

Se funcionar como prometido, será a primeira vez que a irresponsabilidade financeira terá custo esportivo real e imediato no país, o que é, em si, um reconhecimento de que o sistema anterior premiava o contrário. Resta a pergunta que só o tempo pode responder: uma entidade que sempre conviveu com os mesmos clubes que agora precisa fiscalizar terá disposição para aplicar as punições mais duras quando a conta recair sobre um gigante? A regra só corrige o incentivo se for cumprida.

Enquanto esse momento não chega, o incentivo perverso continuará existindo, dirigentes seguirão pressionados a buscar resultados imediatos e vender o futuro para tentar vencer no presente continuará sendo racional. É justamente por isso que, no futebol brasileiro, tantas vitórias ainda são conquistadas a crédito.

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