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Alan Greenspan morre aos 100 anos

Alan Greenspan, o poderoso presidente do Federal Reserve de 1987 a 2006, morreu aos 100 anos. Antes da crise financeira de 2008, Greenspan era considerado quase sobre-humano em sua liderança à frente da diretoria do Fed, e foi creditado por desempenhar um papel fundamental no forte crescimento econômico do final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Mais tarde, no entanto, ficou evidente que grande parte desse crescimento econômico era, na verdade, apenas uma enorme bolha criada por meio de estímulo monetário. De fato, Greenspan havia engendrado a bolha imobiliária para servir de canal para o estímulo alimentado por dinheiro fácil, concebido para tirar os EUA da recessão de 2001.

Esse novo estágio de estímulo, contudo, estava sendo construído sobre uma política já existente de usar o afrouxamento monetário como substituto do crescimento real. Greenspan, em um esforço para evitar a repetição da quebra do mercado de ações da Segunda-Feira Negra de 1987, introduziu o que ficou conhecido como “Greenspan put”, uma política de usar o Fed para injetar liquidez nos mercados privados a fim de sustentar os preços das ações. Essa nova era de subsídios alimentados pelo Fed para Wall Street e o setor financeiro pode-se dizer que começou em 20 de outubro, o dia seguinte à Segunda-Feira Negra, quando Greenspan fez um anúncio que hoje pareceria corriqueiro. Ele declarou: “O Federal Reserve, consistente com suas responsabilidades como banco central da Nação, afirmou hoje sua prontidão para servir como fonte de liquidez para apoiar o sistema econômico e financeiro”. Com isso, Greenspan estava implantando o sistema que agora é usado rotineiramente para socorrer bancos e detentores de ativos ricos, justificado pela alegação de que tudo isso está a serviço da “economia”.

Por meio de Greenspan, o modelo de todos os presidentes do Fed pós-2008 foi estabelecido e estimulado. Greenspan lançou as bases para os mandatos altamente inflacionistas de Ben Bernanke, Janet Yellen, Jerome Powell e — provavelmente — Kevin Warsh. Desde 2008, o Fed tem reivindicado incansavelmente vastos novos poderes, como sua capacidade de adquirir enormes montantes de ativos do Tesouro e hipotecários, e de intervir em praticamente todos os aspectos da economia dos EUA.

Tudo isso é a evolução natural do Greenspan put, e tudo está a serviço do setor financeiro, mas revestido com a linguagem de “ajudar a economia”. O resultado tem sido o empobrecimento relativo da metade inferior da faixa de renda americana, ao mesmo tempo em que proporciona imensos aumentos de riqueza para os detentores de ativos no topo da faixa de renda.

O Federal Reserve sempre foi, é claro, uma ferramenta das classes dominantes mais ricas, mas Greenspan serviu como uma engrenagem especialmente importante nessa máquina ao ampliar as prerrogativas do Fed dentro da economia global, ao mesmo tempo em que construía apoio político para si mesmo e para o Fed em geral. (Greenspan governou o Fed com mão de ferro, tolerando poucas discordâncias na diretoria do Fed). Em outras palavras, Greenspan foi um homem de relações públicas excepcionalmente talentoso para o Fed e o regime.

A carreira de Greenspan como um alpinista social e político amoral está bem documentada em uma biografia de 2010 escrita por Frederick Sheehan com o título Panderer to Power [Bajulador do Poder, em tradução livre]. Resenhei o livro na época, e reimprimi minha resenha abaixo:

[Publicado originalmente em LewRockwell.com em 15 de junho de 2010 como “O verdadeiro legado de Alan Greenspan”].

Panderer to Power: The Untold Story of How Alan Greenspan Enriched Wall Street and Left a Legacy of Recession, de Frederick Sheehan, 2010, McGraw Hill

Para aqueles de nós que eram meros estudantes de graduação em economia nos anos 1990, Alan Greenspan era praticamente um deus. É verdade que a visão de Greenspan transmitida aos graduandos pelo corpo docente não era de uma adoração inapropriada do suposto herói. Os resmungos e evasivas de Greenspan, afinal, eram tratados com uma perplexidade alegre pelo corpo docente. Mas havia a sensação de que Greenspan, apesar de toda a sua falta de clareza, parecia entender coisas que o resto da humanidade não entendia, e havia de fato fé na ideia de que ele devia possuir poderes quase sobrenaturais para fazer um ajuste fino da economia e garantir prosperidade econômica indefinidamente.

Mais tarde, alguns de nós fomos curados da religião de Greenspan pela economia austríaca, mas para a maioria, a imagem de Greenspan como O Maestro (para usar o termo popularizado por Bob Woodward) continuou mesmo até o outono de 2008, quando O Pânico se instalou.

A reputação de Greenspan sofreu desde então, embora muitos ainda lhe paguem cifras de seis dígitos por 45 minutos de sua sabedoria. E, embora o próprio Greenspan possa estar tendo dificuldade em retratar-se como um mero espectador inocente no atual colapso econômico, as políticas de Greenspan estão vivas e bem em seu sucessor. Ben Bernanke mostrou que o greenspanismo no Fed não corre nenhum risco de desaparecer. Dinheiro fácil na forma de taxas de juros extremamente baixas, exigências microscópicas de reservas e elogios intermináveis à dívida representavam a estratégia eternamente favorita de Greenspan, e Bernanke claramente planeja continuar a farra indefinidamente.

Panderer to Power, de Frederick Sheehan, documenta a ascensão de Greenspan ao poder, sua habilidade em jogar o jogo político e sua capacidade de convencer praticamente todo o mundo de que ele era talvez o maior economista da época. Ele realizou tudo isso, observa Sheehan, apesar de um histórico como um dos piores analistas de tendências econômicas em todas as fases de sua carreira.

Embora existam muitos livros sobre Greenspan, Panderer to Power é talvez o único livro (além de Greenspan’s Bubbles, de Fleckenstein) que examina em profundidade o trabalho de Greenspan que antecedeu o pânico financeiro de 2008 e suas consequências. E, como resultado, o livro tem um arco narrativo completamente diferente dos outros livros sobre Greenspan. Enquanto os livros pré-colapso apresentam a história de uma ascensão meteórica de um economista brilhante terminando em apoteose, Panderer to Power é a história de um economista cuja principal habilidade era a autopromoção, e que no fim tornou-se cada vez mais divorciado da realidade econômica. Já em abril de 2008 (antes de o colapso ser óbvio para todos), o L.A. Times, observando a turnê de palestras de Greenspan após sua aposentadoria, observou que “a turnê inconveniente, viajante pelo globo, ávida por dinheiro, manipuladora de legado e negadora de responsabilidades de Alan Greenspan continua, tão implacável quanto uma dor de dente persistente”.

Alan, o Deus, havia se tornado Alan, o Mero Mortal.

O pensamento geral de Sheehan sobre os presidentes do Federal Reserve é que os bons resistem à pressão política e, assim, resistem a inflar a oferta monetária para agradar os políticos eleitos. Sendo assim, o mandato de William McChesney Martin e os primeiros anos do mandato de Paul Volcker recebem tratamento favorável de Sheehan. Sheehan contrasta esses presidentes, que alertavam sobre a inflação e entravam em conflito com o Congresso e a Casa Branca sobre o assunto, com Greenspan que, sempre o oportunista político, fornecia consistentemente aos políticos o que eles queriam: dinheiro fácil, inflação e, ao menos, a aparência de uma economia em expansão. Os políticos também queriam um economista disposto a dizer sempre que tudo ia ficar bem. Greenspan era o homem perfeito para o cargo.

Sheehan leva o leitor pelo trabalho de Greenspan assessorando Nixon, seu mandato no Conselho de Assessores Econômicos do presidente Gerald Ford e seu tempo assessorando Carter. Ao longo dos anos, Greenspan tornou-se uma presença constante em Washington, onipresente nos coquetéis e mantendo-se sempre presente para aqueles que pudessem ajudar sua carreira.

De fato, muito antes de Greenspan ter conseguido entrar nos círculos superiores da cena social de Washington, Ayn Rand havia perguntado a Nathaniel Branden: “Você acha que Alan pode ser basicamente um alpinista social?”

É a relação de Greenspan com Rand que ainda hoje alimenta o mito de que Alan Greenspan é ou era um defensor doutrinário do livre mercado. Sheehan contesta essa versão da história, observando que “Rand e Branden eram instintivamente desconfiados das motivações de Greenspan” e que “Branden se lembra de um homem sem inclinações filosóficas”.

No fim, a associação de Greenspan com o círculo de Rand valeu a pena (pelos padrões de Greenspan) quando Martin Anderson, um randiano que mais tarde foi membro do governo Reagan, “se mostraria fundamental na ascensão de Greenspan”.

Não obstante, uma das pouquíssimas contribuições reais de Greenspan ao campo da economia de livre mercado é seu ensaio de 1966 “Ouro e Liberdade Econômica”, que oferece uma eloquente defesa do ouro e do dinheiro sólido. O fato de que Greenspan passou a totalidade de sua carreira no Fed trabalhando contra o dinheiro sólido ilustra o tipo de convicção filosófica que Alan Greenspan possuía. Greenspan estava tão à vontade com a dissonância cognitiva que, na verdade, anos depois, quando o deputado Ron Paul deu a Greenspan uma cópia de “Ouro e Liberdade Econômica” e perguntou ao presidente se ele gostaria de acrescentar alguma ressalva, Greenspan respondeu “Não(…) eu não mudaria uma única palavra”.

Não surpreendentemente, a parte mais envolvente e dramática de Panderer to Power é a aproximação do colapso financeiro de 2008. Sheehan documenta meticulosamente os comentários de Greenspan ao longo dos anos 1990 e até a última década. De 1987 até o fim de seu mandato, Greenspan inflou a oferta monetária ininterruptamente. As taxas de juros, embora ocasionalmente fossem ligeiramente elevadas pelo Fed de Greenspan, caíam vez após vez, com Greenspan sempre alegando que não havia nem uma bolha no mercado de ações (como fez em 1999) nem uma bolha imobiliária (como fez em 2006).

Em todo esse tempo, Greenspan praticamente nunca considerou a inflação um problema sério, ou mesmo um problema potencial. Ao contrário de seus predecessores Martin e Volcker, que ao menos reconheciam a inflação da oferta monetária como um problema, Greenspan, em vez disso, criava teorias convolutas para explicar por que tal inflação não era um problema, e por que o crescimento forneceria constantemente uma proteção infalível contra a inflação de preços.

Sua teoria mais famosa desse tipo era sua teoria da produtividade. Durante anos, Greenspan filosofou sobre como a produtividade decorrente de novas tecnologias preveniria desequilíbrios na economia provocados por uma política monetária tão massivamente frouxa. Essa teoria, combinada com uma reestruturação do Índice de Preços ao Consumidor [CPI, na sigla em inglês para Consumer Price Index] para reduzir a taxa oficial de inflação nos anos 1990, permitiu a Greenspan alegar que havia riqueza oculta sendo criada por trás das estatísticas sombrias. Na mente de Greenspan, os lucros corporativos (que estavam caindo) eram maiores do que pareciam devido à produtividade e ao fato de que “todos haviam errado” ao superestimar a inflação.

Greenspan, antes do estouro da bolha das empresas de tecnologia e do mercado de ações em 2000, já havia começado a alegar que era impossível prever ou administrar bolhas. Greenspan, no entanto, nunca explicou por que o Fed se dava ao trabalho de empregar economistas e modelos computacionais, já que identificar tendências e bolhas havia se tornado fútil em sua mente.

Tendo demonstrado estar totalmente sem perspicácia em relação à recessão de 2000—2001, Greenspan ainda assim escapou de qualquer crítica generalizada. Como vinha fazendo havia anos, Greenspan continuou a se entusiasmar com os benefícios dos derivativos e de quantidades massivas de alavancagem para financiar investimentos cada vez mais arriscados. A liquidez, com a ajuda de Greenspan, foi redefinida de modo que o termo não se referia mais a dinheiro, mas agora se referia a potenciais linhas de crédito.

Greenspan criticou os consumidores americanos por não gastarem o suficiente em bens de consumo e imóveis. Para Greenspan, o gasto do consumidor era essencial, independentemente de onde se obtivesse o dinheiro. Assim, em 2001, quando Greenspan, que aprovava enormemente o saque de patrimônio imobiliário para comprar bens de consumo, observou que o “nível geral dos gastos do consumidor parece estar se sustentando, suspeito que em grande parte por causa dos ganhos de capital em imóveis”, a próxima grande bolha já havia sido posta em movimento.

À medida que o colapso imobiliário se aproximava cada vez mais, Greenspan demonstrou verdadeiro talento em dar péssimos conselhos de investimento, sendo ainda pior em fazer previsões.

Em 2004, Greenspan criticou as hipotecas de taxa fixa, disse aos americanos que poderiam aprender uma coisa ou duas com os estrangeiros que supostamente usavam mais hipotecas de taxa ajustável, e então declarou que, comparada a uma hipoteca de taxa ajustável, uma “hipoteca tradicional de taxa fixa pode ser um método caro de financiar uma casa”.

Greenspan também não teve escrúpulos em tornar-se o melhor amigo do setor imobiliário ao denunciar todo discurso sobre uma bolha imobiliária. Em 2002, baseando-se na previsão de Greenspan, o economista-chefe da National Association of Home Builders [Associação Nacional de Construtores do Setor de Moradia, em tradução livre] declarou que “[c]hegou a hora de encerrar essa questão. Os construtores de casas da nação disseram(…) e agora Alan Greenspan disse mais uma vez, em termos inequívocos; não existe tal coisa como uma bolha atual ou iminente nos preços das casas”.

Em 2006, Greenspan declarou que “[a] maioria dos aspectos negativos no setor imobiliário provavelmente já ficou para trás” e que o quarto trimestre de 2006 será “certamente melhor que o terceiro trimestre”. A National Association of Realtors [A Associação Nacional dos Corretores de Imóveis, em tradução livre] então lançou uma campanha publicitária de 40 milhões de dólares alardeando o entusiasmo de Greenspan com o mercado imobiliário.

Embora Greenspan sempre tivesse um histórico terrível na percepção das tendências da economia, a história de Sheehan mostra um Greenspan que se torna cada vez mais alienado a cada ano que passa, à medida que inventava teorias cada vez mais extravagantes sobre lucros ocultos e produtividade na economia que ninguém mais conseguia ver. Ele falava incessantemente sobre temas como petróleo e tecnologia enquanto as bolhas cresciam cada vez mais. E finalmente, no fim, ele se aposentou para o circuito de palestras, onde foi forçado a defender seu histórico manchado.

Sheehan cataloga excelentemente a ascensão de Greenspan ao poder como um afável político tecnocrata que fazia o papel de economista com talento para números e para justificar políticas inflacionárias que deixavam presidentes e congressistas felizes. Greenspan sempre dizia a todos o que queriam ouvir. Os ricos e famosos se deleitavam em seu suposto gênio.

Hoje, aqueles que ainda defendem as políticas de Greenspan, se não o próprio homem, sustentam que “ninguém” previu a bolha e o colapso. Isso não é verdade, é claro. As previsões de economistas e investidores que previram o colapso estão bem documentadas. Mas Greenspan, O Maestro, disse que tudo estava bem, então aqueles com verdadeira perspicácia foram ridicularizados e ignorados.

Contudo, mesmo com o fim da era Greenspan, pouco mudou. Como Sheehan mostra, Bernanke fez Greenspan parecer quase tímido em sua busca por dívida, resgates e alavancagem sem fim.

Sheehan não condena o Federal Reserve como instituição em Panderer to Power, embora fique claro em seu trabalho que o Fed está mal equipado para resistir às pressões políticas para imprimir dinheiro a toda hora. Sheehan deixa claro que alguns presidentes do Fed são mais responsáveis do que outros. Mas, dada a própria natureza da instituição e a pura quantidade de poder que ela detém para inflar a oferta monetária, socorrer os bem relacionados e construir montanhas de dívida em nome do crescimento, fica claro que o Federal Reserve é um dos maiores obstáculos que enfrentamos agora para recuperar uma economia sólida.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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