Nota da edição:
Este artigo integra o e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, que pode ser acessado aqui.
A Copa do Mundo de 2026 marca o reencontro da seleção brasileira com a Escócia, algo que não se via desde 1998 em torneios oficiais. Esse jogo nos dá a oportunidade de falar sobre aquele que é, para a maioria dos analistas, o maior clássico entre clubes no futebol mundial: Celtic versus Rangers.
A Old Firm, como é chamado o clássico, transcende as quatro linhas. Suas origens remontam a uma das piores crises na história europeia do século XIX. A Grande Fome Irlandesa ainda é objeto de debates[1] entre historiadores econômicos com relação às causas da crise, o papel do governo britânico e as consequências das políticas adotadas. Há inclusive quem a atribua ao livre mercado.
A questão histórica extracampo transformou a rivalidade entre os dois clubes escoceses em uma cisão de fundo religioso e político, com efeitos que se desenrolam para além do futebol até os dias de hoje.
A relativização dos direitos de propriedade
Na virada para o século XIX, entraram em vigor os Acts of Union de 1800, em que a Coroa britânica aboliu o Parlamento irlandês e incorporou a Irlanda ao Reino Unido. Esse evento marcou a resposta da Coroa às rebeliões no final do século inspiradas pelas revoluções americana e francesa.
De fato, a subordinação econômica da Irlanda antecedia em muito os Acts of Union. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, o Parlamento britânico havia promulgado as chamadas Penal Laws, um conjunto de leis que restringiam sistematicamente os direitos civis, políticos e econômicos dos católicos irlandeses. Entre as disposições mais relevantes do ponto de vista econômico, estava a proibição de que católicos comprassem terras ou obtivessem arrendamentos de longo prazo. O efeito prático foi a transferência progressiva da propriedade fundiária para mãos protestantes, em grande parte ingleses ou anglo-irlandeses, e a criação de uma estrutura de propriedade profundamente assimétrica. Assim, as terras eram de propriedade de ingleses protestantes, muitos deles ausentes — os chamados absentee landlords.
Os milhões de católicos irlandeses trabalhavam em pequenos lotes de terra arrendados, sem garantia de permanência ou proteção legal significativa. Quando um arrendatário melhorava a terra — drenava um campo, cercava uma área e aumentava a produtividade —, o proprietário ausente poderia simplesmente elevar o aluguel na renovação do contrato, ou mesmo expulsá-lo e arrendar a terra por um valor mais alto para outro inquilino. Na realidade, o direito desses proprietários era também precário e sujeito aos desígnios do governo inglês[2]. Tudo isso incentivava a exploração da terra, mas desencorajava investimentos e melhorias nas fazendas.
Com pouca terra disponível e sem incentivos para investimentos de longo prazo, os arrendatários passaram a depender cada vez mais da cultura de batatas. A batata exigia pouco capital, podia ser cultivada em pequenos lotes e produzia calorias suficientes para sustentar uma família em condições de subsistência. Essa dependência irlandesa da batata, portanto, foi uma consequência da relativização dos direitos de propriedade pelo estado inglês.
Protecionismo agrícola e assistencialismo
Outra fonte de tensões entre Irlanda e Inglaterra foram as políticas protecionistas. As Corn Laws, vigentes em sua forma mais restritiva a partir de 1815, mantinham os preços dos grãos artificialmente elevados por meio de tarifas sobre importações, beneficiando principalmente os proprietários de terras e produtores agrícolas às custas dos consumidores, que pagavam mais caro pelos alimentos.
As Corn Laws tiveram um efeito no boom demográfico irlandês. Com os preços mais altos de grãos, as terras valiam mais e os proprietários tinham interesse em maximizar a extração dessa renda. A forma mais eficiente de fazê-lo era subdividir as propriedades em lotes cada vez menores, arrendando-os para o maior número possível de famílias. Cada família precisava de pouca terra para sobreviver, desde que cultivasse batatas. O resultado foi uma proliferação de micro-arrendamentos que sustentou um crescimento populacional acelerado.
Os preços elevados também incentivaram a expansão das áreas cultivadas e aumentaram a demanda por trabalho rural na Irlanda. Como os irlandeses continuavam sem direitos de propriedade sólidos, essa expansão não se traduziu em ganhos permanentes de produtividade ou acumulação de capital. Tratava-se de uma prosperidade sustentada por incentivos artificiais.
O arranjo protecionista era denunciado por defensores do livre-comércio. A criação da Anti-Corn Law League, em 1838, pressionou o governo inglês, e as leis foram eventualmente revogadas em 1846. Quando os preços despencaram, muitas propriedades abandonaram a produção agrícola e migraram para a pecuária, atividade que exigia menos trabalhadores. O resultado foi uma forte redução da demanda por mão de obra.
As intervenções do governo britânico chegaram também às questões sociais. A Poor Law inglesa, estendida à Irlanda em 1838, substituiu em grande medida os mecanismos voluntários e comunitários de assistência — a caridade privada, as redes paroquiais e os arranjos locais — por um sistema estatal centralizado e concentrado nas chamadas workhouses. O assistencialismo produziu o efeito de crowding out, substituindo a caridade voluntária na medida em que desincentivava doações privadas e enfraquecia as redes comunitárias que existiam antes.
Mas as workhouses foram projetadas para serem piores do que a pior alternativa disponível fora delas. O objetivo declarado era impedir que trabalhadores saudáveis preferissem a assistência ao trabalho. Na prática, isso significava alimentação escassa, disciplina rígida, separação forçada de famílias, superlotação e condições sanitárias precárias.
A Grande Fome Irlandesa
Todo o arcabouço de intervenções inglesas na economia e na sociedade irlandesa coincidiu com a infeliz praga das batatas que afligiu a Europa a partir de 1845. O fungo Phytophthora infestans atacava as folhas da planta e rapidamente apodrecia os tubérculos no solo. Os milhões de irlandeses que dependiam da batata como fonte principal de alimentação se viram sem alimento.
Como falamos, as terras agrícolas eram arrendadas em pequenos lotes, e os proprietários ausentes, vivendo na Inglaterra, não tinham incentivos para contornar a praga nem para proteger seus arrendatários. Na realidade, com a queda na capacidade de produção, muitos arrendatários, incapazes de pagar o aluguel, foram despejados, e as terras, em alguns casos, reconvertidas à pecuária, que exigia menos mão de obra e gerava renda mais previsível.
As workhouses criadas pela Poor Law tornaram-se armadilhas. Com o desincentivo à caridade privada, aquelas instituições governamentais projetadas para ter deliberadamente péssimas condições tornaram-se, durante a fome, destino de famílias sem alternativa. As condições de superlotação, alimentação mínima e falta de higiene transformaram as workhouses em focos de disseminação de doenças. De fato, grande parte das mortes na Grande Fome não se deu por inanição direta, mas por tifo, disenteria e outras doenças infecciosas que se propagavam entre populações enfraquecidas e concentradas.
Uma crise financeira em meio à fome
Em paralelo, o Parlamento britânico instituiu a Lei Bancária de 1844, conhecida como Peel’s Bank Charter Act. A lei emergiu de um debate teórico entre duas escolas de pensamento: a Currency School, que defendia que a emissão de papel-moeda deveria ser integralmente lastreada em ouro, e a Banking School, que argumentava pela flexibilidade. Os economistas da Currency School identificaram corretamente que a expansão artificial do crédito viabilizada pelo sistema bancário de reservas fracionárias provocava os ciclos econômicos[3]. A Currency School venceu o debate legislativo, e a lei de 1844 exigiu que novas emissões de notas pelo Banco da Inglaterra fossem 100% cobertas por ouro.
No entanto, a lei falhou em dois pontos cruciais. Em primeiro lugar, embora a Currency School reconhecesse o papel inflacionário do banco central, a lei acabou por centralizar o controle monetário no próprio Banco da Inglaterra. Em segundo lugar, e mais relevante para a crise que se seguiu, a lei aplicou os requerimentos de cobertura apenas às notas emitidas, não aos depósitos bancários. Os bancos comerciais continuaram livres para expandir o crédito via depósitos, sem qualquer exigência de reserva correspondente em ouro.
A mecânica da crise que se seguiu é perfeitamente explicada pela teoria austríaca dos ciclos econômicos. A expansão do crédito via depósitos gerou um boom artificial, com investimentos iniciados com base em crédito fácil que não correspondiam à poupança real da economia. Quando o Banco da Inglaterra precisou contrair para defender suas reservas de ouro, o crédito se retraiu abruptamente. Projetos iniciados durante o boom não puderam ser concluídos.
A crise financeira de 1847 agravou a Grande Fome na Irlanda. A combinação de fome, despejos em massa e contração do crédito criou um ambiente em que a recuperação se tornou impossível.
Como resposta à crise econômica, o governo inglês criou programas de obras públicas para empregar a população. Esses projetos funcionavam mais como programas de geração artificial de empregos do que como investimentos produtivos. Os salários eram extremamente baixos, frequentemente insuficientes para compensar o desgaste físico do trabalho pesado. Assim, essas obras consumiam recursos escassos sem gerar benefícios econômicos duradouros para uma economia já pobre em capital. Em vez de estimular a recuperação, agravaram a fragilidade da população e desviaram recursos de usos potencialmente mais produtivos[4].
Um trauma com cicatrizes
A Grande Fome não foi simplesmente resultado da praga da batata[5]. A praga atingiu uma sociedade que havia sido tornada extremamente vulnerável por séculos de expropriação, direitos de propriedade precários, protecionismo, intervenções monetárias e políticas assistencialistas e de bem-estar social.
Entre 1845 e 1852, a Grande Fome matou aproximadamente um milhão de pessoas, tanto por inanição, quanto pelas doenças que se proliferavam numa população enfraquecida. Mais de um milhão emigrou durante os anos da crise. A emigração não parou com o fim da fome, mas se tornou uma característica da sociedade irlandesa por gerações.
O impacto demográfico não tem paralelo na história europeia moderna. O censo de 1841 registrou uma população de 8,2 milhões de pessoas na ilha da Irlanda. Em 1851, já havia caído para 6,5 milhões. Na virada para o século XX, eram 4,5 milhões. Enquanto a Europa como um todo via sua população crescer vertiginosamente ao longo do século XIX, a Irlanda encolheu.
As consequências da Grande Fome ainda reverberam sobre a sociedade irlandesa. No início do século XXI, a ilha da Irlanda — somando a República da Irlanda e a Irlanda do Norte — tinha cerca de 6,5 milhões de habitantes, ainda menos do que antes da fome. Em 2026, a República da Irlanda tem pouco mais de 5 milhões de pessoas. A Irlanda é o único país do mundo ocidental cuja população é, hoje, menor do que era em 1841.
A diáspora irlandesa se espalhou pelo mundo. Os Estados Unidos receberam a maior leva — calcula-se que mais de 40 milhões de americanos têm ascendência irlandesa hoje. A Austrália, o Canadá e a Argentina também receberam contingentes significativos. E a Escócia, pela proximidade geográfica e pelos laços históricos, tornou-se destino natural para centenas de milhares de irlandeses.
O que isso tem a ver com futebol?
A Grande Fome Irlandesa levou a uma imigração massiva para diferentes países, inclusive a Escócia. Como parte do Reino Unido, a Escócia também possuía uma cultura majoritariamente protestante e uma estrutura social que via os recém-chegados com desconfiança. Os irlandeses enfrentavam não apenas a dificuldade de se adaptar a um novo país, mas também preconceitos sociais, religiosos e dificuldades econômicas.
Nesse contexto, o Irmão Walfrid, membro da ordem dos Irmãos Maristas, fundou em 1888 um clube de futebol com um objetivo explicitamente beneficente: arrecadar fundos para alimentar crianças pobres da comunidade irlandesa católica do East End de Glasgow, por meio do programa conhecido como Poor Children’s Dinner Table. O clube se chamaria Celtic Football Club.
O Celtic foi fundado como instrumento de solidariedade comunitária, mas seu sucesso esportivo foi imediato. Já em sua primeira temporada, o clube atraiu grandes públicos e rivalidades sérias. O Rangers Football Club existia desde 1872 e era um dos clubes mais tradicionais da Escócia. À medida que o Celtic cresceu e passou a disputar títulos com regularidade, a rivalidade dentro de campo se intensificou.
Mas o que transformou a Old Firm no maior clássico do mundo não foi apenas a competição esportiva, mas a sobreposição entre a rivalidade no campo e as divisões religiosas e políticas fora dele. De fato, o Rangers surgiu como um clube de futebol despretensioso no sentido político, fundado por um grupo de amigos. O sectarismo só foi se construir ao longo das primeiras décadas do século XX, em parte como reação ao crescimento do Celtic e à afirmação da comunidade católica irlandesa em Glasgow — uma comunidade que muitos protestantes escoceses viam como ameaça cultural e econômica.
Ao longo do século XX, o Rangers desenvolveu uma política extraoficial, mas amplamente reconhecida e praticada, de não contratar jogadores católicos. Essa política durou décadas e só foi formalmente rompida em 1989, quando o Rangers contratou Maurice Johnston — um atacante escocês, católico e, para tornar o episódio ainda mais emblemático, ex-jogador do Celtic. A contratação gerou protesto de torcedores do Rangers e de parte da direção do clube. O escândalo foi suficientemente grande para figurar em jornais internacionais.
A diferença também se manifesta nos símbolos e na política das torcidas. A torcida do Celtic carrega a bandeira e as cores da Irlanda nas arquibancadas, e não é incomum encontrar bandeiras do Vaticano entre os torcedores. Diversos cantos da torcida do Celtic fazem referência à Irlanda e, inclusive, à Grande Fome. A torcida do Rangers, por sua vez, utiliza a bandeira da Escócia, mas tem como símbolo principal a Union Jack, cujas cores azul, branco e vermelho coincidem com as cores do clube. Canções unionistas e letreiros anticatólicos foram parte recorrente das arquibancadas do Ibrox, o estádio do Rangers, durante décadas.
Em termos esportivos, a rivalidade é incrivelmente equilibrada. Na história dos confrontos diretos, Celtic e Rangers acumulam números quase idênticos de vitórias. O mesmo ocorre na disputa pelos títulos do campeonato escocês: os dois clubes dominam a história do futebol escocês de forma alternada, com o Celtic acumulando 56 títulos de liga e o Rangers 55.
Um ápice fora de campo: os Troubles e os anos 1990
A rivalidade atingiu seu ponto de maior tensão política durante os anos dos Troubles na Irlanda do Norte, o conflito armado entre republicanos católicos e unionistas protestantes que durou do final dos anos 1960 até o Acordo de Sexta-feira Santa de 1998. A Old Firm serviu durante esse período como espelho e amplificador das tensões políticas na ilha. Torcedores do Celtic exibiam nas arquibancadas apoio explícito ao IRA e à causa republicana. Torcedores do Rangers respondiam com símbolos lealistas e unionistas. O estádio, e o futebol, tornou-se um palco de manifestação para o conflito sangrento que se desenrolava a menos de duzentos quilômetros de distância.
O governo escocês e as autoridades policiais passaram a tratar os jogos da Old Firm como eventos de alto risco. Os repetidos casos de violência geraram um debate público sobre a responsabilidade dos clubes e da mídia na amplificação do sectarismo.
A resposta institucional veio em 2012, com o Offensive Behaviour at Football and Threatening Communications Act, uma lei aprovada pelo Parlamento escocês que criminalizou cânticos sectários e comportamento ligados a rivalidades religiosas nos estádios. A lei foi controversa e acabou sendo revogada em 2018.
Hoje, a Old Firm continua sendo o maior clássico do futebol mundial no que diz respeito à carga histórica e política que carrega. O futebol abraçou a diáspora irlandesa provocada pelas intervenções estatais e pela tragédia que se seguiu. A rivalidade iniciada no campo logo se espalhou pelas arquibancadas, alimentada por diferenças religiosas e políticas.
Considerações finais
A trajetória que vai das Penal Laws ao clássico de Glasgow é, em sua essência, uma história sobre as consequências de longo prazo da coerção estatal. A Grande Fome Irlandesa, com seus milhões de mortos e emigrados, começa na relativização da propriedade privada e na expropriação fundiária, cresce no protecionismo, passa pela expansão artificial do crédito e chega ao assistencialismo perverso. Todos esses elementos, em conjunto, criaram uma sociedade tão vulnerável que uma praga agrícola, que de fato atingiu toda a Europa, tornou-se um extermínio na Irlanda.
É curiosa e surpreendente a forma como esse processo histórico tenha se manifestado. Celtic e Rangers carregam uma rivalidade histórica, política e social que atravessa séculos. O esporte tem esse poder de mover paixões. Nunca foi só futebol.
[1] Em 1997, o então Primeiro Ministro britânico, Tony Blair, assumiu a culpa do governo britânico pela Grande Fome Irlandesa. Mais tarde, em 2021, arquivos indicaram que o pedido de desculpas nunca chegou a ser assinado pelo político.
[2] Ver mais em: Thornton, Mark.Black 47 and Beyond: The Great Irish Famine in History, Economy, and Memory, by Cormac O Gráda. The Quarterly Journal of Austrian Economics 3, No. 2 (Summer 2000): 89–93.
[3] Ver mais em: Huerta de Soto, Jesús. Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos São Paulo: Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2012.
[4] Podemos chamar essas medidas de proto-New Deal, em referência à resposta do governo americano à crise de 1929 e à depressão que se seguiu na década de 1930. Em ambos os casos, o estado respondeu à crise e às necessidades de correção do mercado com mais intervencionismo e um aprofundamento dos desequilíbrios.
[5] Ver mais em: Thornton, Mark. What Caused the Irish Potato Famine? The Free Market 16, no. 4, April 1998.
