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A estranha paixão de Trump pela inflação

Políticos de ambos os partidos dizem e fazem constantemente coisas que não fazem sentido em relação aos objetivos que afirmam publicamente estar buscando. Essa dimensão ilógica da retórica pomposa política corrobora a tese de Ludwig von Mises de que, mesmo deixando de lado argumentos éticos sobre objetivos finais, uma compreensão isenta de valores da lógica da ação humana intencional — a economia — costuma ser suficiente para refutar quaisquer justificativas públicas que os políticos ofereçam para suas políticas, já que tais políticas simplesmente não levam aos resultados que afirmam desejar.

É claro que os objetivos reais que os políticos e seus patrocinadores realmente têm em mente muitas vezes divergem radicalmente do que dizem ao público. É preciso sempre levar em conta, com generosidade, como a democracia incentiva a hipocrisia por parte de políticos sofisticados, apesar de eles frequentemente terem uma boa noção do que suas políticas realmente implicam.

No entanto, alguns políticos são tão desprovidos de bom senso que somos forçados a concluir que não são meramente enganadores, mas também grotescamente ignorantes. Mesmo correndo o risco de ser contaminado por uma “Síndrome de Desorientação”, não consigo deixar de ficar indignado com algumas das bobagens que o presidente Donald J. Trump vem dizendo sobre a economia. Os exemplos mais recentes envolvem o aumento vertiginoso do custo de vida (que nem mesmo o Índice de Preços ao Consumidor oficial consegue esconder agora, apesar dos viéses do IPC) e a política de taxas de juros do Federal Reserve.

Quando questionado em uma coletiva de imprensa em 10 de junho sobre a taxa anual de aumento do IPC ter atingido 4,2%, Trump declarou: “Eu adoro a inflação”. Trump tentou racionalizar esse “amor” gabando-se de que a Marinha dos EUA tem feito navios-tanque passarem furtivamente pelo bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz e se vangloriando de que os mercados de ações atingiram níveis recordes no início de fevereiro.

Não foi um erro de citação; Trump realmente disse “Eu adoro a inflação” — pare um momento para refletir sobre isso.

Trump também se pronunciou sobre a política do Federal Reserve em uma entrevista polêmica conduzida por Kristen Welker para o programa Meet the Press da NBC, em 7 de junho. Welker observou que, diante dos últimos relatórios sobre o mercado de trabalho, os economistas estavam dizendo que o Fed talvez tivesse que aumentar as taxas de juros. Trump respondeu:

Estamos indo muito bem, e é injusto que, sempre que as coisas vão bem, eles queiram aumentar as taxas de juros. Deveria ser o contrário. Sabe, se a gente voltar 15 ou 20 anos no tempo, quando os resultados eram bons, o mercado subia. Hoje em dia, quando os resultados são bons, o mercado cai porque acham que vão aumentar as taxas de juros. Não há motivo para aumentar as taxas de juros. O país fica ótimo. Construímos o país indo muito bem e mantendo as taxas baixas. O que eles fazem é: quando aumentam as taxas de juros, tentam acabar com o sucesso. Eu não quero acabar com o sucesso. Na verdade, deveríamos reduzir as taxas de juros. Agora, se vier a inflação — e, você sabe, as pessoas convivem com a inflação —, mas se ela vier, o que acontece é que a gente a combate. Mas o sucesso pode acabar com a inflação da mesma forma que taxas de juros mais altas. O que eles fazem agora é… tipo, tivemos ótimos números de emprego. Você concorda, certo?

Uma pergunta complementar gerou mais agitação em favor de uma criação mais rápida de dinheiro pelo Fed:

Eu gostaria de ver as taxas caírem, porque poderíamos transformar isso na maior máquina que o mundo já viu, mas não dá para fazer isso quando todo mundo aumenta as taxas de juros imediatamente. Então, tivemos ótimos números de emprego. Estamos indo muito bem. Sabe, estamos construindo mais fábricas. Temos mais dinheiro entrando em nosso país agora, proveniente de outros países e de pessoas, do que nunca. Espere um pouco. O que acontece? Não quero simplesmente acabar com isso com taxas de juros altas. O crescimento é a melhor coisa que se pode ter, e o crescimento não causa inflação.

O mercado de trabalho está indo muito bem? Sério? A maioria dos americanos — mesmo aqueles que não entendem nada de economia — sabe muito bem, por experiência própria, que não há nada de bom no aumento dos preços ao consumidor, especialmente quando eles sobem mais rápido do que seus salários. Relatórios oficiais (especialmente quando corrigidos para os vieses do IPC) confirmam que a vida está se tornando menos acessível para muitos trabalhadores, com as esperanças de construir carreiras, comprar casas e constituir família sendo destruídas. O novo entusiasmo de Trump vai contra todo o bom senso.

Compreender um pouco de teoria econômica expõe ainda mais a incoerência econômica de Trump, que ameaça até mesmo aqueles cujas carteiras de ações estão prosperando no momento.

Primeiro, considere a agressão inconstitucional de Trump contra o Irã. Apesar dos supostos sucessos em contrabandear petróleo por entre os iranianos, os suprimentos globais de petróleo e outros insumos vitais foram drasticamente reduzidos e os preços subiram significativamente acima dos níveis pré-guerra. Travar uma guerra também obriga o Pentágono a consumir mais bens às custas dos bens civis. A guerra também prejudica os setores que têm a infelicidade de estar localizados na zona de conflito, diminuindo ainda mais a produção global futura. O Índice de Preços ao Produtor está subindo ainda mais rápido do que o IPC, o que é uma péssima notícia para as tendências futuras dos preços. Uma escassez mais severa de insumos se traduz em rendimentos e padrões de vida mais baixos para todos.

Haverá enorme pressão sobre os políticos para que ofereçam novos resgates financeiros e auxílios para amenizar esse cenário, o que, por sua vez, apenas sabota ainda mais a produção e prolonga o tempo necessário para a recuperação, mesmo que o Estreito de Ormuz fosse totalmente reaberto amanhã. Assim como ainda não nos recuperamos totalmente dos impactos negativos dos lockdowns da COVID de Trump/Biden ou das tarifas de Trump, também não nos recuperaremos da guerra de Trump/Netanyahu tão cedo.

Em segundo lugar, considere a recente alta do mercado de ações. Acionistas voltados para o crescimento (e outros que contam com ganhos de capital, como especuladores imobiliários) devem estar atentos a uma imminente recessão econômica, à medida que o atual boom impulsionado pelo crédito bancário chega ao fim. O viés otimista permanente da mídia financeira faz com que ela relute em alertar os investidores sobre os riscos de uma queda brusca das ações de IA ou de Wall Street precisar de outro resgate gigantesco, enquanto o resto da economia se atola em outra depressão que se estenderá por anos, mas é exatamente com isso que os investidores deveriam estar preocupados neste momento. Contas 401(k) repletas de ações voláteis de setores em expansão podem cair ainda mais rápido do que subiram.

Em terceiro lugar, considere a interferência do Federal Reserve nas taxas de juros. O que o Fed faz com a ajuda dos bancos comerciais é empurrar as taxas de juros para níveis abaixo daqueles do livre mercado laissez-faire por meio da criação de moeda, gerando assim booms temporários em setores da economia sensíveis às taxas de juros. Tais booms não são sustentáveis porque os setores que não estão em expansão ficam privados de insumos, o que eleva os preços dos insumos em relação aos preços dos produtos, tornando, eventualmente, os setores em expansão não lucrativos. Continuar reduzindo as taxas de juros mesmo após o início de uma recessão apenas prolonga desnecessariamente a pressão sobre as margens operacionais e impede a recuperação, muito semelhante ao que os americanos vivenciaram desde a crise financeira de 2008 até 2014, quando a “Flexibilização Quantitativa” do Fed finalmente chegou ao fim.

O que Trump não consegue compreender é que o crescimento requer um aumento da oferta de mão de obra e de insumos de recursos naturais, direcionados para os estágios iniciais da produção — mais sensíveis às taxas de juros —, e não apenas um aumento da demanda por tais insumos nesses estágios iniciais por meio de financiamento a juros baixos. A restrição voluntária do consumo presente — ou seja, a poupança — é o que torna possíveis as transferências sustentáveis de insumos dos estágios finais para os estágios iniciais da produção. A poupança aumenta a produtividade ao proporcionar mais tempo para transformar insumos em produtos.

É um erro crasso pensar que o mero financiamento sem poupança, como é o caso das expansões do crédito bancário alimentadas pela criação de moeda, aumenta a oferta de bens de capital. Em vez disso, impulsionar a demanda por insumos sem um aumento da oferta desses insumos nos estágios iniciais apenas torna os bens de capital mais caros em relação aos bens de consumo não duráveis. A criação de moeda eleva os preços, inibe a poupança e promove o desperdício nos setores em expansão, não o crescimento.

O investimento financiado pela poupança é precisamente o que vem desaparecendo da economia americana, o que explica por que as tentativas republicanas — que, de outra forma, seriam sensatas — de estimular o crescimento por meio de cortes de impostos e regulamentações fracassam rotineiramente. Desde meados da década de 1960, a parcela da renda destinada à poupança líquida caiu de porcentagens de dois dígitos para quase 0% atualmente (figura 1), efeito combinado do aumento vertiginoso dos déficits e da dissuasão à poupança causada pelas promessas crescentes de benefícios futuros da Previdência Social e do Medicare. Venho alertando sobre essa tendência desde a década de 1990, época em que Trump começou a saquear várias empresas em falência e estava festejando com Jeffrey Epstein (um “cara incrível”, segundo Trump na época), enquanto enganava o público fazendo-o acreditar que era um brilhante empresário e negociador. Décadas depois, nada parece ter mudado.

Figura 1: Poupança líquida como fração da renda nacional

Fonte: BEA via FRED®

Normalmente, minhas expectativas extremamente baixas em relação aos políticos me impedem de destacar as falhas pessoais de qualquer um deles em particular, mas as declarações malucas de Trump ultrapassam um limite. Claro, Trump diz coisas escandalosas apenas para provocar os adversários, mas, por favor, não ignorem esses exemplos gritantes da negligência intelectual de Trump. Precisamos urgentemente fazer a economia dos Estados Unidos crescer, começando por inverter a tendência da figura 1. Quem continua a apoiar esse vigarista ignorante e corrupto depois que ele expressa um “amor” tão distorcido e que negligencia os fatos faz parte do problema, não da solução.

Chamem-me de exibicionista desequilibrado, se quiserem; ainda assim, não há como negar a regra bem conhecida da política americana que trouxe a vitória a Trump em 2024: “É a economia, estúpido.”

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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