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Pode a Argentina voltar a ser um país normal?

A Argentina já vivencia 85 anos de decadência
econômica.  Já tendo sido o nono país do
mundo em termos de riqueza per capita, hoje o país não figura nem sequer entre
os 50 primeiros.  Sua pobreza alcança quase
30% da população
.  A inflação de
preços “oficial” está em 15%,
mas institutos privados calculam que a inflação real esteja acima dos 30% (em
2012, o governo decretou
que era crime
divulgar as taxas reais de inflação).  O governo raciona a quantidade de
dólares
que as pessoas podem comprar. 
Há uma contínua
fuga de capitais
.

O caso da Argentina é tão raro, que até mesmo
reconhecidos analistas internacionais não conseguem explicar os motivos deste
decadente histórico.  O economista Simon Kuznets (1901-1985),
o russo que revolucionou a econometria e padronizou a mensuração do PIB,
demonstrando todo o seu assombro, certa vez afirmou que havia 4 classes de
países: os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina.

A excepcionalidade argentina é tamanha, que dois economistas
afirmaram que a Argentina é “o país das desmesuras”.  Em seu livro que
tem como título esta frase
, Juan Lach e Martín Lagos comparam o desempenho
econômico da Argentina com os da Nova Zelândia, Brasil, Chile e Uruguai, e
encontram as raízes da sustentada decadência do país em certos comportamentos
“excessivos ou desmesurados”.

Entre estas desmesuras, particular destaque para:

  • O caudilhismo e o populismo com
    propensões hegemônicas
  • O fechamento da economia
  • A alta inflação
  • O escasso financiamento aos
    investimentos por causa da inflação
  • O déficit fiscal do governo

Para os autores, a Argentina mostrou um desempenho
amplamente pior que o de todos os países tomando por base estes quesitos, o que
explica grande parte do processo de sustentada decadência econômica e social.

Como não poderia deixar de ser, o kirchnerismo
seguiu ao pé da letra todos estes quesitos. 
Em um mundo em que a inflação de preços está em praticamente zero, as
autoridades argentinas tiveram a genial ideia de imitar o modelo venezuelano.  Hoje, a Argentina faz parte de um seleto
grupo de 4 ou 5 países que vivenciam, de forma contínua, uma elevação de preços
superior a 20% ao ano.

Por trás da brutal destruição do peso gerada por
essa robusta inflação está o déficit fiscal do governo, que já dura 6 anos e
que cresce
sistematicamente em termos do PIB
.

Com travas de todos os tipos, o governo argentino fechou
a economia e isolou do mundo o consumidor argentino
, desta maneira fazendo
jus ao slogan de Aldo
Ferrer
, que propunha “viver com o que é nosso”.

Com o supracitado controle de capitais imposto pelo
governo — chamado
de “cepo”
–, o Banco Central proíbe a compra de dólares por argentinos que
querem manter sua poupança em moeda estrangeira, mas permite que alguns
importadores ou algumas pessoas que queiram viajar ao exterior comprem dólares
à taxa oficial de câmbio — mas sempre mantendo um controle estrito
sobre a quantia transacionada
.  Adicionalmente, o BC argentino também
vende dólares à taxa oficial àquelas pessoas que utilizam cartões de crédito no
exterior, embora lhes cobre um imposto que aumenta a taxa de câmbio em 20%.

O governo justificou a imposição do “cepo”
sobre os argentinos alegando que se tratava de uma tentativa de controlar o
fluxo de dólares e de evitar uma desvalorização.  No entanto, após quatro
anos, esse controle de capitais criou ainda mais problemas e não trouxe nenhuma
solução. 

Para começar, surgiu um mercado paralelo no qual
dólares são transacionados a uma taxa 60% maior do que a taxa de câmbio oficial
— valor esse que está bem em linha com a alta inflação de preços que está
deteriorando o poder de compra do peso.  Estas transações ocorrem naquilo
que passou a ser prosaicamente chamado de mercado do “dólar
azul”.  A taxa de câmbio oficial está atualmente em 9,54 pesos por dólar ao
passo que a taxa paralela (a taxa “blue”) está em 15,12 pesos
por dólar.

Adicionalmente, as reservas
internacionais do país já caíram mais de 45%
desde outubro de 2011.  O
saldo das transações
correntes do país
(balança comercial e balança de serviços) foi
reduzido graças ao
colapso na taxa de crescimento das exportações
.

A consequência
do “cepo” é que o governo, por meio do Banco Central, paga aos exportadores
somente 63% do valor de seus produtos vendidos para o exterior.  Se um
exportador argentino vender um produto que custa US$ 100, o Banco Central argentino
irá lhe pagar somente 954 pesos quando ele for trocar os dólares por
pesos.  No entanto, se o Banco Central respeitasse o preço de mercado do
dólar, ele deveria pagar ao exportador 1.512 pesos.  Logo, não deveria ser
nada surpreendente que os exportadores estejam sendo profundamente afetados
pelo “cepo”.

[N. do E: Outra consequência do controle de capitais, da falta
de conversibilidade da moeda e das restrições às importações é a escassez de
produtos básicos.  No início do ano,
chegou a faltar
absorventes no país
.  Saques ao
comércio e a residências também se tornaram
rotina no país
.

Para culminar, os argentinos praticamente não mais poupam
seus pesos.  Assim que eles recebem pesos, eles gastam para se livrar
deles.  Segundo estimativas de 2010, mais
de 50% das famílias argentinas não utilizam o sistema bancário
, certamente
traumatizadas pelo corralito de
2001/2002.  Elas poupam em dólares e guardam este dinheiro dentro de casa
ou, quando era possível, em bancos no exterior.

Justamente para evitar essa segunda alternativa, o
governo argentino fechou o cerco, dificultando ao máximo a compra de
dólares.  Quem é pêgo transacionando dólares nas ruas pode ir preso. 
Isso empurrou as operações literalmente para o subterrâneo.

De acordo com
The Wall Street Journal, compradores e vendedores de dólares se
encontram em “cuevas” escuras, geralmente locais escondidos nos
fundos dos estabelecimentos, para fazer suas transações.

O
mercado de câmbio na Argentina foi para o subterrâneo.  Com o governo
restringindo cada vez mais o acesso a moedas estrangeiras, os argentinos em
busca de dólares, uma mercadoria cada vez mais rara, estão sendo empurrados
para cuevas —
operações clandestinas, realizadas nos fundos escuros de estabelecimentos, nas
quais o cliente paga caro para trocar pesos por dólares.

Comprar
dólares para poupar é uma atividade proibida pelo governo argentino, e as
autoridades permitem a venda de apenas pequenas quantias de moeda estrangeira
para viagens ao exterior.  Para obter tais divisas, os viajantes têm de
enviar pela internet um pedido à Receita Federal dias antes de sair do país, e
eles normalmente recebem autorização para comprar uma quantia muito menor do
que pediram.

As
empresas têm de ter aprovação do governo para importar equipamentos e materiais
à taxa de câmbio oficial, mais barata.  A Receita Federal trabalha com
cachorros nos postos alfandegários para farejar pessoas que estejam viajando
com dólares escondidos e não-declarados.]

Na Argentina, quem tem dólares quer pagar por bens e
serviços em pesos.  Mas só se conseguirem converter dólares em pesos ao
câmbio de mercado negro.  Caso contrário, será melhor pagar em dólares,
mas só se o comerciante estiver disposto a aceitar converter seus preços em
dólares à taxa de livre mercado.  Normalmente, chega-se a um valor de meio
termo.  Ou seja, a Argentina está praticamente em um estado de escambo.

Tudo o que foi dito acima contribui para que os
empreendedores argentinos tenham um escasso acesso a empréstimos privados em relação
a outros países.  A tabela abaixo mostra o
total de crédito disponibilizado, tanto por fontes domésticas quanto
estrangeiras, a alguns países:

graf-ic-1.jpg

Por último, o caudilhismo e a hegemonía foram as características
distintivas tanto do governo de Néstor Kirchner quanto do de sua mulher e
sucessora, Cristina Fernández.

Diante de tudo isso, e considerando-se que o
fantasma da continuidade era um fato consumado, os argentinos já se preparavam
para enfrentar mais 4 anos do mesmo.  Isto
é, mais 4 anos de decadência — já que, como dizia Albert Einstein, não se pode
esperar resultados diferentes se você sempre tenta fazer o mesmo.

No entanto, algo ocorreu nas
eleições de 25 de outubro
.  Apesar de
que o primeiro lugar ficou, como esperado, com um aliado dos Kirchner — o
governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli –, é fato que a pequena
vantagem de 2,5 pontos percentuais sobre o candidato da oposição, Mauricio
Macri, bem como a derrota de Aníbal
Fernández
(outro escudeiro dos Kirchner) na província de Buenos Aires,
deixaram um sabor amargo no kirchnerismo e um sabor doce para todos os que se opõem
a este governo.

Os mercados festejaram o resultado, antecipando uma
mais possível vitória do candidato do Cambiemos.  Já na segunda-feira, a bolsa MERVAL subiu
4,4%, sendo que algumas ações chegaram a subir 15%.  O dólar “blue” caiu 25 centavos em um único dia.

O risco-país também vem apresentando uma forte
queda.

eurofia-de-los-mercadis.png

Há hoje, na Argentina, uma grande mudança de
expectativas em relação ao futuro.  Embora
nenhum candidato tenha exposto muitas propostas concretas na campanha, ainda
permanece a ideia de que um governo da oposição poderia ao menos reduzir a inflação,
liberar o mercado de câmbio, abrir a economia ao mundo e acabar com o ataque sistêmico
às liberdades individuais dos argentinos.

Depois de 12 anos de desmesurado populismo e cleptocracia, a Argentina
poderia estar na iminência de ser um país normal.  No entanto, o caminho não será fácil e os
argentinos não podem partir do princípio de que a mudança de expectativas, por
si só, fará todo o trabalho.

É necessário reverter várias medidas populistas
adotadas, e tal reversão nunca é indolor. 
Adicionalmente, será necessário manejar com muita convicção e capacidade
a pesada herança da economia K.  Os
argentinos não terão vida fácil a partir de 10 de dezembro; no entanto, desde
já, a possibilidade de um fim da dinastia K já é motivo para entusiasmo.

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40 comentários em “Pode a Argentina voltar a ser um país normal?”

  1. Mohamed Attcka Todomundo

    Pode a Argentina voltar a ser um país normal?

    ñ, pq o puteiro q a argentina virou é a decorrencia natural de todos os estados. uns vao + depressa ladeira a baixo pela desvirtude e ignorancia de sua pupolação. outros + devagar pela resistencia da gente aos descalabros do progressismo, ateismo, relativismo e democracia.

    os EUA inglaterra japão suecia ou frança tb vão se tornar a argentina. tb ñ podem voltar a ser paises normais, salvo tornem-se um monte de ordens naturais, como o HHH definiu. se cada condado desses lugares virasse uma republiqueta, principado ou condominio, ai sim, voltam a ser lugares normais

  2. Não, não pode. Cedo ou tarde os populistas sempre voltam e quebram o país. Não há solução, vamos ser sempre carregados pelos países do primeiro mundo.

  3. Dólar a R$2,41, agradeça a Cristina

    Dicas de como se beneficiar disso: comprar em free shops da argentina que aceitam pesos na taxa oficial (acho que são obrigados a isso).

    Comprando pesos nas casas de câmbio brasileiras você consegue mais ou menos 4:1 de reais para pesos, o que está em linha com a cotação do dólar paralelo (blue). Isso possivelmente acontece pela alta quantidade de argentinos trocando pesos por dólar no Brasil, pois aqui não temos os mesmos controles. E nos free shops é aceito o peso físico para pagar dólar na cotação oficial. Eu paguei 9,65 pesos por dólar. Isso significa um dólar implícito de R$2,41, bem melhor que comprar no cartão de crédito, reais físicos ou dólares físicos.

    O preço em dólar dos produtos talvez não seja tão bom, mas com esse desconto na cotação passa a valer a pena. Mas tudo depende do produto, algumas coisas podem estar cara demais até em dólar.

    Fiz isso em Puerto Iguazu (Foz), valia mais a pena que comprar no PY.

    Certamente tem outras distorções do tipo que podem ser aproveitadas. Agradeçam o kirchnerismo…

  4. Libertário "sem fronteiras"

    [Quote] – Dólar a R$2,41, agradeça a Cristina 09/11/2015 13:22:35

    Dicas de como se beneficiar disso: comprar em free shops da argentina que aceitam pesos na taxa oficial (acho que são obrigados a isso).[Quote/]

    Não faça isso, temos que boicotar países que agem dessa forma protecionista como China, Argentina e Brasil. (Não compre nada produzido nesses países, se voce quer um mundo mais livre e justo “não tire vantagem do problema e dor das pessoas desses países, seguindo o comportamento típico brasileiro – a lei de Gerson” apenas ajude, boicotando!)

  5. Falei isso no texto de ontem e repito: Brasil, Argentina e Venezuela necessitam de muito populismo. Só assim, talvez um dia, quando estiverem em plena penúria, possam rever alguns pensamentos.

    É porque agora acabou o campeonato argentino, mas ao ler o chat lá no canal Futbol Para Todos, não é difícil achar vários fanáticos agradecendo a bruxa que está na capa do artigo(junto a outra bruxa) e toda dinastia ”K” pelo futebol ”de graça” e que a solução é votar no Scioli pra continuar o trabalho.

    Domingo e Eva Perón”o pai dos pobres” e a ”mãe dos pobres” dão nome aos estádios do Racing e do Sarmiento respectivamente.

    O populismo ferve nas veias por aquelas bandas(não que aqui seja diferente).

  6. Fico impressionado com os latino americanos. É um povo ruim, que carece de qualquer princípio. O populismo existe em maior ou menor grau em todos os países, mas na América Latina parece que é o único tipo de política que existe. No Brasil tivemos o populista do Vargas, os militares também foram populistas, apesar de serem autoritários, e o populismo do PT agora prevalece. É impressionante. Na Europa ocidental, com exceção da Grécia não se vêm isso. Na América do norte idem. Parece que os latino americanos adoram um populismo.

  7. Refugiado do socialismo

    Nacionalismo gera esses problemas. Esse nacionalismo é coisa de gente frouxa e irresponsável.

    Enquanto os países bolivarianos ficarem com esse nacionalismo, vai ter inflação, bolsas para ajudar pobres que eles mesmos criaram, crédito escasso, falta de produtos de qualidade, etc.

    Não adianta se esconder ou tentar fazer guerra cambial. Quem não reconhecer que a globalização é importante, vai acabar exportando apenas plantas, sementes e pó de ferro.

    As pessoas não entenderam que a pobreza só acaba com choque de oferta, fornecendo produtos bons e baratos, sem inflação, com moeda valorizadoa, com crédito barato, com facilidade para empreender, etc. Protecionismo é o combustível das crises.

    Esse nacionalismo bolivariano é um lixo. Esses países não querem crescer. É sempre o mesmo parasitismo.

  8. Refugiado do socialismo

    Esses nacionalistas são fracos. Os investimentos em infraestrutura para exportar matérias-primas só dá prejuízo. Como o país pode pagar as contas exportando à 1 dólar o quilo ? Quantos trilhões de quilos teremos que exportar para fazer uma infraestrutura razoável ?

    Um porto custa um milhão de toneladas de produtos exportados no Brasil. Ou seja, exportar matéria-prima com esse preço de commoditie é prejuízo na certa.

  9. O salário mínimo na Argentina é de 300 dólares. No Brasil está 205 dólares.

    O bolivarianismo inflacionário só está reduzindo o poder de compra da população. Cada vez que a moeda é desvalorizada, é menos comida no prato do pobre.

    A Dilma tirou a comida do prato dos pobres. Essa recessào, desvalorização da moeda e juros altos, tirou a comida do prato dos pobres.

  10. Felipe Lange S. B. Santos

    Os argentinos deveriam conhecer o bitcoin. É impossível para o governo controlar uma moeda peer-to-peer, criptografada e descentralizada.

  11. A Argentina deve ser profundamente estudada e analisada, como um exemplo contundente de fracasso econômico.
    A Argentina é um dos melhores exemplos de quanto o populismo personalista e centralizador, envernizado por um nacionalismo tacanho e uma adoração ao Estado Provedor, pode ser nocivo ao desenvolvimento de uma nação. Um país riquíssimo em recursos naturais e com uma população culta e educada, mas vivendo em constantes solavancos políticos e econômicos, sofrendo humilhações internacionais, sem conseguir elevar seu padrão de desenvolvimento social e econômico.
    A tragédia argentina é agravada pela excessiva centralização do poder político em Buenos Aires, onde o grupo que controla a governo federal dispõe de uma imensa capacidade de cooptação, inclusive no meio empresarial, dificultando a articulação da sociedade civil e de uma oposição consistente. O kirschnerismo atuou ainda agressivamente para solapar a liberdade de imprensa e eliminar os meios de comunicação independentes do governo.
    Esta decadência da Argentina é ainda mais gritante quando se compara ao Chile, um país com uma disponibilidade muito mais escassa de recursos naturais (praticamente apenas cobre), uma geografia adversa e menos da metade da população argentina, mas que ostenta hoje os melhores indicadores sociais e econômicos da América Latina.
    Uma esperança surge agora com a possibilidade da eleição de Macri. Mas um novo governo não terá vida fácil, enfrentando a oposição peronista nacionalista, que sempre irá bradar que estão "vendendo as riquezas do país".

  12. É necessário reverter várias medidas populistas adotadas, e tal reversão nunca é indolor.

    Mas quanto mais se adia, pior fica.

    Socialismo é um “pacto com o Diabo” (literal ou figurativamente, vocês decidem).

    * * *

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