
Nota da edição:
Este artigo integra o e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, que pode ser acessado aqui.
Introdução: um escândalo que não deveria existir
Toda vez que algum clube europeu anuncia a contratação de um craque por uma cifra com seis zeros mensais, o coro do indignado imediato ressurge com notável pontualidade. Jornalistas ideologizados, políticos da mesma turma de sempre e boa parte da esquerda jurássica saem a proclamar que “isso é um absurdo”, que “ninguém vale tanto” e que há algo profundamente errado com o mundo quando um jogador ganha em uma semana o equivalente ao salário anual de um professor, por exemplo. O argumento, invariavelmente, apela a alguma noção difusa e ingênua de justiça ou de valor intrínseco.
Esse argumento repousa sobre uma teoria do valor que já foi, ainda no século XIX, solenemente enterrada (ou deveria ter sido). A teoria do valor-trabalho, que assombra o imaginário popular como um fantasma marxista vestido sob um véu de moralidade, pressupõe que o valor de alguma coisa deriva da propriedade objetiva que lhe é inerente, ou seja, o esforço despendido, a necessidade social que a satisfaz ou a nobreza da sua ocupação. Segundo essa lógica, um médico deveria ganhar mais do que um atacante, pois salva vidas; um professor deveria superar um influenciador digital, pois forma cidadãos para o mundo.
A Escola Austríaca de Economia, desde Carl Menger, tem uma resposta simples e, a meu ver, elegante para esse tipo de raciocínio: o valor não existe nas coisas. Ele existe nas mentes dos indivíduos que avaliam essas coisas. E é essa premissa, aparentemente inocente, que destrói por completo o argumento da indignação salarial no futebol (e, ao mesmo tempo, explica com precisão cirúrgica porque Kylian Mbappé ganha o que ganha).
Este artigo não é uma defesa entusiasta do futebol e nem uma ode ao mercado em si. É, antes, um exercício de rigor conceitual: demonstrar que, dentro de uma estrutura analítica coerente com a natureza da ação humana, os salários milionários de jogadores de elite não são apenas explicáveis, mas inevitáveis. E que a indignação popular, longe de ser um juízo moral elevado, é frequentemente a expressão de uma confusão teórica sobre a natureza do valor à luz de uma má avaliação sobre nossas próprias limitações.
Carl Menger e a revolução subjetivista: o valor não reside nas coisas
Em 1871, um professor universitário austríaco de nome Carl Menger publicou seus Princípios de Economia Política. Essa obra, ao lado dos trabalhos independentes e simultâneos de William Stanley Jevons e Léon Walras, fundou o que ficou conhecido como a Revolução Marginalista. Mas enquanto Jevons e Walras avançaram em direção ao formalismo matemático, Menger tomou um caminho diferente: o da análise qualitativa da ação humana.
A contribuição central de Menger residia na noção de que o valor é uma propriedade objetiva dos bens. Para Menger, os bens têm valor porque os indivíduos reconhecem neles a capacidade de satisfazer suas necessidades. Não existe valor fora dessa relação entre o bem e o avaliador. Um diamante numa ilha deserta, onde não há ninguém para avaliá-lo, não “vale” coisa alguma. O mesmo diamante nas mãos de alguém que está morrendo de sede, havendo água disponível, vale menos do que um copo d’água.
“O valor não é algo que existe nos bens em si mesmos, mas é antes um juízo que os sujeitos econômicos formulam sobre a importância dos bens de que dispõem para a manutenção de sua vida e de seu bem-estar” — Carl Menger, Princípios de Economia Política, 1871.
Essa formulação tem uma consequência devastadora para o argumento da indignação salarial: se o valor é subjetivo, logo não existe uma resposta “correta” e objetivamente verificável para a questão de quanto alguém deveria ganhar. O valor de uma prestação de serviço, seja ela a de um jogador de futebol ou de um médico, não pode ser determinado por nenhuma autoridade externa, por nenhum comitê de especialistas em justiça social, por nenhum filósofo moral nem por um punhado de jornalistas ideologizados. Ele é determinado pelo conjunto das avaliações individuais de todos aqueles que interagem no livre mercado.
Mais especificamente, o que determina o valor de qualquer bem ou serviço, para Menger, é a sua unidade marginal: ou seja, não a utilidade total que o bem proporciona, mas a utilidade da última unidade assim disponível. É a famosa solução para o paradoxo do valor: a água, abundante, tem alta utilidade total, mas baixa utilidade marginal; o diamante, escasso, tem baixa utilidade total, mas alta utilidade marginal. Por isso, em linhas gerais, os diamantes custam mais que a água e, por isso, Mbappé ganha mais do que seu vizinho que é dentista.
Böhm-Bawerk, Wieser e a imputação: de onde vêm os salários dos craques?
Mas o argumento austríaco não para em Menger. Seus discípulos diretos, Eugen von Böhm-Bawerk e Friedrich von Wieser, desenvolveram, cada um a seu modo, instrumentos analíticos que permitem compreender com ainda maior precisão o fenômeno dos salários extraordinários no futebol de elite.
A teoria da imputação de Wieser
Friedrich von Wieser[1] introduziu o conceito de Zurechnung, que se traduz usualmente como “imputação”, para descrever o processo pelo qual o valor dos bens de consumo (bens de primeira ordem) é transferido, por assim dizer, para os fatores de produção que concorrem para sua criação (bens de ordem superior). Em outros termos, o valor de um bem final determina o valor dos insumos necessários para produzi-lo, e não o contrário.
Aplicada ao futebol, a lógica é cristalina. O bem final em questão é o espetáculo esportivo: a partida, o gol, o drible desconcertante que faz o estádio explodir. Esse espetáculo tem um valor imenso, medido pela disposição de milhões de torcedores ao redor do mundo em pagar ingressos, assinar planos de streaming, comprar camisetas, consumir publicidade. Todo esse valor é gerado, em última instância, pelo desempenho dos jogadores em campo. Logo, parte substancial desse valor é imputada, portanto, retrocedida, para o fator de produção que o torna possível: o próprio atleta.
Não há mistério aqui, tampouco injustiça. Há apenas imputação. O salário de Neymar, por exemplo, não é uma extravagância irracional de dirigentes de clube enlouquecidos pelo dinheiro alheio. É o resultado de um cálculo, frequentemente imperfeito, mas racionalmente motivado, sobre quanto valor determinado jogador em específico é capaz de gerar para o clube, direta ou indiretamente.
Böhm-Bawerk e a estrutura do capital no futebol moderno
Böhm-Bawerk[2], por sua vez, contribui com sua teoria da preferência temporal e da estrutura do capital. Em sua obra Capital e Juros, Böhm-Bawerk demonstrou que o valor dos bens futuros é sempre descontado em relação aos bens presentes, daí a existência do juro. Aplicada ao futebol, essa perspectiva ilumina a lógica dos contratos de longo prazo e das transferências milionárias.
Quando o Real Madrid paga trezentos milhões de euros por um atacante, não está pagando apenas pelo desempenho passado do jogador, mas pela expectativa de fluxos futuros de valor: vitórias em campeonatos, aumento de receitas com publicidade e licenciamentos, valorização da marca global do clube etc. Böhm-Bawerk nos diz que o valor presente desses fluxos futuros, descontados pela preferência temporal e pelo risco, é exatamente aquilo que justifica o investimento. Tratar essa transação como “dinheiro jogado fora” revela apenas incompreensão dos fundamentos da boa teoria do capital de Bawerk.
Ludwig von Mises e a praxiologia: a ação humana como fundamento
Bem, se Menger nos fornece a ontologia do valor e Böhm-Bawerk e Wieser nos fornecem os instrumentos de imputação, é Ludwig von Mises quem constrói o edifício teórico mais ambicioso: a praxiologia, ou a ciência da ação humana. Em sua obra monumental, Ação Humana, publicada em 1949, Mises parte de um axioma irrefutável: os seres humanos agem. Agem propositalmente, segundo preferências, visando determinados fins. E toda a teoria econômica pode ser derivada, com rigor lógico, desse axioma.
Para o nosso propósito, o que importa na praxiologia misesiana é a distinção entre a escala de valores dos agentes e a determinação dos preços pelo mercado. Mises insiste, contra qualquer versão de paternalismo econômico, que as preferências dos indivíduos são soberanas e que o mercado é o único mecanismo capaz de coordenar essas preferências dispersas em um sistema coerente de preços.
“O mercado é um processo, acionado pela interação das ações dos vários indivíduos que cooperam sob a divisão do trabalho” — Ludwig von Mises, Ação Humana, 1949.
Quando um torcedor paga R$ 400 por um ingresso para assistir ao seu clube favorito, ele está revelando, pela própria ação, que esse espetáculo vale, para ele, ao menos R$ 400. Quando empresas pagam dezenas de milhões em direitos de transmissão, revelam que esse conteúdo vale ao menos esse montante para seus propósitos comerciais. Quando patrocinadores associam suas marcas a jogadores de elite, revelam que o poder de influência desses jogadores sobre os consumidores vale o que estão pagando. Cada um desses atos, cada uma dessas trocas voluntárias, é um voto de preferência, um fragmento de informação sobre o valor atribuído ao espetáculo.
O salário de um jogador de elite é, portanto, o resultado de bilhões desses fragmentos de preferências intertemporais coordenados, no tempo real e sob condições de incerteza genuínas, pelo mecanismo de preços. Criticá-lo como “injusto” é, do ponto de vista praxiológico, não apenas um erro teórico, mas um ato de incompreensão das preferências reais de milhões de pessoas que, livremente, escolheram valorizar aquele espetáculo.
Assim, Mises também nos oferece uma teoria da utilidade ordinal, pela qual as preferências não são mensuráveis em unidades absolutas, mas apenas ordenáveis. Isso inviabiliza qualquer tentativa de comparação interpessoal de utilidade. A título de exemplo, não podemos dizer que o prazer que um médico proporciona é “maior” do que o prazer que o Mbappé proporciona quando o vemos jogar, porque prazer não é uma substância absolutamente mensurável. Podemos apenas observar, empiricamente, que as pessoas revelam, por suas ações, preferir gastar mais em futebol do que em muitas outras coisas, incluindo consultas médicas (por mais importantes que estas sejam para nossas vidas).
Friedrich Hayek e o conhecimento disperso: por que nenhum planejador poderia fixar o salário correto?
Talvez o argumento mais devastador contra a ideia de que existe um salário “justo” e determinável por critérios externos venha de Friedrich Hayek, Nobel de Economia em 1974. Em seu seminal artigo O Uso do Conhecimento na Sociedade, de 1945, Hayek demonstrou que o conhecimento relevante para a coordenação econômica não está concentrado em nenhuma mente ou instituição, mas disperso entre milhões de indivíduos, cada um possuindo fragmentos particulares de informação contextual, local e temporária.
O sistema de preços, para Hayek, é precisamente o mecanismo que permite que esse conhecimento disperso seja utilizado sem que ninguém precise conhecê-lo em sua totalidade. O preço de um bem é um sinal extraordinariamente eficiente, pois resume, numa única cifra, o resultado de todas as avaliações, preferências, escassezes e oportunidades que indivíduos dispersos pelo globo trouxeram ao processo de troca.
“O problema econômico da sociedade não é meramente um problema de como alocar recursos ‘dados’ (…). É um problema de como assegurar o melhor uso dos recursos conhecidos por qualquer membro da sociedade, para fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem” — Friedrich Hayek, O Uso do Conhecimento na Sociedade, 1945.
Aplicada ao mercado do futebol, a lição hayekiana é contundente: nenhum comitê, nenhum economista, nenhum filósofo moral tem acesso ao conhecimento necessário para determinar o salário “correto” de um jogador de elite. Esse conhecimento, sobre preferências de torcedores, o valor marginal de um gol em um determinado jogo ou o efeito de um craque específico sobre as vendas de camisetas na Ásia, está disperso por milhões de mentes e interações que jamais podem ser centralizadas.
O salário que emerge do mercado não é perfeito, ressalta Hayek. Mercados nunca são perfeitos. Mas é o melhor indicador disponível do valor que a sociedade, em sua incomensurável complexidade, atribui àquele talento específico. Qualquer tentativa de substituí-lo por um critério estatal intervencionista, independente da nobreza da função social, da necessidade humana ou de qualquer outro fator considerado pelos justiceiros sociais, levaria não à justiça, mas ao caos alocativo que Hayek descreveu com tanta clareza ao analisar o socialismo[3].
Há ainda outro aspecto hayekiano frequentemente negligenciado: a ordem espontânea. O mercado esportivo moderno, com seus agentes, clubes, ligas, patrocinadores, transmissoras e plataformas digitais, é uma ordem espontânea de extraordinária complexidade. Ninguém a planejou. Ela emergiu da interação de milhões de decisões individuais ao longo de décadas. Interferir nos preços que essa ordem produz, por exemplo, limitando salários por decreto, não é “corrigi-la”, mas perturbá-la de maneiras que raramente se consegue prever. Premia-se a descoordenação, enquanto pune-se a eficiências que só os preços no livre mercado podem nos proporcionar (lembre-se, salários são preços: o preço da mão de obra).
O paradoxo da escassez extrema: por que existe apenas um Mbappé?
Há uma dimensão adicional que os críticos dos salários milionários frequentemente ignoram: a escassez ao extremo do talento esportivo de elite. O mercado de trabalho convencional opera, em sua maior parte, com fatores relativamente substituíveis: há muitos engenheiros, muitos advogados, muitos professores. A substituição de um por outro, embora nunca perfeita, é possível sem perdas catastróficas de produção.
O mercado de jogadores de futebol de elite opera sob uma lógica radicalmente diferente. Não existe, em sentido econômico estrito, um substituto imediato para Kylian Mbappé ou qualquer outro craque. Existem outros jogadores talentosos, mas o conjunto específico de habilidades, carisma, capacidade de influência cultural e rendimento esportivo que define aquele atleta particular é único, inimitável e irreproduzível. É o que a Economia chama de valor determinado pela “renda ricardiana”. Ou seja, não pelo custo de produzi-lo, mas pela diferença entre sua produtividade e a do próximo melhor substituto disponível.
Menger já havia compreendido esse princípio ao desenvolver sua teoria dos bens complementares e da escassez. Um bem não tem valor porque é útil em abstrato, mas porque é útil e escasso. O ar é intrinsicamente útil, mas não tem preço de mercado porque é abundante. O talento de um Neymar na plenitude de sua forma (o que atualmente é questionável) é utilíssimo e tem preço estratosférico porque é escasso até o limite da singularidade deste jogador.
A questão relevante, portanto, não é se Mbappé “merece” seu salário em algum sentido moral transcendente. A questão é: dado que existe apenas um Mbappé, e dado que milhões de pessoas ao redor do mundo estão dispostas a pagar para vê-lo jogar, qual é o salário de equilíbrio que resulta dessa configuração de preferências e escassez? A resposta é: exatamente o que o mercado determina. Qualquer outra resposta exigiria que alguém soubesse melhor do que o próprio mercado quanto aquele talento vale, e Hayek, como vimos, já explicou por que isso é impossível.
A objeção ética e a resposta austríaca: o médico e o atacante
A objeção mais comum e persistente ao argumento que desenvolvi até aqui é de natureza ética, não econômica: “não importa o que o mercado diz. Um médico salva vidas. Um professor forma crianças. Um jogador de futebol apenas entretém. Portanto, é moralmente errado que o jogador ganhe mais”. Essa objeção merece ser tratada com seriedade, porque reflete uma intuição moral genuína (ainda que baseada em confusões teóricas consideráveis).
Há pelo menos três respostas “austríacas” fundamentadas ao questionamento. A primeira resposta é que a objeção confunde valor de uso com valor de troca, exatamente o equívoco que a revolução marginalista de 1871 buscou corrigir. O valor de uso (utilidade total) de um médico pode ser imensurável; o valor de troca (preço de mercado) de seus serviços depende da escassez relativa de médicos versus a demanda por seus serviços, simples assim. O paradoxo do diamante e da água, que desafiou Adam Smith, foi resolvido por Menger precisamente porque ele compreendeu que o preço é determinado pela utilidade marginal, não pela utilidade total.
A segunda resposta é que a objeção implica uma comparação interpessoal de utilidade que Mises demonstrou ser impossível. Não podemos dizer que a satisfação que um paciente curado obtém é “maior” do que a satisfação que um torcedor obtém ao ver seu time vencer a Champions League. Essas satisfações são incomensuráveis. Quem decide o que é maior é o próprio indivíduo, revelando sua preferência pela ação, inclusive pela ação de comprar um ingresso em vez de contratar mais uma consulta médica.
A terceira resposta é que a própria premissa da objeção é factualmente questionável. Médicos ganham muito bem. Professores universitários em países ricos ganham muito bem. A diferença salarial entre médicos e jogadores de futebol de elite não existe porque a sociedade despreza a medicina; existe porque há muito mais médicos do que atacantes da primeira divisão europeia ou brasileira. É pura aritmética da escassez.
Murray Rothbard, discípulo de Mises, formularia ainda uma quarta resposta, talvez mais radical: a questão da justiça salarial só se coloca legitimamente quando há coerção. Num mercado livre, onde ninguém é forçado a assinar contrato algum, onde clubes e jogadores negociam voluntariamente, o resultado é por definição justo no único sentido em que “justiça” pode ser operacionalizada sem recorrer a critérios arbitrários: o resultado é o produto do acordo livre entre as partes (simples e cristalino também).
Israel Kirzner e o empresário-descobridor: o agente esportivo como árbitro de valor
Não poderíamos concluir nossa argumentação sem mencionar a contribuição de Israel Kirzner, que completou o quadro austríaco com sua teoria acerca da função empresarial. Em Competition and Entrepreneurship (1973), Kirzner argumenta que o mercado não é simplesmente um mecanismo de equilíbrio, mas um processo dinâmico impulsionado por empresários-descobridores: indivíduos alertas a oportunidades de lucro que outros ainda não perceberam.
No futebol, essa figura se manifesta de maneiras fascinantes. O olheiro que descobre Neymar, um adolescente em Santos, e o recomenda ao Barcelona; o agente que percebe antes dos demais que determinado jogador africano tem potencial de estrela europeia; o dirigente que antecipa a valorização futura de um mercado asiático e firma contratos de licenciamento a preços que, anos depois, se revelam extraordinariamente vantajosos. Todos eles são empresários kirzerianos no sentido mais preciso do termo.
Esses agentes não “criam” valor do nada: descobrem valor que já existia, potencialmente, nas preferências dispersas dos consumidores, mas que ainda não havia sido coordenado pelo mercado. O salário extraordinário é, muitas vezes, o resultado da descoberta empresarial. Ou seja, alguém percebeu, antes dos demais, o quanto aquele talento específico era capaz de mobilizar preferências e gerar receitas.
É uma visão do futebol que dificilmente aparece nos editoriais de jornais esportivos e nas análises daqueles jornalistas bem engajados, mas que tem a virtude de ser analiticamente coerente com o que efetivamente ocorre no mercado. O sistema de mercado, longe de ser um mecanismo frio e impessoal, é um processo de descoberta contínua, e o futebol de elite é um de seus laboratórios mais cristalino.
Conclusão: a indignação como problema epistemológico
Ao final deste percurso pela Escola Austríaca (e eu espero que já tenha convencido o leitor), o que podemos afirmar com alguma segurança? Primeiro, o salário de um jogador de futebol de elite é o resultado de um processo complexo de imputação de valor, que parte das preferências subjetivas de milhões de pessoas e, através do mecanismo de preços, traduz-se em remuneração para os fatores de produção que tornam possível o espetáculo valorizado. Não há nada de misterioso, irracional ou injusto nesse processo. Pelo contrário, ele é a manifestação de uma ordem espontânea de notável sofisticação.
Segundo, qualquer critério alternativo para determinar o salário “correto” de um jogador, seja ele baseado na nobreza da função social, no esforço físico despendido ou na utilidade abstrata da atividade, esbarra no problema do conhecimento de Hayek: ninguém possui, nem pode possuir, o conhecimento necessário para fazer esse cálculo de forma mais precisa do que o mercado.
Terceiro, a indignação popular diante de salários milionários no futebol é, antes de qualquer outra coisa, um problema epistemológico. Quem se indigna com o salário de Mbappé enquanto renova sua assinatura do pacote de streaming esportivo não está emitindo um juízo moral coerente. Na verdade, está revelando, simultaneamente pela ação e pela palavra, preferências contraditórias. A ação, lembremos, fala mais alto.
Carl Menger, Böhm-Bawerk, Mises e Hayek respondem, portanto, em coro: sim, salários milionários no futebol são justificáveis. Não porque jogadores sejam mais “merecedores” do que médicos em algum sentido metafísico, mas porque o valor não é uma propriedade das coisas e sim um juízo dos indivíduos.
A Escola Austríaca não nos diz que o mundo está bem como está, nem que os mercados são perfeitos. Diz apenas que qualquer alternativa ao mercado para determinar preços e salários exige um grau de conhecimento que nenhum agente humano possui. O planificador que fixasse o salário de Mbappé estaria substituindo o julgamento de bilhões por seu próprio. E a história, como Hayek não se cansou de advertir, ensina o que geralmente acontece quando isso ocorre: totalitarismo, miséria e fome.
[1] Wieser, Friedrich von. Natural Value. Londres: Macmillan, 1893.
[2] Böhm-Bawerk, Eugen von. Capital and Interest. South Holland: Libertarian Press, 1959.
[3] Recomenda-se veemente ao leitor, nesse sentido, a leitura de Arrogância Fatal: os Erros do Socialismo, do mesmo autor.

