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Por que jogadores ganham mais que professores e enfermeiros?

Nota da edição:

Com o início da Copa do Mundo, este é um excelente momento para revisitar uma das discussões mais recorrentes envolvendo o futebol: os altos salários dos grandes jogadores.

Pensando nisso, o Instituto Mises Brasil também está lançando um ebook gratuito, abordando as relações entre futebol, economia, política e história. João Fernando Mazzoni, autor deste artigo, é também um dos autores dos textos inéditos que compõem a coletânea do ebook.


A cada nova janela de transferências, repete-se o mesmo ritual de indignação. Um clube anuncia que pagará a um jogador dezenas de milhões de euros por temporada, e segue-se o coro previsível: É um absurdo. Um enfermeiro salva vidas e ganha uma fração disso. Um professor forma gerações e mal sobrevive. Que mundo é esse em que chutar uma bola vale mais do que cuidar de doentes?”.

A pergunta soa moral. Mas, examinada de perto, ela carrega dentro de si uma teoria econômica e, ademais, uma teoria que os próprios economistas abandonaram há mais de um século e meio. Quando alguém diz que o salário do jogador é “injusto” porque seu trabalho é menos importante que o do enfermeiro, pressupõe que existe um valor objetivo, inscrito nas coisas ou no esforço, contra o qual os preços poderiam ser medidos e corrigidos. É justamente essa pressuposição que Carl Menger desmontou nos Princípios de Economia Política (Grundsätze der Volkswirtschaftslehre, 1871), a obra que fundou a Escola Austríaca. E, uma vez desmontada, a indignação perde o chão. Vejamos por que Menger e Böhm-Bawerk responderiam à pergunta do título com um inequívoco “sim”.

O valor não está na coisa

A intuição que move a revolta é antiga e poderosa: o valor de algo deveria refletir o esforço empregado ou a utilidade que a coisa presta à sociedade. É a velha teoria do valor-trabalho, segundo a qual, de Adam Smith a Marx, o valor era imaginado como uma substância depositada no produto pela mão que o produziu. Por essa lógica, o trabalho árduo e socialmente vital do enfermeiro deveria valer mais do que o passe de Mbappé. Foi precisamente contra esse edifício que Eugen von Böhm-Bawerk dirigiu sua célebre demolição em Karl Marx e o fim do seu sistema: se o valor brotasse do trabalho incorporado, o mundo dos preços reais seria um enigma insolúvel.

O problema é que essa teoria não consegue explicar o mundo. Menger ataca o ponto com o velho paradoxo da água e do diamante. A água é indispensável à vida, enquanto o diamante é um adorno dispensável. No entanto, ninguém troca um copo d’água por um diamante. Se o valor viesse da importância objetiva ou da utilidade total, o preço da água deveria esmagar o do diamante. Acontece exatamente o contrário.

A solução austríaca é desconcertante de tão simples: o valor não é uma propriedade das coisas, e sim um juízo que as mentes humanas projetam sobre elas. Nada vale “em si”. Vale para alguém, em determinado momento, em função de um fim concreto que aquela unidade específica do bem permite alcançar. E, como julgamos sempre na margem, não “a água em geral” contra “os diamantes em geral”, mas esta unidade adicional contra aquela, o que importa é a utilidade da última unidade disponível, a utilidade marginal. A água é abundante; sua última unidade supre uma necessidade trivial. O diamante é raro. Cada unidade serve a um fim ainda valorizado. Daí os preços. Tudo o que vem depois deriva disto: o valor é subjetivo, marginal e atribuído pelo consumidor. Guarde a palavra “atribuído”. É a chave de tudo.

De onde vem o valor do jogador: a teoria da imputação

Resta uma pergunta. Se o valor nasce na avaliação do consumidor final, de onde vem o valor das coisas que ninguém consome diretamente, o tear que tece o pano, a terra que produz o trigo, o jogador que disputa a partida? Ninguém “consome” um lateral-direito.

Aqui entra a contribuição mais elegante da escola. Já nos Princípios (1871), Menger distingue os bens de primeira ordem, que satisfazem necessidades de forma imediata, como o pão, dos bens de ordem superior, que só servem porque ajudam a produzir os de ordem inferior: a farinha, o moinho, o trigo, a terra. E formula a tese decisiva: os bens de ordem superior não têm valor próprio; recebem valor emprestado dos bens de ordem inferior que os ajudam a produzir. O valor flui de trás para frente, do consumidor em direção aos fatores de produção. Friedrich von Wieser deu nome ao processo — Zurechnung, imputação —, e o desenvolveu em O Valor Natural (Der natürliche Wert, 1889), enquanto Böhm-Bawerk o integrava ao monumental edifício sobre capital, tempo e juros de sua Teoria Positiva do Capital (Positive Theorie des Kapitales, 1889).

O jogador de futebol é um bem de ordem superior. Ninguém torce por uma planilha de receitas (ou, ao menos, não deveria). Torce-se pela vitória, pelo espetáculo, pela camisa, pela emoção de uma final de Copa. Esses são os “bens de primeira ordem” do futebol, experiências subjetivas vividas por milhões de pessoas. O jogador entra na cadeia como fator que contribui para a produção dessa experiência. E, exatamente como o moinho, seu valor é imputado para trás com base no quanto os torcedores valorizam o que ele ajuda a entregar.

Quando milhões de pessoas, em dezenas de países, decidem subjetivamente que vale a pena pagar a assinatura do canal, comprar o ingresso, vestir a camisa, consumir o patrocinador, porque querem ver aquele time vencer com aquele jogador, essas miríades de avaliações individuais se somam num caudal de receita: direitos de transmissão, bilheteria, licenciamento, patrocínio. O salário do craque é o eco contábil dessa torcida. Não é o clube que “inventa” o valor de Mbappé do nada, num delírio de bilionários; é o desejo somado de milhões de torcedores que, imputado para trás através da cadeia, pousa por fim na folha salarial.

O preço como espelho da margem

A teoria austríaca é ainda mais precisa. O que o clube, agindo como empresário, pergunta não é “quanta receita este jogador gera no total”, mas “quanto a mais ele acrescenta à receita, na margem, em comparação com a alternativa disponível?”. É a sua produtividade marginal, traduzida em valor: quanto a presença daquele atleta específico move o ponteiro das vitórias, das audiências e das vendas acima do que moveria o substituto. Esse acréscimo marginal é o teto do que faz sentido pagar.

Böhm-Bawerk acrescenta a dimensão do tempo. Na Teoria Positiva do Capital (1889), mostra-se que a produção é sempre roundabout, indireta e esticada no tempo, e que bens presentes valem mais do que bens futuros equivalentes. A receita que o jogador ajuda a produzir vem no futuro, ao longo de temporadas, sob a forma de troféus ainda não existentes. O empresário, portanto, paga hoje por uma contribuição que se realizará amanhã e desconta esse valor futuro em termos de valor presente. O salário tende ao valor-produto marginal descontado do atleta, conceito que Murray Rothbard formalizaria depois, com rigor, em Homem, Economia e Estado (Man, Economy, and State, 1962). E, porque vários clubes disputam o mesmo talento escasso, a concorrência entre eles puxa a oferta para cima, aproximando-a desse limite. Ninguém precisa calcular nada disso com fórmulas: como argumentou Hayek em “O Uso do Conhecimento na Sociedade” (1945), o sistema de preços resolve, de forma descentralizada, um problema que nenhuma mente isolada conseguiria resolver, do mesmo modo que ninguém precisa resolver equações de fluidos para que a água encontre o próprio nível.

Mas o enfermeiro é mais importante!

Chegamos à objeção mais forte e sincera. Sim, em qualquer escala moral decente, cuidar de um doente importa mais do que entreter uma multidão. Por que o mercado parece inverter essa hierarquia?

A resposta austríaca exige uma distinção que a indignação costuma atropelar: o valor moral de uma pessoa não é o mesmo que o preço de mercado de um serviço. O mercado não está classificando seres humanos por dignidade; está apenas registrando, na margem, quanto as pessoas estão dispostas a abrir mão por uma unidade adicional de cada serviço. São perguntas diferentes, e confundi-las é o erro de origem.

E por que o preço marginal do serviço de cuidado é menor? Não porque cuidar importe pouco, importa imensamente, mas por causa da escassez relativa. Há, felizmente, um grande número de pessoas capazes de exercer a enfermagem com competência; a oferta é ampla, e o valor da última unidade contratada, por mais vital que a atividade seja em conjunto, é moderado. É o paradoxo da água outra vez: utilidade total altíssima, valor marginal contido pela abundância. Já o que um craque entrega na margem, o lance que decide a final a que dois bilhões de pessoas assistem ao mesmo tempo, é praticamente irreproduzível. Pouquíssimos no planeta o fazem. A oferta é minúscula diante de uma demanda planetária. Daí o preço.

Note o que não está sendo dito. Não se diz que o jogador “mereça” mais como ser humano, nem que sua atividade seja socialmente superior. Diz-se apenas que, num mundo de trocas voluntárias, milhões de pessoas escolheram, com seu próprio dinheiro, valorizar aquele serviço escasso. Quem quiser que enfermeiros ganhem mais tem um caminho coerente e honesto: valorizar mais esse serviço, e há boas razões para defender que se faça. O que não se sustenta é a acusação de que o preço do jogador seja, em si, uma fraude ou uma injustiça.

A justiça do consentimento

Resta o sentido de “justo”. A Escola Austríaca é cautelosa com a palavra e com razão: “preço justo”, no sentido de um valor cósmico correto, não existe, porque não existe valor objetivo a ser acertado. Mas há um sentido coerente e exigente de justiça que o salário milionário satisfaz plenamente: o da troca voluntária.

Cada euro daquele salário foi entregue por alguém que consentiu. O torcedor que assina o canal consentiu. A marca que patrocina consentiu. O clube que oferece o contrato consentiu, apostando seu próprio capital. Ninguém foi coagido, ninguém foi espoliado, nenhum terceiro foi obrigado a financiar, contra a vontade, aquilo de que não desfruta. O salário é a forma cristalizada de milhões de “sins” voluntários. Se isso não é justo, é difícil dizer o que seria justo.

Há, é claro, um detalhe que escapa à conta, e que os austríacos, longe de escondê-lo, sublinham: a imputação é uma previsão, não uma certeza. O clube aposta que o jogador entregará a receita futura que justifique o ordenado. Às vezes erra; a contratação fracassa, a lesão chega, o desempenho mingua, e o salário se revela um prejuízo. Isso não é exploração, é o avesso dela. É o empresário assumindo a incerteza por sua conta e risco, num mundo em que o futuro é desconhecido. Ludwig von Mises, em Ação Humana (Human Action, 1949), dá a esse arranjo o próprio nome: a soberania do consumidor. No mercado, é o consumidor,  aqui, o torcedor, quem, em última instância, dirige a produção e remunera os fatores; o empresário é seu mandatário, e o lucro ou o prejuízo, a nota que ele recebe por acertar ou errar o que milhões vão querer amanhã.

Quando a bola rolar

Então, quando a Copa começar e você se levantar do sofá diante de um drible impossível, lembre-se de que, naquele instante, está participando do processo exato que “paga” aquele salário que tanto indigna nos jornais. Sua emoção, somada à de bilhões de outros, é a fonte última do valor que percorre a cadeia, da ordem inferior à superior, até pousar na folha de pagamento do craque.

O salário milionário não desce de cima como um privilégio arbitrário. Ele sobe de baixo, da preferência subjetiva de cada um dos que escolheram dedicar seu tempo, sua atenção e seu dinheiro a esse espetáculo. Menger e Böhm-Bawerk reconheceriam ali, sem hesitar, não uma anomalia a corrigir, mas a economia humana funcionando exatamente como sempre funcionou: valor que nasce do desejo e preço que é apenas o desejo de muitos traduzido em número.


Referências

Böhm-Bawerk, E. von. (1891). The positive theory of capital (W. Smart, Trad.). Macmillan. (Obra original publicada em 1889)

Böhm-Bawerk, E. von. (1949). Karl Marx and the close of his system (P. M. Sweezy, Ed.). Augustus M. Kelley. (Obra original publicada em 1896)

Hayek, F. A. (1945). The use of knowledge in society. The American Economic Review, 35(4), 519–530.

Menger, C. (1983). Princípios de economia política (L. J. Baraúna, Trad.). Abril Cultural. (Obra original publicada em 1871)

Mises, L. von. (2010). Ação humana: Um tratado de economia (D. Stewart Jr., Trad., 4ª ed.). Instituto Ludwig von Mises Brasil. (Obra original publicada em 1949)

Rothbard, M. N. (1962). Man, economy, and state: A treatise on economic principles. D. Van Nostrand. Wieser, F. von. (1893). Natural value (C. A. Malloch, Trad.; W. Smart, Ed.). Macmillan. (Obra original publicada em 1889)

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