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O apito final do estado: Copa do Mundo, inflação e o jogo que nunca para de nos custar caro

Nota de edição:

Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou um concurso de artigos com o tema “Copa do Mundo de 2026“, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores da organização.

O concurso buscou artigos nos quais os alunos selecionassem um tema ligado ao mundo do futebol e o relacionassem a algum aspecto de política, economia, direito ou história.

O artigo abaixo recebeu a terceira colocação no concurso.


Imagine a cena: você no sofá, long neck na mão, a Copa do Mundo de 2026 passando na tela. Kylian Mbappé arranca pela esquerda com aquela velocidade que parece inverossímil para um ser humano, o mesmo cara que fez o mundo parar em 2022 no Catar. Você abre a geladeira, pega a Budweiser que estava guardando para esse momento, e lá no fundo da cabeça aparece aquela conta que você preferia esquecer: a long neck que custava R$ 8,67 na Copa anterior agora saiu por R$ 11,38. Uma alta de 31% entre uma Copa e outra. Não é coincidência de prateleira. É política econômica.

O custo real do espetáculo: quem efetivamente paga a conta?

Os liberais têm um princípio que nenhum ministro do esporte gosta de ouvir em voz alta: não existe almoço grátis. Copa grátis, então, nem pensar. Quando o estado “investe” em megaeventos, ele financia esse investimento de três maneiras possíveis: tributação presente, endividamento que vira problema das próximas gerações ou, o mais sorrateiro de todos os mecanismos, emissão monetária. É aqui que a inflação entra em campo, e ela não tem preferência por camisa 10.

Entre o Qatar e a América do Norte, o mundo atravessou um dos ciclos inflacionários mais agressivos das últimas décadas. O Brasil seguiu junto, como de costume. Em 2022, quando Neymar chorava eliminado nas quartas de final contra a Croácia, mais uma vez, para o desespero coletivo do país, a inflação acumulada rodava em torno de 5,8% ao ano. Incômodo, mas ainda dentro de uma faixa que as pessoas conseguem absorver sem repensar o orçamento do mês. Nos anos seguintes, a conta chegou mais pesada.

A combinação de expansão fiscal pós-pandemia, juros globais subindo em sincronia e uma desvalorização cambial que parece crônica no Brasil escancarou a escalada do custo de vida de formas que qualquer torcedor percebe antes mesmo de abrir a carteira. O frango assado ficou mais caro. A cerveja também. O pacote de viagem para assistir a uma partida nos Estados Unidos mesmo que fossem só os jogos da fase de grupos, sem a ilusão de chegar às finais, tornou-se proibitivo para boa parte da classe média, que, em teoria, seria o público natural desse tipo de aventura.

Do ponto de vista da Escola Austríaca, isso não é azar macroeconômico nem tempestade perfeita. É consequência direta e previsível da expansão de crédito que os bancos centrais promoveram durante a pandemia, numa velocidade e numa escala sem precedente histórico recente. Murray Rothbard passou décadas explicando esse mecanismo com uma clareza que o debate econômico mainstream ainda resiste a admitir: quando se injeta dinheiro novo no sistema, os preços não sobem todos ao mesmo tempo, na mesma proporção, para todo mundo. Quem recebe o dinheiro novo primeiro, o governo, os grandes bancos, as empresas com acesso privilegiado ao crédito subsidiado, consegue gastar antes que a inflação corroa o valor daquele recurso. O trabalhador que recebe o salário no final da cadeia já encontra o mercado ajustado. A cerveja mais cara. O aluguel subindo. A conta de luz fora do orçamento que ele tinha no começo do ano.

A FIFA e o privilégio que se vende como gestão

Falando em Messi, o argentino chegou ao ápice da sua saga mundialista em 2022 com o título que faltava, coroando uma carreira que já estava acima de qualquer crítica séria. Para muitos, o melhor que já jogou bola. Mas há um campeão invicto em toda Copa do Mundo disputada desde que o torneio existe: a FIFA.

A entidade que governa o futebol mundial opera com um modelo que qualquer economista de tradição liberal identificaria sem dificuldade como um cartel com proteção estatal. A FIFA negocia isenções fiscais diretamente com os governos dos países-sede como condição de contrato para sediar o torneio. Exige bilhões em investimento de infraestrutura cujo risco fica integralmente com o setor público (leia-se, com o pagador de impostos que não foi consultado sobre o assunto). Embolsa os direitos de transmissão global, o licenciamento de marcas, as taxas de patrocínio. Em 2026, a receita estimada da FIFA ultrapassa 11 bilhões de dólares. E a entidade não paga imposto onde opera como sede de evento.

Cristiano Ronaldo, que disputa sua última Copa em 2026 defendendo Portugal aos 41 anos (uma aposta tão improvável quanto o equilíbrio fiscal do governo federal, mas que CR7 parece capaz de transformar em realidade pela pura força da vontade), entende melhor do que ninguém o valor de uma marca construída com consistência. A diferença fundamental é que Ronaldo construiu a sua num mercado genuinamente competitivo, onde cada contrato dependia de performance real, visibilidade real, resultado real. A FIFA não joga nesse mercado. Ela criou o próprio, e convenceu os estados nacionais a protegê-lo.

A Escola Austríaca é categórica nesse ponto: monopólios sustentados por privilégios estatais não produzem eficiência. Produzem rent-seeking, a captura de valor gerado por outros, sem que o captor precise competir, inovar ou responder pelas suas escolhas. A FIFA é o exemplo mais bem-acabado desse fenômeno no esporte mundial: maximiza lucros às custas de pagadores de impostos que, em muitos casos, nem acompanham futebol.

O “legado” que ninguém pediu e todos financiaram

Toda candidatura para sediar uma Copa do Mundo vem embalada no mesmo discurso. Fala-se em legado, transformação urbana, modernização de aeroportos, expansão do turismo, aquecimento da economia local. Os políticos que assinam os contratos falam como se estivessem distribuindo presentes. A questão que raramente aparece na coletiva de imprensa é: quem está financiando esses presentes?

A realidade documentada em Atenas (2004), no Rio de Janeiro (2016), em Johannesburgo (2010) e em praticamente todas as cidades que sediaram grandes eventos nas últimas três décadas conta uma história diferente. Estádios que custaram fortunas e hoje funcionam abaixo da capacidade, quando funcionam. Endividamento municipal que persiste por décadas. Infraestrutura construída para a vitrine do evento que não se integra às necessidades reais da população. O estádio nacional Mané Garrincha, em Brasília, custeado pelos cofres públicos brasileiros para 2014, tem servido esporadicamente como estacionamento de ônibus. Esse é o “legado”.

A análise austríaca do chamado efeito multiplicador dos megaeventos é cética, e tem razões sólidas para ser. Frédéric Bastiat nos deu o instrumento analítico no século XIX, numa época em que não havia banco central, não havia FIFA e não havia transmissão televisiva global — mas o princípio permanece intacto: o que se vê e o que não se vê. O que se vê são os estádios iluminados, as ruas cheias de turistas, as câmeras em cada ângulo. O que não se vê são os hospitais que não foram construídos, as escolas que continuam com estrutura precária, os empreendedores que pagaram mais impostos para financiar uma festa da qual não participaram. Bastiat chamava esse erro de ótica de “sofisma econômico” — a tendência humana de enxergar apenas o efeito imediato e visível de uma política, ignorando tudo o que ela impediu de acontecer.

O que o mercado faria diferente; e por que isso incomoda

Não se trata de ser contra futebol. Futebol é uma das coisas mais genuínas que existem na experiência humana coletiva. Trata-se de uma pergunta mais honesta: e se a Copa fosse financiada exclusivamente por quem dela se beneficia?

Num modelo de livre mercado, a FIFA teria que negociar com cidades e empresas privadas em condições de real reciprocidade de risco. Estádios seriam construídos ou reformados com capital privado, assumindo junto a responsabilidade sobre a rentabilidade futura daquele ativo. Torcedores pagariam ingressos que refletissem o custo real de produção do evento, e não um preço subsidiado pelo contribuinte alheio. Patrocinadores cobririam os gastos em troca de audiência genuína, mensurável, competitiva. E o médico que não gosta de futebol, o agricultor que acompanha o plantio mais de perto do que a tabela de grupos, a aposentada que troca o rádio quando começa o jogo, nenhum deles seria compulsoriamente convocado a financiar a festa.

O resultado seria, provavelmente, uma Copa diferente. Menor em escala faraônica, mais honesta nas contas, mais atenta à experiência real de quem assiste. O mercado tem essa característica incômoda para quem gosta de gastar o dinheiro alheio: ele obriga quem toma a decisão a arcar com as consequências da própria decisão. O gestor privado que construir um estádio superestimado vai ter que lidar com o elefante branco que criou. O estado não. O estado tem a capacidade mágica, mais precisamente, a capacidade coercitiva, de socializar os prejuízos enquanto privatiza os lucros. A Copa do Mundo, a cada quatro anos, é uma demonstração pedagógica dessa habilidade.

O ciclo que se repete: inflação, gastos e o torcedor no final da fila

Há um padrão que se repete com uma regularidade perturbadora. Antes de cada Copa, governos anunciam investimentos. Esses investimentos são financiados com alguma combinação de impostos, dívida e expansão monetária. A expansão monetária gera inflação. A inflação corrói o poder de compra de quem está no final da cadeia. E o torcedor, aquele que acorda cedo, trabalha o dia inteiro, guarda dinheiro o mês todo para ter a cerveja e o frango na mesa na hora do jogo, é quem paga a conta sem nunca ter sido consultado sobre o cardápio.

O ciclo infla entre uma Copa e outra. O preço da long neck sobe 31%. O ingresso para um jogo nos Estados Unidos, convertido em reais pela taxa de câmbio que reflete décadas de política fiscal irresponsável, torna-se uma viagem de outro planeta para a família de classe média que sonhava com essa experiência desde 2022. O pacote de hospedagem em Nova York ou Los Angeles durante o torneio compete diretamente com o planejamento de uma reforma, com a faculdade do filho, com a reserva de emergência que ainda não existe.

Nada disso aparece no discurso oficial sobre o legado do evento. O discurso oficial fala em visibilidade internacional, em atração de turismo, em modernização da infraestrutura. Tudo isso pode ser verdade em alguma medida, e ainda assim, o balanço real, quando feito com honestidade, frequentemente não fecha.

Considerações finais: o jogo continua, e a conta também

Em 2026, o mundo vai parar para assistir ao futebol. Messi, Ronaldo e Neymar talvez estejam na sua última Copa, três carreiras que definiram uma geração inteira de torcedores. Mbappé provavelmente vai continuar sendo absurdamente rápido, absurdamente caro e absurdamente difícil de encaixar num sistema tático convencional.

Mas enquanto o espetáculo acontece, a máquina inflacionária continua rodando nos bastidores. O banco central continua apertando ou afrouxando, conforme a conveniência do ciclo político. O governo continua gastando acima do que arrecada e contabilizando isso como investimento. E o torcedor continua pagando pela cerveja, pelo ingresso, pelo imposto embutido no produto que ele comprou sem saber, pela inflação que corroeu o salário que ele achava que tinha aumentado.

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