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A Pobreza do Liberalismo Anti-economicista: os casos de Barros e Merquior – Parte III

Nota da edição:

Esta é a terceira e última parte de uma série de publicações que reproduzem o artigo acadêmico de Fabio Barbieri: “A Pobreza do Liberalismo Anti-economicista: os casos de Barros e Merquior”, originalmente publicado na revista acadêmica do Mises Brasil.

Leia também as partes 1 e 2


O liberalismo segundo José Guilherme Merquior

José  Guilherme  Merquior  (1941-1991)  foi  um  intelectual  com  formação  em  Direito,  Filosofia, Diplomacia, Letras e Sociologia, sendo esta última uma das áreas nas quais obteve doutorado, na London School of Economics. Trabalhou como diplomata em vários países e publicou trabalhos sobre diversos assuntos, entre os quais o liberalismo.

Vinte anos depois da história do liberalismo que estudamos na seção anterior, Merquior publica um livro sobre o mesmo tema, seu O Liberalismo: antigo e moderno. Como também propõe um liberalismo sem “liberismo”, o texto de Merquior apresenta muitas características em comum com o texto de Roque Spencer Maciel de Barros, a despeito das diferenças ideológicas entre ambos. De fato, Barros (1992, p. 128) recomenda o estudo da obra, “ainda que a atitude do autor nos pareça, sob alguns aspectos, mais social-democrática do que liberal.” A desconsideração das contribuições dos economistas ao liberalismo, com efeito, é responsável pela recorrência dos problemas que indicamos na seção anterior, algo que reforça a tese deste artigo sobre o liberalismo anti-economicista.

O livro é estruturado da seguinte maneira. Depois de apresentar os conceitos negativo e positivo de liberdade, o texto procede com uma análise histórica da doutrina liberal. Inicia com raízes no Iluminismo, destacando Montesquieu e Rousseau e procede com a identificação de  um  período  clássico,  cuja  discussão  gira  em  torno  de  três  temas:  direitos  humanos,  constitucionalismo e teoria do crescimento econômico, tal como historiado pelos iluministas escoceses e teorizado pelos economistas clássicos britânicos. Nesse período, são comentados autores como Locke, Constant, Guizot, Tocqueville, J. S. Mill, Mazzini e Herzen. Na sequência, o liberalismo passa por um período de reação contra a expansão da representação democrática. Dessa era conservadora, entre outros autores, são mencionadas idéias de Bagehot e Spencer na Inglaterra, Sarmiento e Alberdi na Argentina e Max Weber na Alemanha. O liberalismo novo,  por  fim,  depois  do  desafio  ao  laissez-faire  proposto  por  Keynes,  é  caracterizado  pelo  contraste  entre  o  “neoliberalismo”  de  Mises  e  Hayek  e  o  liberalismo  social  defendido  por  diversos autores e com o qual Merquior se identifica[1].

Como Barros, também Merquior utiliza Croce para isolar a filosofia liberal de doutrinas econômicas liberais. Ao rejeitar a análise das relações entre meios e fins em favor de declarações de  intenções,  encontramos  mais  uma  vez  o  hábito  pouco  liberal  de  substituir  a  análise  comparativa de teorias pela denúncia moral de espantalhos, como as associações entre anti-intervencionismo e darwinismo social e entre teoria econômica e hedonismo. De fato, para Merquior (1991, p. 141), “Croce salientou que, enquanto o liberalismo é um princípio ético, o liberismo não passa de um preceito econômico que, tomado equivocadamente por uma ética liberal, degrada o liberalismo a um baixo hedonismo utilitário”.

Embora no prefácio da obra (p. 11) Roberto Campos tenha afirmado que Merquior tenha se tornado cada vez mais liberista, o exame do livro claramente revela sua rejeição das contribuições dos  economistas  ao  liberalismo  (FELIPE,  2015).  Como  consequência,  encontramos  também  na obra de Merquior grande espaço dedicado a apresentar, como se fossem liberais, autores estranhos a essa filosofia política. É comum encontrar na obra expressões como “liberalismo autoritário  antidemocrático”  (p.  92),  “liberalismo  de  esquerda”  (p.  96;  p.  155),  “liberalismo  social” (p. 101; 152; 161), “liberalismo conservador” (p. 118) e “socialismo liberal” (p. 159). Ao mesmo tempo, boa parte dos autores propriamente liberais não são sequer mencionados ou suas ideias são distorcidas pela repetição de críticas emprestadas do pensamento conservador e  socialista,  como  por  exemplo  (p.  91)  a  menção  a  “exaltação  liberista  do  homooeconomicus professada por economistas como Say e Bastiat”.

De modo coerente com seu liberalismo moral, centrado em intenções, o autor inicia sua obra rejeitando a existência de fundamentos da liberdade. O estudo do liberalismo deveria, portanto, ser uma empreitada histórica, diríamos quase historicista, revelando os diferentes “discursos” liberais ou formas concretas de manifestações da liberdade. Em um resumo feito pelo próprio Merquior (1991, p.   148 -9)

O liberalismo clássico desdobrou-se numa série de discursos conceituais. Os teóricos liberais falaram as línguas dos direitos naturais (Locke e Paine), do humanismo cívico (Jefferson e Mazzini), da história por estágios (Smith e Constant), do utilitarismo (Bentham e Mill), e da sociologia histórica (Tocqueville). Com mais discursos, o liberalismo clássico progrediu do whiguismo – a mera exigência de liberdade religiosa e governo constitucional – para a democracia, ou autonomia com uma ampla base social.

Inicialmente,  o  discurso  liberal  se  identifica  com  ausência  de  coerção,  mas,  depois,  se refere a materialização de aspirações ou liberdade de realização pessoal. Sendo assim, a distinção entre liberdade positiva e negativa é apresentada, mas, na sequência, minimizada (p. 26), pois a intenção do autor ao longo do livro é defender a tese de que um liberalismo renovado deveria centrar sua atenção na participação democrática e intervenção estatal para corrigir problemas atribuídos à realidade interpretada como capitalismo laissaz-faire.

É  interessante  notar  que  o  subtítulo  da  obra  revela  a  intenção  de  inverter  a  clássica  distinção  de  Benjamin  Constant  entre  liberdade  dos  antigos  e  dos  modernos.  Para  o  autor  francês,  a  liberdade  antiga,  entre  os  gregos,  significava  participação  nas  decisões  da  polis, ainda que tais decisões pudessem transformar os cidadãos em escravos no que diz respeito a qualquer outra atividade, em contraste com o conceito moderno, que diz respeito à proteção dos indivíduos da coerção. O autor brasileiro, por outro lado, pretende inverter essa ordem, incorporando no futuro do liberalismo a “liberdade para” por meio de ação estatal fundada em expansão da democracia, sem abdicar da “liberdade de” que marca seu passado.

Minimizar  a  diferença  entre  as  definições  positiva  e  negativa  de  liberdade,  porém,  equivale de fato à evasão da discussão do conteúdo da tese central do autor. Como comenta Machlup (1969, p. 126):

Uma definição de liberdade que nega a diferença entre não interferência e poder efetivo (ou bem-estar ou satisfação de necessidades) destrói o significado essencial da palavra “liberdade”. Se for definida como a capacidade ou oportunidade de conseguir o que se deseja, estamos impedidos de analisar a importante questão de saber se o desenvolvimento dessa capacidade ou oportunidade é melhor servida pelo restricionismo ou pela não interferência, pelo controle coletivo ou pela liberdade individual.

Para defender a viabilidade de seu projeto, compatibilizando as duas definições, o autor deveria, portanto, ir além de seu liberalismo ético e comentar as teses que estabelecem relações entre  liberdade  econômica,  política  e  intelectual,  tarefa  bloqueada  pela  sua  abordagem  ou  ainda dar alguma indicação concreta dos meios que imagina que podem ser utilizados para atingir seus objetivos. Mas, assim como Barros, Merquior identifica e adota a tese favorável à separabilidade entre liberdades, sem argumentar em seu favor.

Adotada tal tese, resta a Merquior, assim como a Barros, reduzir o debate político a um conflito moral. Como consequência, nos deparamos novamente com as mesmas objeções que socialistas e conservadores historicamente fizeram ao pensamento liberal. Como já listamos essas reações na obra de Barros, basta aqui mencioná-las brevemente para enfatizarmos uma delas, a comparação entre Keynes e Hayek.

Merquior restringe o pensamento econômico clássico a autores britânicos e ao estudo do fenômeno do crescimento, salientando a antiga definição materialista da disciplina que prevalecia até Marx, reforçando o mito do Homo economicus que sugere egoísmo e preocupação exclusiva com ganhos materiais, bem como uma relação necessária entre modelo de escolha da teoria econômica e ética utilitarista (MARX, 1909)[2], interpretada como desprezo por valores mais elevados. O  vulgar  liberismo  pode  então  ser  isolado  como  um  “discurso”  acessório  pouco  importante  do  liberalismo.

  Sendo  assim,  nada  é  dito  no  livro  sobre  a  teoria  econômica  moderna, que explicitamente se define como uma ciência de meios, que tornou ociosa essa crítica  moralista  ou  sobre  as  contribuições  dos  economistas  liberais  franceses  dos  séculos  dezoito  e  dezenove,  que  sistematicamente  exploraram  a  lógica  do  funcionamento  da  ação  coletiva  ou  mesmo  a  própria  análise  comparativa  de  instituições  ou  sistemas  econômicos  feita pelos autores britânicos, análises essas que tornariam mais complicada a tarefa de isolar a política de considerações econômicas.

Considere, como exemplo, a relação entre centralização e violência política apontada por Adam Smith (2015) em sua crítica aos planos centrais do “homem de sistema”, que ignoram a complexidade dos fenômenos sociais e o caráter falível do conhecimento.

Considere  ainda  alguns  exemplos  das  inúmeras  análises  que  contrariam  a  compartimentalização das liberdades efetuadas pelos economistas liberais franceses. Turgot e Say desenvolvem uma análise do estado em termos da lógica da ação coletiva, que explica por que planos governamentais geram resultados opostos ao pretendidos. Destutt de Tracy, ao  incorporar  essa  análise  em  seu  trabalho  multidisciplinar,  transforma  o  despotismo  em  consequência não intencional das demais formas de governo listadas por Montesquieu. Dunoyer, Charles Comte e Bastiat constroem uma teoria liberal da exploração, derivada da natureza humana e da lógica do poder não restrito, oferecendo uma interpretação da evolução histórica das instituições que nega boa parte das categorias analíticas marxistas até hoje predominantes. Storch  constrói  uma  teoria  interacionista  e,  portanto,  não  reducionista  sobre  a  coevolução  entre  crescimento  econômico  e  civilização.  Courcelle-Seneuil  e  Molinari  (2019)  estudam  as  relações entre centralização de decisões políticas e desempenho econômico via o estudo da transmissão de conhecimento disperso. Os desdobramentos no século vinte dessa tradição liberal também são desprezados no texto de Merquior: Mises e sua crítica ao planejamento central e Buchanan e a análise da escolha pública merecem, cada um, um único parágrafo.

Ao  ignorar  a  rica  tradição  interdisciplinar  do  liberalismo  econômico,  reduzindo-a  ao  moralmente desprezível liberismo, Merquior ao mesmo tempo recorre a categorias emprestadas de filosofias políticas e teorias econômicas rivais, como a interpretação marxista da história em termos de modos de produção e em particular o uso do conceito de “capitalismo”. A identificação automática de arranjos institucionais concretos ao sistema defendido por liberais, algo que já criticamos, também aparece na análise de Merquior, através do retrato do laissez-faire como defesa de inação, sem menção ao respectivo arranjo institucional ao qual a expressão se refere. Essa suposta indiferença moral à situação dos menos favorecidos, mais uma vez, é ilustrada pela sociologia de Spencer, identificada com darwinismo social.

Para o liberalismo não fragmentado, porém, questões como pobreza são interpretadas como fruto do próprio sistema econômico intervencionista (ou mercantilista), muitas vezes como consequência do uso bem-intencionado de doutrinas errôneas. Uma discussão racional dessas questões convidaria a elaboração de teorias sobre o funcionamento de arranjos institucionais diversos, que compare virtudes e vícios dos mercados e estados, acompanhada de estudos que relacionam grau de centralização existente em sociedades reais a indicadores sociais e econômicos. O liberalismo moral, em contraste, foge dessa custosa tarefa, transformando em tautologia a superioridade das posições que defende.

Quanto ao uso da teoria da evolução, a repulsa de Merquior não tem origem religiosa, embora ainda moralista, dependendo da nobreza das intenções atribuídas diferentes posturas políticas. De fato, para Merquior (1991, p. 163), um determinado autor filiado ao liberalismo social seria um “… evolucionista do ‘espírito’ – quer dizer, um evolucionista que dava ênfase à emergência de formas mais nobres de existência em vez de salientar a aspereza da sobrevivência dos mais aptos”.

Por fim, a relação entre falibilismo e a justificativa da liberdade, central em toda tradição liberal  que  vá  além  de  intenções,  de  Turgot  a  Hayek,  passando  por  Smith,  Mill  e  Popper,  também é menosprezada por Merquior. A avaliação da importância de Popper é novamente restrita à crítica ao historicismo, acompanhada da declaração (p. 180) de que a obra desse autor teria pouco a oferecer para a análise política.

A expressão máxima do esvaziamento da doutrina liberal promovida pela perspectiva moralista se revela, no entanto, na comparação entre Keynes e Hayek, sendo o primeiro eleito como o verdadeiro representante do liberalismo. Roberto Campos, restrito pelo seu papel de prefaciador da obra, observa (p. 11) que as observações de Merquior seriam “generosas demais no tocante a Keynes, e generosas de menos no tocante a Hayek”. Mas, se além das intenções democráticas de Keynes examinarmos tanto suas premissas filosóficas quanto as consequências das políticas que defende, a avaliação de Merquior não se sustenta.

Vejamos  o  que  Merquior  diz  sobre  os  dois  autores.  Keynes  teria  dado  ao  “liberismo  ortodoxo o golpe de morte com seu livro The End of Laissez-faire” (p. 174), salvando democracia do fascismo pela reforma do “capitalismo”. Sua teoria, centrada nos determinantes da renda[3],teria refutado a lei de Say segundo a qual a oferta gera sua própria demanda, pois o dinheiro poderia ser entesourado. Por outro lado, Keynes é criticado pela desconsideração pela formação de grupos de interesse derivados da expansão estatal e pelo fato de que, no desenvolvimento do “capitalismo”, empresários não mais deixariam de gastar sua renda.

Ainda que não caiba aqui uma exposição de como o fracasso das receitas keynesianas, amplamente  reconhecido  a  partir  dos  anos  setenta,  se  relaciona  com  o  uso  de  um  modelo  agregado  não  microfundamentado,  crítica  antecipada  por  Hayek  nos  anos  vinte  do  século  passado, precisamos fazer um comentário em relação a Say para ilustrar mais uma vez tanto a desconsideração pelas teorias liberais em uma história do liberalismo quanto a prática de identificação automática do mundo real com o sistema liberal. Logo após expor sua crítica a teses subconsumistas, Say (1841) afirma que a oferta não se transforma automaticamente em demanda se o capital não circular rapidamente. A explicação institucionalista de Say é, no entanto, muito mais próxima da teoria moderna: em uma economia intervencionista, os desequilíbrios gerados pela ação governamental geram incerteza e fazem com que ocorram incentivos  para  que  os  agentes  escondam  seu  capital,  protegendo-o  de  confisco  e  medidas  arbitrárias,  ao  contrário  de  instituições  liberais  que  induziriam  transparência,  para  que  os  melhores usos empresariais do capital sejam descobertos. Curiosamente, o Brasil é dado como exemplo de oferta que não gera sua própria demanda, devido à presença de instituições iliberais.

Mas,  em  vez  de  examinar  as  explanações  liberais  de  Say  ocultadas  pela  retórica  de  Keynes, sobretudo aquelas que exploram as consequências econômicas (BUCHANAN, 1978) da  centralização  política  e  compará-las  com  as  teses  keynesianas,  para  Merquior  (1991,  p.  174) basta a declaração de intenções: Keynes seria um liberal por afirmar que “… o problema político da humanidade consiste em combinar três coisas: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual”. No entanto, nenhum indício de como isso poderia ser feito é discutido na obra, além de alusões à expansão da participação política.

Dada a intenção de compatibilizar os três objetivos em uma discussão restrita à ética, não  é  de  surpreender  a  antipatia  de  Merquior  por  Hayek,  cuja  abordagem  interdisciplinar  aponta inconsistências entre esses fins. Além da crítica hayekiana ao conceito de justiça social, desagrada a Merquior a crença de Hayek de nem toda iniciativa estatal possa ser justificada se for decidida de forma democrática.

Merquior não trata dos fundamentos do liberalismo presentes na obra de Hayek como um todo, mas comenta, de modo algo superficial, alguns aspectos dos últimos livros desse autor.  Se  para  Roque  Spencer  Maciel  de  Barros  a  existência  da  União  Soviética  refutaria  a  crítica de Mises ao socialismo, para Merquior (p. 190) a existência do welfare state refutaria a tese do Caminho da Servidão, segundo a qual a expansão do estado levaria à tirania. Na mesma linha, Merquior (1991, p. 194) afirma o evolucionismo de Hayek (1978; 1982) seria inconsistente com sua defesa de mercados livres, pois instituições e práticas intervencionistas que rejeita também evoluíram.

Nos  dois  casos,  porém,  Hayek  não  oferece  nenhuma  profecia  histórica,  mas  análise  condicional sobre expansão do estado no primeiro e características de processos evolutivos, no segundo. Em nenhum lugar podemos encontrar em Hayek crença em melhorismo como consequência necessária de processos evolutivos. Se tomarmos o próprio Caminho da Servidão como exemplo, encontramos a descrição de um processo de seleção no qual os piores chegam ao  poder.  Uma  análise  apropriada  das  teses  de  Hayek  de  seus  últimos  livros  deve  assim  considerar  as  características  explícitas  de  um  modelo  evolucionário,  como  estabilidade  do  ambiente,  natureza  da  variação  e  grau  de  centralização  e  rigor  dos  mecanismos  seletivos.  Embora Hayek tenha deixado essa análise incompleta em sua economia institucional, não se justifica de modo algum atribuir ao autor a defesa de tudo que tenha evoluído.

Enfatizar a necessidade de substituir uma rejeição meramente retórica de explanações evolucionárias em favor do exame do conteúdo concreto dessas explanações é crucial porque nos leva de volta a um importante fundamento da liberdade presente na obra de Hayek, o falibilismo. Merquior (1991, p. 194) afirma que “não espanta que Hayek tenha sido duramente criticado por causa da contradição entre o seu fideísmo evolucionista e o papel que atribui à razão crítica”. Ora, a tradição da epistemologia evolucionária que inclui o pensamento de Hayek e de Popper consiste justamente em uma crítica falibilista a um racionalismo ingênuo ou construtivista, que supõe capacidade de obtenção de conhecimento certo, independentemente da  existência  prévia  de  liberdade  de  opiniões  (variação)  e  sujeição  das  hipóteses  falíveis  à  crítica (seleção).

Assim como Barros não sabia o que fazer com a argumentação falibilista empregada por Mill em sua defesa da liberdade de opinião, Merquior (1991, p. 194) interpreta a necessidade de pluralismo apenas como expressão de individualismo moral. O argumento de Hayek de que uma sociedade livre requer concordância sobre regras básicas que possibilitam a convivência pacífica e não acordo sobre fins últimos é rejeitada por Merquior (1991, p. 195) como negação dos poderes da democracia para implementar políticas que reflitam valores superiores:

Quando todas as contas são feitas, a liberdade para Hayek, é no fundo, um instrumento de progresso; o mérito supremo do indivíduo “hayekiano” é contribuir (inconscientemente) para a evolução social. Essa opinião solapa o direito que assistiria a Hayek de ser um liberal na mesma liga que Locke e Humboldt. O neoliberismo, assim como o neo-evolucionismo, termina por minar o próprio âmago da ética liberal.

Para a perspectiva hayekiana, porém, seres humanos diferem em termos de conhecimento e objetivos, de modo que o aumento de assuntos que exigem a escolhas centrais uniformes implica em conflitos progressivamente mais intensos conforme cada decisão individual assume caráter político[4]. E a politização de cada aspecto da vida, como bem descreve Barros (1990), define o que vem a ser um regime totalitário.

O modo como Merquior trata as ideias de Keynes e Hayek reflete sua percepção sobre a compatibilidade delas com a filosofia liberal, sugerindo que a liberdade seria compatível um ativismo estatal maior. De qualquer modo, nossa discussão deixa claro que essa questão não pode ser restrita ao compromisso declarado com certos valores e objetivos, exigindo a investigação das premissas filosóficas adotadas, das teorias econômicas desenvolvidas e das consequências  das  políticas  defendidas  por  cada  um,  tarefa  que  pela  sua  extensão  foge  ao  objetivo deste texto.

Conclusão:

A  política  é  um  fenômeno  complexo,  cuja  análise  requer  a  cooperação  de  teorias  desenvolvidas por disciplinas de diversas áreas, convivência com explanações rivais e presença de elementos normativos. Embora a política envolva elementos morais ou éticos, se depara também com regularidades de natureza científica. Um recorte da área que exclua qualquer um dos elementos dessa análise resulta, portanto, em visão empobrecida. O liberalismo anti-economicista, em particular, ao rejeitar uma ciência que estuda a relação entre meios e fins, perde de vista a importância das consequências não intencionais da ação. Perde então boa parte das contribuições geradas pela própria ciência política, que estuda essas consequências na esfera das ações coletivas.

Paradoxalmente, o liberalismo anti-economicista gera, por diferentes motivos, doutrinas eminentemente anti-liberais. Em primeiro lugar, a rejeição da discussão de teorias que digam algo sobre a lógica da liberdade é inconsistente com o fundamento falibilista do liberalismo, que acredita que o crescimento do conhecimento requer liberdade e crítica tanto nos mercados de bens e serviços quanto no mercado das idéias. Como ilustram as histórias do liberalismo escritas por Barros e Merquior, grande parte do rico acervo de teorias liberais desenvolvidas nos últimos séculos é completamente ignorada. Em segundo lugar, a substituição da competição entre teorias por uma perspectiva puramente ética reduz o diálogo crítico no mercado dasideias  a  um  conflito  entre  o  bem  e  o  mal.  Nos  dois  livros  que  utilizamos  como  ilustração  dessa tese, o liberalismo propriamente dito é identificado com compromisso com egoísmo e materialismo, indiferença em relação a situação dos menos favorecidos e defesa das instituições existentes. Não há nada menos liberal do que a prática de substituir a discussão de teorias pelo uso de caricaturas. No caso, caricaturas tradicionais emprestadas do pensamento político antiliberal. Em terceiro lugar, a rejeição do chamado liberismo não equivale de fato a uma rejeição da teoria econômica propriamente dita, mas apenas de teorias econômicas de cunho liberal. Assim como não existem dados sem teoria, não existe política sem economia: Barros e  Merquior  combinam  noções  marxistas  e  keynesianas  para  a  defesa  de  um  “capitalismo  humanizado”.  Escrevendo  em  uma  época  de  declínio  dessas  tradições  teóricas  no  que  diz  respeito à economia e ignorando as críticas liberais a essas ideias, suas análises não oferecem nada de concreto sobre a “terceira via” que gostariam de passar por liberalismo, em mais uma batalha na longa guerra de apropriação do termo liberal pela esquerda.

Neste texto, utilizamos o referencial teórico hayekiano para criticar o liberalismo anti-economicista. Não apenas por justiça, dado o tratamento desfavorável que esse autor recebe nas obras analisadas, mas principalmente pelo fato de que o economista austríaco, como verdadeiro scholar,  preservou  no  século  vinte  o  corpo  doutrinário  do  liberalismo  multidisciplinar  dos  séculos anteriores, que pode ser contrastado com o liberalismo esvaziado estudado neste texto. Roque Spencer Maciel de Barros adota postura bastante ingênua ao apelar ao sentimento de humanismo sem fornecer indicação alguma sobre o que deve ser feito, como se a eficácia de políticas centralizadoras estivesse apenas à espera do comando de indivíduos mais desenvolvidos moralmente. José Guilherme Merquior não é menos ingênuo ao depositar sua fé em expansão de decisões democráticas ao ignorar por completo os fenômenos estudados pelos austríacos e pela escola da escolha pública sobre à lógica da ação coletiva.


[1] Para uma descrição do “liberalismo social” esposado por Merquior e seu contraste com o pensamento de Hayek, ver  Felipe (2015).

[2] Marx (1909, cap. 15).

[3] Na edição brasileira, income é erroneamente traduzido por receita. Devido ao grande número de problemas com a primeira edição da obra, recomendamos o uso da versão original em inglês.

[4] A estatização do sistema de saúde, por exemplo, torna a decisão de comer um hamburger naquilo que os economistas denominam externalidade, na medida que todos os membros da sociedade e não o indivíduo em questão pagariam pelo tratamento cardíaco.

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