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A Pobreza do Liberalismo Anti-economicista: os casos de Barros e Merquior – Parte 1

Nota da edição:

Esta é a primeira parte de uma série de publicações que reproduzem o artigo acadêmico de Fabio Barbieri: “A Pobreza do Liberalismo Anti-economicista: os casos de Barros e Merquior”, originalmente publicado na revista acadêmica do Mises Brasil.


Introdução:

O estudo dos fenômenos sociais requer multidisciplinariedade. Não é possível abordar a fundo o tema sem considerar, por exemplo, o debate nature versus nurture e o que a biologia evolucionária e a psicologia têm a dizer a respeito. Se essa discussão revela que o homem não é totalmente moldado pelo ambiente, uma análise comparativa de arranjos institucionais deve considerar regras compatíveis com a natureza humana. Recomendações de reformas, por sua vez, não podem ignorar o estudo do direito e das filosofias políticas nas quais se baseiam. Sem lógica ou matemática não é possível entender parte da teoria econômica e ciência política moderna.  Estatística  e  história  são  importantes  para  corroborar,  criticar  ou  ilustrar  essas  explanações. Precisamos da filosofia para contrastar teorias rivais e apreciar o desenvolvimento de cada uma delas. Não é possível ainda, sem conhecer história da ciência, verdadeiramente entender uma teoria e os problemas que a motivaram, como observou Popper (1969, p.18 4).

Não é de surpreender, portanto, a opinião de Hayek (1667, p. 123) segundo a qual um economista que só conhece economia não pode ser um bom economista, constituindo ainda um verdadeiro perigo. Na nossa era de especialização, o economista formado apenas por livros-textos e artigos empíricos tende a ser arrogante e dogmático, desconhecendo seja explanações rivais, debates teóricos cruciais da disciplina ou mesmo as hipóteses não articuladas presentes nas teorias que estudou. Esse tipo de analista age como um tecnocrata que acredita que suas opiniões seriam “baseadas em evidências”, enquanto as demais seriam mera ideologia, como se fosse possível se abster de usar hipóteses gerais, próprias da visão de mundo de cada um. Ignorando a crítica ao positivismo, esse especialista ignora que a escolha não é entre empregar ou não pressupostos “metafísicos”, mas sim explicitá-los e discuti-los criticamente ou usá-los implicitamente de forma vaga e, portanto, acrítica, esta última fonte certa de dogmatismo.

Um estudante de fenômenos sociais que ignora a teoria econômica, por sua vez, sofre de problema similar, como pode ser inferido a partir do reconhecimento do caráter indisciplinar desse estudo. No que se refere ao tema específico deste artigo, o liberalismo, afirmamos que pior do que uma teoria econômica isolada de disciplinas correlatas é uma doutrina liberal hostil à economia, que relega a segundo plano considerações dessa última disciplina em favor de pressupostos éticos. Essa alegação, por sua vez, é justificada pela importância central que o estudo das consequências não intencionais da ação humana ocupa na teoria econômica.

A economia é uma ciência de meios, não de fins. Sejam quais forem as intenções dos agentes, investiga se estes atingem seus propósitos sob diversos arranjos institucionais. Mostra como  a  desconsideração  das  regularidades  no  seu  campo  de  estudo  faz  com  que  planos  fracassem,  a  despeito  dos  princípios  e  boas  intenções  de  seus  proponentes.  Estas  últimas  não bastam: grandes atrocidades foram cometidas por indivíduos firmemente convictos da correção moral de seus atos.

Confinar  o  estudo  do  liberalismo  à  esfera  das  aspirações  e  valores  carrega  consigo  importantes consequências. Além de incompletude, implica em pobreza de análise, pois é incompatível  com  uma  característica  inegociável  do  liberalismo,  a  saber,  a  valorização  do  debate e respeito àqueles que nutrem opiniões diferentes. Esse respeito, embora inclua entre seus fundamentos a valoração ética do ser humano, se perde se as disputas políticas forem vistas em essência como lutas entre valores opostos, facilmente reduzidas ao conflito entre o bem e o mal. Mas, se contemplarmos as consequências não intencionais das escolhas, as ações  que  defendemos  podem  pelo  menos  em  parte  ser  equivocadas  e  o  debate  se  torna  instrumento indispensável para a correção de erros, sugerindo assim a existência de outros fundamentos complementares para a liberdade. Conforme a política moderna progressivamente substitui a discussão de diagnósticos rivais sobre como lidar com problemas pelo embate moral entre valores irreconciliáveis (SOWELL, 2021), a discussão da natureza do liberalismo ganha importância.

Neste artigo, ilustraremos a tese de que a filosofia política liberal despida de elementos “economicistas”  tende  a  se  tornar  vazio,  devido  à  ausência  de  elementos  cruciais  dessa  filosofia comumente enfatizados pelos economistas. Essa ilustração consiste no exame de duas obras que tratam da história do liberalismo, publicadas por autores brasileiros: a Introdução à Filosofia Liberal de Roque Spencer Maciel de Barros e o Liberalismo: antigo e moderno de José Guilherme Merquior.

Maciel de Barros, preocupado com o fenômeno totalitário, busca as bases filosóficas de doutrinas  políticas  que  tratam  cada  indivíduo  como  um  valor  em  si  mesmo,  em  contraste  com teses que dissolvem esse indivíduo em alguma noção coletivista, transformando-o em mera ferramenta política. Merquior, por sua vez, pretendendo conciliar liberdade e um papel ativo para o estado, trata das contribuições de filósofos políticos que classifica como liberais.

Essas  obras,  a  despeito  da  erudição  de  seus  autores,  retratam  a  evolução  da  filosofia  liberal como empreitada virtualmente ortogonal ao pensamento econômico liberal, raramente indo  além  da  discussão  de  valores  e  intenções.  Como  consequência,  o  liberalismo  nelas  representado  é  de  fato  esvaziado.  A  sua  leitura  deixa  a  impressão  de  que  quase  qualquer  doutrina além de algo explicitamente ditatorial poderia ser incluída, já que poucos autores rejeitariam  a  liberdade  como  valor  abstrato.  Se  por  um  lado  a  liberdade  dita  econômica  é  rejeitada ou isolada e diminuída, podemos encontrar com razoável frequência nesses livros discussões estranhas ao pensamento liberal, além da repetição de várias críticas equivocadas ao liberalismo “economicista” emprestadas de conservadores e socialistas. Embora rejeitem o  liberalismo  economicista,  não  é  propriamente  a  economia  que  rejeitam,  mas  o  próprio  liberalismo, pois não deixam de defender teses econômicas criticadas por economistas liberais.

A expressão máxima desse esvaziamento do liberalismo se manifesta na classificação de Keynes como um liberal, naturalmente baseada nos valores esposados por esse autor, não no exame dos fundamentos filosóficos ou das consequências das políticas e instituições que favorece.  Argumentaremos  que  o  descaso  pelo  exame  das  consequências  não  intencionais  da ação é responsável, nas obras desses dois autores, pela profusão de liberalismos iliberais nelas retratados.

Para  discutirmos  o  liberalismo  anti-economicista  expresso  nos  dois  livros  citados,  será necessário antes examinaremos mais de perto alguns fundamentos da liberdade neles ignorados, que servirão como base para a crítica subsequente.

Alguns fundamentos da liberdade

A importância das consequências não intencionais das ações se relaciona ao reconhecimento da  existência  de  regularidades  no  que  diz  respeito  aos  fenômenos  sociais.  Na  política,  em  particular, isso implica em não redução à moral, pois a desconsiderações das leis pertencentes às ciências sociais pode levar ao fracasso das medidas propostas, cujos defensores recuariam diante das consequências do que defende, ainda que estes sejam guiados por valores aceitos.

Essa conclusão, por sua vez, se choca com a arraigada crença na relação entre intenções e resultados. A dominância dessa crença é atestada em toda parte, desde os ditadores que não reconhecem regularidades econômicas que restrinjam sua vontade política e atribuem o fracasso de seus planos à ação de sabotadores até os roteiros de filmes nos quais os sofrimentos dos povos são associados a reis malignos, substituídos por heróis bem-intencionados, que restauram a harmonia. Raramente a arte retrata idealistas arruinando a sociedade, como seria possível se separarmos intenções de resultados. Como nota Hayek (1982, p. 20), pelo menos desde a antiguidade clássica nos acostumamos de forma equivocada a opor o natural ao artificial, este último definido como fruto da mente consciente. Essa dicotomia pré-evolucionária exclui, por definição, os “frutos da ação, mas não da intenção humana” estudados por Adam Ferguson e demais iluministas escoceses e que constituem o material básico das ciências sociais.

Na política, a negligência das consequências não intencionais se manifesta na crença de que o poder seria uma ferramenta neutra, à espera de manipulação por indivíduos ou classes corretas,  que  mudariam  o  histórico  de  fracassos  que  marcam  a  ação  estatal.  Os  males  da  política, na concepção rival, são por sua vez explicados em termos da própria “lógica da ação coletiva”,  se  tomarmos  emprestado  uma  expressão  oriunda  do  imperialismo  economicista.  Sem o exame dessa lógica, no entanto, não é possível avaliar em que grau algo é compatível com o liberalismo apenas pelo exame de intenções.

Considerando esse conflito de visões, o progresso das ciências sociais foi de fato marcado pela oposição por parte daqueles que explicam os fenômenos sociais a partir da moral. Nesta seção, exporemos e criticaremos algumas manifestações do moralismo que informa o liberalismo anti-economicista, tal como ocorreram ao longo do desenvolvimento da ciência econômica, para na sequência argumentar que, além do estudo das relações entre meios e fins, o liberalismo bem fundamentado também se apoia em uma concepção falibilista sobre o conhecimento humano.

A evolução do pensamento econômico pode ser resumida como uma longa marcha de libertação do moralismo. Da história da disciplina, mencionemos apenas três tópicos, relevantes para nossa discussão: valor, auto-interesse e sistemas econômicos. O primeiro, a teoria do valor, revela uma lenta transformação: de uma noção relativa à natureza dos bens e justiça das trocas, o valor passou a se referir à importância que diferentes pessoas em diferentes circunstâncias atribuem a porções concretas dos mesmos bens para a realização dos seus objetivos. Tomando um  exemplo  concreto,  embora  no  primeiro  sentido  a  água  tenha  um  valor  abstrato  para  a  humanidade maior do que um diamante, no segundo sentido uma garrafa de água no deserto pode ter valor maior do que às margens do Amazonas. O não entendimento deste último sentido  atrasa  até  hoje  a  compreensão  sobre  os  efeitos  de  diferentes  políticas  alternativas. 

Na área de saúde, alguém que afirma que “a vida não tem preço” e, portanto, não está sujeita a considerações econômicas naturalmente não gasta a totalidade de seu salário em remédios e consultas médicas, mas compara usos alternativos dos recursos, como implicado pela noção que rejeita. No entanto, ignorar os custos de oportunidade das políticas, comumente arcados por outros, de alguma forma escapa ao seu radar moral.

As confusões geradas pela mistura desses dois sentidos do valor são antigas. A noção aristotélica de que trocas envolveriam a igualdade entre valores atrasou o desenvolvimento da teoria econômica por dois milênios. Esse erro se manifestou tanto na teoria de Bastiat (1864  [1849])  sobre  a  justiça  envolvida  na  igualdade  entre  serviços  prestados  quanto  na  teoria do valor trabalho empregada por Marx (1909 [1867]) para fundamentar sua teoria da exploração. A distinção presente em Platão entre os usos legítimo (troca de bens) e ilegítimo (geração de dinheiro pelo dinheiro) da moeda, por sua vez, ecoou tanto nos esquemas de circulação de mercadoria de Marx quanto na condenação medieval do empréstimo a juros como um ato pecaminoso.

Mas,  conforme  a  civilização  se  desenvolveu  e  o  papel  crucial  da  taxa  de  juros  para  a  coordenação  das  decisões  descentralizadas  de  poupança  e  investimento  se  tornou  mais  evidente, o antigo instinto moral que associa comércio com trapaça se tornou disfuncional. Afinal, o defensor da imoralidade da usura teria que conviver com a conclusão de que seguir sua moral implicaria na morte da maioria da população, pois esta só pode se manter graças a produtividade proporcionada pela complexidade crescente da estrutura do capital, coordenada no mercado de fundos emprestáveis através da taxa de juros, que se altera conforme mudam os fundamentos da demanda e oferta de fundos emprestáveis. A mesma coisa ocorre, de modo generalizado, quando consideramos a repulsa moral suscitada pelo lucro e a contrastamos com a função coordenadora exercida pela detecção de diferenças entre valor e custo de oportunidade dos recursos. Nenhuma forma mais concreta e visível de ação faria tanto pelo bem-estar da população menos favorecida do que a abstrata e desprezada arbitragem de uma diferença de preços de um bem em diferentes localidades, a despeito do escasso entendimento desse fato.

A  reação  moralista  ao  desenvolvimento  da  teoria  econômica  se  manifesta  de  forma  mais explícita na discussão de seus pressupostos comportamentais. Como ciência de meios, a economia apenas supõe que, devido a existência de recursos limitados, os agentes sempre se  deparam  com  necessidades  insatisfeitas,  ou  que  o  ser  humano  sempre  tem  objetivos  na  vida, sejam quais forem eles, ou tecnicamente, o axioma de não-saciedade: é sempre possível imaginar alguma alternativa preferível à situação presente. Entretanto, os detratores moralistas da teoria, originalmente conservadores e mais tarde socialistas, insistem no mito do Homo economicus, sugerindo defesa do egoísmo em Smith, apego materialista ao vil metal e adesão da chamada pig-philosogy à filosofia moral utilitarista, interpretada como defesa hedônica de prazeres imediatos.

Embora na metade do século XIX J. S. Mill tenha associado a dismal science ao impulso de obtenção de riqueza material, sem porém jamais negar a existência de outro tipo de atividade ou defender qualquer ideia parecida com a caricatura descrita acima, afinal os economistas lideraram praticamente sozinhos o combate a imoralismos como a escravidão ou exploração colonial, desde o final do mesmo século, a teoria econômica explicitamente reafirma que nada tem a dizer a respeito da natureza dos fins, nem supõe qualquer doutrina psicológica ou ética. Mas, mesmo se admitirmos a caricatura usual do utilitarismo, apenas alguns economistas, em especial na Inglaterra, foram influenciados por Bentham. De toda forma, a teoria trata da adequação de meios a fins, não do valor moral destes últimos.

Uma das consequências da evolução da teoria é tornar sem sentido a distinção usual entre  fins  econômicos  e  não  econômicos.  Como  a  economia  deixou  de  se  referir  a  objetos  particulares  para  tratar  da  escolha  quando  existe  escassez,  não  existem  fins  estritamente  econômicos,  mas  aspectos  econômicos  de  qualquer  fim,  caso  ocorra  escassez.  Atividades  artísticas  têm  aspecto  econômico,  se  o  músico  tiver  que  alocar  tempo  entre  o  estudo  de  escalas e peças musicais. O mesmo ocorre com atividades religiosas, se o monge tem que escolher  entre  rezar  ou  cuidar  das  hortaliças  do  monastério.  Nos  dois  exemplos,  existem  aspectos econômicos de atividades classificadas como não econômicas. Afastado os equívocos derivados da divisão errônea entre fins econômicos e não econômicos, o próprio isolamento do “liberalismo economicista” perde seu sentido.

A hipótese de auto-interesse na economia antiga, por sua vez, não deve ser interpretada como  uma  apologia  ao  egoísmo.  Buchanan  e  Brennan  (2000)  notam  que  na  economia  institucional de Smith (1980) buscam-se instituições compatíveis com a natureza humana, esta  nem  angelical,  nem  demoníaca.  Prosperidade  ou  pobreza  são  explicadas  em  termos  da atuação de um mesmo indivíduo imperfeito sob instituições que incentivam atividades produtivas ou predatórias. O referencial smithiano convida o leitor a um teste de robustez institucional, que indaga em que medida as normas de uma sociedade resistem a invasão de uma mutação, gerando um equilíbrio evolutivamente estável, se tomarmos emprestado o conceito da teoria dos jogos evolucionários. No caso, um lobo entre cordeiros prosperaria ou seria contido? Um arranjo institucional viável dependeria da inexistência de lobos? Para Smith, Say e Bastiat, instituições liberais aumentam o ganho esperadoda atividade produtiva, alterando em equilíbrio a proporção entre produção e predação.

O  terceiro  e  último  elemento  do  ataque  moralista  ao  modo  de  pensar  do  economista  que mencionaremos fornece um contraste nítido com o programa descrito acima: em vez de comparar arranjos institucionais rivais, encontramos a prática de identificação da realidade com o sistema ideal defendido pelos advogados de sistemas rivais. Se o mundo real – e os males que o acompanham – puderem ser identificados automaticamente com o sistema ideal proposto  pelo  oponente,  a  mera  denúncia  desses  males  dispensa  a  discussão  de  hipóteses  alternativas sobre quais seriam suas causas. Afinal, o mundo real perde para qualquer modelo idealizado. O valor retórico dessa estratégica é testemunhado pela grande quantidade de suas manifestações. A caracterização do laissez-faire como inação, a distinção esquerda-direita definida pela distância da opinião do analista, os conceitos de capitalismo, globalização e neoliberalismo são algumas variações desse tema. Se antes de Marx os economistas contrastavam liberalismo, intervencionismo e socialismo segundo diversos critérios, como o grau de descentralização ou de respeito à propriedade privada, a substituição desses tipos abstratos pela identificação da realidade com a noção de modo de produção capitalista impulsionou o declínio da abordagem comparativa. Usuários do termo globalização atribuem a pobreza dos países mais fechados ao comércio exterior e ao mal desempenho de estados mais interventores ao neoliberalismo.

Comparar  teórica,  histórica,  estatística  e  filosoficamente  o  desempenho  de  sistemas  institucionais rivais é a tarefa diária dos cientistas sociais, mas, sob o olhar daqueles para os quais basta se apiedar dos males do mundo, esse trabalho é confundido com indiferença. Exemplo dessa confusão entre ciência e sentimento é a frequente afirmação de que Hayek não  teria  nada  a  dizer  sobre  pobreza.  Contudo,  a  obra  de  Smith  poderia  ser  renomeada  “Investigação  sobre  a  Natureza  e  as  Causas  da  Pobreza  das  Nações”  praticamente  sem  alteração alguma em seu conteúdo. Identificar a sensibilidade diante da pobreza com posturas políticas baseadas em transferências diretas comandadas pelo estado bloqueia por definição a comparação institucional.

Um liberalismo que não ignora os resultados das ciências sociais deve, por fim, considerar outro fundamento central dessa doutrina, o falibilismo. Uma longa tradição de economistas, como Turgot, Smith, Dunoyer, Bastiat, Courcelle-Seneuil, J. S. Mill e Hayek, bem como filósofos ingleses, baseiam seu liberalismo na ideia de que o progresso na ciência, educação, debate político,  inovação  e  coordenação  das  atividades  requer  competição  entre  pontos  de  vista  rivais, devido ao caráter falível de qualquer opinião em particular. Hayek (1978,  p.  29), por exemplo, afirma que o argumento em favor da “liberdade individual repousa principalmente no reconhecimento da ignorância inevitável de todos nós a respeito de muitos dos fatores dos quais dependem as realizações de nossos fins e bem-estar.” Todo o seu programa de pesquisa é construído em torno do conceito de conhecimento limitado e falível (HAYEK, 1978).

Até  os  anos  trinta  do  século  vinte,  o  falibilismo  estava  no  centro  da  concepção  de  mundo do economista, que identificava na ausência de barreiras legais à entrada a essência da competição: se não podemos ter certeza sob qual é a melhor forma de prestar um serviço, devemos sempre permitir que outras pessoas discordem das práticas presentes e tentem algo diverso, potencialmente melhor.

No  século  vinte,  o  falibilismo  constitui  a  mensagem  central  da  filosofia  de  Popper,  segundo o qual a racionalidade não depende da capacidade de estabelecer resultados científicos definitivos, mas da disposição de aprender com os erros. Como na teoria econômica, a visão de Popper requer livre entrada no mercado das ideias, ou liberdade de pensamento, além da competição  fornecida  pela  crítica,  como  ingredientes  conjuntamente  necessários  para  um  ambiente institucional favorável ao progresso da ciência. Esse modelo comum, que envolve conjecturas e refutações, ou livre entrada empresarial e correção de erros pela obtenção de lucros  e  prejuízos,  foi  generalizado  como  um  modelo  evolucionário  de  aprendizado  por  tentativas e erros ou variação e seleção[1].

A expressão evolucionária desse modelo de aprendizado, no entanto, enfrenta resistência em diversas frentes, do conservadorismo ao socialismo. A história do liberalismo é de fato marcada por uma concepção falibilista ou evolucionária da racionalidade e enfrenta resistência de duas fontes, novamente identificadas por Hayek (1988): o instinto e a razão.

Tanto a moral tribal, que se rebela contra as normas impessoais próprias de uma ordem abstrata e que possibilitam o florescimento da humanidade por processos descentralizados de aprendizado, quanto uma concepção ingênua de racionalidade, que dispensa esses processos descentralizados em favor da crença de posse de conhecimento incontroverso, dão suporte a crenças políticas coletivistas.

Uma  história  do  liberalismo,  em  conclusão,  deveria  incluir  o  estudo  das  teorias  a  respeito do funcionamento dos mercados e governos e dos pressupostos sobre a evolução do conhecimento supostos por essas teorias. Boa parte das ideias encontradas nas duas obras que estamos prestes a examinar, por ignorarem as contribuições dos economistas ao liberalismo, não apenas deixam de discutir aspectos centrais dessa doutrina como também repetem várias das reações iliberais a ela que mencionamos nesta seção.


[1] Bartley e Radnitzsky (1987).

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