Sempre
que nós do IMB criticamos a existência do Banco Central e dizemos que tal
instituição não teria espaço em uma economia de mercado genuinamente livre
somos rotulados de utópicos e somos prontamente desafiados a explicitar como
ocorreria uma eventual transição — sem choques — do atual modelo para um
modelo sem Banco Central.
Já
temos um artigo
detalhando como poderia ser esse processo, mas esse não será esse o ponto do
presente texto. Sabemos que a abolição
simples e direta do Banco Central não é uma realidade factível e palatável.
Mas
isso não quer dizer que não podemos batalhar para tornar o sistema menos
pernicioso. Um desafio bem mais
interessante que me foi feito recentemente foi o de explicar como um economista
seguidor dos ensinamentos da Escola Austríaca poderia gerir o Banco Central sem
‘utopias’, de forma a viabilizar — e de maneira indolor — uma redução do
papel dessa instituição na economia.
Aceitei
o desafio.
Porém,
antes de apresentar a resposta, é necessário entender o que realmente faz o
Banco Central.
O problema
com o Banco Central
A
teoria econômica ensina que monopólios legalmente protegidos e que não precisam
prestar contas a ninguém serão sempre ineficientes. Sem estarem sujeitas
à concorrência, ao monitoramento e ao escrutínio do mercado, tais organizações
sempre tenderão a tomar decisões economicamente insensatas. Pior ainda:
serão capturadas por interesses especiais.
Para
o Banco Central, esse raciocínio não é nada diferente.
Toda
a perniciosidade de um Banco Central advém do fato de ele deter o monopólio da
criação de dinheiro. Mais ainda: advém do fato de todo este dinheiro que
ele pode criar irrestrita e monopolisticamente ser de curso forçado, o que
significa que todas as empresas e todos os indivíduos são obrigados a aceitá-lo
em toda e qualquer transação comercial.
Ainda
pior: é considerado um crime os agentes econômicos se recusarem a aceitar o
dinheiro do Banco Central como meio de pagamento, preferindo transacionar em
outra moeda.
Tudo
isso significa que, por maior que seja a manipulação da moeda, por maior que
seja sua inflação, por maior que seja a perda de seu poder de comprar, você,
como empreendedor ou como consumidor, simplesmente não pode legalmente utilizar
outra moeda para a consecução de suas atividades econômicas. Você é
obrigado a utilizar exclusivamente a moeda criada pelo Banco Central.
No
caso do Brasil, você pode utilizar apenas o real em todas as suas transações
econômicas. Você não tem a liberdade de firmar contratos em dólar, em
euro, em francos suíços, em ienes, em ouro ou em qualquer outra moeda de sua
preferência, pois o estado — que detém o monopólio da justiça — não garante o
cumprimento de contratos firmados em qualquer outra moeda que não seja o real.
Deste
monopólio monetário desfrutado pelo Banco Central surgem três consequências
nefastas: ciclos econômicos, endividamento e carestia, e agigantamento do
estado.
1) Ciclos econômicos
Ao
mesmo tempo em que afirma estar fomentando a concorrência bancária, o Banco
Central protege o sistema bancário formando um cartel bancário que impede que
os bancos concorram entre si e que permite que os bancos operem reservas
fracionárias sem riscos de insolvência. Para piorar o arranjo, o Banco Central garante
socorrer os bancos em épocas de turbulência.
Esse arranjo contraditório é fácil de entender.
Os bancos operam com reservas fracionárias, o que significa que eles emprestam
mais dinheiro do que o total que foi depositado neles. Falando mais
popularmente, os bancos têm o poder de criar dinheiro. Esse dinheiro que os
bancos criam do nada é um dinheiro eletrônico para o qual não há correspondente
em papel-moeda físico. Trata-se do dinheiro que você utiliza como pagamento
através de cheques ou cartão de débito, mas que não possui um correspondente
valor em dinheiro físico dentro dos cofres dos bancos.
Na ausência de um Banco Central, esse cenário de reservas fracionárias seria arriscado:
poderia ocorrer uma expansão descoordenada do crédito. Os bancos mais
expansionistas — aqueles que criam e emprestam mais dinheiro — correriam o
risco de perder reservas para os bancos menos expansionistas. Se o Itaú criar
mais dinheiro eletrônico que o Bradesco, esses dígitos eletrônicos do Itaú
inevitavelmente cairão na conta de um correntista do Bradesco. Ato contínuo, o
Bradesco exigirá, no fim do dia, que o Itaú faça a compensação desse crédito,
enviando-lhe a correspondente quantia em dinheiro físico (nesse caso, cédulas e
moedas metálicas), fazendo com que o Itaú perca reservas.
No extremo, caso o Itaú houvesse expandido o crédito e o Bradesco tivesse
adotado uma postura conservadora, o Itaú poderia ficar sem reservas, indo à
falência.
É nesse ponto que entra o Banco Central. Por meio de suas injeções de dinheiro no mercado
interbancário (explicadas em detalhes neste artigo), ele pode
“supervisionar e controlar” a expansão do crédito — ou, falando mais
diretamente, ele irá harmonizar essa expansão, estimulando os bancos a criarem
dinheiro concomitantemente e no mesmo ritmo.
Se todos os bancos expandirem o crédito na mesma velocidade, então não haverá o
risco de um banco ir à falência porque criou mais dinheiro que outro banco.
Quando os bancos expandem o crédito simultaneamente, a quantidade de dígitos
eletrônicos do banco A que vai parar na conta do banco B é praticamente a mesma
que vai de B para A, de modo que, no momento da compensação, se cancelam.
Tal arranjo permite que os bancos mantenham em suas reservas menos dinheiro do
que manteriam caso não houvesse um banco central. Em outras palavras, tal
arranjo aumenta a capacidade dos bancos de criar dinheiro do nada, aumentando
consequentemente seus lucros. E o melhor de tudo: lucros altos e sem risco de
insolvência.
É por isso que os bancos defendem a existência do Banco Central. É o Banco
Central quem forma e coordena esse cartel. Sem um Banco Central, não haveria
essa expansão coordenada do crédito, pois sempre haveria o risco de um banco
furar o acordo, sair do cartel, exigir a compensação dos dígitos eletrônicos e,
com isso, levar os concorrentes à falência. Para que haja coordenação, os bancos
precisam de um cartel. E para coordenar esse cartel, para disciplinar os bancos
“rebeldes”, é preciso um Banco Central.
Um Banco Central, portanto, permite que os bancos expandam o crédito sem o
risco de se tornarem insolventes, aumentando sobremaneira os lucros deste
setor. E com um benefício adicional: caso haja alguma corrida bancária, ou caso
algum banco se torne insolvente porque fez maus empréstimos, o Banco Central
sempre poderá criar dinheiro para socorrer este banco.
Essa
garantia de proteção estimula os bancos a expandirem ainda mais o crédito,
medida essa que gera os
ciclos econômicos, os quais destroem capital e riqueza da economia e fazem
com que, no longo prazo, a sociedade esteja menos rica do que poderia
ser.
2) Endividamento e carestia (e expansão do
setor financeiro)
Como
consequência tanto desta cartelização do setor bancário quanto da própria
criação de moeda feita pelo Banco Central, os bancos expandem o crédito de
maneira mais volumosa, menos criteriosa e mais insustentável do que fariam em
um cenário em que houvesse livre concorrência e genuínos riscos de insolvência
bancária.
Tal
expansão do crédito não apenas estimula um perigoso endividamento de
empresas e indivíduos, como também gera inflação de preços
Segundo
as estatísticas do IBGE (INPC), desde a implementação do real em julho de 1994,
a moeda já perdeu 79% do seu poder de compra. Se utilizarmos as
estatísticas da Fundação Getulio Vargas (IGP-M), a moeda já se desvalorizou 83%.
Aquilo que custava R$ 100 em julho de 1994 hoje custa R$
477 (INPC) ou R$ 593 (IGP-M). A redistribuição e a subsequente
concentração de renda que tal fenômeno produziu é incalculável.
Esse
fenômeno da desvalorização contínua da moeda gerou um agigantamento do setor
financeiro — pois as pessoas, afinal, têm de adotar alguma medida para
proteger o poder de compra da sua poupança –, criando justamente aquilo que os
críticos do capitalismo chamam de “financeirização” da economia,
arranjo em que os mercados financeiros adquirem importância central, deixando o
setor produtivo, que é quem genuinamente gera riqueza, em segundo plano.
3) Agigantamento do estado
Como
consequência de seu monopólio da moeda, o Banco Central se torna, de uma maneira
engenhosamente indireta, o principal financiador do estado, o que garante sua contínua
e irrefreável expansão.
Funciona
assim:
À
medida que os bancos — protegidos pelo Banco Central — expandem o crédito, a
quantidade de dinheiro na economia aumenta.
Consequentemente, as receitas tributárias do governo aumentam. O aumento das receitas tributárias permite que os gastos do governo também aumentem. À medida
que os gastos do governo aumentam, o tamanho do governo aumenta. À medida
que o tamanho do governo aumenta, o número de leis, regras e regulamentações
que ele cria também aumenta. À medida que o número de leis, regras e
regulamentações aumenta, o número de transgressões e violações involuntárias
também aumenta.
À
medida que o número de violações e transgressões aumenta, o número de cidadãos
“criminosos” também aumenta, o que gera a necessidade de mais agentes
estatais para regulamentar, fiscalizar, repreender e, em última instância,
encarcerar os “transgressores”. À medida que aumenta o número
de funcionários do governo, aumenta também o controle e a influência do governo
sobre todo o mercado.
Assim
como a inflação, o crescimento estatal alimentado pela inflação se torna um
ciclo perpétuo.
E tudo isso é estimulado pelo Banco Central.
O que fazer
Com
a difusão da internet há a esperança de que, cedo ou tarde, as pessoas finalmente
entenderão que é a inflação monetária — sob o exclusivo comando do Banco
Central — a genuína fonte que alimenta este ininterrupto crescimento do estado
que estamos vivenciando não apenas no Brasil, mas em todo o globo.
Entenderão
também que a atual carestia
é consequência direta desse arranjo bancário coordenado e protegido pelo Banco
Central.
Portanto,
colocando de maneira bem direta, um banco central nada mais é do que uma
agência de planejamento central; e, como tal, possui um desempenho tão bom
quanto qualquer outra agência de planejamento central já criada em vários
países ao longo da história.
O
que é possível de ser feito?
Atualmente,
o Banco Central executa — em regime monopolista — as seguintes tarefas:
a) É ele quem gerencia e coordena a transferência
de fundos entre bancos — as TEDs, os DOCs e todas as demais transferências
interbancárias (explicadas no início do artigo, no item “ciclos econômicos”):
b) É ele quem faz a supervisão dos
bancos;
c) É ele quem desempenha o papel de emprestador
de última instância, o que significa, na prática, a garantia de que ele irá
imprimir dinheiro para socorrer as grandes instituições financeiras em
dificuldades;
d) É ele quem estipula a meta para a taxa SELIC e, com isso, conduz
a política monetária;
e) É ele quem emite o papel-moeda
(na prática quem faz isso é a Casa da Moeda, mas apenas sob encomenda do Banco
Central). Adicionalmente, ele proíbe depósitos em moeda estrangeira;
f) É ele quem estipula quais bancos
podem atuar no mercado, e quais bancos estrangeiros podem ou não vir para o
Brasil.
Dado
que o objetivo é fazer com que o setor bancário — tanto os bancos comerciais
quanto o Banco Central — seja mais transparente e responsável, e opere sob vigorosa
concorrência, um eventual austríaco comandando o Banco Central poderá efetuar, com
distúrbios mínimos, as seguintes
alterações em cada uma destas atividades:
a) As transferências de fundos entre os
bancos passam a ser feitas por Câmaras de Compensação, as quais inclusive já
existem, como a CETIP e outras. O Banco Central já pode hoje se retirar dessa atividade sem nenhum prejuízo ao sistema.
b) Não há motivos para que a supervisão
dos bancos seja monopólio do Banco Central.
Entidades privadas, por meio da emissão de certificações privadas,
podem fazer isso. Desnecessário dizer
que tais empresas terão todo o interesse em fazer um serviço bem
feito, pois competem no mercado e dependem de sua reputação para
sobreviver. É bem provável que as
câmaras de compensação citadas em a) estejam envolvidas.
Além
dos selos privados, os bancos podem também optar por receber o “selo”
do Federal Reserve ou do Banco Central Europeu, por exemplo.
Quando
o mercado estiver praticando a contento selos mais rígidos que os atualmente
“emitidos” pelo Banco Central — extremamente deficientes, basta ver o
capital muito baixo dos bancos estatais e as seguidas fraudes ocorridas (Panamericano
e BVA,
para ficar nos mais recentes) –, o BC se retirará desta função.
Os
bancos estatais, que hoje
estão descontrolados e que são os principais responsáveis pelo atual surto de
carestia que nos acomete, seriam os primeiros a ser enquadrados por esta
medida. Com uma exigência mais rigorosa para o capital dessas instituições,
seus atuais empréstimos
insensatos seriam interrompidos.
c) Quanto à função de emprestador de
última instância, a abolição desta é a que tende a gerar mais incertezas. No entanto, uma eventual turbulência deverá ser
mitigada pelas próprias Câmaras de Compensação, através de esquemas de seguro
cruzado e mútuo, que é do interesse de seus membros
Isso
já ocorre hoje — mas em escala muito menor — com Fundo Garantidor de Crédito
(FGC). O FGC é um fundo privado formado
pelas contribuições dos bancos. Cada
banco deposita mensalmente no FGC 0,025% sobre todos os seus depósitos que são
garantidos por esse fundo. Atualmente, o
FGC garante perdas
de até R$ 250 mil, por pessoa, quando um banco quebra.
O
Banco Central pode anunciar antecipadamente uma data de saída, de modo que,
previamente, o mercado financeiro e as Câmaras de Compensação se preparem e coloquem
em prática o esquema.
d) Quanto à política monetária, enquanto
não for implantada a solução mais liberal do item e) abaixo, o objetivo deve
ser o de reduzir as intervenções do Banco Central no mercado interbancário
através da determinação de metas menos rígidas para a SELIC.
A
taxa SELIC nada mais é do que a taxa de juros que os bancos cobram entre si no
mercado interbancário para emprestar (ou tomar emprestado) dinheiro que possuem
em suas reservas. Os bancos recorrem a essas operações interbancárias
diariamente porque, ao final de cada dia, precisam manter um determinado volume
de dinheiro em suas reservas. (Esse volume de reservas é o equivalente a
uma determinada porcentagem do total de seus depósitos, e é determinado pelo
Banco Central; chama-se compulsório).
Quando
a chamada mesa de open market do Banco Central utiliza dinheiro eletrônico
criado do nada para comprar títulos
públicos que estão em posse do sistema bancário, as reservas bancárias
aumentam. Este aumento nas reservas bancárias tende a gerar uma
diminuição na taxa de juros que os bancos cobram entre si no mercado
interbancário. Ou seja, tende a gerar uma diminuição na SELIC.
Afinal, com mais dinheiro nas reservas, menos bancos se veem na necessidade de
pedir dinheiro emprestado no interbancário, e mais bancos se veem com reservas
acima do nível estipulado pelo Banco Central. Ato contínuo, os bancos
podem agora criar mais empréstimos para indivíduos e empresas. O inverso, menos usual, ocorre quando a mesa
de open market do Banco Central vende
títulos aos bancos, recebendo reservas bancárias.
Ao
estipular uma banda rígida para a meta da SELIC, o Banco Central se vê obrigado
a continuamente interferir no mercado interbancário — injetando e retirando dinheiro
nele — de modo a fazer com que a taxa de juros média neste mercado, a SELIC, se
mantenha muito próxima do valor estipulado pelo COPOM para a meta da SELIC.
O
objetivo será então o de flexibilizar esse spread
da SELIC (o valor em torno do qual está permitido que a SELIC flutue em torno
da meta estabelecida pelo COPOM). Hoje
este spread é de cerca de 0,1 ponto
percentual, ou 10 pontos-base, para cima ou para baixo (a atual meta da SELIC é
de 11,25%, e a SELIC efetiva está
em 11,15%). A ideia é que, gradualmente
ao longo de vários trimestres, se aumente este spread até uns 3 ou 4 pontos percentuais (300 ou 400
pontos-base). O resultado desta nova
política é de que as intervenções da mesa de open market do BC no mercado
interbancário se reduzirão substancialmente.
No sistema atual, há mudanças contínuas na quantidade de reservas bancárias no
sistema de forma a estabilizar (artificialmente) a SELIC. Com a flexibilização do spread da meta da SELIC, ocorrerá o contrário: a SELIC variará
continuamente, porém a quantidade de moeda estará estabilizada enquanto a SELIC
flutuar dentro da banda estabelecida. No
entanto, caso haja uma grande falta ou sobra de liquidez no sistema bancário
que leve a SELIC a atingir uma das bandas de sua meta, haverá intervenção pelo BC.
e) Os bancos privados passam a poder
emitir moeda própria e também se tornam livres para aceitar moeda estrangeira
como depósito de clientes. O Banco Central
continuará emitindo reais em competição com os bancos, mas o público poderá escolher
qual moeda irá utilizar.
Tanto
a circulação de moedas estrangeiras quanto a circulação de moedas privadas —
como ouro, prata, bitcoin, e demais moedas criadas pelos bancos — estão
liberadas. Os brasileiros podem
transacionar na moeda que quiserem, fugindo daquelas que estejam se
desvalorizando.
Os
bancos, por sua vez, também estarão livres para utilizar como reservas aqueles
ativos ou commodities que acharem melhor.
A ameaça de falta de liquidez ou de uma corrida aos bancos tenderá a
fazer com que mantenham um nível de reservas mais alto do que hoje para os
depósitos em conta-corrente, e um nível prudente de reservas para outros tipos
de depósitos. Bancos à beira da falência
não mais serão salvos pelo governo, à custa do contribuinte.
A
tal “política monetária”, que por definição vale somente para o que o Banco Central
faz, começa a perder importância gradualmente. Ao final do processo, a política
monetária como a conhecemos hoje deixa de existir.
f) Com o fim da restrição à vinda de
bancos estrangeiros e à criação de novos bancos, o sistema bancário, até então
totalmente concentrado, passa a sofrer a concorrência de outros bancos — novos
e estrangeiros. Qualquer empresa deve
ser autorizada a incorrer em atividades bancárias.
Conclusão
Com
essas seis medidas relativamente simples e perfeitamente viáveis, o Banco
Central perderia a importância no cenário econômico brasileiro, em benefício da
saúde do sistema e da economia
A
expansão dos poderes do estado e sua a máquina de criar dinheiro — isto é, o
Banco Central — sempre estiveram intimamente relacionadas. É em vão denunciar o agigantamento do estado
e suas distorções morais sem ao mesmo tempo atacar o indispensável mecanismo
que possibilita toda essa expansão.
Se
queremos nos opor a certos malefícios gerados pelo estado — sua gastança, seu
endividamento, sua crescente tirania, sua burocracia, suas regulamentações, sua
rede de proteção aos poderosos com boas conexões políticas, seus subsídios que
distorcem o livre mercado etc. –, é nosso dever conter os estragos gerados por
esta importante fonte que possibilita sua existência: o Banco Central.
Uma
vez entendida a perniciosidade do arranjo e a urgência de se alterá-lo, o poder
e a coerção estatal tendem a diminuir substancialmente.
Este
é um plano que um libertário apoiaria?
___________________________________________
Leandro Roque participou deste artigo.
Excelente artigo! A respeito do trecho que menciona o “agigantamento do setor financeiro, que deixa o setor produtivo em segundo plano”, é algo que tenho percebido de forma intuitiva crescer cada vez mais nos tempos recentes, e realmente me incomoda, enquanto defensor da liberdade e facilidade de se empreender. Temos algum artigo no site que trate especificamente deste fenômeno e as implicações disso para a sociedade e a economia?
Novamente, parabéns pelo artigo!
Perguntinhas:
1 – Levando em conta que o mundo inteiro da economia é doutrinado no Keynesianismo, estas medidas não poderiam gerar uma enorme confusão e colapso no sistema financeiro nacional?
2 – Além de um presidente do BC austríaco, esta implementação não exigiria também um ministro da Fazenda austríaco, bem como diretores do BC?
3 – Não seria necessário um amplo trabalho educacional acerca dos fundamentos da escola austríaca antes desta implantação?
Parabéns pelo artigo.
Uma dúvida que sempre tive, se eu tenho 300 mil na conta no banco A, 300 mil no banco B e 300 mil no banco C e os três bancos quebrarem mais ou menos juntos, o FGC me pagaria 750 mil ou 250 mil?
Prezado Hélio,
Compreendi sua posição com relação a permitir uma banda maior para a flutuação da Selic com vias a evitar que a mesa do Departamento de Mercados Abertos (DEMAB) do Bacen precise atuar constantemente. Todavia, acredito que essa intervenção diuturna não seja tão problemática, haja vista que ao realizar operações compromissadas o volume total de liquidez no sistema financeiro permanece virtualmente constante, em especial se usarmos médias móveis.
Acredito que o problema maior seja a monetização da dívida pública que precisa ser esterilizada pelo Bacen cada vez que ocorre uma política fiscal expansionista. Nesse caso, haverá uma nova injeção de dinheiro na economia, com possível efeito de aumento dos preços caso as instituições financeiras monetárias expandam seus empréstimos (o que pode ocorrer ou não, como já vimos em vários países, inclusive o Brasil, onde a liberação dos compulsórios não tem conseguido recentemente alavancar as carteiras privadas de crédito da forma como o Governo pretendia).
Assim, ao recomprar os títulos em poder dos bancos, previamente leiloados para sustentar os gastos públicos, ocorre inchaço do balanço do Banco Central e perda de poder de fogo da política monetária por conta de um fenômeno de dominância fiscal.
Esse raciocínio leva à conclusão de que, na melhor das hipóteses, mesmo um Banco Central bem intencionado e autônomo se vê privado de seus instrumentos clássicos de atuação caso os cavalos monetário e fiscal da biga governamental não caminhem juntos. Se puxarem cada um para lados diferentes, não há como domar a inflação.
Prezado Charles Miller,
O FGC garante R$250 mil por CPF por instituição financeira.
Logo, você receberia R$ 250 mil de cada banco, R$ 750 mil no total.
Abraços.
“desvalorização contínua da moeda gerou um agigantamento do setor financeiro … arranjo em que os mercados financeiros adquirem importância central, deixando o setor produtivo, que é quem genuinamente gera riqueza, em segundo plano”
Não entendi.
Um grande setor financeiro ao meu vê é bom, pois permitirá mais recursos para investir.
Um setor financeiro grande tem sempre como contrapartida um grande setor produtivo, o primeiro não sobrevive sem o segundo.
Para mim não tem como, a longo prazo, as pessoas resolverem investir apenas no setor financeiro e deixa de lado o setor produtivo, um está ligado ao outro.
”Sempre que alguém te disser que o Banco Central é o guardião da moeda, CUSPA na cara dessa pessoa” – ROQUE, Leandro
Foi a primeira frase que lembrei após ler este artigo e ficar claro o estrago que o BC produz no poder de compra das pessoas, e consequentemente no nosso padrão de vida.
Agora Leandro, a BMW e a Mercedes possuem um banco operando no Brasil. Pelo que eu li no artigo acerca do marco regulatório do BC, esses bancos atuam única e exclusivamente em operações dos clientes que estão comprando seus carros, né? É proibido que esses bancos concorram com Itaú, Bradesco, etc, porque o BC não permite?
Saudações, algo melhor do que escrever esse artigo, seria desenhá-lo.
Hahahaha, agora praticamente desenhando entendi completamente seus pontos Mr. President. Quando colocaste isso no Facebook de forma mais superficial, fiquei um tanto confuso.
Perfeito!
Ainda prefiro um currency board lastreado em ouro. Mas o sistema apresentado é interessante e praticamente impossível, em especial o item “e”. Os “movimentos sociais” impedem/impediriam qq coisa nesse sentido.
Obrigado.
O fim do curso forçado não geraria uma confusão a curto prazo? As pessoas poderiam ter que carregar várias moedas, ter que fazer mentalmente a correlação entre cada uma delas, se preocupar com fraudes de várias moedas, etc… Eu sei que no longo prazo apenas as melhores moedas serão selecionadas e haverá uma estabilidade, além da criação de mecanismos para facilitar as transações. Mas será que as consequências negativas do curto prazo não poderão gerar insatisfação popular e levar a uma perda no campo político, que impedirá a conclusão da medida? É uma mudança cultural muito grande.
Mais uma prova de que o PT é um partido de direita. Usam o banco central para socorrer os bancos privados em caso de falencia! Que lindo! Isso é a essência do capitalismo e do livre mercado (que tantos aqui defendem): um banco central beneficiando e salvando grandes banqueiros em vez de ser usado para beneficiar o povo, que seria o certo.
Pelo que entendi o Banco Central é o agente indireto (ou seria direto?) da desvalorização da moeda (“a moeda já se desvalorizou 83%”).
Pelo pouco conhecimento que tenho a moeda sempre perdeu valor, mesmo antes de existirem os BCs.
Não entendi esse teu argumento.
Caro Helio,
Quando podemos encaminhar este Projeto de Lei ao Congresso?
Eu assino embaixo.
Abs,
Fernando Ulrich
Leandro, Hélio ou alguma boa alma que conheça padrão-ouro em maiores detalhes: como se lida com o ouro e com a prata ao mesmo tempo em transações comerciais?
Eu entendo que pode ser uma moeda única cujo lastro está divido em ouro e prata ao mesmo tempo ou haveria duas moedas separadas, funcionando analogamente ao free banking.
No último caso, não haveria uma relação direta entre o preço do ouro e da prata, sendo assim, um variaria livremente em relação ao outro. Com isso, a moeda não se tornaria algo puramente especulativo ao invés de uma real reserva de valor? Ainda que houve crise em determinados tempos, a razão entre o valor da prata nas últimas quatro décadas variaram, entre a cotação mínima e máxima, 619% (goldprice.org/charts/history/gold_all_data_silver.png).
Bom artigo!
Excelente artigo.
Só não concordo com a criação de moedas.
Acho que permitir o uso de Real, Dollar, Euro e mais uma ou outra moeda tradicional já seria suficiente.
Acho, particularmente, que criar moeda traria mais confusão e dificuldade para a população.
Leandro,
Execelente artigo, no entanto esqueceu de falar que o BC aqui no Brasil é apenas um fantoche da CMN, então a primeira medida não seria abolir a CMN e transformar o BC de fato com independencia do governo e de interesses politicos ?
Outra pergunta, no caso de HK que não tem BC, quem que está dirigindo a vultosa expansão de crédito por lá desde 2010 ? seria indiretamente o FED ?
Meus caros:
Artigos como esses só fazem aumentar os adeptos dessa Escola.
Ontem, em conversa com um colega, ouvi dele que tem lido os artigos do IMB que lhe envio; que concorda com quase tudo, discorda de um e outro ponto, mas não via sugestões nem estratégias, apenas explicações. Bem, em cerca de 12 minutos (o tempo que durou a carona que lhe dei até sua casa) tentei expor-lhe alguma coisa, a partir da noção de que economia não é ciência exata (praxeologia). Porém, o percurso acabara (como provavelmente acabariam meus argumentos…).
Hoje me deparo com essa pérola! Já enviei o link para 9 pessoas (inclusive para minha mulher, Leandro, que dessa vez receberá endereço para leitura e rosas -amanhã).
Assim se fazem adptos.
Parabéns!
jcz
Gostaria de dar meus parabéns a toda a equipe que participou da elaboração desse texto.
Como o amigo Zanforlin comentou aqui hoje, artigos que mostram o passo-a-passo, o processo, a estratégia para mudarmos são jóias raras. Ajudam a explicar a leigos os motivos pelos quais precisamos das mudanças e quais ela são.
Continuem o bom trabalho.
Leandro, li o texto, é basicamente aquilo que o Helio levantou discussão há algum tempo…
Vocês estão propondo um semi-free banking (400 bp de flexibilidade na SELIC e bancos emitindo reais sujeitos à drenagem de reservas)…
Por que não expressamente congelar a base monetária (impedir o BACEN de criar reservas), eliminar totalmente a mesa de open market do BACEN, eliminar a meta SELIC, e trabalhar em prol de um sistema no qual ou o contrato é de depósito com 100% de reservas (subindo o compulsório dos depósitos à vista para 100%) ou é um contrato de empréstimo (zerando o compulsório dos demais depósitos e instituindo um mínimo de um dia para solicitação de resgates)?
só uma duvida: por que usar indices de inflação de preços pra calcular a desvalorização da moeda, e não a quantidade do aumento da oferta monetária no periodo?
a meu ver, a inflação medida desconsidera o aumento da produção como efeito deflacionário, desconsiderando assim, parte da real desvalorização da moeda.
já que não existiu aumento do lastro em contrapartida ao aumento da expansão da moeda (pelo obvio motivo desta não ter lastro), não seria mais correto usar a quantidade de aumento da oferta como base para o calculo, e não apenas os indices de inflação?
[]’s
Ney
Prezados,
aproveitando da temática “Banco Central” algum colega mais esclarecido no tema poderia auxiliar o leigo que vos pergunta? Seguem as dúvidas:
– se nosso BC fosse submetido ao modelo de currency board (tal como o Hong Kong Monetary Authority), iríamos sair de um sistema de reservas fracionárias (ao menos diretamente), não? Isso inibiria as decisões erradas que o BC exerce em nossa economia, correto?
– se nossas reservas internacionais, hoje compostas de títulos da dívida americana fosse paulatinamente convertida em ouro, poderíamos dormir mais tranquilos, não?
Obrigado!
Ed
Leandro,
Apenas discordo ao dizer que o debate foi desvirtuado, pois o que adiantaria ter um presidente do BC austriaco, com um BC sob dominio do governo com presidente da republica e ministros keynesianos e marxistas ?
So haveria duas opções, que toda a equipe fosse austriaca de presidente da republica a ministros ou que o BC fosse independente sem a CMN.
Até entendo os libertarios americanos mas o contexto não se encaixa aqui no Brasil, a não ser que vc queira que algum “movimento social” dê palpites na condução economica do pais. Como vc mesmo disse.
Sobre BC independente, não creio que o BOE seja tão ortodoxo como foi o DBB. Corrija-me se estiver errado.
Fiquei com uma dúvida: é o próprio governo, via BC, que cria inflação?
Felicitações pelo teor do artigo!
Como sempre discorrem com maestria diversos temas, mas nessa seara econômica/financeira vocês são hors concours.
Trocando em miúdos o Banco Central é o poste que miguela as ações do Tesouro [transformador] que miguela os gatos praticados pelos bancos. Em meio a tanta gambiarra, uma hora dá sobrecarga, entra em curto e em seguida apagão.
Enfatizo: “tente achar um banqueiro supostamente mais bonzinho da categoria e verá que ainda assim presta consultoria pro capeta”.
Olá a todos do Mises. Sou um frequentador assíduo do site e um entusiasta em economia austríaca. No momento estou em uma encruzilhada: decidir qual universidade cursar. Gostaria de saber se alguma faculdade, em especial federal, é menos intervencionista/desenvolvimentista no curso de economia. Já alguns artigos publicados aqui por um professor da UFRJ, o que me deu algumas esperanças quanto a essa universidade em particular.
Prezado Leandro,
É sempre possível construir um argumento ad-hoc que corrobore nossa hipótese, entretanto, instituições republicanas como bancos centrais terão de lidar com guerras, choques de commodities, mudanças de governantes, etc. Ademais, estes eventos não são pontuais, sendo, na verdade, quase cíclicos. Uma guerra, por exemplo, é financiada via gastos públicos, levando à inflação. Seguem os alguns períodos:
– 1775-1783, Guerra da Independência: inflação anualizada de 4,21.
– 1861-1865, Guerra Civil Americana: inflação anualizada de 16,61.
– 1914-1918, WW I: inflação anualizada de 11,65.
– 1939-1945: WW II: inflação anualizada de 4,41.
Em alguns destes períodos havia banco central, em outros não. A Guerra da Independência foi financiada pela França e Países Baixos e por impressão de dinheiro. A EA enfatiza demais o papel dos bancos centrais como emprestadores de última instância e provedores de liquidez para os títulos públicos (no que está correta), mas secunda a importância do governo como tomador de dívida (no que peca), pois esta não depende necessariamente do mercado monetário interno para se financiar.
No artigo que citei, publicado aqui no Mises (www.mises.org.br/Article.aspx?id=1707), o autor prefere dizer que a economia americana está errada, e não a teoria em que ele se baseia. Vejamos:
“Comecemos pelo fato de que o Federal Reserve começou a expandir acentuadamente a base monetária no final de 2008. Desde aquela data, que já está completando cinco anos, o Fed mais do que quadruplicou a base monetária. Isso nunca havia acontecido até então. No entanto, os preços praticamente não se mexeram desde 2008.
[…] No que tange à política monetária, os EUA estão vivendo em um mundo que está de cabeça para baixo.
[…]As trilionárias reservas em excesso mantidas pelos bancos distorceram e corromperam o sistema monetário a tal ponto que as relações de causa e efeito não mais são previsíveis.”
A EA advoga que a expansão da base monetária deveria levar à inflação, o que não ocorreu nos EUA, e não tem ocorrido de forma tão drástica quanto o Governo brasileiro gostaria, por um motivo: os bancos comerciais diminuíram sua expansão de crédito. Pode-se levar o cavalo até a beira do rio, mas não se pode obrigá-lo a beber água.
Acredito que a EA deu e continua a dar profundas contribuições à causa da liberdade. A Sociedade Mont Pelerin teve como membros Hayek e Friedman, que divergiam em questões econômicas, mas comungavam na filosofia política. Infelizmente, creio que a EA estará condenada a permanecer alijada do mainstream econômico se não se abrir ao fatos como se apresentam e permanecer culpando o mensageiro pelas notícias ruins, a saber, que o poder explanatório de sua teoria possui méritos, mas também possui falhas.
Em outubro de 2013, o Golf chegou ao Brasil importado da Alemanha, custando a partir de R$ 67.990. Hoje, 1 ano depois, o mesmo carro vem do México menos equipado e custa a partir de R$ 75.830,00, ou seja, aumento de 7,800 reais. Como foi possível um carro perder itens e mesmo assim ficar 8 mil reais mais caro em 1 ano mesmo não tendo mais que pagar os 35% de imposto de importação? Tem a impressão digital do BC na cena do crime?
Segue a notícia abaixo:
carros.ig.com.br/noticias/volkswagen+golf+mexicano+chega+mais+caro+e+sem+itens/8188.html
Excelente artigo. Só faltou incluir no plano a proibição ou definição de um teto para dar liquidez aos títulos publicos.
“Tem a impressão digital do BC na cena do crime?” hehehe! ‘Digital do BC’ e ‘cena do crime’ na mesma frase é pleonasmo
Tecnicamente é viável, o entrave são os grupos de interesse que não querem ter seu poder diminuído e a maioria acomodada com a situação e/ou que não conhece a alternativa.
* * *
Bom Dia.
Leandro, gostaria da sua opinião sobre as seguintes sugestões:
1) Fazer o BACEN para de atuar na SELIC, e passar a atuar no redesconto
2) Proibir as reservas fracionárias, mas abolir também o compulsório (para qualquer tipo de depósito sacável à vista). O dinheiro fica no banco, o BACEN passa a apenas auditar.
Quando pesquiso sobre teorias conspiratórias sempre vejo relações com o FED criado em 1913. Agora, ao entrar em contato com a EA fico satisfeito por haver uma teoria muito mais racional e viável, até porque os documentários não entram no aspecto científico-econômico dos Bancos Centrais. Sugiro que o IMB realizem documentários sobre os aspectos mais importantes da EA como este relacionado aos Bancos Centrais e Ciclos Econômicos e não se limitem apenas aos artigos.
Leandro, Hélio,
Penso que podíamos colocar mais duas medidas:
f- Definir a inflação com 1% a.a com margem de erro para +1%
g – Não considerar em situação nenhuma um plano de desvalorização do real.
Concordam?
A única coisa que o artigo não fala é que existe banco central em todo o mundo civilizado. Exceções são raras e em países minúsculos como Panamá.
EUA, país liberal, possui banco central independente, mas forte. A própria Áustria, casa da escola austríaca, possui banco central (Oesterreichische Nationalbank (OeNB) ). Praticamente toda a Europa funciona com Banco Central e por aí continua…
A Europa possui, inclusive, um sistema central de comunicação dos bancos centrais europeus. É o European System of Central Banks.
Eu acho “lindo” esses artigos que propõem soluções mágicas ou “ideais” mas que praticamente ninguém usa! rsrsrs
Deve haver um motivo para ninguém usar, não acha? rsrsr Os maiores economistas do mundo estão por trás da gestão desses países há décadas… Mas ninguém faz o que o artigo manda fazer… Pq será?
Alguém realmente acha que o Brasil tem musculatura econômica, democrática e institucional para enveredar em um caminho sem precedentes de alto risco social?
Não me parece fazer o menor sentido.