Voltar

A história não é uma ciência exata

Os historiadores da corte, que insistem em afirmar que possuem a única visão “correta” da história, gostam de alegar que a deles é a única versão verdadeira da história porque se baseia em fontes primárias. Mas eles não conseguem distinguir entre aquilo que as fontes primárias de fato dizem e a própria interpretação que eles fazem do significado que deve ser atribuído a essas fontes. Além disso, a seleção que fazem de quais fontes históricas devem receber importância primordial, e quais podem ser ignoradas com segurança, muitas vezes é escolhida de modo a se encaixar na teoria preferida desses próprios historiadores.

Ao tentar compreender a Guerra de Secessão entre os estados americanos, somos levados a entender que os escritos de John C. Calhoun, Alexander Stephens e Jefferson Davis são “tendenciosos”, e que a verdade deve ser encontrada nos discursos de Abraham Lincoln, que não seriam tendenciosos em absoluto. O único discurso de Alexander Stephens que devemos estudar é o chamado Cornerstone Speech (“Discurso da Pedra Angular”) — que recebe esse nome porque devemos nos concentrar no parágrafo em que ele chama a desigualdade racial de pedra angular da constituição confederada, e devemos ignorar tudo o mais que ele disse sobre a constituição confederada, porque isso “não é importante”. Tudo isso é apresentado como a “verdade”, com base em um estudo científico — ou ao menos semelhante ao científico — das evidências, realizado por especialistas treinados. A implicação é que você não deveria rejeitar a visão estabelecida da história mais do que rejeitaria o relatório de um engenheiro sobre a integridade estrutural de uma ponte.

Em seu livro Theory and History, Ludwig von Mises desmascarou impiedosamente o falso “cientificismo” adotado por tais historiadores, que retratam sua metodologia coletivista, em grande parte baseada no estudo de grupos e da atividade de grupos, como algo semelhante ao estudo da física ou da química. Por exemplo, o historiador Samuel H. Beer, em seu ensaioPolitical Science and History”, argumentou que as ciências sociais e o estudo da história podem produzir princípios universalmente verdadeiros, com base em descrições ao longo do tempo e do espaço. Ele chamou isso de “doutrina da universalidade”, sustentando que ela poderia ser usada para derivar teorias capazes de explicar “a natureza essencial da lei, da ciência e da explicação causal”.

Ele chegou até mesmo a dizer que estava “pronto para aceitar proposições com caráter de lei e explicativas, ainda que não se apliquem em todos os contextos”. Parte da razão pela qual cientistas sociais preferem uma abordagem coletivista ao estudo da história é que eles buscam, na medida do possível, imitar a metodologia das ciências naturais, quantificando e medindo a atividade de grupos, derivando teorias gerais que descreveriam e explicariam as ações de grupos específicos de pessoas e forneceriam uma base para fazer previsões sobre como as pessoas provavelmente agirão no futuro. As ações dos indivíduos são consideradas irrelevantes para esse “estudo de fenômenos de massa”. Como Mises explica:

“Embora o estudo das características individuais não tenha para eles nenhum interesse especial, eles esperam que o estudo do comportamento de agregados sociais revele informações de um caráter realmente científico. Para essas pessoas, o principal defeito dos métodos tradicionais de pesquisa histórica é que eles lidam com indivíduos. Eles valorizam a estatística precisamente porque, segundo acreditam, ela observa e registra o comportamento de grupos sociais”.

Mises argumentou que a metodologia das ciências naturais não pode ser aplicada de maneira apropriada à compreensão da ação humana, e que a história não pode ser plenamente entendida sem o estudo dos indivíduos. Em Ação Humana, ele explica que a metodologia do historiador possui dois componentes, sendo o primeiro baseado no exame de fontes primárias, como documentos históricos — tendo como objetivo determinar o que esses documentos dizem ou retratam. Nesse componente, qualquer historiador honesto pode ser tratado como confiável:

“Aqueles fatos que podem ser estabelecidos de modo incontestável com base no material de fontes disponível devem ser estabelecidos como o trabalho preliminar do historiador. Este não é um campo para compreensão. É uma tarefa a ser realizada pelo emprego das ferramentas fornecidas por todas as ciências não históricas. Os fenômenos são reunidos por meio de uma observação crítica e cautelosa dos registros disponíveis(…) Aquilo que um historiador afirma ou está correto ou está em desacordo com os fatos; ou é comprovado ou é refutado pelos documentos disponíveis; ou é vago, porque as fontes não nos fornecem informações suficientes. Os especialistas podem discordar, mas apenas com base em uma interpretação razoável das evidências disponíveis”.

Nesse ponto, a palavra dos historiadores da corte não é nem mais nem menos confiável do que a de qualquer outra pessoa que examine os mesmos documentos munida de nada além da capacidade de ler e de uma compreensão básica de leitura. O bom e velho senso comum. Os problemas surgem em relação ao segundo componente, que envolve a “aplicação das ciências não históricas ao objeto de estudo da história”. Aqui, os historiadores debaterão “os efeitos e a intensidade dos efeitos provocados por uma ação… a relevância de cada motivo e de cada ação”. Eles não estão discordando sobre as evidências, mas sobre o significado ou as implicações dessas evidências e sobre como elas devem ser empregadas em uma “teoria” explicativa sobre a história. As teorias que eles extraem da história, as narrativas que constroem e as histórias que contam não são nem universais nem científicas. Elas não podem ser “testadas” como teorias no campo da física ou da química, porque “necessariamente entra na compreensão um elemento de subjetividade. A compreensão do historiador está sempre tingida pelas marcas de sua personalidade. Ela reflete a mente de seu autor”.

Nesse nível, os historiadores não estão disputando a veracidade dos fatos, mas a importância ou relevância a ser atribuída aos fatos selecionados, ou os julgamentos de valor que influenciaram sua decisão de destacar certos fatos e deixar outros de lado. Por isso, Mises argumenta que “a compreensão histórica jamais pode produzir resultados que todos os homens sejam obrigados a aceitar”. Em contraste, os princípios científicos nas ciências naturais são, em geral, universalmente verdadeiros. Quando descrevemos a gravidade como científica, não queremos dizer simplesmente que a maioria dos cientistas “concorda” com ela, nem queremos dizer que seja uma questão de opinião considerar a gravidade significativa ou não.

Ao defender seu argumento de que a história pode produzir princípios universais, Beer deu como exemplo a afirmação “todas as maçãs na cesta b no tempo t são vermelhas” como um dos sentidos em que podemos descrever uma afirmação como universal — ele via isso como “logicamente universal” porque ela não se aplica apenas a uma maçã na cesta, ou a algumas poucas maçãs na cesta, mas sim a todas as maçãs na cesta. Mas, como o próprio Beer observa em seguida, isso evidentemente não é o que se quer dizer quando se afirma que princípios científicos são universais. Como Mises explica, o princípio de que “o homem age” é científico e universal porque ser humano implica agir. Isso não significa meramente que “todos os homens em um lugar específico p no tempo t agem”. Um historiador que se propõe a descrever todas as maçãs em uma cesta, ou mesmo todas as maçãs em vários conjuntos de cestas ao longo do tempo e do espaço, não está envolvido em um empreendimento científico, mas apenas reunindo evidências. A evidência não é transformada em um princípio científico universal simplesmente porque, por acaso, ela se aplica a todos os grupos estudados por aquele historiador. Beer argumentou que essa fraqueza — a limitação ao tempo e lugar particulares das evidências efetivamente estudadas — poderia ser corrigida garantindo que a afirmação refletisse aquilo que ele chama de “universalidade nomológica”:

“(…)para ser uma lei, uma afirmação deve não apenas ser universal na forma lógica, mas também livre de tal referência local. Ou, para colocar a questão de forma mais positiva, diz-se que todos os predicados devem ser ‘puramente qualitativos'”.

Assim, ele considera a história uma “ciência”, ou pelo menos algo semelhante a uma ciência, quando, para usar seu exemplo, examina maçãs em cestas em múltiplos momentos e lugares, a fim de derivar princípios que sejam geralmente verdadeiros sobre maçãs. Assim, por exemplo, se derivássemos uma afirmação como “existem maçãs vermelhas em diferentes continentes ao redor do globo, e tais maçãs são encontradas subsistindo ao longo de vários séculos diferentes”, isso seria “qualitativo” — ela descreve maçãs sem limitar a observação a um tempo e lugar específicos e “poderia ser corroborada em uma variedade muito ampla de contextos espaço-temporais”. É certamente verdade que a maçã vermelha é onipresente. Mas isso ainda é um ponto descritivo a respeito das evidências disponíveis. O fato de que maçãs vermelhas são onipresentes é uma informação interessante e algo potencialmente reconfortante de se saber — se você fizer uma viagem ao redor do mundo, pode esperar razoavelmente conseguir encontrar maçãs onde quer que esteja —, mas isso não a torna um princípio científico comparável às leis do movimento de Newton.

Os historiadores certamente podem lançar luz sobre a natureza humana ao descrever eventos que se aplicam, de modo geral, a grupos de pessoas, ou a fenômenos de massa, ao longo do tempo e do espaço, aquilo que Beer chamou de “o historiador analítico e generalizador”, mas isso não significa que as conclusões históricas derivadas dessa maneira sejam cientificamente e objetivamente verdadeiras. As evidências ainda precisam ser colocadas no contexto de outros fatores explicativos. Observar a ação humana no nível dos grupos obscurece uma ampla gama de atividades humanas que não se encaixam no traço de grupo que está sendo observado. Como argumentou o distinto historiador Clyde Wilson, “a história não é um cálculo matemático nem um experimento científico, mas um vasto drama do qual sempre há mais a aprender”.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

Recomendações de leitura:

A ascensão da “história pela teoria”

As areias movediças na interpretação constitucional

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima