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Trump, Fed e o mito da independência do Banco Central

O New York Times informou antes de ontem que o escritório do procurador federal no Distrito de Columbia abriu uma investigação criminal contra o presidente do Banco Central Americano (Federal Reserve), Jerome Powell. Em tese (e oficialmente), a investigação diz respeito à reforma da sede do Federal Reserve em Washington e a se Powell mentiu ou não ao Congresso sobre a dimensão do projeto. No mundo da política, porém, os motivos declarados raramente correspondem aos motivos reais.

Corrupção e má gestão são sempre toleradas em Washington, desde que os culpados tenham amigos dentro da administração. Powell foi nomeado por Trump no fim de 2017, mas desde então perdeu o favoritismo do presidente. Se as declarações públicas de Trump oferecem uma visão precisa do motivo disso, é que Powell não tem sido inflacionista o bastante para Trump. De fato, essa é a razão real mais provável para a investigação do governo contra Powell.

Afinal, desde antes mesmo de tomar posse para o mandato atual, Trump tem, repetida e agressivamente, exigido que Powell e o Fed reduzam as taxas de juros. Embora o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) do Fed tenha reduzido repetidas vezes a taxa de juros-alvo desde que Trump foi eleito em novembro de 2024, isso aparentemente não tem sido suficiente para Trump, que exigiu que o Fed cortasse ainda mais a taxa-alvo de política monetária.

Embora se diga que a investigação atual tenha como objeto os gastos da reforma no prédio do Fed, ela convenientemente fornece pressão política adicional sobre Powell e o banco central, e pode ajudar a produzir uma política monetária ainda mais frouxa — mais alinhada ao apreço de Trump pela inflação monetária.

O Fed inflacionário não é inflacionário o suficiente para Trump

Ao contrário do mito promovido pelo Fed e por seus apoiadores, o banco central não garante “estabilidade de preços”, nem é um baluarte de qualquer tipo contra a inflação monetária e a inflação de preços. Pelo contrário: bancos centrais trabalham para aumentar a inflação por objetivos políticos.

O Federal Reserve não opera de forma diferente e, depois de um período relativamente curto de contração monetária para conter as taxas mais altas de inflação vistas em 40 anos, o Fed retomou a posição de expansionismo monetário ao final de 2024. Naquele momento, o Fed passou novamente a abraçar a inflação monetária para ajudar a empurrar as taxas de juros para baixo.

Mais especificamente, o ciclo atual de cortes de juros do Fed começou em setembro de 2024. Embora alguém possa alegar que isso teve como objetivo estimular a economia sob Biden, também é verdade que o FOMC e Powell continuaram a reduzir a taxa-alvo depois que Trump foi eleito. O FOMC cortou a taxa-alvo em novembro (após a eleição) e novamente em dezembro. Em seguida, o Fed cortou a taxa-alvo em setembro de 2025 e novamente em novembro de 2025. No total, o FOMC reduziu a taxa-alvo em 125 pontos-base desde a eleição de Trump.

Série histórica da taxa de juros alvo dos Estados Unidos desde 1992 |  Imagem retirada do artigo original.

Consequentemente, a taxa-alvo de política monetária voltou a cair para o nível mais baixo desde outubro de 2022. Este não é um Fed que esteja redobrando a aposta em juros altos.

A postura frouxa do Fed a favor do expansionismo monetário pode ser vista na continuidade da inflação de preços. A taxa de inflação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) núcleo em novembro de 2025 foi de 2,6%, bem acima da meta de inflação de 2% do Fed. Além disso, a medida mais recente do PCE (sigla em inglês para o índice que mede as despesas de consumo pessoal, considerando a substituição por bens mais baratos que os consumidores fazem), de setembro de 2025, foi de 2,8%, e a estimativa em tempo real do Fed de Cleveland para dezembro de 2025 é de 2,6%. O fato de o Fed continuar cortando sua taxa de política monetária enquanto a inflação de preços permanece acima da meta mostra que ele está optando por favorecer uma expansão monetária ainda maior.

Dadas as realidades atuais da inflação de preços, as taxas de juros estão baixas demais, e não altas demais. Isso é verdadeiro até mesmo pela lógica convencional. (A visão mais correta é que a “meta” de inflação de preços não deveria ser de 2%, mas sim de zero — ou até mesmo abaixo de zero — graças ao progresso tecnológico e aos ganhos de produtividade).

Note também que o Fed tem continuado a monetizar a dívida por meio de suas compras contínuas de títulos do Tesouro americano. Isso adiciona ainda mais afrouxamento monetário às operações de mercado aberto usadas para manipular as taxas de juros para baixo. Em outras palavras, há muita inflação monetária alimentada pelo Fed em curso.

Ainda assim, o governo gostaria que acreditássemos que o banco central está cheio de homens intransigentes defensores da “moeda forte”, que estão mantendo as taxas de juros desnecessariamente altas para fazer a economia sob Trump parecer ruim. Não há nada de “defesa de uma moeda forte” no Fed; mas nem mesmo a contínua adoção, pelo Fed, de taxas de juros artificialmente baixas é suficiente para a Casa Branca. Trump quer taxas de juros ainda mais baixas e ainda mais afrouxamento quantitativo.

Então, sejamos claros: o conflito aqui não é entre um lado que quer uma “moeda sólida” e outro lado que quer inflação. Ambos os lados promovem continuamente mais inflação, embora um lado (a Casa Branca), no momento, pareça querer ainda mais inflação do que o outro lado (o Fed).

O mito da independência do Fed

A investigação de Powell feita pela Casa Branca levou o Fed e seus apoiadores a invocarem o velho mito da independência do Fed em relação aos formuladores de políticas do governo federal. Esse velho engodo se baseia na ideia de que o banco central é uma instituição não política que toma suas decisões com base na análise econômica mais objetiva, livre de interferência política.Por exemplo, após descobrir sobre a investigação feita pela administração de Trump, o Federal Reserve publicou um vídeo resposta curto de Powell declarando:

“A ameaça de acusações criminais é uma consequência de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base na nossa melhor avaliação do que servirá ao público, em vez de seguir as preferências do presidente. (…) Isso é sobre saber se o Fed poderá continuar definindo as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas — ou se, em vez disso, a política monetária será conduzida por pressão política ou intimidação”.

Agora, Powell quase certamente está certo ao afirmar que a real motivação por trás da investigação é um esforço para pressionar o Fed a reduzir as taxas de juros e promover ainda mais inflação monetária.

Outras partes da declaração são, francamente, absurdas. Por exemplo, Powell tenta traçar um contraste entre o Fed e o governo ao afirmar que o Fed define as taxas de juros “com base em evidências e nas condições econômicas” e a partir de uma avaliação “do que servirá ao público”.

O Fed é muitas coisas, mas ser um servidor do homem comum ou “do público” não é uma delas. Bancos centrais existem para manter baixos os custos de endividamento dos governos e para aumentar a arrecadação estatal extraindo mais riqueza da população na forma do imposto inflacionário. A ideia de que banqueiros centrais se debruçam sobre relatórios econômicos para determinar, de maneira imparcial, a “melhor” política para “o público” é pura propaganda.

Historicamente, a ideia de que o Fed é uma instituição apolítica e orientada por dados já foi desmentida tantas vezes que é difícil até contar. Ao longo do último século, existem inúmeros casos em que o Fed trabalhou explicitamente para facilitar os gastos de guerra e os gastos do estado de bem-estar social, monetizando a dívida federal. Mais recentemente, após a Grande Recessão, o Fed comprou trilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas para resgatar banqueiros bilionários. Hoje, o Fed detém trilhões em títulos do governo para ajudar políticos a realizarem ainda mais gastos deficitários, mesmo quando a dívida nacional total se aproxima de US$ 40 trilhões.

Nem mesmo em teoria o Fed é independente, dado que o seu estatuto de criação deixa claro que o Fed responde ao Congresso. Até onde sei, poucas instituições criadas e supervisionadas pelo Congresso são apolíticas.

Além disso, mesmo que fosse verdade que o Fed é orientado por dados, é evidente que ele não é muito bom em seguir esses dados. Tome, por exemplo, a decisão do Fed de reduzir a taxa de juros-alvo em setembro de 2024, bem antes da eleição. Na época, o Fed afirmou que a decisão era justificada “pelos dados”, que mostravam a taxa de inflação do CPI retornando rapidamente à meta de 2%. Agora, mais de quinze meses depois, a previsão “orientada por dados” do Fed ainda não se concretizou. A taxa de inflação medida pelo PCE (assim como a taxa de inflação do CPI) está mais alta agora do que estava no fim de 2024.

Adicionalmente, os últimos meses deixaram muito claro que o Fed está simplesmente improvisando quando o assunto é dados. Isso pode ser visto no fato de que o FOMC estava conduzindo a política monetária ao mesmo tempo em que os dados federais de inflação e de emprego estavam incompletos, atrasados ou simplesmente inexistentes durante a paralisação do governo federal no outono de 2025. Mesmo “voando às cegas” nesse período, o FOMC ainda assim se reuniu e decidiu reduzir ainda mais a taxa-alvo. Como o Fed poderia tomar essas decisões sem os próprios dados que afirma orientar sua política? A resposta é simples: foram decisões políticas.

Portanto, o que temos nesse conflito entre Trump e Powell é pouco mais do que duas facções dentro do governo federal disputando como, exatamente, usar os muitos poderes do Fed para inflar a moeda, explorar e ajudar a financiar um governo federal em constante expansão. Nenhum dos lados tem qualquer interesse em moeda sólida, em uma política econômica honesta ou em limites ao poder federal. Além disso, com Trump, nunca se pode descartar a possibilidade de que toda a briga decorra de algum problema pessoal percebido por Trump, como se Powell tivesse lhe feito alguma afronta. Tudo é possível — exceto, é claro, uma verdadeira “independência orientada por dados” do Fed. Isso nunca existiu e nunca existirá.

Este artigo foi publicado originalmente no Mises Institute.

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3 comentários em “Trump, Fed e o mito da independência do Banco Central”

  1. EU SEMPRE FALEI QUE TRUMP VAI FAZER JUROS NEGATIVOS NOS EUA.

    Ele está cada dia mais fazendo pressão para assumir o FED e colocar a taxa de juros 1% ou menos como ele quer.

    https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/trump-diz-que-federal-reserve-deveria-reduzir-juros-para-menos-de-1/

    Alem disso o Trump quer limitar os juros do cartão de crédito nos EUA a 10%, uma medida que pode custar US$ 100 bilhões anuais ao sistema financeiro.Isso é um mega controle de preços que vai destruir a economia americana de vez.

  2. Agora ficou claro para os autores do mises que Trump é um inflacionista kkkkkkkkkk

    Nada do que ele está fazendo agora é novidade,tudo já estava claro desde do seu primeiro mandato.

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