Nota do editor:
Há 40 anos, no dia 26 de abril de 1986, explodia o reator 4 da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia soviética. O acidente foi resultado de uma série de falhas e minou de maneira decisiva o mito da superior ciência da União Soviética. Apesar da tentativa de esconder o acidente da própria população e do mundo, seus efeitos chegaram a outros países da Europa.
A cidade de Chernobyl foi rapidamente evacuada e o que restou ficou parado no tempo. Hoje, visitas guiadas e com tempo controlado (dado o enorme nível de radiação) transportam turistas no tempo e permitem um olhar para a sociedade soviética da época.
O artigo a seguir conta a história do ponto de vista de um tchecoslovaco que cresceu sobre a mentira soviética e viu o sonho comunista explodir após o acidente provocado pela corrupção e má gestão dos camaradas do Leste.
Os soviéticos mentiram ao público por semanas depois que o Reator 4 explodiu
Crescer na República Socialista da Tchecoslováquia não foi exatamente sem emoção. Claro, não tínhamos desenhos animados, armas de brinquedo ou bonecas, mas tínhamos a oportunidade de marchar pelas florestas locais algumas vezes por ano usando máscara de gás e aprendendo a sobreviver a um ataque surpresa dos malvados capitalistas do Ocidente. Os professores não explicavam como uma máscara de gás iria nos proteger de uma nuvem em forma de cogumelo, mas, como diz o ditado, o que vale é a intenção. Também aprendíamos a lançar granadas de mão — quer dizer, maçãs. É tudo muito simples: você dá uma mordida na maçã, conta até cinco, joga a maçã e voilà… dois segundos depois você tem um capitalista morto. Esses tipos de lembrança são difíceis de encontrar hoje em dia.
Por isso, foi uma certa surpresa quando a nuvem de radioatividade finalmente chegou — e veio de nossos eternos e fraternos camaradas do Leste. Veja bem: os soviéticos, incompetentes e imorais, conseguiram explodir um de seus reatores nucleares e depois não contaram a ninguém.
Hoje, as falhas de projeto dos reatores nucleares soviéticos são bem conhecidas, mas, nos anos 1980, os soviéticos ainda insistiam que a tecnologia nuclear socialista era incomparável. Também era pouco reconhecida a ética de trabalho deplorável no bloco socialista e o completo desprezo por normas básicas de saúde, segurança e meio ambiente que caracterizava a maioria das empresas estatais. O que nunca esteve em dúvida, porém, era o poder da propaganda socialista.
Assim, quando uma verdadeira comédia de erros — ordens conflitantes, falta de coordenação e comunicação, timing ruim etc. — resultou na trágica explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, os soviéticos negaram que houvesse qualquer problema.
A explosão do reator 4 ocorreu em 26 de abril de 1986. A mídia soviética reconheceu brevemente “um acidente” em Chernobyl no dia 29 de abril, mas disse pouco além disso. No dia 30 de abril, os meios de comunicação soviéticos cobriam os preparativos para as celebrações do Dia do Trabalho e relataram, falsamente, que os Estados Unidos haviam sofrido 2.300 acidentes nucleares só em 1979. No 1º de maio, o desfile do Dia do Trabalho, celebrando o trabalhador socialista, aconteceu em toda a União Soviética — inclusive na Ucrânia, onde o trabalhador socialista estava sendo lentamente envenenado pela radiação.
Nada deveria ser feito que perturbasse a aparência de normalidade. E se algumas pessoas morressem… bem, como diz Reg, o líder da Frente Popular da Judeia em Monty Python: A Vida de Brian, ao seu pequeno grupo de assassinos ao enviá-los para a morte enquanto ele próprio fica para trás por causa de “um problema nas costas”: “Solidariedade, irmão”.
De fato, como Robert McConnell escreveu na National Review anos atrás: “Foi apenas em 6 de maio que anúncios começaram a ser transmitidos na rádio e na televisão locais de Kiev alertando a população para fechar as janelas, lavar e descascar vegetais e manter as crianças dentro de casa”.
E assim, numa noite de maio, minha mãe me colocou sentado numa cadeira na cozinha e disse que, sob nenhuma circunstância, eu deveria beber o leite que a escola fornecia a todas as crianças na hora do almoço. (Sim, éramos todos muito progressistas naquela época. As lojas estavam vazias e as prisões cheias de dissidentes políticos, mas o leite era “de graça”.)
Um amigo dos meus pais, que trabalhava em um dos abrigos contra precipitação radioativa espalhados pela minha cidade, percebeu que os contadores Geiger do abrigo estavam enlouquecendo e telefonou para todos os seus amigos dizendo que algo estranho estava, por assim dizer, no ar. Minha mãe supôs que a radioatividade seguiria pela cadeia alimentar até chegar ao leite. (Muito provavelmente ela estava enganada, pois não havia passado tempo suficiente entre a explosão de Chernobyl e a chegada de leite contaminado à cantina da escola.)
De todo modo, no dia seguinte me recusei a beber meu copo de leite. Uma professora atenta, uma boa e firme camarada, perguntou qual era o problema. Eu disse que minha mãe tinha mandado não beber leite. Então ela me segurou pelos ombros, colocou um copo de leite na minha mão e observou enquanto meu pequeno ato de desafio descia pela minha garganta apavorada.
No curto prazo, a solidariedade do bloco socialista foi preservada. No médio prazo, porém, a explosão em Chernobyl minou fatalmente a reputação soviética de excelência científica e deu origem a um movimento de consciência ambiental na Europa Oriental, que logo se tornou uma espécie de guarda-chuva para a maioria das forças anticomunistas da região. Alguns anos depois, esse movimento desempenharia um papel crucial na Revolução de Veludo, que relegou o comunismo ao lixo da história.
Este artigo foi originalmente publicado na Foundation for Economic Education.

