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Uma lição austríaca para o dia dos namorados

Sendo
eu um cara solteiro, de 21 anos, sempre tive dificuldades em conseguir garotas
simplesmente conversando com elas sobre economia.  Talvez tenha sido uma overdose de gráficos de
oferta e demanda na faculdade, mas o fato é que qualquer menção da palavra
‘economia’ deixa-me com os olhos vidrados e ansioso para conversar ao telefone
sobre o assunto.  Mas o telefone nunca
toca.  E isso é triste.

Todo
mundo utiliza a ciência econômica em suas rotinas diárias, a todo o momento, e
não apenas quando entra em uma loja e faz uma compra qualquer.  A maneira como entendemos a economia
influencia cada aspecto de nossas vidas, percebamos ou não.  O Dia dos Namorados fornece-me uma desculpa
perfeita para demonstrar essa verdade no que diz respeito a romances.

Quando
me pedem para definir o que é a ciência econômica, eu digo que se trata da
aplicação da filosofia à área dos recursos finitos.  Um recurso que é, ao mesmo tempo, finito e
comum a todas as pessoas é o tempo.  Qualquer
ação que empreendemos é igual a um investimento pessoal no capital
‘tempo’.  Os momentos econômicos difíceis
— as épocas de recessão — são frequentemente negligenciados pelas outras
escolas de pensamento econômico, porém sempre foi um ponto bastante enfatizado
pelos economistas seguidores da Escola Austríaca.  Não é surpresa, portanto, que a ‘economia do
romance’ recorre à escola austríaca para interpretar sua realidade.  Com efeito, um “ciclo romântico austríaco”
seria bastante similar a um ciclo econômico austríaco.

Todo
romance começa com uma primeira ação, uma primeira atitude.  Assim como os austríacos entendem que é a
função do empreendedor arcar com os riscos de investir capital com o objetivo
de obter um lucro potencial, podemos entender que é o papel de um instigador
correr riscos na esperança de obter êxito em sua investida romântica.  Sem um empreendedor, o crescimento econômico
é insustentável; sem que a alguém tome a primeira atitude, o crescimento
romântico é inalcançável.

Assim,
pensemos em um cara, Ricardo, que vai a uma festa em busca da garota dos seus
sonhos.  Ricardo encontra uma garota,
Betina, e começa uma conversação.  Caso
ambos já se conheçam há mais tempo, isto é, caso Ricardo já tenha investido
muito tempo em Betina, de modo que ela já esteja interessada nele — o que
significa que Ricardo é como um investidor que já tem em mãos o dinheiro
necessário para começar um empreendimento –, então Ricardo não precisará de
nenhum crédito para fechar o negócio. 

Porém, e se Ricardo ainda não conhecer Betina?  Como um investidor que apresenta seu plano
empreendedorial para conseguir um empréstimo bancário, Ricardo terá agora de
convencer Betina de que ele vale o risco trazido por todas as coisas que
envolvem o coração.

Caso
Ricardo se comporte de acordo como a filosofia do liberalismo, caso ele se
apresente honestamente e permita que seu sucesso ou fracasso com Betina venha
naturalmente, então, independentemente de ele conseguir ou não se dar com ela,
o fato é que sua vida romântica será (relativamente) sem dramas; e quando ele
de fato encontrar uma garota interessada nele, o interesse será genuíno.

Porém, suponha que
Ricardo está frustrado em decorrência de vários fracassos românticos.  Cansado de sua falta de sucessos, Ricardo
resolve adotar uma tática artificial: começa a contar mentiras descaradas para
impressionar as moças.  Para todas as
garotas que ele conhece, ele diz que já salvou órfãos contra violentos canibais
na ilha de Rojinda, que já escalou o Monte Evereste e que até já debateu — e
venceu — Ron Paul dentro do Congresso. 
Ou seja, Ricardo decidiu manipular sua “taxa de juros”, reduzindo-a
artificialmente para estimular seus investimentos.

Repentinamente,
Ricardo passa a ser o centro das atenções. 
Betina e Juliana começam a brigar por ele; até mesmo Evelyn resolve
entrar na disputa quando ouve que Ricardo cresceu ao lado de Justin Bieber.  Assim, Ricardo subitamente se vê em um boom
romântico.  Enquanto ele conseguir
manipular mentiras convincentes, e enquanto as pessoas seguirem acreditando
nele, seu sucesso romântico irá continuar.

Em
algum momento, entretanto, as mentiras de Ricardo virão à tona.  Justin Bieber não aceita seu pedido de
amizade no Facebook.  Ninguém consegue
encontrar no youtube o clipe de Ricardo debatendo Ron Paul.  A Wikipédia mostra que não existe uma ilha
chamada Rojinda.  O irmão de Juliana
estava em um acampamento junto com Ricardo na mesma época em que ele dizia
estar escalando o Monte Evereste.  A
bolha de Ricardo estourou.

Betina,
enraivecida, dá uns bofetes em Ricardo.  Juliana
espalha a verdade para todas as meninas da escola, arruinando as chances de
Ricardo com todas elas.  Talvez o pior de
tudo seja o fato de que Evelyn, por quem Ricardo nutria sentimentos genuínos, e
com quem ele realmente tinha muito em comum, jurou nunca mais conversar com ele
novamente.  Todos os ganhos de curto
prazo que Ricardo obteve se esvaneceram e se transformaram em consequências de
longo prazo bem piores do que aquelas que ele porventura teria enfrentado caso
apenas tivesse sido honesto desde o início.

Além
de simplesmente demonstrar as consequências naturais das manipulações
arbitrárias dos juros, a ciência econômica também nos ajuda a gerenciarmos
melhor nossa vida romântica.  Vejo
diretamente vários relacionamentos baseados não em amor genuíno, mas apenas em
puro comodismo — pessoas ficando juntas não por causa daquilo que sentem uma
pela outra, mas porque não gostam da sensação de ficarem sozinhas.  Novamente, trata-se de um comportamento que
traz ganhos de curto prazo em troca de tristes consequências de longo
prazo.  Isso é também uma questão
econômica.

O
tempo é algo finito.  Portanto, cada dia
gasto em uma relação de comodismo é um dia perdido que poderia ter sido
aproveitado em uma relação de amor genuíno — há custos de oportunidades
envolvidos nessa questão.  No seriado The Office, Pam gasta
as duas primeiras temporadas junto a seu noivo de longa data, Roy, com quem ela
é totalmente incompatível, ao invés de aceitar as investidas de seu melhor
amigo, Jim.  A recusa de Pam em arriscar
o conforto de seu relacionamento desapaixonado com Roy não altera o fato de que
os dois não foram feitos um para o outro. 
Apenas estar disposto a tolerar um relacionamento não é o mesmo que
amar.  No final, Pam acaba terminando com
Roy e se casando com Jim, na sexta temporada. 
Embora Pam e Jim possam passar o resto de suas fictícias vidas felizes para
sempre, nada altera o fato de que ambos perderam quatro anos de vida feliz até
finalmente se aceitarem.

Cada
ação que fazemos, cada medida que tomamos, representa uma decisão econômica.  A velha frase “tempo é dinheiro” adquire um
novo significado quando você começa a aplicar a ciência econômica a todos os
aspectos da vida.  E somente uma
perspectiva austríaca da economia é consistente com essas aplicações não convencionais.  E foi essa percepção que me transformou em um
evangelista austríaco.

Um
feliz dia dos namorados para todos, mesmo para quem está solteiro.  Utilizem a data eficientemente.

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49 comentários em “Uma lição austríaca para o dia dos namorados”

  1. Muito bem construido o texto.

    Seja na vida romântica ou na economia, artificialismos ruirão.

    Penas que alguns ainda insistem nisso prejudicando os que estão a sua volta.

  2. Brilhante o artigo! Mostra que os conceitos da Escola Austríaca podem ser aplicados nas mais variadas situações da vida cotidiana.

  3. Só é necessário ter cuidado. A Escola Austríaca, e eu sou um, digamos, iniciante nela, nunca poderá ser apresentada como utopia. No mundo moderno, filosofias e teorias econômicas quase sempre viram panacéia: nazismo, comunismo, estado de bem estar social, nacional desenvolvimentismo etc : sempre aparece alguém prometendo uma era de ouro. Não há nada disso na Escola Austríaca, não estou certo, Leandro Roque?

  4. Que fofo! Bom, eu sou uma pessoa normalmente avessa ao risco, mas, neste caso, concordo com o texto. Pena que logo a Evelyn tenha que ser fã do Justin Bieber, poxa. ):

  5. HAHAHAHAHA!!

    Mto bom o artigo!!

    Costumo falar sobre “valorização de ativos” quando comento sobre vida afetiva, do como valoriza-se conceitos de si mesmo de modo artificial para auferir algo com alguém na vida de relação…a convivência trata de fazer os ajustes daquilo que estava em demasia;

    Esse estímulo aos “investimentos” para uma auto-imagem irreal sendo consequência à análoga redução artificial da taxa de juro foi ótima! kkkkk

    É aquilo né: Ficção x Realidade; O uso inconveniente da imaginação colabora para que aquilo que se diz que se faz vá um pouco além da efetiva capacidade de realização.

    Abraços

  6. Esse artigo me fez lembrar da otima cronica do Carlos Eduardo Novaes, “A Lingua Oficial”. Segue um trechinho:\r
    \r
    “Houve um tempo no pais, voces se lembram, que o economes quase substituiu o portugues, como lingua oficial. foi por essa epoca que estive numa festinha de economistas e observei um deles paquerando todas as mulheres (ou como ele disse: “especulando no mercado feminino de opcoes”).\r
    Aproximou-se por fim de uma bela coleguinha do IBGE e disse-lhe, galanteador:\r
    – Sabe que voce e o melhor investimento desta festa?\r
    A economista virou o rosto, surpresa.\r
    – Se voce esta procurando aplicacoes a curto prazo – respondeu ela, agressiva – pode reduzir seus gastos de palavras. Sou uma mulher de renda fixa.”

  7. As pessoas que tentam desacreditar o liberalismo proposto pela Escola Austríaca de Economia quase sempre caem no erro de tentar ligá-lo ao anarquismo. O que essas pessoas pensam? Será que elas acham que nessa sociedade anarcocapitalista não haverá punições aos crimes praticados? Será que elas acham que por eu ter mais dinheiro que a maioria eu poderei sair por aí invadindo terras, assassinando, roubando, estuprando? Por favor gente, leiam mais antes de tirar conclusões precipitada completamente erradas. O anarcocapitalismo não é o nosso atual peseudo capitalismo 95% socialista onde o maior come o menor, apesar da não existência do Estado a da liberdade para você fazer o que você quiser, quando quiser e do jeito que você quiser, você terá que respeitar a liberdade e a propriedade alheia, ou você poderá pagar caro por seus erros.

  8. > Amoral é virar a costas para questões sérias como segurança interna e externa em nome de seu rico dinheirinho. O uso da violência e do terror é regra número UM para qualquer pessoa que queira uma sociedade organizada. O princípio número UM para um ataque externo é antes desestabilizar a sociedade. Criar Guerras entre os cidadãos, conflitos entre as famílias, conflitos entre empresários e empregados, conflitos de terra, conflitos entre sexos, conflitos de todos os gêneros. E o sonho de qualquer inimigo é ver um Estado que não é capaz de usar do terror para trazer a organização.

    E quem esta virando as costas para a segurança? Eu não quero que o governo me forneça educação, isso significa que eu estou virando as costas para a educação?
    Imoral é vc querer forçar os outros a satisfazerem as suas vontades jogando-os na prisão caso não obedeçam.

    E não use a palavra “dinheiro” de forma pejorativa, não há nada de errado em ganhar dinheiro, se tiver sido de forma legal. É inclusive uma forma de enriquecer o país, pois se vc ganhou dinheiro vc produziu e trocou algo com alguém, melhorando a vida de ambos.

    > Claro que o Estado é falho, e é mais claro ainda que o Estado que temos Hoje é uma piada de mal gosto. Isso não o torna ilegítimo, o que é ilegítimo é o negá-lo ao invés de trazer para si a responsabilidade.

    sim, ser falho e ser uma piada de mal gosto não o torna ilegítimo, seus argumentos são assim e eu não tenho problemas com isso. Querer mandar em mim sim o torna ilegítimo

  9. ‘E quem esta virando as costas para a segurança? Eu não quero que o governo me forneça educação, isso significa que eu estou virando as costas para a educação?’
    Você está comparando maçãs com laranjas.
    Eu não sei porque é tão difícil de entender que o poder militar é um caso à parte.Talvez porque na cabeça alguns, tudo que todo mundo faz só tem a ver com dinheiro.As pessoas que tem poder tendem a abusar desse poder, essa é a verdade, é a triste natureza humana, e o que vcs defendem é que o poder militar saia dos governos e fiquem com os mercenários, ou polícia privada, ou gangue, ou chame de qualquer outra coisa.E por algum tipo de milagre esses grupos com poder de explodir uma bomba na cabeça de qualquer um, vão ser bonzinhos e ficar na deles.

    ‘Mercenaries and auxiliaries are useless and dangerous; and if one holds his state based on these arms, he will stand neither firm nor safe; for they are disunited, ambitious and without discipline, unfaithful, valiant before friends, cowardly before enemies; they have neither the fear of God nor fidelity to men, and destruction is deferred only so long as the attack is; for in peace one is robbed by them, and in war by the enemy …… And experience has shown princes and republics, single-handed, making the greatest progress, and mercenaries doing nothing except damage; and it is more difficult to bring a republic, armed with its own arms, under the sway of one of its citizens than it is to bring one armed with foreign arms. ‘

    The Prince, Chapter XII, by Niccoló Machiavelli

  10. Hahaha, o que é o estado senão uma gangue de marginais? Mas eu devo concordar com o cerqueira, deixa o poder militar na mão de entes privados geraria o caos, já que eles começariam a jogar bombas nas cabeças de todo mundo. Já estados, como a história nos mostra claramente, são entes justos, prudentes e jamais jogariam bombas na cabeça de ninguém.\r
    \r
    Às vezes eu penso que vocês vem de algum site marxista só para trollar, não é possível.

  11. Que mediocridade, que infelicidade, que levianismo.

    Porque que os teóricos economistas tendem a ser fechados em uma explicação hermética do mundo, associando todas as dezenas de nuances complexas da realidade humana à uma simplificação barata em argumentos supostamente “científicos”?

    Vi um comentário de um usuário falando que alguém vem de um fórum marxista para trollar aqui. O que eu vejo é a mesma visão tacanha, orientada, finita em si e, o pior, pretensamente científica que os marxistas usam para explicar TUDO, desde a taxa de juros, composição do capital (o que minimamente cabe dentro do esforçado escopo acadêmico de vossas escolas de pensamento), mas não… ainda me deparo com um texto como esse… citado!
    O que o Marxismo tem de pior, é a generalização panfletária e tosca de suas acepções, eu vejo em demasia aqui…

    Desculpa, mas ciência é mais que certezas, é um estado de permanente dúvida…
    Tá sobrando planilhas, discurso e faltando filosofia…
    Aconselho os estudos ontológicos de Heidegger (especialmente sugiro The Question Concerning Technology) que por si só já desmorona, sem precisar de outros adendos.
    Um abraço,
    Rafa

  12. Leandro:
    Grato pela atenção. Fiz a pergunta já sabendo mais ou menos qual resposta viria. Não a fiz por deboche, mas com a intenção de simplesmente constatar que mais liberdade econômica, e individual consequentemente, é muito simples de ser atingida, bastando ação humana para tanto. Mas não será pedindo mais intervenção e proteção estatal a políticos que chegaremos lá. Abraço.

  13. Assim como muitas mulheres imaturas preferem as fantasias de um cafajeste em vez da realidade de um homem sério, as pessoas em geral preferem seguir demagogos.

    (Homens imaturos também se apaixonam compulsivamente por mulheres-problema).

    * * *

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