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Minha resposta a Paul Krugman sobre a teoria austríaca dos ciclos econômicos

Como
muitos leitores já sabem, na semana passada Paul Krugman citou em seu blog no The New York Times um dos meus artigos publicados no Mises Institute que fala sobre a importância da teoria do
capital
em qualquer discussão sobre ciclos econômicos.  Embora Krugman graciosamente tenha descrito
minha fábula sobre ilhéus comedores de sushi como sendo “a melhor explicação
que já vi sobre a visão austríaca”, ele naturalmente ridicularizou a abordagem
como sendo um “grande salto para trás” e um repúdio a 75 anos de progresso
econômico desde a obra de John Maynard Keynes. 
Para reforçar sua rejeição ao meu artigo, Krugman listou vários
problemas que ele vê na abordagem austríaca.

Neste
artigo irei primeiro resumir a posição austríaca (na tradição de Ludwig von
Mises) em relação à teoria do capital, dos juros e dos ciclos econômicos.  Ato contínuo, irei então responder às
objeções específicas de Krugman.

Os austríacos e o capital

Contrastando
com os modelos convencionais da teoria macroeconômica, os quais não descrevem
de forma alguma a estrutura do capital de uma economia — ou, quando muito, denotam
todo o capital como sendo um estoque homogêneo do tamanho “K” –, a teoria
austríaca explicitamente trata a estrutura do capital de uma economia como
sendo um complexo agrupamento de diferentes
ferramentas, equipamentos, maquinários, estoques e outros bens em produção.  Grande parte da perspectiva
austríaca depende dessa rica visão acerca da estrutura do capital da economia,
e os economistas convencionais omitem várias dessas constatações austríacas
quando eles fazem a “conveniente” suposição de que a economia possui apenas um
bem.  (Krugman ficará feliz em saber que,
sim, eu posso explicar tudo isso claramente em um modelo formal — e um modelo
que o árbitro Paul Samuelson, keynesiano convicto, relutantemente aprovou.)

Krugman
e outros keynesianos enfatizam a primazia da demanda: eles continuamente afirmam que o dono de uma loja de
eletroeletrônicos, por exemplo, não terá o incentivo para contratar mais
empregados, e comprar mais estoques, caso ele não tenha a expectativa de que os
consumidores irão aparecer com dinheiro para gastar em novos aparelhos de
televisão ou laptops.

Porém,
os austríacos afirmam que a demanda por si só está longe
de ser o principal ponto
: independentemente de quantas cédulas de dinheiro
os clientes tenham, ou de quanto crédito a loja pode conseguir no banco, será fisicamente impossível para essa loja de
eletroeletrônicos encher suas prateleiras com novas televisões e laptops caso
os fabricantes desses itens já não os
tenham produzido
.  E, por sua vez, os
fabricantes não podem magicamente criar aparelhos de televisão e laptops
simplesmente porque a demanda por seus produtos aumentou; para fazê-lo, eles
dependem de outros setores da economia já terem anteriormente feito sua parte, como a extração dos metais necessários
para a manufatura desses aparelhos, a montagem da quantidade certa de caminhões
e carretas necessários para transportar os bens das fábricas para os centros de
produção e montagem, e assim por diante.

Essas
observações podem parecer triviais para alguns, indignas de serem levadas em
conta por economistas sérios.  Porém, essa
indiferença para com esse processo só existe porque normalmente uma economia de
mercado soluciona “espontaneamente” esse enorme problema de coordenação por
meio do sistema de preços e dos correspondentes sinais emitidos pelo sistema de
lucros e prejuízos.  São a livre formação
de preços e o sistema de lucros e prejuízos que coordenam automaticamente todo
o processo de produção.  Se alguém
tivesse de planejar centralmente toda uma economia desde o zero, haveria todos
os tipos de estrangulamentos, gargalos e desperdícios — como a experiência
real do socialismo já demonstrou.

Sem
a orientação dos preços de mercado, jamais observaríamos uma economia
funcionando harmonicamente, em que os recursos naturais se movem ao longo da
cadeia de produção — desde o processo de mineração dos metais, passando pelo
processamento, pela manufatura dos bens, pelas vendas no atacado até finalmente
chegarem ao varejo — como é ilustrado jeitosamente nos manuais de
macroeconomia. 

Ao
contrário, veríamos uma bagunça caótica, em que vários processos integrados
jamais iriam se concatenar harmonicamente. 
Haveria muitos martelos e poucos pregos, muitos alimentos perecíveis e poucos
caminhões e vagões refrigerados para fazer seu transporte, e por aí vai.

Os austríacos e os juros

Quanto
à explicação da função coordenadora dos preços de mercado, os austríacos
atribuem um papel extremamente importante às taxas de juros de mercado, pois
são elas que direcionam a distribuição e a disposição de recursos ao longo do tempo.  Falando em termos mais gerais, uma taxa de
juros alta significa que os consumidores estão relativamente impacientes,
querendo consumir mais no presente e poucos dispostos a poupar.  Isso significa que aqueles empreendedores que
comprometerem muitos recursos em projetos de longo prazo serão pesadamente
punidos. 

Por
outro lado, uma baixa taxa de juros significa que o mercado está dizendo para
os empreendedores que os consumidores estão dispostos a esperar mais tempo até
que os produtos finais sejam criados; portanto, passa a ser aceitável
direcionar e comprometer recursos em projetos que irão produzir bens e serviços
valorosos em uma data mais tardia.

Na
concepção austríaca, são as taxas de juros que permitem que as decisões
financeiras das famílias interajam com a estrutura física do capital, de modo
que os produtores passam a ser guiados a transformar os recursos da maneira que
melhor satisfaça as preferências dos consumidores.  Considere este exemplo simples que eu uso
para meus alunos de graduação: suponha que a economia esteja em um equilíbrio
inicial em que as famílias poupam (deixam de consumir) 5% de sua renda.  E então, um belo dia, elas decidem que querem
ter mais dinheiro durante seus anos de aposentadoria, pois não querem que seu
padrão de vida caia quando pararem de trabalhar.  Consequentemente, todas as famílias da comunidade
começam a poupar 10% de sua renda.

Na
visão austríaca, a taxa de juros é o principal mecanismo por meio do qual a
economia se ajusta a qualquer mudança na preferência dos consumidores.  (Não é que as pessoas deixem de consumir
cachorros-quentes e passem a consumir hambúrgueres; o que ocorre é que elas
reduzem o “consumo atual” com vistas a aumentar o “consumo futuro”).  O aumento da poupança das famílias reduz as
taxas de juros e, com os juros mais baixos, empreendedores podem agora começar
projetos de longo prazo.  Do ponto de
vista de empreendedor individual, a taxa de juros afeta muito mais a
lucratividade de projetos de prazo mais
longo
do que de projetos de prazo mais curto.  Ou seja: quanto mais tempo durar um projeto,
mais sensível ele será aos juros. (Qualquer cálculo que envolve “valor presente
descontado” pode mostrar isso.) 
Portanto, uma taxa de juros mais baixa não apenas estimula o
“investimento” como também dá uma maior atratividade a investimentos em bens
duráveis e de longo prazo, em oposição a investimentos em bens não duráveis e
de menor prazo de maturação.

Como
é possível que a comunidade como um todo possa ter mais renda em, digamos, 30
anos?  Obviamente, as famílias creem ser financeiramente possível, pois seus
saldos bancários crescem exponencialmente com as agora maiores taxas de
poupança.  Porém, tecnologicamente falando, isso será possível porque a composição
dos bens produzidos irá mudar.  As
famílias reduzem os gastos com jantares fora de casa, compras de iPods e outros
apetrechos com o intuito de dobrar sua taxa de poupança.  Isso significa que restaurantes, lojas da
Apple e outros negócios voltados para a satisfação do consumo imediato terão de
demitir empregados e reduzir suas operações. 
Mas isso significa apenas que mão-de-obra e outros recursos estão sendo liberados para expandir a produção nos
setores mais intensivos em capital, setores que fabricam brocas e furadeiras
mecânicas, tratores e novas indústrias.

Em
30 anos, a economia estará fisicamente capaz de produzir muito mais bens
(inclusive a produção de bens de consumo), pois os trabalhadores estarão
utilizando um maior estoque de capital, o qual foi sendo acumulado durante as
três décadas anteriores.  É assim que o
padrão de vida de toda economia aumenta: por meio da poupança.

Os austríacos e os ciclos econômicos

Agora
que já fiz um resumo da visão austríaca acerca do capital e dos juros, temos a
recompensa: a explicação para os ciclos econômicos.  Quando as taxas de juros são diminuídas para
níveis abaixo daqueles que
predominariam em um mercado livre e desimpedido (por meio de uma política
monetária expansionista do banco central, por exemplo), isso desencadeia os
mesmos processos que ocorreriam caso tivesse havido um aumento na
poupança.  Em outras palavras, a essas
taxas de juros mais baixas, os empreendedores creem ser lucrativo iniciar
projetos de longo prazo; os setores da economia que são intensivos em capital
começam a contratar trabalhadores e a aumentar a produção.

Entretanto,
essa expansão dos setores de bens de capital não é contrabalançada por uma
redução nos setores de bens de consumo, como ocorreria caso as famílias de fato
estivessem poupando mais.  Ao contrário,
as famílias irão consumir mais também, por causa dos juros menores.

Consequentemente,
dá-se início a uma expansão econômica insustentável,
um período temporário de prosperidade ilusória. 
Como cada setor da economia está se expandindo, há uma sensação geral de
euforia; parece que cada setor está tendo um “grande ano”, e a taxa de
desemprego cai abaixo de seu nível “natural”.

Infelizmente,
em algum momento, a realidade irá se impor. 
O banco central não criou mais recursos simplesmente por ter criado mais
dinheiro e reduzido os juros.  É
fisicamente impossível para a economia continuar produzindo simultaneamente um
maior volume de bens de consumo e um maior volume de bens de capital.  No final, alguém terá de ceder.  O ajuste virá tanto mais cedo se a elevação
dos preços dos ativos ou dos bens de consumo fizer o banco central reverter sua
política e elevar a taxa básica de juros da economia.  Porém, mesmo se o banco central mantiver os
juros permanentemente baixos, em algum momento a realidade física irá se
manifestar (não há uma quantidade suficiente de bens para ser utilizada nos
processos de produção) e a economia entrará em colapso.

Durante
a fase da recessão, os empreendedores irão reavaliar a situação.  Caso o governo e o banco central não
interfiram, os preços irão se reajustar e, com isso, enviarão sinais corretos
informando quais empresas e empreendimentos têm futuro e quais devem ser
liquidados.  Aqueles trabalhadores
empregados em empreendimentos insustentáveis serão demitidos.  Levará algum tempo até eles encontrarem
oportunidades em outras áreas que estarão surgindo agora, bem como encontrarem
um nicho que seja compatível com suas habilidades e que seja sustentável nessa
nova economia.

Durante
esse período de reavaliação e procura, a taxa de desemprego ficará anormalmente
alta.  Não é que os trabalhadores estejam
“ociosos”, ou que sua produtividade tenha repentinamente caído para zero (como
Krugman tenta ridicularizar);
o que ocorre é que eles precisam ser realocados para outras áreas de produção
— e, em uma economia moderna e complexa, isso toma tempo.  Essa demora pode ser simplesmente por uma
questão de procura, uma vez que os trabalhadores desempregados têm de pesquisar
até encontrar a melhor oportunidade que já existe “lá fora”, ou pode ser devido
ao fato de que eles têm de esperar até que outros trabalhadores “voltem a
produzir”, o que rearranjaria toda a cadeia de produção, fazendo com que, só
então, os desempregados possam voltar a estar empregados. (Foi isso que
aconteceu na minha história
do sushi
).

Vou
encerrar aqui o resumo da teoria austríaca dos ciclos econômicos.  O leitor interessado na questão dos ciclos
econômicos pode ler exposições mais técnicas (embora acessíveis) aqui.  Uma introdução sucinta, porém completa, pode
ser vista aqui.  Já aqueles mais interessados em uma exposição
gráfica (utilizando conceitos da macroeconomia convencional, como ‘fronteira de
possibilidade de produção’) devem recorrer a essa fantástica apresentação em
PowerPoint
elaborada pelo professor Roger Garrison.

[Para uma aplicação da teoria austríaca dos
ciclos econômicos na economia brasileira recente, veja este artigo
].

Respondendo Krugman

Fiz
esse comprido resumo apenas porque tenho a impressão de que Krugman, apesar de
falar muito, simplesmente ainda não conseguiu entender a posição
austríaca.  Por exemplo, ele pergunta
“Por que existe uma acachapante evidência de que quando os bancos centrais
decidem desacelerar a economia, a economia de fato se desacelera?”  Ora, como a teoria austríaca diz que a
recessão ocorre quando o banco central reduz a expansão monetária e permite que
os juros subam para seu nível “correto”, essa objeção de Krugman não faz
sentido algum.  Com efeito, se os bancos
centrais não pudessem desacelerar a
economia, aí sim um economista austríaco teria de ficar preocupado com sua
teoria.

Krugman
também pergunta sobre inflação (de preços) e a conexão entre PIB nominal e real
(o PIB real é simplesmente o PIB nominal ajustado pela inflação de preços, cujo
cálculo utiliza um deflator).  Mas creio
que aqui ele está apenas fazendo mais confusão descabida.  Os austríacos sabem que as influências
monetárias podem ter efeitos reais. 
Repetindo: esta é exatamente a essência
da teoria de Mises-Hayek.

Embora
a maioria das objeções de Krugman advenha de seu desconhecimento da real teoria
austríaca, parece que uma das fontes de sua confusão veio justamente de uma
ilustração em particular que utilizei no meu artigo.  Primeiro, permitam-me contextualizar a
situação citando o próprio Krugman:

Portanto, qual é a essência
dessa história austríaca?  Basicamente,
ela diz que aquilo que chamamos de crescimento econômico é na realidade algo
como o desastroso Grande
Salto para Frente
feito pela China, o qual gerou um surto temporário no
consumo, mas somente à custa da degradação da capacidade produtiva do
país.  E o subsequente desemprego é o
resultado dessa degradação: simplesmente não há nada de útil para os
trabalhadores desempregados fazerem.

Eu gosto dessa história, e
provavelmente há outros casos para os quais ela é válida, além da China de
1958–1961.  Porém, quais os motivos para
acreditarmos que essa história tenha algo a ver com os ciclos econômicos que de
fato vemos nas economias de mercado?

Primeiro,
eu gostaria de dizer que fico feliz pelo fato de Krugman ao menos ter admitido
que a explicação austríaca não apenas faz sentido teórico como também acontece
no mundo real — vindo do sujeito que em
1998 se referiu a ela
como o equivalente à “teoria flogista do fogo”,
trata-se de um progresso e tanto!   

Entretanto,
Krugman ainda não apreendeu corretamente a visão austríaca a respeito do
“consumo de capital” que ocorre durante a expansão econômica
insustentável.  Como eu disse acima,
nesse quesito em particular a culpa é do necessariamente simplista “modelo do
sushi” que eu utilizei no artigo
que Krugman leu
.

Naquele
artigo, com o intuito de garantir que o leitor realmente iria entender por que
Krugman (e Tyler Cowen) estava ignorando algo básico, descrevi uma situação na
qual os ilhéus aumentavam substancialmente seu consumo diário de sushi ao mesmo
tempo em que desenvolviam uma nova tecnologia para ajudar a aumentar sua
pesca.  Assim, durante esse período de
“crescimento”, um ilhéu mais tolo acreditaria que tanto o consumo quanto o
investimento estavam aumentando.

Na
minha fábula, isso era fisicamente possível porque os ilhéus negligenciaram a
manutenção de rotina de seus barcos e redes de pesca.  Essa negligência não apareceria da noite para
o dia; porém, no final, a economia da ilha iria inevitavelmente entrar em colapso.  Repetindo: escolhi esse
exemplo para ilustrar questões básicas a respeito da estrutura do capital e
para mostrar como uma explosão no consumo presente pode ser fisicamente
possível, embora inevitavelmente irá cobrar um preço no longo prazo.

Infelizmente,
minha fábula e as lições que extraí dela deram a impressão de que os austríacos
pensam que o “consumo de capital” que ocorre durante o crescimento econômico
insustentável implica necessariamente uma redução de gastos em coisas como
manutenção de equipamentos e de estruturas, ou mesmo em coisas ainda mais
simples, como o dono de uma frota de caminhões deixando de fazer rodízio de
pneus.

Na
realidade, é mais correto dizer que, durante o período da expansão econômica
insustentável, os empreendedores (guiados por sinais errôneos, como os juros
artificiais) investem em projetos que individualmente são racionais e
“eficientes”, mas que não se integram
uns com os outros.  Em outras palavras,
não se está dizendo que um agricultor irá se esquecer de plantar algumas
sementes e, com isso, terá sua futura colheita comprometida.  Não.  O
que se está dizendo é que o agricultor vai querer expandir sua produção e, para
isso, ele irá plantar muito mais do que plantou no passado.  Porém, sem ser do seu conhecimento, os donos
dos silos, dos caminhões, dos trens e das ferrovias (necessários para levar a
safra ao mercado) não estão expandindo suas operações no mesmo ritmo.

Em
resumo, não é que os austríacos achem que uma inspeção em uma empresa
individual irá revelar uma deficiência tecnológica.  A questão é que todos os empreendedores estão
sempre “um passo a frente deles próprios”, tentando se desenvolver muito
rapidamente.  E não há poupança real
(recursos físicos disponíveis) suficiente para permitir que todos esses novos
processos sejam finalizados.  Como
consequência, haverá um momento em que os preços começarão a subir.  E isso complicará todos os projetos de
investimento de longo prazo. 

Para
apreender melhor esse aspecto da teoria austríaca, a analogia que Mises fez com
um mestre-de-obras
(que faz o projeto de uma casa achando que tem mais
tijolos do que efetivamente possui) ainda é a melhor.  

Krugman quer saber: Onde está a evidência?

O
que nos leva à reclamação central de Krugman:

Oh, e qual a evidência de que a
capacidade da economia é afetada durante as expansões econômicas
insustentáveis?  O investimento não cai
durante as expansões; ele aumenta.  Sim,
eu sei que os austríacos se refugiam em conversas cósmicas a respeito da
complexidade da produção e de como o investimento — da maneira como ele é
mensurado — pode não mostrar o que realmente está acontecendo etc.  Mas onde está a evidência positiva disso que
eles alegam?

Eu
simpatizo com essa exigência de Krugman, mas não há uma estatística simples
para a qual podemos apontar.  Os
austríacos estão corretos em dizer que
“o investimento — da maneira como ele é mensurado — pode não mostrar o que
realmente está acontecendo”, e estão corretos
em dizer que a estrutura de produção é algo muito mais complexo do que aquilo
que é descrito nos modelos de Krugman. 
Não se trata de nenhuma “conversa cósmica”, mas sim de uma afirmação
sobre fatos básicos.

Mas,
para responder a essa questão, os austríacos certamente podem mostrar uma evidência positiva de sua teoria.  Por exemplo, os austríacos argumentam que,
nos EUA, durante os anos de farra do setor imobiliário, os americanos não
poupavam quase nada de seus salários, pois foram iludidos a crer que estavam
muito mais ricos do que de fato eram (por causa do contínuo aumento nos preços
de seus imóveis).  E então, quando a
realidade se impôs, a ilusão foi despedaçada, e o valor de seus ativos caiu
acentuadamente.  Ao perceberem que haviam
tomado péssimas decisões durante os anos da expansão econômica insustentável,
os americanos passaram a aumentar sua poupança. 
Os dados são perfeitamente compatíveis com essa história:

Em
azul, a taxa de poupança individual (eixo à esquerda); em vermelho, o índice
S&P 500 (eixo à direita).  A área
sombreada indica recessão.

1.png

O
gráfico acima mostra que a taxa de poupança despencou durante os anos de pico
da bolha imobiliária, quando o S&P 500 disparou.  E então, no final de 2007, a bolsa de valores
começou a cair, ao passo que a taxa de poupança aumentou acentuadamente.  A bolsa de valores começou a se recuperar no
início de 2009, porém, sob a perspectiva austríaca, isso ocorreu porque as
maciças intervenções do Banco Central americano — que culminaram na primeira
rodada de “afrouxamento quantitativo” (o qual foi anunciado naquela época) —
começaram a estimular novamente os preços dos ativos.

Também
é possível obter um forte suporte empírico para a alegação austríaca de que a
expansão imobiliária desviou uma quantidade insustentável de recursos reais
(inclusive mão-de-obra) para aquele setor, o qual no fim das contas entrou em
colapso e provocou um aumento agudo no desemprego.  O gráfico a seguir compara o emprego total na
construção civil (linha azul, eixo da esquerda) com a taxa de desocupação dos imóveis (linha vermelha, eixo da direita),
mostrando claramente uma bolha especulativa: as pessoas estavam comprando casas
não para morar nelas, ou mesmo para alugá-las, mas apenas para revendê-las
quando o preço subisse.  Observe a
conexão entre a bolha especulativa imobiliária e os trabalhadores atraídos para
a — e depois expelidos da — construção civil:

2.png

Quando
se trata de aplicar a teoria austríaca genérica para o recente ciclo de
expansão e recessão, é preciso pensar globalmente.  Durante a expansão econômica, grande parte do
crescente fluxo de bens de consumo usufruído pelos americanos foi fisicamente
produzida na China e em outros países estrangeiros.  Colocando em termos que Krugman irá apreciar,
podemos dizer que o crescimento das importações (que entram na equação do PIB subtraindo) ocorrido
nesse período foi consistente com uma “saudável” sequência de aumentos no PIB,
não porque houve um aumento nas exportações (não houve), mas sim porque os
cidadãos americanos e seu governo continuaram gastando cada vez mais a cada ano (desta forma impulsionando C, I e
G), de modo que isso mais do que compensou o crescente déficit na balança
comercial.

Não
há nada de errado com um déficit na balança comercial (ou, mais corretamente,
um déficit na conta-corrente) per se.  Em
outro artigo, expliquei como uma
economia muito saudável e com crescimento sustentável pode apresentar uma sequência
indefinida de tais déficits, à medida que o resto do mundo corria para investir
em um país dotado de políticas atrativas.

Porém,
quando se trata do boom imobiliário ocorrido sob George W. Bush, o acúmulo de
utilitários esportivos, TVs de plasma e consoles de videogame nas casas dos
americanos era algo claramente insustentável. 
Não porque — como na minha história do sushi — os americanos estavam
se esquecendo de fazer as manutenções de rotina, mas sim porque era impossível
que os americanos mantivessem a “produção total” — a qual é muito imperfeitamente
capturada pelos números oficiais do PIB — no estonteante nível necessário para
sustentar a extravagância. 

Falando
mais claro: os americanos compravam casas na esperança de que elas se
valorizariam para sempre, o que lhes dava a sensação de enriquecimento
eterno.  Baseando-se nessa errônea noção,
os americanos refinanciavam suas hipotecas (conseguiam mais empréstimos nos
bancos dando seus imóveis como garantia, os quais se valorizavam continuamente,
o que facilitava novos empréstimos) e gastavam todo o dinheiro recém-emprestado
comprando e importando bens de consumo (o que aumentava o déficit na
conta-corrente).  Essa farra só poderia
ser mantida caso os investidores estrangeiros continuassem comprando papeis de
hipotecas vendidos pelos bancos.  (Esse
financiamento estrangeiro permitia que os americanos continuassem importando
bens para satisfazer seu desejo de consumo).

Tão
logo houvesse uma desvalorização nesses imóveis, todo o castelo de cartas
cairia.

Para
ter certeza de que essa história intuitiva bate com os fatos, podemos fazer um
gráfico comparando um índice de preços dos imóveis (linha azul, eixo da
esquerda) ao saldo da conta-corrente (linha vermelha, eixo da direita).  O gráfico abaixo mostra perfeitamente que, à
medida que a bolha imobiliária ia inflando, a conta-corrente foi se tornado
cada vez mais negativa (as importações iam aumentando).  E então, quando a bolha imobiliária estourou,
o déficit na conta-corrente começou a diminuir praticamente ao mesmo tempo, que
foi quando os consumidores americanos (e os investidores estrangeiros) voltaram
à racionalidade.

3.png

É
claro que os modelos de Krugman, bem como sua interpretação, também podem
incorporar as evidências acima.  Logo,
ele compreensivelmente poderia alegar que não há motivo para dar mais crédito
para a teoria austríaca do que para a teoria dele próprio.

Mas,
por outro lado, eu posso apontar pelo menos dois episódios em que a teoria do
“reajuste dos setores” defendida pelos austríacos claramente possui mais poder
explanatório do que a teoria de “demanda insuficiente” defendida por
Krugman.  Mais especificamente, no final
de 2008, Krugman
argumentou
que o estouro da bolha imobiliária pouco tinha a ver com a
recessão, pois as últimas estatísticas haviam mostrado que o desemprego no
nível estadual tinha pouca relação com os declínios nos preços dos imóveis
ocorridos nos estados.

Entretanto,
eu mostrei que olhar a mudança anual
no desemprego tomando por base o final do
ano de 2008
não poderia de modo algum ser considerado um teste
honesto.  Se olhássemos as mudanças no
desemprego a partir do momento em que a bolha imobiliária estourou, então cinco
dos seis estados que vivenciaram os maiores declínios imobiliários estavam
também na lista dos seis estados que tiveram os maiores aumentos no desemprego.

Em
outra ocasião (em meados de 2010), Krugman
mais uma vez
imaginou ter desferido um golpe fatal na teoria do reajuste
dos setores ao apontar que o setor industrial havia perdido mais empregos do
que o setor da construção civil.  Eu mostrei que isso
também era um engodo, pois, pra começar, o setor industrial tinha muito mais
empregados.  E quando se analisava os
declínios em termos percentuais, a construção civil de fato havia contraído
muito mais severamente que o setor industrial. 
Ademais — e exatamente como prevê a teoria austríaca –, o declínio do
emprego na indústria de bens de consumo
duráveis foi pior do que na indústria
de bens de consumo não duráveis, ao passo que o declínio no setor varejista foi
o mais brando dentre os quatro.

Esses
são episódios muito importantes.  Quando
Krugman achava que os números estavam a seu favor, ele alegremente difamava a
teoria do ajuste dos setores; ele supôs que seu próprio modelo era
perfeitamente capaz de explicar a situação caso o colapso imobiliário realmente
não tivesse muito a ver com o
cataclismo que varreu o mercado de trabalho. 
E, como o próprio Krugman argumentou, tivesse ele utilizado testes válidos, os resultados de fato teriam
desafiado a teoria austríaca.

Portanto,
agora que vimos que as mudanças no emprego realmente estão de acordo com a explicação austríaca, deveríamos estar mais
confiantes de que ela apreende ao menos uma parte importante de toda a
história.  Repetindo: eu não planejei encontrar dados que
fossem compatíveis com a exposição misesiana para, só então, finalmente criar
alguns gráficos que chegassem ao resultado desejado.  Ao contrário: Krugman imaginou ter encontrado uma falsificação da teoria, mas o
fato é que tudo o que ele conseguiu fazer foi apenas conduzir um experimento
ruim.

Como
foi Krugman quem armou e criou as condições para esses dois desafios, é
bastante significativo que a teoria austríaca tenha sido aprovada com
distinção.  Mais ainda: é significativo
que a própria teoria de Krugman não
consiga
explicar as reais mudanças ocorridas no mercado de trabalho
americano.  Lembre-se: Krugman não se
sentiu nem um pouco constrangido pelos dados quando ele (erroneamente) imaginou
que a bolha imobiliária não tivesse praticamente nada a ver com o problema do
desemprego.

Isso
é muito importante porque foi Krugman quem notoriamente defendeu (em
2002
) e depois defendeu novamente (com advertências em
2006
) a criação de uma bolha imobiliária para estimular a economia
americana.

Não
estou aqui querendo praticar um ataque à pessoa de Krugman ao dizer isso: é
bastante significativo que o modelo defendido por Krugman tenha recomendado uma
bolha imobiliária como solução para a recessão criada pelo estouro da bolha das
empresas de internet no início da década de 2000, mesmo sabendo-se que — como
vimos — o modelo de Krugman é obviamente inferior à explicação austríaca
quando se trata de avaliar o efeito colateral da bolha imobiliária.

Conclusão

Não
afirmo que a teoria austríaca dos ciclos econômicos apreenda cada pertinente detalhe
das atuais recessões.  O que eu realmente afirmo é que uma teoria —
incluindo-se aí quaisquer modelos keynesianos de Paul Krugman — que ignore a
distorção que ocorre na estrutura do capital durante períodos de expansões
econômicas insustentáveis não pode de maneira alguma receitar corretamente
soluções para uma recessão.

[Para acompanhar o desafio público que Murphy fez a Krugman, acesse www.krugmandebate.com]

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22 comentários em “Minha resposta a Paul Krugman sobre a teoria austríaca dos ciclos econômicos”

  1. Se fosse uma luta de vale-tudo, Krugman teria sido nocauteado ainda no primeiro round. Os argumentos e a forma com que Murphy explica os ciclos econômicos são muito fáceis de entender. Só um homem-bolha como Krugman para não atinar que o keynesianismo é charlatanismo puro. Espero ansioso a segunda parte do artigo!

  2. O “ganha-pão” de Krugman são as idéias de Keynes.

    Antigamente ele nem “perderia” seu tempo discutindo a Escola Austríaca. Agora q fica claro q o modelo Keynesiano ñ funciona (quer dizer no curto prazo a ilusão funciona) ele começa a dar tiro pra todo lado.

  3. As pessoas falam “isto é ridículo, a escola austríaca tem tão poucos defensores que eles caberiam dentro de um fusca!”, mas não percebem que os austríacos já sabiam das crises antes mesmo d’elas acontecerem.

    Acho que eles só acreditarão nos austríacos quando algum dos defensores vá até o congresso dizer: “Senhores… Daqui à exatos 20 segundos o mundo vai entrar em colapso e na pior depressão econômica da história da humanidade. 20,19,18(…)…”

    Agora, uma coisa que eu sempre me pergunto é: Qual foi a posição de países com Singapura, Nova Zelândia, Hong Kong e Austrália, na crise de 2008? Eles foram afetados? Quero dizer, eles tem um mercado livre muito amplo, certo? O que aconteceu em cada um deles?

  4. A escola não aborda a deflação, a estagflação, ou a estabilização da moeda às custas da apropriação indébita do governo sobre os recursos depositados nos bancos pela produção. Por certo ninguém cogitava desses absurdos. Não sei quando começou esta prática espúria no âmbito internacional, mas no Brasil a arbitrariedade obteve êxito incontroverso por meio do AI 5, trunfo logrado pelo Czar da Economia junto aos generais, forte para cobrir a sucessão de falcatruas financeiras que vem se precipitando no Brasil desde então. E atualmente, por banais, tanto esta apropriação indébita quanto as falcatruas financeiras perdem em Ibope para as aposentadorias dos Executivos, algo sem a menor significância à macroeconomia. Impressiona o fato da aceitação pacífica dessas retioradas compúlsórias, como se o governo tivesse tomando o carro de um menor de idade, para protegê-lo.
    Por outro lado, os juros altos inibem a riqueza que já foi produzida, por isso depositada, de retornar à circulação, ficando amorfa num depósito apenas para pela escassez ser valorizada. Salvo melhor juízo, não parece o mais adequado. Keynes referia-se à “fabricação” da moeda, com o governo distribuindo as falsidades às suas grandes obras, o que é bem diverso de utilizar o dinheiro disponivel no círculo virtuoso da produção.
    O que parece inequívoco é que os bancos se interessam mais pelo mercado especulativo, especialmente câmbio e bolsa de valores, e assim os juros altos que cobram vem a calhar – o montante arrecadado vai direto ao sabor desses manipuladores dos mercados. E porque os bancos outrora comerciais viraram apenas cambistas, agigantam-se os de fomento, aí sim, por onde penetram a dinheirama sem lastro, na promoção governamental.
    Se estiver errado, por favor, não vacile apontar.
    Quanto a este Nobel frequentemente citado, torna-se flagrante que ele tem interesse pessoal em suas assertivas. Para mim, não merece maior atenção, exceto se quiser tripudiar suas precárias razões.

  5. Leandro, na chamada do globo.com está a notícia de que o PIB dos EUA cresceu em 2010 teve a maior alta dos últimos 5 anos. Mas foram apenas 3%. Isso significa muita coisa no momento atual e para as previsões da Economia Austríaca?

    Ah sim: a “livre-mercadista” Cingapura (2ª no Heritage) teve um crescimento de 14,7, muito maior do que todos os outros. Mas a China (135ª posição) ficou em segundo.

    Se puder falar algo sobre, agradeço. Abraço.

  6. Miguel A. E. Corgosinho

    A sorte da ciência econômica não pode se subordinar a relações entre coisas e sim ao “principal ponto”. Se confrontarmos alguns paragrafos deste post se confirmará esse diagnóstico. \r
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    “… os austríacos afirmam que a demanda por si só está longe de ser o principal ponto:”\r
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    Temos que perseguir conscientemente os fins (as demandas estão em ruptura no tempo), sob pena de agirmos somente a posteri\r
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    * “Grande parte da perspectiva austríaca depende dessa rica visão acerca da estrutura do capital da economia,” \r
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    “Quanto à explicação da função coordenadora dos preços de mercado, os austríacos atribuem um papel extremamente importante às taxas de juros de mercado, pois são elas que direcionam a distribuição e a disposição de recursos ao longo do tempo.”\r
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    A explicação da função coordenadora nos diz que o juros de mercado seriam uma estranha potência, em contradição à distribuição no tempo, em conflito com o agrupamento do parágrafo abaixo – a estrutura do capital.\r
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    “a teoria austríaca explicitamente trata a estrutura do capital de uma economia como sendo um complexo agrupamento de diferentes ferramentas, equipamentos, maquinários, estoques e outros bens em produção.”\r
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    Então por que a coordenação da produção é prefigurada no vazio? \r
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    Para Mises a propriedade privada é, digamos assim, junto com a ação humana, o “principal ponto” da economia.\r
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    Ora, se a coordenação da produção (solda entre propriedade privada e a ação humana) é um complexo agrupamento em “… estoque e outros bens de produção”; o valor da propriedade privada, a priori, representa o espaço da base monetária (como ponto de partida) em que os juros não existiriam, certo?\r
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    A estrutura da propriedade privada historicamente poderia ser acumulada? Leia novamente o parágrafo com asterístico.\r
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    Em face da acumulação científica da propriedade privada – que possuiria todas as ações da estrutura de capital sem o estado – as relações mútuas de estoque e bens de produção desenvolver-se-iam em periodos simultâneos, pelo “ponto principal” – a produção da economia.\r
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    Mercadistas, é tempo de pensar em distribuir renda e não juros!!!

  7. Miguel A. E. Corgosinho

    A CRIAÇÃO INCESSANTE DE APROPRIAR-SE DO CONCRETO:

    “…coordenação da produção (solda entre propriedade privada e a ação humana)…”?

    É a criação da moeda, através de elos concretos do valor da produção – sem títulos públicos – o que exclui as nações de uma necessidade externa, mística, como a que preside o mercado financeiro.

    Investimento externo, portanto, é uma projeção de esquema VULGAR que não deixa reduzir o todo ao determinismo, tomando para si, abstratamente, o VALOR da economia.

    A reprodução científica do real (para a expansão da moeda) faz confirmar relações exteriores (agrupamento de elos concretos), mostrando que as atividades práticas, internas, renascem no livre mercado; e o crédito não explica, absolutamente, a relação a um mesmo objeto escolhido como referência dos juros – como uma prestação de serviços do futuro.

  8. Miguel A. E. Corgosinho

    A questão da estrutura do capital, por influência de diversas culturas, tem determinações para o desenvolvimento que correspondem as formas meramente dilatórias, enquanto o estado (nosso objeto não desenvolvido) depende do postulado em que a economia encontre o principal ponto que o substitua, e desapareça a subordinação de duplicidade coagida, de emitir moeda erguida contra si mesmo.\r
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    Dentro de um plano conceitual, precisamos da medida central (grau matematicaente científico) de fluxo de capitais x produção.\r
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    A economia surgindo de um “principal ponto”, em que a moeda é bancada com a pura formação técnica, como no caso de um valor pelo desempenho global – em que desfrutamos da possibilidade importante de uma só estrutura de medida cientifica; de fatores econômicos (créditos recíprocos do fundamento internacional da natureza); por isso mesmo a dominação (do príncipio de acumulação) não pode ser vendida – como investimentos externos – para a propriedade privada – montada sobre o Estado.\r
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    Estamos falando de um complexo de referencia para formação técnica do valor da propriedade privada, ficando assim o próprio sistema monetário anulado, por importância do requesito de completidade comum da nações – exemplo puramente dedutivo de duas moedas (dólar-real) – manifestadamente empreendido para eliminar-se as dividas públicas.\r
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    A técnica de créditos recíprocos (que se tem como presente dos movimentos internos) sabe como se alteram os tempos da propriedade privada = fatores de moeda única – ou seja; em primeiro lugar se faz a coerência de fato passivo para o estado (teoria)- em que recorremos à possibilidade de uma asserção verdadeira ser diante da pesquisa global.\r
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    Este é, portanto, o único processo de transformar o esquema interpretativo do estado excluído de arrecadar imposto, tendo o poder de reorientar a economia com a nova propriedade do crescimento – porque pode apresentar-se como real valor construido, atingindo enfim o objetivo do senhorio econômico da moeda, e a expansão da medida de valor da propriedade privada de forma recíproca.

  9. Miguel A. E. Corgosinho

    Eu creio que a ambição de toda ciência seja dominar o valor do seu campo de saber.\r
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    Livro a CIÊNCIA COMO VALOR – páginas 14/16: ” …não é seguramente sem significado este fato: em nossa mentalidade corrente o conceito de CIENCIA veio a coincidir, quase insensivelmente, com o de “progresso”.\r
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    Querendo compendiar em um só conceito tal maneira de ver, poder-se-ia dizer que nesta perspectiva a Ciência é considerada, essencialmente, como a premissa necessária da técnica e como extraindo, fundamentalmente, deste último fato, o seu valor principal, ainda que não exclusivo.\r
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    A ciência desempenha, no seu confronto com o progresso tecnológico, uma função CONDICIONANTE E INSUBSTITUIVEL e encontra, antes, neste seu aspecto, um dos títulos COM CERTEZA não menores da sua importância.\r
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    Todeavia, diante desses testemunhos, o menos que se pode fazer é observar que tais pontos altos de grandiosidade, nas realizações técnicas, não estiveram em grau de assegurar, ao longo dos séculos, às civilizações que os produziram, nem sequer um puro desenvolvimento tecnológico continuado e progressivo. Eles permaneceram sempre monumentos isolados, tem antes a aparência da descoberta casual ou o resultado de uma ofortunada conjuntura histórica do que de fases do desenvolvimento consciente. De resto, tais civilizações acabaram, como já se disse, por ser largamente superadas por outras que entraram mais tarde na cena da História.\r
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    De fato, falamos, hoje, indiferentemente de Ciência, de nível científico, de dignidade científica, de valor científico a propósito de todos os ramos do nosso saber.\r
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    Todo sistema que se proponha enquadrar um certo grupo de noções homogenias entre si, dentro de um sistema de hipóteses logicamente estabelecidas, de modo a oferecer um quadro orgânico, dentro do qual todo conhecimento dado encontra seu lugar e sua justificação, sem contradição com os outros, é reconhecido por nós como Ciência.\r
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    Sob este aspecto o fim do Saber Científico se apresenta, em primeiro lugar, como “explicativo” e o conjunto das proposições de uma Ciênca se configura essencialmene como tentativa de explanar certos fenômenos (podem ser perturbações de uma òrbita planetária ou, então, o declinar de uma instituição política ou a presença de uma crise econômica) que formam um quadro total o qual, em primeira instância, é um projeto interpretativo de uma certa ordem de realidade. Que, depois, algumas destas ciências sejam suscetíveis de aplicações práticas e talvéz também “úteis” e, no fundo, um elemento acessório com respeito ao nosso conceito de Ciência e que só se gtorna seu componente fundamental para algumas ciência particulares.\r
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    Todo mundo vê que o Saber Científico, entendido nestas suas dimensões completas, resulta num equilíbrio de espírito contemplativo e de espírito prático e, ao mesmo tempo, numa forma de domínio do homem sobre a natureza e num lugar de revelação da verdade.\r
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    Naturalmente isto não é um simples fato, mas algo que atribui à Ciência um VALOR, no sentido metafíco do termo. O Europeu conseguiu transfundir na Ciência uma dimensão de valor especulativo, fez dela um campo em que há espaço para a elucidação do pensamento puro. E com isto elevou a Ciência da classe de simples instrumento à classe de ideal, que conheceu, também, seus heróis e mártires.”\r
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    A esse proposito relevamos o seguinte. A mentalidade moderna deve à Ciência, em certa medida, o aperfeiçoamento de um dos seus conceitos basilares e mais fecundos: o conceito de objetividade.\r
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    No plano teórico. Fique notado que o conceito de objetividade implica a aceitação de um modo de ver absoluto, de um ponto de referência fora da discussão e, por assim dizer, acima de briga.\r
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