Em uma guerra no sentido convencional, o exército mais forte
é normalmente o vencedor. Na guerra cambial, o mais fraco é quem ganha. Esta é
a doutrina dominante.
Esta semana no jornal inglês Financial Times, nosso Ministro
da Fazenda, Guido Mantega, estampou a capa com sua declaração de que “estamos
em uma guerra cambial”. Até aqui nada surpreendente. A relevância do tema
parece ser que Mantega foi o primeiro a deixar de lado os eufemismos e expor
claramente o que todos os bancos centrais estão fazendo, mas não querem dizer.
A doutrina é: moeda fraca é saudável para a economia. Moeda
enfraquecendo com mais velocidade do que as outras, melhor ainda. A lógica
empregada é a seguinte, uma moeda desvalorizada diminui os preços para o
mercado externo aumentando a competitividade, logo estimula as exportações.
Exportações são benéficas para a economia, importações não. Esse é o legado dos
mercantilistas. Infelizmente, é também o legado de outras escolas econômicas,
dentre elas a Keynesiana, que de tempos em tempos volta das cinzas ao socorro
de governos insolventes.
Por outro lado, a mídia também faz sua parte em perpetuar
tais falácias. Somos diariamente inundados por matérias, artigos e entrevistas
de especialistas, políticos e empresários denunciando o “mal” causado pelas
importações, como a nossa balança comercial pode se “deteriorar” devido à competição
externa, que devemos barrar a entrada da concorrência estrangeira e que devemos
aumentar nossas tarifas de importação e impor cotas! E se isto não for o
suficiente, que desvalorizemos nossa moeda! Moeda forte é coisa do passado!
Não é preciso ser economista para chegar à conclusão de que há
algo fundamentalmente equivocado nestas bravatas protecionistas. Basta empregar
o reductio ad absurdum para concluir
que estas teses carecem de fundamentação:
1)
Ora, se exportar é benéfico e importar é
maléfico, deveríamos tentar erradicar o último utilizando-se de todas as
ferramentas possíveis. Não desperdicemos nossos esforços em atividades que
prejudicarão a nação! Mas para alguém exportar, alguém tem que necessariamente
importar, ou seja, é impossível todos os países simultaneamente abolirem suas
importações.
2)
Se é interessante para um país exportar mais do
que importa, a mesma lógica deveria ser válida para estados dentro do mesmo
país. Portanto, deveríamos impor tarifas no comércio interestadual. Na mesma
linha, seria benéfico impor tarifas para o comércio intermunicipal. E por que
não entre bairros? Ou então entre ruas, casas e até indivíduos? Não sairíamos
todos ganhando?
É visível o quão absurdo se tornam os argumentos
mercantilistas quando levados às suas conseqüências lógicas. Exportar e
importar nada mais é do que vender e comprar. A fronteira entre os países
apenas ofusca nossa compreensão, no entanto, não altera a essência da transação[1]. Por exemplo, imaginemos que o estado de São Paulo
declare sua independência e sua soberania seja reconhecida internacionalmente.
A partir deste momento, qualquer venda de São Paulo ao estado do Paraná será
considerada exportação por aquele e importação por este. Analisando esta
situação hipotética, seria sensato impor barreiras alfandegárias para
dificultar o comércio entre os dois territórios? Seria a sociedade beneficiada
desta forma?[2]
Desde o colapso de Bretton Woods, mais precisamente a partir
de 1973, vivemos o chamado sistema de moeda fiduciária flutuante (fluctuating fiat currencies). Sob tal
sistema, não há qualquer lastro com dinheiro material (ouro e/ou prata), onde o
dólar acabou dominando como a moeda de reserva mundial. Nosso sistema atual é
baseado na confiança. O lastro do dólar é a “total confiança e crédito do
governo dos EUA” (conforme está escrito nas cédulas do Federal Reserve – Full Faith and Credit of the US Government). Seria mais preciso afirmar que o
sistema atual é baseado não na confiança, mas na ignorância total e
generalizada. Se a maioria da sociedade compreendesse a inerente insolvência do
atual sistema, a realidade dificilmente seria a mesma.
Entretanto, a atual situação de moedas fiduciárias
flutuantes não é de todo desconhecida, muito menos seus perniciosos efeitos.
Após o mundo viver uma relativamente estável era monetária, durante o
padrão-ouro clássico, os governos mundiais foram “obrigados” a suspender o
resgate em espécie para financiar suas campanhas na Primeira Guerra Mundial.
A consequência foi um período similar ao que vivemos hoje em
dia, com a diferença que naquela época, poucos economistas enxergavam um
cenário de papel-moeda sem lastro como ideal[3]. Apesar
de bem intencionada, a tentativa de restaurar um padrão-ouro fracassou levando
o sistema monetário novamente a experimentar os malefícios de moedas
fiduciárias baseadas na “total confiança e crédito” dos governos. Como bem explica Rothbard:
O caos e a desenfreada guerra
econômica dos anos 30 ensinam uma importante lição: a grave falha política (sem
considerar os problemas econômicos) no esquema monetário para moedas livremente
flutuantes de Milton Friedman — Escola de Chicago. O que os Friedmanites fariam — em nome do livre mercado — é cortar
completamente todos os vínculos com o ouro, deixando o controle absoluto das
moedas nacionais nas mãos de seus governos centrais, os quais emitiriam
papel-moeda fiduciário de curso forçado — e então aconselhar cada governo a
permitir que sua moeda flutue livremente em relação às demais moedas, além de
abster-se de inflar o seu próprio papel-moeda muito escandalosamente. A grave
falha política é entregar o controle total da oferta monetária ao Estado-Nação,
e então ter a esperança e a expectativa de que o Estado se absterá de usar tal
poder. E como o poder sempre tende a ser abusado, incluindo o poder de falsificar
legalmente, a ingenuidade, bem como a natureza estadista deste tipo de
programa deveria ser fortemente evidente[4].
Com o objetivo de restaurar a estabilidade monetária e o
comércio internacional após a Segunda Guerra Mundial, foi instaurado o sistema
de Bretton Woods, o qual durou até
1971. O que sucedeu é o sistema atual, conforme já descrito acima.
Desgraçadamente, a atual guerra cambial pode sim beneficiar
alguns poucos, mas certamente empobreceremos todos. Como verificamos, a batalha
é atual, mas os argumentos que embasam estas políticas são tão falaciosos
quanto antigos.
As consequências de uma chamada guerra cambial são
desvalorizações competitivas, uniões monetárias em atrito, controles cambiais,
tarifas, cotas e por fim, o colapso do comércio e investimento internacionais[5].
Na atual crise financeira que enfrentamos, fruto das
expansões monetárias que induziram a investimentos errôneos em larga escala,
governos mundiais tentam desesperadamente estimular suas economias de alguma
maneira. Uma via óbvia, ainda que falsa, é estimular as exportações. E, seguindo
o título deste artigo, é desencadeada uma guerra cambial, onde a ferramenta
utilizada é a desvalorização de suas moedas.
Constantes intervenções na esfera monetária distorcem a
estrutura produtiva, promovem benefícios nos setores exportadores em
detrimento de todos os demais, dificultando o saudável processo de liquidação
de investimentos errôneos e deficitários, impedindo a realocação dos recursos para onde estes
podem ser empregados eficientemente.
Em geral, e especificamente no Brasil, a guerra cambial tem o
nefasto efeito de desviar o foco dos reais problemas na economia: um estado
gigante, uma carga tributária vergonhosa, uma legislação trabalhista rígida e
uma burocracia sufocante. Empresários se lançam a defender um câmbio “justo”, e
esquecemo-nos de tratar dos problemas estruturais. Um câmbio desvalorizado
beneficiaria alguns setores no curto prazo. No longo prazo, somente
competitividade pode garantir êxito em qualquer mercado. Mises via a política
de desvalorização cambial da seguinte maneira:
Se alguém vê a desvalorização
cambial não com os olhos de um defensor do governo e de políticas sindicais,
mas com os olhos de um economista, é preciso antes de tudo enfatizar que todas
as supostas bênçãos são somente temporárias. Além disso, elas dependem da
condição de que apenas um país desvalorize enquanto os outros se abstêm de tal
política. Se os outros países desvalorizam na mesma proporção, nenhuma
alteração no comércio internacional aparecerá. Se eles desvalorizarem com uma
intensidade maior, todas estas bênçãos transitórias, quaisquer que sejam,
favorecerão este exclusivamente. Uma aceitação generalizada dos princípios de
um padrão flexível acaba, portanto, resultando na mútua e crescente
desvalorização entre as nações. No final desta corrida está a completa
destruição dos sistemas monetários de todas as nações[6].
Mises continua:
As tão faladas vantagens que a desvalorização assegura ao comércio externo e ao turismo são inteiramente
devidas ao fato de que o ajuste dos preços domésticos e dos salários às novas
condições criadas pela desvalorização requerem algum tempo. Enquanto este
processo não termina, a exportação é encorajada e importação, não. Entretanto,
isto simplesmente significa que, durante este intervalo, os cidadãos do país cuja
moeda foi desvalorizada estão recebendo menos pelo que eles vendem no
estrangeiro. Concomitantemente, eles devem restringir o seu consumo. Este
efeito pode parecer como uma dádiva na opinião daqueles que medem a saúde de
uma nação pela balança comercial[7].
Com um mundo altamente globalizado e integrado,
desvalorizações cambiais causam caos no comércio internacional. A recente
proposta de Bernanke de lançar um novo pacote de quantitative easing é no mínimo alarmante e assustadora. Explico.
Donos da moeda de reserva internacional e da maior economia do planeta,
qualquer manipulação no valor do dólar americano tem efeitos que repercutem mundo afora
rapidamente. O governo do Zimbábue vem desvalorizando constantemente sua moeda,
no entanto, isto tem relativamente poucos efeitos fora de seu próprio
território.
Portanto, uma desvalorização da moeda americana é um péssimo
sinal para a recuperação econômica e do sistema financeiro. E não adianta
querer dar distintos nomes à impressão de dinheiro e à desvalorização monetária.
Impressão de dinheiro é, sempre, impressão de dinheiro. O chamado quantitative easing, que pode ser
traduzido por “facilidade ou flexibilização quantitativa”, é apenas mais um
eufemismo para o mesmo fenômeno: impressão de dinheiro. Operações de compra no
mercado aberto: impressão de dinheiro. E a conseqüência? Moeda desvalorizada.
Por sinal, Robert Mugabe é fã de quantitative
easing[8].
O Bank of Japan está seguindo o mesmo modelo,
preocupadíssimo com as maldições de uma moeda forte. No Reino Unido, o Bank of
England estuda novas medidas de QE. No Brasil, aumentamos nossas reservas
cambiais a níveis históricos e o Fundo Soberano Nacional está autorizado a
intervir no mercado cambial através do BC. Enquanto isso, a cotação do ouro
segue batendo recordes. Aonde isto vai parar? Até que ponto o dólar seguirá
como reserva mundial? Até que ponto os banco centrais seguirão uma política de
desvalorização? Será a completa destruição dos sistemas monetários nacionais
conforme advertiu Mises?
Difícil prever quando. Entretanto, estamos neste perigoso
caminho. O que podemos concluir é que haverá maiores turbulências no comércio
internacional, e a recuperação será mais lenta do que poderia ser. Em um
cenário como este, é imprescindível que a legislação trabalhista seja tão
flexível quanto possível, permitindo que as empresas demitam e contratem
empregados rapidamente, pois distorções cambiais levarão algumas empresas à
beira da falência e outras ao sucesso. É fácil dizer. Politicamente factível?
Nem tanto. Ainda assim, imprescindível.
Preocupante é o $1.2 trilhão de dólares de reservas em
excesso, depositados no Federal Reserve pelo sistema bancário americano. Não satisfeitos, Bernanke e sua trupe estudam
novas medidas de “flexibilização quantitativa”. Quantos bilhões serão necessários desta vez? $900 bilhões? Talvez $1 trilhão? Quando esta oferta monetária for liberada de
fato na economia, será como tirar o pino da granada. Salve-se quem puder.
Mas, antes, compre ouro, óbvio.
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Leia também: Aflições cambiais
Notas
[1] Logicamente, no mundo atual,
exportar e importar normalmente requer o uso de divisas. Em um sistema de
padrão-ouro clássico, tal problema não existiria.
[2] Apesar de estas questões “óbvias”
já terem sido abordadas em outros artigos do IMB, entendo que o óbvio deva ser
repetido exaustivamente. Portanto, para uma análise mais profunda de questões
referentes a comércio internacional e balanço de pagamentos sugiro a leitura de
Capitalism de George Reismann
(Illinois, Jameson Books, 1990) pp. 526-541, Human Action de Ludwig Von Mises
(Alabama, Mises Institute, 1998), pp. 447-449 e Man, Economy and State de
Murray Rothbard (Alabama, Mises Institute, 2009), pp. 822-826.
[3] Ver Murray Rothbard, What has
Government Done to Our Money?, (Alabama, Mises Institute, 2005), p. 89.
[4] Ibid. p. 94.
[5] Ibid. p. 89.
[6] Ludwig Von Mises, Human Action,
(Alabama, Mises Institute, 1998), p. 785.
[7] Ibid.
[8] Curiosamente a mídia européia trata
destes fenômenos de forma muito mais idônea do que a americana. Neste artigo da BBC pode-se
entender bem como funciona o mecanismo de quantitative
easing. O leitor atento verá que Robert Mugabe na verdade não utilizou um quantitative easing, pois a impressão de
dinheiro no Zimbábue foi para financiar déficits governamentais. No entanto,
este é um mero detalhe, o efeito final é aumento da oferta monetária e desvalorização
da moeda, seja através da compra pelo BC de títulos diretamente do governo ou
de instituições financeiras. Além disso, como didaticamente explica o artigo da
BBC, pergunto eu, por que não fazer o sistema mais eficiente. Acabemos com
intermediários. Ora, se o objetivo é estimular empréstimos às empresas e aos
consumidores, por que não emprestar diretamente? Desta forma o sistema de QE se
torna muito mais eficiente e se há algum benefício de fato nesta política, ele
será percebido de maneira muito mais rápida.
Fernando,
A mudança do padrão ouro para uma moeda fiduciária sem lastro pôde ser considerada como um colapso completo do sistema monetário ou numa escala menor, foi uma “tungada” nas finanças dos indivíduos?
Abraço.
Angelo, creio que o seu termo é apropriada. Foi uma tungada nas finanças dos indivíduos sim. Como os governos inflacionaram a moeda para financiar a guerra, já era impossível resgatar em espécie pelo valor de face das cédulas. Portanto, suspender o resgate foi consequência “natural”.\r
Colapso do sistema monetário, talvez o melhor exemplo seja a Alemanha de 1923 e o Zimbábue recentemente. Quando os cidadãos simplesmente se recusam a usar a moeda imposta pelo governo pois ela foi inflacionada de forma escandalosa. Ou utilizam alguma moeda internacional como meio de troca ou voltam ao escambo. Imaginem uma economia moderna voltar ao escambo. Logicamente, impraticável.\r
Parabéns Fernando, seu melhor artigo até agora aqui, pelo menos dos que eu li.
Obrigado por este artigo Fernando. Este tema é muito importante. E quem tem uma base em escola Austríaca sabe ainda mais do que a opinião pública que estamos vivendo um verdadeira mudança de paradigma monetário.
Mises descreveu bastante cedo o mecanismo da desvalorização competitiva, onde os ganhos temporários se cancelam e o mundo mergulha em uma onda inflacionária global, com a perda de riqueza real que isto implica. Aqui no Brasil sabemos bem o quanto de riqueza deixa de ser criada quando se vive em um ambiente inflacionário.
Aparentemente lá fora eles se esqueceram disso. Um Keynesiano até acharia bom que todos desvalorizassem ao mesmo tempo, porque eles acham que podem controlar o ‘pino da granada’, que você citou no final.
O que vai acontecer quando o QE FUNCIONAR é o que mais nos assusta. Porque como é que eles vão conseguir impedir o sistema monetário de expandir múltiplos a mais do que antes? E não era esse o objetivo, que os bancos emprestassem de novo?
Deixo uma pergunta para os colegas então: o que o Fed poderá fazer quando o QE funcionar e a economia começar a entrar no turbo-charge? O que acontecerá quando subirem juros pela primeira vez? Será sempre insuficiente? Quero entender bem o mecanismo desta explosão inflacionária.
a apreciação cambial é a única tendência que está contrabalanceando o boom gerado pela expansão monetária do BACEN, BB, BNDES, bancos comerciais e pelos déficits do governo… breca-la é, como o autor disse, retirar o pino da granada aqui no brasil…
e o próximo imbecil no comando do governo vai fazer justamente isso…
Ótimo texto!
Gostei bastante do texto!
Qual a função das reservas internacionais?
Deveriam perguntar pro Bernanke como ele vai enxugar os trilhões que ele imprimiu. Imprimir é fácil, mas depois ninguém sabe o tamanho da catástrofe: Inflação, desemprego, recessão, juros altos, queima de capital etc…
Nada mais fácil.
Toma-se o dinheiro das populações, sem que elas percebam, enquanto se joga a culpa nas “outras” populações lá fora.
“-Olhem o inimigo lá fora” gritam os batedores de carteira, enquanto surrupiam o fruto do trabalho de seus governados.
E ainda de quebra, pode-se jogar a culpa pros sucessores, quando a bomba estourar, e dizer: “-Viram, como nós sabíamos governar, e eles não?”
Lamentável a postura desses “doutores”.
Mas o texto não. O texto está excepcional. Principalmente na dica simples e pragmática que o encerra.
Parabéns, Fernando.
Excelente artigo. Hume deve estar a se revirar no túmulo. Afinal, como é possível que a velha mentalidade mercantilista possa ter retornado ainda mais grosseira depois de tantos séculos? Como é possível que se possa ainda confundir riqueza e moeda depois de Hume, dos fisiocratas e de todo o pensamento econômico sério? É até compreensível que nos tempos de Hume, os reis confundissem a riqueza de seus reinos com a quantidade de metais precisos, afinal tais metais possuem certo valor como mercadorias. Mas ultrapassa todo o limite de compreensão possível que nossos atuais “soberanos” hajam do mesmo modo com relação a simples pedaços de papel pintado ou, pior, simples algarismos eletrônicos. Não há palavras para descrever a estupidez e o fetichismo dos keynesianos.
Juliano, perguntas difíceis. Tentarei respondê-las em outro artigo. Enquanto isso, recomendo um ótimo artigo (em inglês) que fala sobre as “alternativas” de saída do FED.\r
\r
mises.org/daily/4570\r
\r
Rhyan, o papel das reservas internacionais é simplesmente permitir que o BC possa manipular o mercado de cambio. É convencionalmente visto como “saudável” para um país ter reservas internacionais , pois funciona como um colchão que pode amortecer uma apreciação ou depreciação brusca do cambio. O artigo do Leandro fala um pouco sobre este tema também. Sugiro a leitura. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=419
Obrigado, Fernando!
Rhyan, as reservas internacionais formam o principal ativo do Banco Central, e que portanto servem de lastro para o passivo do BC, que são principalmente o papel-moeda e as reservas dos bancos (base monetária), que estão compulsoriamente depositadas no BC.
Em um país com um “currency board” há uma identidade legal entre as reservas e a base monetária. Toda vez que entra um dólar, o BC é obrigado a imprimir um “dinheiro local”, e cada vez que sai um dólar, o BC cancela um “dinheiro local”.
Em países como o Brasil, não há necessariamente uma identidade entre as reservas e a base. Hoje, o BC tem cerca de US$270 bi de reservas e US$100 bi de base monetária. Portanto, há uma razoável cobertura do passivo. Caso todos os brasileiros quisessem sair do país com seu dinheiro (não digo patrimônio, apenas o dinheiro papel e na conta-corrente, excluindo inclusive os fundos de investimento, contas poupança, etc), haveria moeda forte para todos. Houve momentos no passado nos quais não havia cobertura de reservas suficiente. Tais momentos geravam grande instabilidade, pois o mercado “testava” o BC, ao se preocupar com a quantidade de lastro. Essas são as chamadas crises do balanço de pagamentos, O Mário Henrique Simonsen dizia que a inflação aleija, mas o balanço de pagamentos mata. E ele não estava muito longe da verdade.
Por conta do descrito acima, toda reserva deve estar aplicada em títulos da mais alta qualidade da moeda que se escolheu como reserva. No caso do Brasil, as reservas portanto deveriam ser aplicadas em títulos do governo americano.
Há governos que abusam desta regra e tentam se apropriar das reservas ou mesmo comprar títulos de pior qualidade. A Argentina fez isso em 1992, ao usar as reservas para comprar títulos da dívida do PRÓPRIO governo argentino, caindo abaixo de 1:1 entre reservas e base monetária. Tal malandragem quebrou o austral, e como Simonsen previu “matou” a Argentina.
O FED americano agora tem boa parte de suas reservas em hipotecas de baixa qualidade, quando na verdade deveriam ter ouro. (durante a maior parte do tempo eles detiveram títulos do governo americano). O balanço patrimonial do FED é muito pior que o balanço do BC brasileiro. Pelo menos nossa arara azul tem como lastro títulos do governo americano, ou seja, do contribuinte americano com um todo. O FED tem como lastro em grande parte apenas um virtual inadimplente.
Espero ter auxiliado em uma melhor compreensão deste complexo assunto.
Helio, obrigado pela explicação adicional.\r
\r
E o que acontecerá quando o dólar não ser mais a “moeda forte”?\r
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O suposto lastro do dólar, ouro, não se sabe sequer a quantidade e a localização destas reservas. Em teoria estaria a maior parte em Fort Knox.\r
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O congressista americano Ron Paul pretende introduzir uma legislação em 2011 com o objetivo de auditar as reservas de ouro do FED.\r
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A impressão que tenho é que o BC brasileiro tem seu lastro em dólar e o dólar não tem lastro em nada, logo…
Obrigado Fernando pela dica e ao Helio por seu comentário nesta área tão complicada.
O artigo do Howden explica que a estratégia de saída do Fed é continuar pagando 3bi$ por ano aos bancos para que estes mantenham suas reservas com o Fed, e evitar vender os títulos podres por enquanto. Deixar debaixo do tapete. Assim que for descoberta a verdadeira perda que o Fed tomou nestes títulos, vai haver um aumento equivalente de liquidez para o sistema bancário, para ser alavancada em níveis pré-crise, o que causaria inflação.
Este artigo que você citou é bem recente. Mas com este clima de guerra de desvalorização e de grande retórica Keynesiana nos EUA estou ainda mais pessimista. .
E o que acontecerá quando o dólar não ser mais a “moeda forte”?\r
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Essa pergunta contém a própria resposta embutida. Se o dólar não for mais “moeda forte”, será uma moeda “fraca”, como qualquer outra. Mas isto ainda vai levar algum tempo, na minha opinião.\r
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O suposto lastro do dólar, ouro, não se sabe sequer a quantidade e a localização destas reservas. Em teoria estaria a maior parte em Fort Knox. \r
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O suposto lastro do dólar não é o ouro. O lastro é por definição o que estiver contido no ativo do FED. Hoje fazem parte do balanço de US$2.3 tri: a) títulos públicos do tesouro americano – US$800 bi, hipotecas (garantidas pela Fannie/Freddie) – US$1.1 tri, outros – US$400 bi, e ouro (contabilizados a US$11bi históricos de US$35/onça-troy , mas que se realmente estiverem lá as 8100 toneladas, valerão a mercado cerca de US$350bi)\r
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Portanto, o lastro do dólar é grosso modo de 15% de altíssima qualidade (ouro), 30% de qualidade muito alta (treasuries), 40% de qualidade duvidosa ou baixa (hipotecas), e 15% de indeterminado (outros). Historicamente o lastro sempre foi composto de 100% de altíssima ou muito alta qualidade, até dois anos atrás, quando começaram as compras de hipotecas dos bancos (dando em troca treasuries – que beleza).\r
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O congressista americano Ron Paul pretende introduzir uma legislação em 2011 com o objetivo de auditar as reservas de ouro do FED. \r
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Perfeito. E aí saberemos se há realmente 8100 toneladas de ouro (que valem US$350bi) – mas sem esquecer que isso é de qualquer forma apenas 15% do total do ativo (e passivo) do FED.\r
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A impressão que tenho é que o BC brasileiro tem seu lastro em dólar e o dólar não tem lastro em nada, logo…\r
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A impressão está equivocada. O melhor ativo financeiro (largamente aceito) do mundo (excetuando-se ouro) é exatamente Treasuries de curto prazo. Qualquer investidor quer ter Treasuries, pois o “lastro” destes é a capacidade de pagamento do contribuinte americano, que por sua vez está em grande parte nas mãos do governo e sua taxação. Qualquer outro ativo financeiro é mais arriscado que Treasuries, segundo o mercado. É por isso que qualquer ativo financeiro é cotado como “spread over Treasuries”. O ouro é o único ativo financeiro que não é passivo de ninguém, e portanto é ainda mais seguro que Treasuries. Mas Treasuries são o segundo melhor.\r
\r
O balanço do BC brasileiro não divulga oficialmente a composição das reservas, abertas por emissor do título, mas estimo que cerca de 90% sejam aplicações em Treasuries dos US. Portanto, o lastro do real é muito melhor que o lastro do US$.\r
Helio, considerando a situação fiscal dos EUA, as unfunded liabilities, etc., na sua opinião, os Treasuries continuam sendo o melhor ativo financeiro (após o ouro)?\r
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A capacidade dos EUA de honrar a sua dívida é real?
Me esqueci de falar sobre o Fort Knox.\r
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O Fort Knox não é o maior repositório de ouro nos US. Na verdade é o cofre do Fed em New York. A título de curiosidade, todo o ouro jamais extraído na história do mundo cabe em um cubo com menos de 20m de aresta (lado). Se for verdade que o FED possui 8100 toneladas, tal ouro caberia em um cubo com cerca de 7 metros de aresta.\r
\r
A maior parte do ouro depositado nos US, em especial em New York, é detido por bancos centrais de terceiros países, e está apenas em custódia nos Estados Unidos.\r
\r
Valeu, Helio!
Grande aula, Helio! Sinceramente, você deveria não só escrever, mas também palestrar mais. O tema é complexo, e um texto seu com mais detalhes seria de grande valor.
abraço
Helio, o tema é de fato complexo. Dizer que o mercado é sempre rei? Na época do boom imobiliário o melhor ativo era um imóvel. As hipotecas securitizadas tinham um rating AAA das agências. Assim como os bonds americanos.
Sabemos que o mercado pode ser induzido ao erro em grande escala, por exemplo durante uma expansão monetária. Outra questão é o fato de o próprio FED atuar no mercado comprando títulos americanos. Outro fator que distorce o “mercado”.
Confesso que é preciso estudar mais sobre este tema, mas não estou totalmente convencido de que os Treasuries sejam de fato o segundo ativo de menor risco no mundo.
Ah, e aproveitando para “puxar o saco”, concordo com o Lucas. Seremos gratos de poder aproveitar mais de seu conhecimento.
Agora sim. Estamos de acordo. 🙂
Os E.U. A chegaram a possuir 20.000 toneladas de ouro hoje não passa de 4.000 toneladas.\r
Todo ouro do mundo junto 143.000 toneladas produção ouro anual mundial é de 2000 toneladas com expectativas para no máximo 10-12 anos depois se esgotara.\r
Este CAPITALISMO SELVAGEM… esta fadado ao total colapso as soluções socialistas/comunistas nunca deram certo.\r
OBAMA defende apenas os interesses dos Bancos lá esles fazem o que querem e tiram ate a propriedade de qualquer um estando paga ou não..PERGUNTO QUE CAPITALISMO SELVAGEM É ESSE???Onde não existem sequer direito a propriedade …aqui no Brasil nesta parte estamos anos luz a frente!!!\r
Teria de ser um Capitalismo autossustentável… um aparente paradoxo!!!Sem consumo não há capitalismo…\r
O lastro atual este mais baseado no petróleo.\r
Uma simples conta que qualquer ginasiano pode fazer com os numero acima.\r
Revela um valor da onça Troy ouro bem superior a 50mil dólares!\r
Caríssimos… vendi tudo o que tinha e estou com barrinhas de ouro m espécie sorte a nossa que nos cidadãos brasileiros temos em relação aos americanos que não podem possuir ouro em barras apenas “papeis…que se revelarão moeda podre!!!” sorte de quem possuir o vil metal em espécie\r
A profecia dos fins dos tempos esta próxima onde diz que com todo o trabalho de um dia só será possível comprar alimento para este dia!\r
Aldo Bredan Engenheiro Pesquisador Santos/ SP\r
Se desvalorizar a própria moeda é tão bom, por que não fazem uma ultra-desvalorização de vez?
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