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Dez argumentos para não abolir a escravidão

A escravidão existiu por milhares de anos, em todos os tipos de sociedade e
em todas as partes do mundo.  Imaginar
como seria a vida social dos homens sem a escravidão era algo que exigia um esforço
extraordinário.  Entretanto, de tempos em
tempos, sempre surgiam alguns excêntricos que se opunham a ela, a maioria argumentando
que a escravidão era uma monstruosidade moral e que, portanto, as pessoas
deveriam aboli-la.  Tais pessoas
geralmente provocavam diversas reações, que iam desde a galhofa educada até o
escárnio ríspido, chegando até mesmo a agressões violentas.

Quando alguém se dava ao trabalho de fornecer alguns argumentos contra a
abolição, várias ideias eram defendidas. 
Eis aqui dez ideias desse tipo que encontrei durante minhas leituras.

1. A escravidão é natural.  As pessoas são diferentes, e é natural
esperar que aqueles que são de certa forma superiores – por exemplo, em termos
de inteligência, moralidade, conhecimento, perícia tecnológica ou capacidade de
luta — irão transformar-se em mestres daqueles que são inferiores nesses
quesitos.  Abraham Lincoln expressou, em
1858, essa ideia em um de seus famosos debates contra o senador Stephen
Douglas: “Há uma diferença física entre as raças branca e negra, diferença essa
que, acredito, irá para sempre impedir as duas raças de viverem juntas em
termos de igualdade social e política. 
E, visto que elas não podem portanto viver juntas, enquanto elas permanecerem
juntas é necessário existir a posição do superior e do inferior, e eu, assim
como qualquer outro homem, sou a favor de que a posição superior seja exercida
pelo homem branco”.

2. A escravidão sempre
existiu.  Esse motivo exemplifica a
falácia lógica do argumentum ad
antiquitatem
(apelo à tradição).  Não
obstante, ele sempre persuadiu as pessoas, especialmente aquelas de tendência
conservadora.  Mesmo os não-conservadores
podem dar a ele alguma substância lógica baseando-se no fundamento
quase-hayekiano de que, embora não entendamos por que uma instituição social
persiste, sua persistência pode, todavia, estar baseada numa lógica que ainda
não entendemos.

3. Todas as sociedades da terra
utilizam a escravidão.  O corolário
não-explícito é que todas as sociedades devem recorrer ao trabalho escravo.  A difusão generalizada de uma instituição
parece, a muitas pessoas, constituir uma prova convincente e irrefutável de sua
necessidade.  Talvez, como defende uma
das variáveis dessa corrente, toda sociedade utiliza o trabalho escravo porque
certos tipos de trabalho são tão difíceis ou tão degradantes, que nenhuma
pessoa livre irá se dispor a fazê-lo — e, portanto, a menos que haja escravos
para realizar esses trabalhos, eles não serão realizados.  Como dizia o ditado do sul dos EUA, alguém
tinha de se sujar de lama, e as pessoas livres não iriam tolerar exercer essa
função.

4. Os escravos não são capazes de
cuidar de si próprios.  Essa ideia foi
muito popular entre as pessoas que viviam nos EUA do final do século XVIII e
início do século XIX, entre elas George Washington e Thomas Jefferson, que,
embora considerassem a escravidão algo moralmente repreensível, continuaram
mantendo escravos e deles obtendo serviços pessoais e renda dos produtos que
esses “servos” (como preferiam se referir a eles) eram forçados a
produzir.  Seria cruel e desapiedado
libertar pessoas que, uma vez libertadas, iriam, na melhor das hipóteses, infligir
a si próprias um padrão de autodestruição e sofrimento desnecessário.

5. Sem mestres, os escravos irão
morrer em massa.  Essa ideia nada mais é
do que a ideia acima levada ao seu extremo. 
Mesmo após a escravidão ter sido abolida nos EUA em 1865, muitas pessoas
continuaram expressando essa ideia. 
Jornalistas do norte, que viajaram ao sul imediatamente após a Guerra
Civil, relataram que, de fato, os negros estavam em processo de extinção em
decorrência de sua alta taxa de mortalidade, baixa taxa de natalidade, e
miseráveis condições econômicas.  É
triste mas é verdade, declararam alguns observadores: as pessoas libertadas
eram realmente muito incompetentes, preguiçosas ou imorais para se comportarem
de modo consistente com a sobrevivência de seu próprio grupo.

6. Onde as pessoas comuns são
livres, elas estão em condições ainda piores que as dos escravos.  Esse argumento se tornou muito popular no sul
dos EUA nas décadas anteriores à Guerra de Secessão.  Seu principal defensor era o escritor
escravocrata George Fitzhugh, cujos títulos de seus livros falam por si sós: Sociology for the South, or, the Failure of
Free Society
(Sociologia para o Sul, ou, o Fracasso da Sociedade Livre, de
1854) e Cannibals All!, or, Slaves
Without Masters
(Todos Canibais!, ou, Escravos sem Senhores, de 1857).

Fitzhugh parece ter copiado muitas das ideias do escritor escocês,
reacionário e racista, Thomas Carlyle.  A
expressão “escravo do salário” ainda hoje ecoa essa concepção que vigorava
antes da Guerra Civil.  Fiel às suas
teorias sociológicas, Fitzhugh queria estender a escravidão nos EUA para toda a
classe operária branca — para o próprio bem dela!

7. Abolir a escravidão iria
ocasionar um grande banho de sangue e outros malefícios.  Nos EUA, muitas pessoas assumiam que os
senhores de escravos jamais iriam permitir o término do sistema escravocrata
sem recorrer a uma guerra geral para tentar mantê-lo.  Com efeito, quando os onze estados
confederados do sul e a União foram à guerra — ignorando-se aqui que a questão
imediata não era a abolição da escravidão, mas sim a secessão dos onze estados
do sul — um enorme banho de sangue e outras mazelas foram o resultado.  Esses trágicos eventos pareceram, na mente de
muitas pessoas, validar os argumentos que elas haviam dado contra a abolição.
(Elas evidentemente ignoram que, com a exceção do Haiti, a escravidão foi
abolida em todo o Ocidente sem que houvesse violência em grande escala).

8. Com a abolição da escravidão,
os ex-escravos irão entrar em frenesi, roubando, estuprando, matando e
provocando o caos generalizado.  Para que
haja a preservação da ordem social, portanto, a abolição da escravidão deve ser
sumariamente rejeitada.  Os sulistas viviam
apavorados com a possibilidade de insurreições de escravos.  Os nortistas de meados século XIX já
consideravam a situação em sua própria região suficientemente intolerável,
culpando o maciço influxo de irlandeses bêbados e brigões nas décadas de 1840 e
1850.  Logo, libertar os negros, de quem
os irlandeses geralmente não gostavam, e jogá-los nessa mistura iria
praticamente garantir o caos social.

9. Tentar acabar com a escravidão
é algo ridiculamente impraticável e utópico; somente um sonhador de cabeça
perturbada poderia defender uma proposta tão ridiculamente ilógica e
absurda.  Pessoas sérias e sensatas não
podem se dar ao luxo de perder tempo considerando ideias tão irrelevantes e
parvas.

10. Esqueça a abolição.  Um plano muito melhor é manter os escravos
suficientemente bem alimentados, vestidos, acomodados e ocasionalmente
entretidos, desviando o foco de suas mentes da exploração de que sofrem e
estimulando-os a se concentrar na boa perspectiva de vida que os aguarda daqui
pra frente.  Não se pode esperar que haja
equidade e justiça nessa vida, porém todos nós, inclusive os escravos, podemos
aspirar a uma vida de comodidades e júbilo no Paraíso.

Em um dado momento da história, incontáveis pessoas recorreram com naturalidade
a um ou mais dos argumentos acima expostos para fundamentar sua oposição à
abolição da escravidão.  Entretanto,
quando se analisa em retrospecto, esses argumentos nos parecem extremamente
prosaicos — parecem mais racionalizações (ato de se inventar possíveis razões
para uma ação, razões essas que não se baseiam nas razões verdadeiras) do que
argumentações lógicas.

Atualmente, esses argumentos são muito similares àqueles utilizados pelos
oponentes de uma diferente forma de abolicionismo: a proposta de que o governo
como o conhecemos — o domínio monopolista e individualmente não consensual
exercido por um grupo armado que exige obediência e o pagamento de tributos —
seja abolido.  Deixo como exercício para o
leitor decidir se os argumentos acima mencionados são mais convincentes em
relação a essa proposta do que eram em relação à sugerida abolição da
escravidão.

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75 comentários em “Dez argumentos para não abolir a escravidão”

  1. Este artigo e o do “Estado dos 5 macacos” são complementares e vão direto ao cerne do preconceito daqueles que defendem que certos assuntos nunca deveriam ser discutidos. Ah, quem dera artigos como esses fossem objeto de discussões em salas de aula de 1º e 2º grau. Obrigado ao IMB pela tradução!

  2. Hoje mesmo estava discutindo com algus Libers sobre a Guerra Civil Americana. Quem tinha razão? Algum texto bom sobre essa guerra?\r
    \r
    Obrigado, abraço!

  3. Rhyan, a Guerra Civil americana, um confronto que ceifou a vida de mais 620.000 americanos, foi apenas para evitar a secessão dos estados do sul – leia-se, para manter o poder do governo federal. A desculpa de que tal guerra era necessária para abolir a escravidão é uma lorota já amplamente refutada pelos trabalhos especialmente de Thomas DiLorenzo, os quais mostram, por meio de vários documentos e discursos, o quão racista e escravagista era Abraham Lincoln, e o quanto ele desdenhava dos negros escravos.

    Ademais, é também sabido que o sul estava sendo espoliado pelo norte para pagar a política industrial deste. No caso, por meio de uma tarifa adotada pelos estados do norte contra os do sul, para proteger as indústrias do norte. Em 1858, por exemplo, o sul já era responsável por 87% das receitas que o governo federal auferia com tarifas. Não apenas essa tarifa solapou a economia do sul, como dificultou suas relações comerciais com o resto do mundo.

    Ou seja, havia se tornado impossível que ambas as regiões (norte e sul) convivessem sob um mesmo regime. O sul estava sendo reduzido a uma região de escravos, com o governo federal sendo seu amo. A secessão era inevitável.

    E Lincoln era o fiel defensor dessa política tributária, sendo que sua reeleição apenas impeliu o movimento secessionista.

  4. Renato Calisto Drumond

    O grande problema da analogia entre a escravidão e uma sociedade com Estado é que, enquanto na primeira existem critérios definidos de quem é senhor e quem é escravo, numa sociedade estatista, pelo menos se democrática, fazer parte do corpo estatal está aberto a todos, ou pelo menos os critérios são objetivos e teoricamente podem ser preenchidos por qualquer pessoa. Além disso, o período no qual se ocupa o cargo estatal, pelo menos os cargos políticos, é temporário(enquanto fazer parte da classe dos senhores era basicamente para a vida toda). E, por último, as mesmas pessoas que ocupam esses cargos podem sofrer com a perda delas, seja por um julgamento criminal ou meramente político.

  5. Renato Calisto Drumond

    E em relação a analogia entre a defesa de uma sociedade estatal e a escravidão:

    1.”A escravidão é natural”: não lembro de nunca ter visto alguém afirmar que a existência do Estado é natural. Ao contrário, é um arranjo institucional relativamente recente na história.

    2.”A escravidão sempre existiu”: novamente, nunca vi alguém defender que o arranjo institucional ao qual chamamos Estado sempre tenha existido, em todas as épocas e em todos os momentos.

    3.”Todas as sociedades da terra utilizam a escravidão”: concordo que este argumento não é válido, porém se ele for reformulado da seguinte forma ‘todas as sociedades do tipo Y, que consideramos como desejável, utilizam o arranjo institucional Z’, este argumento faz mais sentido, pois é uma tentativa de estipular uma causalidade entre um certo tipo de arranjo(no caso, a existência do Estado) e um certo tipo de funcionamento da sociedade que consideramos como desejável. Ou seja, na sua forma crua pode não ser um argumento bom, mas nesta forma adaptada considero bem razoável(mas não entro no mérito, aqui, se o argumento é válido ou não, simplesmente aponto que sua forma não é absurda).

    4.”Os escravos não são capazes de cuidar de si próprios”: eu não consigo ver a analogia com a defesa do Estado aqui. Significa dizer que as pessoas não conseguem cuidar de si próprias se não existir Estado? Mas o próprio Estado é composto de pessoas, mas não as MESMAS pessoas SEMPRE. É um arranjo institucional que permanece, mas cujos membros se modificam. Há a estabilidade dos servidores públicos, mas isso se deve a supostas vantagens de blindar os cargos da pressão política e da partidarização, não é uma característica essencial ao Estado. Por exemplo, está cada vez mais comum a contratação de funcionários pelo Estado sob o regime da CLT.

    5.”Sem mestres, os escravos irão morrer em massa”: num Estado democrático, o mestre de hoje é o escravo de amanhã e vice-versa. O argumento de que o Estado se constitui, ou se baseia necessariamente na ideia de seres mais iluminados do que o resto não procede.

    6.”Onde as pessoas comuns são livres, elas estão em condições ainda piores que as dos escravos”: esse é um argumento parecido com a versão modificada que apresentei de 3. Considero que sua forma seja válida, mas não discuto aqui que seu conteúdo seja verdadeiro.

    7.”Abolir a escravidão iria ocasionar um grande banho de sangue e outros malefícios”: e em geral causa mesmo. Estudos indicam que a instauração de democracias causam um aumento da violência, embora com uma posterior redução da mesma. É mais um argumento de curto prazo do que definitivo, de estratégia e não de objetivo.

    8.”Com a abolição da escravidão, os ex-escravos irão entrar em frenesi, roubando, estuprando, matando e provocando o caos generalizado”:novamente, a semelhança do argumento de mestre/escravo não se sustenta num Estado democrático.

    Os argumentos 9 e 10 são utilizados, mas mais como forma de constrangimento do debate do que propriamente como argumentos. E são utilizados em relação aos mais variados temas, inclusive o argumento 9 é usado por anarco-capitalistas contra defensores de um Estado funcional e limitado, que consideram como utópico e ridículo. Mas novamente isso é muito mais um pré-debate do que uma base de argumentação para qualquer posição,

  6. Renato Calisto Drumond disse: “O grande problema da analogia entre a escravidão e uma sociedade com Estado é que, enquanto na primeira existem critérios definidos de quem é senhor e quem é escravo, numa sociedade estatista, pelo menos se democrática, fazer parte do corpo estatal está aberto a todos…”

    Eu não vejo problema algum nessa analogia. A perspectiva de que um dia eu possa ser dono de escravos, mesmo que temporariamente, não faz com que eu me sinta bem.

    Em outras palavras, e generalizando, um ato imoral e anti-ético não deixa de ser imoral e anti-ético só porque eu posso ter a chance, mesmo que seja temporária e incerta, de me beneficiar dele.

  7. Fernando Chiocca

    Opa, acabaram de fornecer novos argumentos para defender a escravidão que poderiam ser adicionados ao artigo:

    A escravidão que foi praticada durante séculos de escravizar os derrotados em guerra, segundo o Renato Drumond, é válida pois os critérios são objetivos e teoricamente podem ser preenchidos por qualquer pessoa
    Ou então a prórpia escravidão dos negros pelos brancos que os capturavam na África também é válida, os critérios são objetivos e teoricamente podem ser preenchidos por qualquer pessoa já que os negros também poderiam ir a Europa e escravizar os brancos.

    Ele também usa o maravilhoso critério da DEMOcracia, que pode legitimar uma escravidão. Oras, se é democrático e todos podem, teoricamente, escravizar os outros, tá tudo bem…

    E se um escravo vai ser escravo só por 4 ou 8 anos.. Ahh, isso sequer poder ser considerado escravidão né!/ É temporário.. e escravidão é pra vida toda (SIC)!!
    Se eu sou escravo e fujo, eu nunca fui escravo (SIC)

    De resto, em sua torpe tentativa de rebater ponto a ponto o relato de Higgs, ele só reafirmou que não possui muita experiencia em discussões sobre o assunto, pois jamais se deparou com os argumentos mais manjados e comuns que qq um já ouviu.

  8. Renato Calisto Drumond

    Bom, vou começar respondendo às ofensas pessoais: minha tentativa de rebater ponto a ponto os argumentos apresentados não tem nada de torpe, pois em nenhum momento fui desonesto. Não sei como uma pessoa que não me conhece nem sabe da minha história pode me chamar de torpe. Falar que eu não tenho experiência em debates também é uma tentativa de me desmerecer, que considero desnecessária. É fugir do debate ao invés de enfrentá-lo.

    Agora, vamos aos pontos apresentados:

    “A escravidão que foi praticada durante séculos de escravizar os derrotados em guerra, segundo o Renato Drumond, é válida pois os critérios são objetivos e teoricamente podem ser preenchidos por qualquer pessoa”

    Isso não decorre do que eu escrevi, pois não discuti se o conteúdo das normas é correto, apenas se o seu formato é válido. Da mesma forma que uma sentença pode ser falsa, apesar de gramaticalmente correta. O que é diferente de dizer que ela não pode ser escrita dessa forma.

    Sim, a escravidão por guerra possui critérios objetivos para que possa ser efetuada, mas cabe a nós julgarmos se estes critérios são corretos ou não. Em nenhum momento eu disse que uma norma universal é válida por si só, apenas que uma norma, para que seja válida, precisa ser universal. É uma condição necessária mas não suficiente.

    “Ou então a prórpia escravidão dos negros pelos brancos que os capturavam na África também é válida, os critérios são objetivos e teoricamente podem ser preenchidos por qualquer pessoa já que os negros também poderiam ir a Europa e escravizar os brancos”

    Dado que os dois princípios não podem coexistir de maneira estável numa mesma sociedade(escravidão dos brancos pelos negros ao mesmo tempo que o inverso também ocorre), este não é um critério que pode ser preenchido por qualquer pessoa. Afinal, se numa sociedade X só o negro é escravo, então somente pessoas negras podem ser escravas, e somente brancos podem ser senhores. Um negro nunca poderia ser senhor nesta sociedade, da mesma forma que um branco nunca poderia ser escravo. Ou seja, critérios de nascença e não de talento ou história individual definem a posição do indivíduo; não é um posto social que possa ser ocupado, portanto, por qualquer pessoa.

    “E se um escravo vai ser escravo só por 4 ou 8 anos.. Ahh, isso sequer poder ser considerado escravidão né!/ É temporário.. e escravidão é pra vida toda (SIC)!!
    Se eu sou escravo e fujo, eu nunca fui escravo (SIC)”

    Não entendi o uso do SIC aqui. Que eu saiba, SIC é usado quando se cita algum discurso que contém o erro, para indicar se está se reproduzindo o erro do autor, ou seja, aquele que reproduz sabe da existência do erro, de concordância ou ortográfico.

    Mas usando o seu exemplo: se você é escravo e foge, sim você continua a ser escravo, só que agora um escravo fugitivo. Numa democracia, após esse tempo de governo, você não continua a ser ‘escravo'(para utilizar a sua analogia, com a qual eu não concordo, mas não quero problematizar aqui), perde sua condição jurídica anterior. Ou seja, faz sim diferença pois no segundo caso não existem meios jurídicos reconhecidos para recolocar a situação anterior, enquanto no primeiro caso os há.

    Além disso, numa democracia cada pessoa é, ao mesmo tempo, parte da maioria e da minoria, dependendo do assunto em questão. É diferente, portanto, do escravo que tem toda a sua vida submetida ao senhor.

  9. Renato Calisto Drumond,

    “Além disso, numa democracia cada pessoa é, ao mesmo tempo, parte da maioria e da minoria, dependendo do assunto em questão. É diferente, portanto, do escravo que tem toda a sua vida submetida ao senhor.”

    Seu argumento é falseado pela história. Zumbi foi escravo e escravagista. Chica da Silva fez parte da elite branca, mesmo sendo negra e ter sido escrava.

  10. Como é que eu me torno escravo? Já nasço como tal, dentro de uma casta, ou adquiro a condição a posteriori? E se não quiser atingir tal condição, como devo proceder? Que opções são dadas ao candidato a escravo para tornar-se um homem livre?

  11. Angelo, acho que escravo é qualquer pessoa que tenha sua propriedade privada desrespeitada. Definições sobre propriedade privada (des)respeitada são encontradas no excelente livro “A Ética da Liberdade”, de Rothbard, disponível na biblioteca deste site.

    Não conheço um procedimento prático para alguém que não queira se tornar um escravo. Acredito que todos nós, incluindo as pessoas que criaram o Instituto Mises estejam em busca dessa resposta também.

    Acredito que a única opção dada a um escravo para tornar-se um homem livre foi dada por Deus: o uso da Razão. A Razão é o único instrumento mental que dá fundamentação para o respeito à propriedade privada, igualando todos os homens e dissipando conceitos de mestre vs. escravo.

  12. Fernando Chiocca

    Não sei como uma pessoa que não me conhece nem sabe da minha história pode me chamar de torpe.

    Dá pra conhecer o suficiente de uma pessoa pelas suas atitudes. Uma pessoa que entra num site como este e se esforça para “salvar” um grupo criminoso e violento como o estado de ser comparado com algo como a escravidão é alguém que apoia de tal maneira a violência e o crime que quer fazer o possível para proteger a aurea de legitimidade dessa entidade nefasta.
    Alias, era exatamente isto (como demonstrado por Higgs) que os anti abolição faziam, tentavam proteger a aurea de legitimidade da escravidão assim que argumentos e comparações como estas surgiam.
    Ou seja, sua participação aqui só veio a dar um exemplo empírico daquilo que foi tratado no artigo.

    Dado que os dois princípios não podem coexistir de maneira estável numa mesma sociedade(escravidão dos brancos pelos negros ao mesmo tempo que o inverso também ocorre), este não é um critério que pode ser preenchido por qualquer pessoa. Afinal, se numa sociedade X só o negro é escravo, então somente pessoas negras podem ser escravas, e somente brancos podem ser senhores. Um negro nunca poderia ser senhor nesta sociedade, da mesma forma que um branco nunca poderia ser escravo. Ou seja, critérios de nascença e não de talento ou história individual definem a posição do indivíduo; não é um posto social que possa ser ocupado, portanto, por qualquer pessoa.

    Pode sim ser ocupado por qualquer pessoa. No mundo tanto os negros podem escravizar os brancos quanto os brancos podem os negros e como os vermelhos e os amarelos, etc, etc..
    Todo podem escravizar todos, só resta sabar quem terá força e falta de decência para tal. A mesma coisa ocorre com o seu amado estado, que você aqui tenta, torpemente, defender de uma comparação totalmente perfeita, onde na sua também “amada e legítima” democracia, a maioria escraviza a minoria.

    Sim, a escravidão por guerra possui critérios objetivos para que possa ser efetuada, mas cabe a nós julgarmos se estes critérios são corretos ou não. Em nenhum momento eu disse que uma norma universal é válida por si só, apenas que uma norma, para que seja válida, precisa ser universal. É uma condição necessária mas não suficiente.

    Então o estado, que não óbedece a condição de universalidade, não é uma norma válida, assim como a escravidão..

  13. Renato,

    mas cabe a nós julgarmos se estes critérios são corretos ou não.

    E é justamente isso que esses “novos abolicionistas” auto-intitulados libertários estão tentando mostrar às pessoas, não importa as “normas” que você adota, não importa se a grande maioria concorda, simplesmente não é correto escravizar (i.e., usar de ameaça de violência para controlar) ninguém. As tentativas de se defender tal coisa acabam sendo muito parecidas com os argumentos apresentados nesse texto – e olha que eu já fui um “não-abolicionista”, nesses termos. Até o dia que “I ran out of excuses”. 😛 Espero que você chegue lá um dia também e pare de defender o uso de violência contra inocentes. Leia o material do site, tem muita coisa boa. Ignore as ofensas e continue acompanhando.

    Abraços

  14. O pior: Na escravidão, os movimentos abolicionistas partiram não dos escravos mas de pessoas da elite que não concordavem com a prática e lutavam para aboli-la. Os escravos estavam resignados e a conversão ao critianismo, como se as religiões afro não fossem suficientemente fatalistas, contribuiam para esse conformismo. Esta aí outro paralelo entre escravidão e submissão a um Estado: aqueles que mais sofrem as consequencias nefastas dessa situação são os que menos se revoltam contra elas.

  15. Fernando Chiocca

    Renato, vamos tentar novamente. Imagine que dois ladrões entram em sua casa e estão levando sua TV quando vc os flagra.
    Diz para eles pararem, que a TV é sua e que não é justo eles tirarem de vc.
    Eles resolvem levar em consideração seus apelos e contra-argumentam: “Ok, vc está certo. Então vamos fazer uma votação aqui sobre isso. Quem acha que a tv deve ficar aqui levante a mão”. Vc levanta. “Agora, quem acha que a tv deve ser levada, levante a mão.” Os dois ladrões levantam. “Pronto, agora isto não é mais um roubo, e sim uma decisão democrática que contou com a sua participação.”

    É serio que você não enxerga nenhum paralelo com o estado aí?

    Mas o estado é ainda muito pior. O estado não são dois ladrões que roubaram sua tv uma vez. Ele rouba quase metade do que é seu durante toda sua vida. (além de outros inúmeros ataques a suas liberdades)

    Você, sinceramente, ainda não vê nenhuma semelhança do estado com a escravidão e suas justificativas?

  16. Fernando, essa sua analogia me lembra as do Schiff. Não pude deixar de imaginar um vídeo no YouTube, no estilo “comercial publicado antes de filmes em cinemas” :).

  17. Marcos A Machado

    Fernando,

    Congratulacoes pelo seu exemplo, que demonstra bem a democracia em que vivemos. Somos roubados a todo instante com nosso consentimento.

  18. Belíssimo Debate !\r
    saúde a todos !\r
    E esse exemplo q o fernando deu (recebido do seu professor Walter Block) da analogia dos ladrões, em maioria, com a democracia e o estado, é sensacional .\r
    Mas estou fazendo uma peça d teatro em Porto Alegre chamada REATOR , na Casa d Cultura Mario Quintana e esse da atualidade da democracia e da escravidão é o tema, e a questão principal é a vontade d poder do artista, enquanto tal, nas decisões do mundo … convido todos a pintarem lá, se passarem por aqui, claro. Reator tem estrutura épica com canções, poemas e narrativas de episódios, onde a vida do grande ator John Wilkes Booth, que fatalmente alvejou o Presidente Americano Abraham Lincoln, dentro d um teatro,durante uma comédia, serve d espelho pra base d todas as reflexões. Brutus e Julio Cesar também estão presentes . “Quem não teve vontade d matar um presidente ? ” com essa liberdade q só a poesia permite ” a união faz farsa ” no jogo da cena … até lá e parabéns pelo artigo !

  19. Eu já estava me assustando, o texto não deixa clara a intenção de comparar o monopólio estatal com a escravidão, o título também não ajuda muito. Ainda bem cheguei ao fim e entendi.

  20. A idéia de democracia se pauta na condição de liberdade, fraternidade e igualdade, e portanto da condição da liberdade negativa a ser a parteira da liberdade positiva, e portanto da condição de respeito (direitos) e responsabilidade (deveres) políticos e econômicos iguais para todos justamente por todos seres humanos, e portanto iguais inclusive nesse sentido que garante a condição da existência e da comunicação comum entre todos.

    Isso o autor do texto ignora, e mais: sugiro a ele que leia Kelsen.

  21. Completamente inútil o artigo. Completamente equivocado, ignorante, odioso e desumano o artigo. A escravidão se trata de um dos piores crimes do ser humano, nada justificando-o. E se fosse sido você o escravo ou qualquer um que apoiou a escravidão? O que dá o direito a uns escravizarem outros? Me desculpem, mas sequer pretender argumentar para justificar a escravidão já o faz com premissas falsas e absurdas. Lamentável saber que ainda existem humanos que pensam que a escravidão, sob qualquer prisma, foi benéfica.

  22. Emerson Luis, um Psicologo

    Todos (ou quase todos) os argumentos usados antigamente para defender a escravatura podem ser usados hoje para defender um Estado fascista.

    * * *

  23. Comparação inadequada em 1 e 2. Todo mundo sabe que o estado nacional moderno não é natural e não existiu desde sempre.
    Geralmente são os anarco-capitalistas que usam do argumento da naturalidade. Neste caso, em relação a propriedade.

  24. Outra coisa: não somos propriedade do estado. O estado é nossa propriedade. Se ele está contra nós, não adianta destruí-lo ou defasá-lo. A solução é tomá-lo de volta. Não há meio para isso que não seja democracia.

  25. Gente isso aqui é um mundo paralelo? Matrix? Ou a gente regressou na evolução e estou vendo um monte de neanderthal defecando pela boca?

    Dez argumentos para não abolir a escravidão…

    Explicar o inexplicável, justificar o injustificável?

    Para o mundo que esse post além de uma falácia é a prova que o Demônio existe, vou largar o ateísmo e entrar nessa seita satânica porque não é possível que qualquer pessoa com o mínimo de humanidade e conhecimento histórico possa levar em consideração esse site.

    Aposto que mais da metade da galera tem religião e se considera um cidadão de bem…

  26. O dono do texto poderia ter se esforçado para deixar claro o que ele queria dizer desde o começo eim. Não é à toa que tanta gente não gosta de vocês. . .

    De qualquer forma, bem interessante essa comparação que o autor fez entre a escravidão com o atual sistema de governo, dizendo que há semelhança nos argumentos de quem defende o estado como é hoje e quem defendia a escravidão.

    Resta saber se as semelhanças param por aí, por exemplo, no que ocorreu com os escravos após a abolição da escravidão com o que aconteceria com a população do nosso país.

  27. Wenderson Wolker

    Há um falso paralelo baseado na ideia de que o Estado é igual a escravidão. Ora, o que é Estado? O que é escravidão? Para quem e com quem?

    Ao convocar uma assembleia popular para decidir acerca da existência do Estado, a assembleia se daria conta que o problema não é o Estado em si, mas sim quem o controla. A assembleia decidiria então pela substituição do atual poder por ela mesma

  28. Paulo Henrique Wedderhoff

    Brilhantes argumentos!

    Me parece importante manter a paciência e a elegância sem agredir ninguém.

    Sobre questão da escravidão, qualquer que ela seja, penso que a regra de ouro; segundo o Google, nascida no antigo Egito – “Não faça ao outro o que não quer que façam à você” – resolveria a questão.

    Será que a escravidão pela força da lei e das armas não foi substituída pela escravidão voluntária?

    Como não produzimos tudo o que precisamos, temos que trabalhar para comer, morar, vestir, ir e vir, etc. Os abusos do início da era industrial foram contidos pelo senso ético de alguns legisladores e chegaram ao absurdo de se virar contra os beneficiados como o caso das leis trabalhistas brasileiras. Hoje exportamos empresas.

    No aspecto tributário, ao trabalhar deixamos perto de 30% (impostos diretos e contribuições patronais) para o Estado. Ao comprar deixamos outros 37% em impostos embutidos nos preços para o Estado. Fora isso, temos que comprar de particulares, alguns serviços que deveriam ser públicos. Para conseguir um mínimo de qualidade pagamos pedágios, planos de saúde, segurança, escola particular, cursinhos para corrigir o que não aprendemos na escola pública, etc).

    Precisamos do Estado como precisamos de um síndico que reúne as taxas de condomínio e aplica naquilo que a maioria entendo como prioritário para o condomínio. Ocorre que depois de 1985 permitimos que o governo crescesse e operasse sem qualquer controle.

    Já passa da hora de termos uma estrutura civil paralela organizando o pensamento liberal e se comunicando com a população votante de modo a enfrentar a equilibrar a propaganda oficial que nos submete às decisões da maioria ignorante. Os movimentos de rua são seu embrião, mas são muito desarticulados e antagônicos.

    Temos que nos organizar e combinar as ferramentas disponíveis para criar mentalidade com a capacidade critica para varrer nas urnas a escória politica que se elege para servir-se da rés publica em vez de servir-se dela. Os movimentos que conseguiram o fenômeno de 13/03/2016 precisam fazer parte deste esforço de sensibilização e esclarecimento. Visite e divulgue o idl.org.br/glossario-da-cidadania/

    Um esforço de oferecer conceitos que vacinem as pessoas contra o discurso da esquerda iludida.

    Sua contribuição na correção ou ampliação dos verbetes será bem vinda.

    Não acreditamos no monopólio da verdade, apenas na sua busca permanente.

  29. E sobre os brancos escravizados? E sobre os mais de um milhão de brancos escravizados pelos africanos nos séculos XVI a XVII? E sobre a escravidão infantil, Verdingkinders" (em português: crianças sob contrato) na Suíça que eram crianças tiradas de famílias pobres e de mães solteiras pelas autoridades, sob o pretexto de que elas não teriam condições de sobrevivência? Depois eram vendidos a fazendeiros e fábricas? Essas crianças também sofria com espancamentos e abusos sexuais constantes. E isso aconteceu até a década de 50.

  30. Concordo. Inclusive teria muito gosto em fazer desse Robert Higgs um escravo meu, intelectualmente inferior e incapaz de se proteger. Se o dono dele estiver aqui no fórum, e tiver interesse na venda, favor se pronunciar. Pago bem, mesmo estando tão acabado física e psicologicamente.

  31. A escravidão não se da por meio do mais inteligente ou capacitado mas sim o contrario, se da pela força pela ignorancia e pela falta de capacidade em aceitar uma vida curta onde os objetivos devem ser outros muito maiores do que apenas acumular muito mais do que o necessario para viver.

  32. Até o escravo perceber que o trabalho dele sustenta que não faz nada,o patrão proprietario.

    Muito legal vcs defenderem ser vagabundo em cima do trabalho dos outros…

  33. A gente vê que o país está perdido ao observar a quantidade de analfabetos funcionais.

    O artigo acima diz que os estatistas e intervencionistas que defendem a necessidade existir um estado hoje recorrem aos mesmíssimo argumentos utilizados por aqueles que eram contrários à abolição da escravidão.

    O autor é um anarcocapitalista; ele defende a abolição do estado. Ele compara o estado a uma instituição escravagista, pois o estado vive à custa dos impostos pagos coercitivamente por todos aqueles que trabalham e produzem.

    Que haja pessoas interpretando o artigo acima (leitores Fabiano e Alex) como uma defesa da escravidão mostra bem o nível latrinário da inteligência do brasileiro. E essa "jente" vota, viu?

    Aliás, para os mentalmente incapazes, eis o mesmo artigo, mas agora desenhado. Quem sabe assim…

    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=899

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