N. do
T: o artigo a seguir apresenta aquela que talvez seja a melhor e mais clara explicação
sobre o que é realmente o livre mercado – esse arranjo econômico tão
vilipendiado e deturpado pelo establishment acadêmico e midiático, não obstante
ambos não tenham a mínima ideia do que ele seja.
Todos nós já nos deparamos, ao navegar pela
internet, com algumas postagens de blog completamente ignaras. Na maioria das vezes, você simplesmente
ignora o ignorante. Afinal, você poderia
passar o resto da sua vida corrigindo esses robôs automatizados que são
incapazes de apresentar algum pensamento original ou inconvencional não
importa o quanto você os estume. Todas
as bobagens que o professor da sétima série os ensinou continuam absolutamente
intactas em suas mentes.
Entretanto, ocasionalmente, para o bem da sua
própria consciência e para o bem daqueles leitores que suspeitam que toda a
ladainha está errada, mas que não sabem exatamente onde está o erro, você vai à
forra e solta uma resposta completa. E é
isso que estou fazendo aqui em resposta a um tópico chamado “Peter Schiff: Os Usuários do
Medicare [espécie de seguro-saúde
financiado pelo governo dos EUA] São Preguiçosos que se Recusam a Pagar
Pela Própria Saúde”
Este artigo é um pouco mais longo do que os
meus artigos tradicionais, mas espero não testar demasiadamente a paciência do
leitor. Em negrito estão as palavras do
autor da postagem, que se identifica a si próprio, curiosamente, simplesmente
como “Che”.

Adoro
quando economistas de direita falam sobre “forças de mercado” e “deixar o livre
mercado gerir a economia.” Eles fazem
parecer como se o livre mercado fosse algum ser altruísta que sempre sabe exatamente
o que fazer e quando fazer.
Eu não conheço ninguém que endosse essa
caricatura típica de ginasial. Em
primeiro lugar, nenhum economista pró-livre mercado é idiota o suficiente para
usar uma frase como “deixar o livre mercado gerir a economia.” O livre mercado é simplesmente uma matriz
onde os indivíduos praticam trocas livres e voluntárias. Como pode uma matriz onde há essa liberdade
de trocas “gerir” alguma coisa?
Segundo, nenhum economista pró-livre mercado
crê que o mercado “sempre sabe exatamente o que fazer e quando fazer”. Se esse fosse o caso,
como esses economistas iriam explicar o fenômeno das falências empresariais?
O verdadeiro argumento defendido pelos
economistas pró-livre mercado é que, no livre mercado, as decisões relativas a (1) o que produzir, (2) em quais quantidades, (3)
utilizando quais métodos e (4) em quais locais, são tomadas visando satisfazer
às mais urgentes demandas dos consumidores.
As empresas, desde que operando em ambiente concorrencial, descobrem
rapidamente o que os consumidores querem e o que eles não querem – e elas
ajustam suas decisões de produção em conformidade com esses desejos
manifestados pelos consumidores.
Quando uma determinada indústria aufere
lucros, isso significa que ela está utilizando seus fatores de produção de uma
maneira que agrada aos consumidores.
Como resultado, a produção naquela indústria tende a expandir. Da mesma forma, quando uma indústria está
tendo prejuízos, isso significa que seus fatores de produção estão sendo
empregados em linhas de produção que não estão satisfazendo os consumidores
adequadamente. Logo, essa indústria está
destruindo riqueza. A única solução que
lhe resta é deslocar seus fatores de produção para outras linhas de produção
que possam produzir algo mais em sintonia com o real desejo dos consumidores.
Há ilimitadas maneiras de as empresas
combinarem seus fatores de produção de modo a produzir um igualmente ilimitado
arranjo de bens. Felizmente, o mercado
faz com que as empresas não tenham de tatear no escuro, sem saber quais dessas
trilhões de decisões devem ser tomadas.
Se o processo de produção implantado por elas
utiliza um determinado insumo que está sendo mais urgentemente demandado em
outra linha de produção, esse insumo lhes custará mais caro, o que as obrigará
a encontrar um substituto. Se elas
produzirem algo em excesso, os prejuízos resultantes irão induzi-las a produzir
menos, o que irá liberar recursos para a produção de algum outro bem que os
consumidores estejam desejando mais urgentemente. A todo o momento, os recursos estão sendo
direcionados – de acordo com os desejos dos consumidores – para aqueles
processos de produção em que eles são mais urgentemente demandados.
Portanto, não, os mercados não sabem
“exatamente o que fazer e quando fazer” – uma caricatura infantil. Porém, as respostas fornecidas pelos
consumidores, que com suas decisões escolhem o que consumir e o que não
consumir, estão constantemente levando os mercados a uma utilização mais eficiente
dos recursos limitados.
O governo, por outro lado, não tem uma base
racional para determinar o que produzir, em quais quantidades, com quais
métodos, e daí por diante. Ele não
adquire seu dinheiro fornecendo algum bem que as pessoas voluntariamente
escolhem comprar; ele adquire seu dinheiro simplesmente confiscando os fundos
de sua população vassala.
Dado que o governo não precisa seguir as
respostas fornecidas pelo mecanismo de lucros e prejuízos, cada decisão que ele
toma sobre algum processo de produção é inteiramente arbitrária, e
necessariamente implica o desperdício de recursos. Ele opera completamente no escuro. Ele não pode se ajustar às demandas do
consumidor, uma vez que não há como o governo calcular qual a melhor e menos esbanjadora maneira de produzir. Mais do
que isso, ele nem mesmo pode saber o que
produzir.
O
livre mercado não é uma entidade sem emoção e que sabe de tudo. Ele é controlado por humanos suscetíveis à
ganância, à corrupção e à exploração. O
livre mercado é tão puro quanto os falíveis seres humanos que o controlam.
Como vimos, o livre mercado é apenas uma
matriz de trocas. Portanto, ninguém em
seu perfeito juízo o descreveria como algum tipo de “entidade”, seja ela “sem
emoção”, “que sabe de tudo” ou “amarela com pontinhos roxos”.
Vamos lidar com a questão da “corrupção” e da
“exploração” mais abaixo. Mas no que
tange a encantadora devoção de Che ao governo, ele parece não considerar que
seus próprios funcionários podem estar suscetíveis à ganância, à corrupção e à
exploração. Mais adiante ele sugere que
os políticos corruptos podem simplesmente ser retirados de seus cargos por meio
do voto (Ei, Che, na sua opinião, como essa ideia vem funcionando até agora?). Ele não considera a possibilidade de que as
empresas que não produzem aquilo que os consumidores querem podem, da mesma
forma, ser democraticamente 
consumidores se abstenham de comprar seus produtos.
Se
os princípios de livre mercado pudessem atuar desimpedidamente, como Schiff
preconiza, o que ocorreria é que tudo seria baseado na maximização do lucro.
Nesse ponto todos nós supostamente deveríamos
arregalar os olhos, aterrorizados com tal panorama. Afinal, tanto Michael Moore quanto nosso
professor da sétima série já nos alertaram para a perversidade dos
“lucros”. De fato, o que mais há para
ser dito?
Porém, como vimos acima, o lucro é
simplesmente a maneira de a sociedade aprovar as decisões de produção adotadas
por uma empresa. O lucro indica aquilo
que os consumidores querem, bem como – por meio do processo de imputação [teoria que diz que os preços dos fatores são
determinados pelos preços dos produtos] – o melhor processo para se
produzir tal bem ou serviço.
Os lucros atraem mais investimentos para uma
dada linha de produção. Isso vai levar a
um aumento dos bens produzidos. Tal
processo vai continuar ocorrendo até que esse aumento da oferta de bens naquela
indústria acabe por trazer a taxa de retorno de volta ao nível existente em
outros setores da economia. É assim que
garantimos que nossos limitados recursos não serão desperdiçados, e que os bens
mais urgentemente desejados serão produzidos.
Na ausência do lucro como força motriz, como
exatamente Che gostaria de ver os recursos sendo alocados? Podemos ou permitir que as preferências dos
consumidores guiem a produção, ou deixar que as preferências pessoais de um
monopolista (ou seja, o governo) determinem o que deve ser produzido e
como. Quando a questão é colocada dessa
forma, a escolha torna-se muito clara – e é exatamente por isso que a questão
nunca é formulada dessa maneira.
Só de curiosidade, será que Che preferiria
basear as decisões econômicas na maximização dos prejuízos? Será que tal
arranjo seria melhor?
Surgem
dois grandes subprodutos quando o único interesse de uma economia é o lucro.
1.
A qualidade diminui porque as arestas precisam ser aparadas a fim de se poupar
dinheiro e poder competir (veja a China)
Che, pense nisso por um minuto. Suponha que você tenha uma economia na qual o
lucro não desempenhasse absolutamente
nenhuma função. A qualidade aumentaria nesse caso? Será que desfrutaríamos de produtos de
qualidade crescente caso as empresas não tivessem de satisfazer o público
consumidor (que é o que ‘obter lucros’ significa) para poderem continuar operando
no mercado?
Você não acha que se as empresas fossem
liberadas da necessidade de obter lucros elas se tornariam preguiçosas ou
indiferentes às demandas do consumidor?
Você acha que elas trabalhariam horas extras para fazer produtos de alta
qualidade apenas pelo bem da humanidade, ou da pátria-mãe ou de qualquer outra
abstração que o regime viesse a inventar?
Se os consumidores querem mercadorias de alta
qualidade, os produtores irão competir entre si para atendê-los. Se todas as empresas estiverem produzindo
porcarias de baixa qualidade, haverá aí uma enorme oportunidade de lucro à
espera daquele que entrar no mercado e simplesmente melhorar a qualidade do
produto. Você não crê que essas diabólicas
corporações iriam agarrar essa chance de lucro?
Por que, em seu imaginativo cenário, esses personagens perversos,
maliciosos e gananciosos repentinamente perdem sua motivação de obter lucros?
Você dirá que os consumidores não pagariam
preços mais altos por mercadorias de qualidade.
Mas de onde vem tão arbitrária declaração? Se eles não vão pagar os preços mais altos,
então isso significa que eles estão satisfeitos com o atual nível de qualidade,
e que o dinheiro que eles poderiam gastar com esses produtos aperfeiçoados
será, na visão deles, melhor utilizado caso seja gasto em outras coisas – em
produtos básicos e sem luxo, por exemplo.
Você, Che, não está em posição de julgar a
decisão deles. Se os consumidores estão
dispostos a pagar preços mais altos, então empresas mais sofisticadas irão
atender aos anseios deles – e caso você faça um mínimo de esforço e consiga olhar
ao seu redor, verá que é exatamente assim que a economia de um país minimamente
livre funciona.
Afinal, não há um limite para a potencial
qualidade das mercadorias. Por exemplo,
uma pessoa pode comprar uma casa toda feita de ouro. Mas isso não significa que todas as outras
pessoas que não querem viver em uma choça de palha só irão se contentar com
moradias banhadas a ouro. Há inúmeras
possibilidades para um meio termo. Não
há uma maneira – que não seja totalitária – de decidir qual deve ser a proporção entre
qualidade e acessibilidade que as pessoas podem escolher. Apenas os gastos voluntários praticados pelos
consumidores, bem como as decisões de produção baseadas nesses gastos, podem
fazer essa decisão.
De qualquer forma, mais uma vez tudo o que
precisamos fazer é olhar ao redor para encontrarmos a refutação para essa
estranha afirmação de Che. Os automóveis
de hoje são de pior qualidade do que eram em, digamos, 1977? Será que alguém hoje se disporia a trocar seu
Blu-ray por um videocassete de 1981? Eu
poderia acrescentar que o Blu-ray também custa um pouquinho menos, em termos
reais, do que o videocassete custava em 1981.
Acredito em você quando diz que há algo de perverso em tudo isso, Che,
mas eu simplesmente não consigo ver.
2.
Os salários diminuem, pois a ânsia de lucro da parte dos empregadores coloca os
trabalhadores em luta entre si. Por
exemplo, se não houver regulamentações trabalhistas, eu posso pagar
significativamente menos a uma mulher para ela fazer o mesmo trabalho de um
homem. Isso força os salários para baixo,
pois agora um homem terá de aceitar um salário menor caso ele queira um
emprego.
É por isso que aqueles que não entendem de
química não escrevem sobre química, e os não botânicos ficam longe da
botânica. Nesse ponto, nosso autor está
simplesmente criando coisas.
Uma enormidade poderia ser dita aqui,
inclusive o fato óbvio de que, embora os trabalhadores realmente compitam entre
si (assim como o fazem todos os fatores de produção), os empregadores têm de competir pelos trabalhadores, assim como eles têm de competir pelo aço ou por
qualquer outro insumo. Porém, para uma
simples réplica à alegação de que sob condições concorrenciais os salários vão
cair, façamos a seguinte pergunta: isso de fato ocorreu?
Nos EUA, por exemplo, durante o século XIX,
sem que houvesse nenhuma das instituições que Che acredita serem indispensáveis
para fazer os salários subirem, os salários reais quadruplicaram. Isso não poderia ter acontecido, de acordo
com ele – a concorrência entre os trabalhadores deveria ter derrubado os
salários. Mas em quem você vai
acreditar, em Che ou em seus próprios olhos?
Mas agora prossigamos para a segunda
afirmação: em um livre mercado, Che poderia pagar a uma mulher menos do que a
um homem, o que significa que consequentemente os homens teriam de aceitar
salários mais baixos.
Não me surpreende que Che creia que os
salários são determinados pelos caprichos arbitrários dos empregadores – este
é, afinal, o pensamento convencional que perpassa o público em geral, e seria
inimaginável se afastar dele.
Evidentemente, devemos nos apegar incontestavelmente a tudo aquilo que
nosso professor de ciências sociais nos ensinou.
Mas, se em um genuíno livre mercado as
empresas podem arbitrariamente diminuir os salários das mulheres, política essa
que logo depois inevitavelmente se estenderia aos homens, por que então elas
não diminuem os salários de ambos hoje
mesmo? A legislação que impõe
igualdade de pagamento para ambos os sexos não diz nada sobre a diminuição dos
salários; portanto, por que os
empregadores não vão adiante e utilizam seus poderes mágicos para reduzir os
salários agora mesmo? Por que eles
deveriam esperar que a legislação de igualdade de pagamento seja repelida para
só então seguir o convoluto caminho de Che (primeiro diminuir os salários da
mulheres e então obrigar os homens a também aceitar os salários mais baixos?)
A resposta óbvia é que os salários não são
arbitrários. Se as empresas tentassem
fazer aquilo que Che propõe, o resultado não seria a redução dos salários dos
homens. A disputa pela mão-de-obra iria
inevitavelmente voltar a elevar os salários das mulheres.[1]
Não há razão em fingir que o nível de
pagamento que os trabalhadores usufruem atualmente tem alguma coisa a ver com o
salário mínimo ou com os sindicatos; a vasta maioria dos americanos, por
exemplo, ganha bem acima do salário mínimo, e os sindicatos sempre foram um
fator negligenciável nos EUA. Por toda a
história, os salários dos trabalhadores americanos sempre superaram os salários
dos países europeus, muito mais fortemente sindicalizados. Che não consegue explicar nada disso; segundo
sua lógica, todos deveriam estar ganhando salário mínimo.
Também, completamente negligenciada na
análise de Che está a tendência de os salários reais aumentarem no livre
mercado.
Como ocorre esse processo? Quando as empresas aumentam e melhoram os
equipamentos e maquinários à disposição dos trabalhadores, sua mão-de-obra
torna-se mais produtiva. Imagine uma
pessoa utilizando suas próprias mãos para empilhar paletas ao invés de uma
empilhadeira; ou produzindo livros com uma impressora do século XVI ao invés de
equipamentos mais modernos. A quantidade
de produção da qual a economia é capaz é dessa forma aumentada, de maneira
quase sempre acentuada, e esse aumento na produção pressiona para baixo os
preços dos bens de consumo (em relação aos salários).
Contudo, não há nada de natural ou de
inevitável quanto à disponibilidade desses bens de capital capazes de
intensificar a produção. Eles não caem
do céu. Eles advêm da decisão dos
perversos capitalistas de se absterem do consumo. Ao se absterem do consumo (pouparem), eles
estão liberando capital para outras atividades.
E é essa realocação dos recursos não consumidos que será transformada em
investimentos em bens de capital.
Esse processo é a única maneira de
possibilitar um aumento geral do padrão de vida. Apenas dessa maneira pode o trabalhador comum
aumentar sua produtividade. Como
conseqüência, apenas dessa maneira pode ele ser capaz de consumir mais daquilo
que ele está acostumado a consumir. Pois
o aumento da produtividade da mão-de-obra, possibilitada pelo capital
adicional, reduz os preços dos produtos em relação aos salários. Como? Ao se aumentar a quantidade de bens
produzidos, passa a haver uma maior quantidade de bens de consumo em relação à
oferta de mão-de-obra. Colocando de
maneira mais simples, melhorias no processo de produção que levem a um aumento
da oferta de produtos tornam esses produtos mais baratos e mais fáceis de serem
adquiridos pelas pessoas.
É por isso que, para se ganhar o dinheiro
necessário para a aquisição de uma grande variedade de bens, são necessárias
hoje menos horas de trabalho do que eram no passado. Graças aos investimentos em bens de capital,
que é o que as empresas fazem quando seus lucros não lhes são confiscados (para
delírio de pessoas como nosso amigo Che), as economias de hoje são muito mais
fisicamente produtivas do que costumavam ser, e, como consequência, os bens de
consumo existem hoje em uma abundância muito maior e são correspondentemente menos
caros do que antes.
Em 1950, por exemplo, um americano tinha de
trabalhar seis minutos para ganhar o dinheiro suficiente para uma unidade de
pão; em 1999, esse tempo havia caído para três minutos e meio. Para poder comprar uma dúzia de laranjas em
1950, eram necessários 21 minutos de trabalho.
Em 1999, esse tempo já havia caído para 9 minutos. Pagar por 100 quilowatts de eletricidade
requeria duas horas de trabalho em 1950, mas apenas 14 minutos em 1999. Uma pessoa, no ano de 1900, teria de
trabalhar nove horas para comprar uma calça jeans. Em 1950, esse tempo havia caído para quatro
horas; e em 1999, para três horas. Para
um frango de 1,4 kg, eram 160 minutos em 1900, 71 em 1950 e 24 em 1999.[2]
Quando Che quer tributar as empresas, como
você pode ter certeza de que ele quer, ele está defendendo a sabotagem aberta do
processo que permite aumentar o poder de compra de todos os indivíduos de uma
sociedade. As sociedades mais
industrializadas de hoje seriam muito mais ricas caso as alíquotas mais altas
de seus respectivos impostos de renda tivessem sido menores ao longo de todo o
século XX.
Caso os governos não tivessem confiscado
tantos recursos para em seguida desperdiçá-los em gastos de consumo, esses
recursos estariam livres para investimentos que teriam tornado as economias
permanentemente capazes de produzir mais riquezas do que as atuais. Como resultado, o padrão de vida de todos
seria hoje muito maior.
Se
não há regulação das “forças de mercado” pelo governo, você essencialmente
coloca o poder nas mãos de executivos que não têm de prestar contas a ninguém,
exceto a seus acionistas. E para manter
os acionistas satisfeitos, o lucro deve ser maximizado por qualquer método
possível. Se isso significar exploração
e corrupção, então que assim seja.
Como “exploração” e “corrupção” não foram
definidos, não há como saber do que Che está falando. Por “exploração” ele presumivelmente está se
referindo à teoria marxista de que uma concorrência intensificada leva a
menores salários, uma besteira que já abordamos.
Por “corrupção” ele pode ter querido dizer
uma de duas coisas. Ele pode estar se
referindo ao uso da fraude, do roubo ou de alguma outra violação da lei. Se esse é o caso, então ele não mais está
falando do mercado livre e desimpedido, que pune comportamentos criminosos e
antimercados como esses. Portanto, seu
comentário seria irrelevante. Se alguém
viola a lei, ele deve ser punido. Se
esse alguém é culpado, mas não é punido, isso dificilmente seria culpa do
mercado – afinal, quem monopoliza a oferta de tribunais e de serviços
policiais? (Vou lhe dar uma dica: não é o livre mercado).
Ele pode também estar se referindo ao uso de
lobistas para se conseguir privilégios especiais do governo, ou para prejudicar
os concorrentes. Mais uma vez, ele não
está realmente criticando o livre mercado, ainda que pense estar. Nesse caso sua crítica não cabe ao livre
mercado, mas sim ao próprio governo.
O livre mercado não possui nenhum mecanismo
de coerção capaz de conceder privilégios especiais a algum grupo. Apenas o governo tem o poder de iniciar
coerção. Você quer que haja uma única e
monopolística instituição dotada de plenos poderes para organizar a sociedade
da maneira que mais a apeteça, e depois fica surpreso quando ela passa a ser
dominada por forças antissociais e 
Se permitissem que as
regulamentações governamentais controlassem uma economia, aqueles que
instalarem as regulamentações podem ser responsabilizados caso as
regulamentações sejam muito intrusivas.
Peguemos novamente o exemplo dos
EUA. Existe um calhamaço chamado Code of Federal Regulations, que lista
todas as regras e regulamentações vigentes no país. A cada ano, esse registro federal acrescenta
mais de 70.000 páginas de detalhadas regulamentações federais. Pela lógica, se apenas uma dessas páginas
fosse eliminada, todos os americanos morreriam instantaneamente. Afinal, as regulamentações foram criadas para
mantê-los a salvo! De acordo com Che,
nenhuma dessas regulamentações pode ser considerada “muito intrusiva” – pois se
fosse, certamente ela já teria sido revogada!
Isso me lembra de uma aluna que tive
certa vez e que, ao descobrir que o Job
Corps [programa de treinamento
vocacional e educacional administrado pelo governo americano] era um
completo e absoluto fracasso sob todos os parâmetros imagináveis, inocentemente
perguntou por que ele não havia sido revogado.
Eu não culpo a aluna – com essa pergunta ela estava começando a
descobrir as coisas pela primeira vez.
Já Che gerencia um blog sem jamais fazer uma única pergunta atípica.
No mundo de Che, toda a literatura
sobre a “captura” de agências reguladoras, que descreve como as indústrias e as
grandes empresas influenciam as regulamentações para benefício próprio, não
existe. A regulação está ali unicamente
para o bem público.
Na caricatura típica, se você defende o
livre mercado, então você defende a poluição e várias outras formas de invasão
de propriedade. Mas a realidade,
obviamente, é oposta. Alguém que
acredita no livre mercado se opõe a essas coisas porque elas danificam a
propriedade alheia sem o consentimento de seus donos. Isso não significa que a única solução é a
“regulamentação”. Eis um
aqui uma maneira genuinamente pró-livre mercado de se pensar nessas questões.
Che também pode estar se referindo às
regulamentações dos mercados financeiro e bancário, as quais são bastante
rígidas, não obstante toda aquela conversa sobre “desregulamentação”. A desregulamentação é quase sempre falsa,
como quando as instituições financeiras são autorizadas a fazer apostas
arriscadas ao mesmo tempo em que o governo segue garantindo seus depósitos.
Reclamações sobre falta de
regulamentação também são irrelevantes.
Se você tem um castelo de cartas desmoronando, você não precisa de cola
ou fita adesiva – o equivalente a “mais regulação”. Você precisa é de uma casa nova, construída
sobre fundações solidas. Em outras
palavras, você precisa de um sistema monetário rígido que não possa ser
manipulado por governos ou por seus bancos centrais. Essa opção não existe no mundo de Che, já que
em seu mundo o sistema existente já é um de livre mercado.
Ademais, os atuais reguladores não
viram nada de errado com a maneira como o modelo de securitização estava
funcionando. E, com efeito, várias
instituições financeiras estavam de acordo com as várias exigências de capital
propostas pelos padrões regulatórios internacionais. O próprio sistema regulatório deu aos bancos
incentivos para praticar a securitização de empréstimos, elevando os riscos
inerentes a essa prática. Seria a
solução acrescentar mais reguladores? Ou
será que há algo de errado com o próprio sistema – um sistema em guerra com o
livre mercado, um sistema que gera a extrema alavancagem e a enorme
instabilidade que periodicamente observamos?
Outra questão óbvia e rotineiramente
negligenciada nesse contexto é: por que um regulador sem nenhuma participação
financeira em uma empresa saberia melhor como satisfazer a demanda dos
consumidores do que um legítimo proprietário empreendedor cuja riqueza depende
de seus acertos? Quão supersticioso você
precisa ser para acreditar nisso?
Entretanto, comentaristas ignorantes
que clamam por mais regulação atribuem poderes mágicos a pessoas que, no mundo
real, são indignas desses encarecimentos.
Como Robert Higgs explicou,
“Tivessem eles sido agraciados com maiores poderes, orçamentos e equipes, qual
feitiçaria iria transformar os reguladores em defensores obstinados e sagazes
do interesse público, ao invés dos parasitas servis e protetores das empresas
reguladas que eles sempre foram?”
Quantos formandos de faculdades de
administração ou de outras áreas ambicionam se tornar reguladores? Vamos colocar as coisas de forma generosa e
apenas observar que são os mais lentos que acabam indo para as agências
reguladoras, e são os mais brilhantes que acabam se tornando empreendedores de
sucesso. É de se esperar que um sujeito
que se formou na posição #505 de uma turma com 508 pessoas tenha seus cadarços
amarrados por um sujeito que se formou em #12?
Por último, o livre mercado não injeta
dinheiro e derruba as taxas de juros a níveis que promovem bolhas
insustentáveis. Sem um Fed, não teria
havido uma bolha imobiliária. E sem essa
bolha, não haveria o atual colapso. O
livre mercado pune os tomadores de risco imprudentes, ao passo que o governo os
socorre (algo que, por sua vez, os encoraja a assumir riscos maiores no
futuro). Foi do Fed, e não do livre
mercado, que emergiu a “Doutrina Greenspan” – a promessa implícita de sempre
socorrer os grandes players de Wall Street.
O Financial Times alertou que
essas garantias estavam estimulando investimentos perigosamente arriscados.
O livre mercado não proporciona tais
garantias, o que consequentemente cultiva uma classe mais 
de empreendedores. Será que há alguma
lição aqui?
Responsabilizar o governo por suas ações chama-se Democracia.
Responsabilizar um presidente de empresa por suas ações chama-se
impossível.
Difícil algum outro raciocínio superar
esse em termos de comicidade involuntária.
Che absorveu toda a propaganda que lhe foi infundida na escola sem um
pingo de pensamento independente. Nossos
sábios servidores públicos estão genuinamente preocupados com o bem comum, e
qualquer coisa que eles porventura venham a fazer contra os interesses do povo
são aberrações desafortunadas – uma mera “corrupção” que pode ser punida na
próxima eleição. Afinal, o nosso sistema
político democrático mantém o governo subordinado ao povo!
O Banco Central, que desfruta de um
monopólio dado pelo governo sobre a criação de papel-moeda de curso forçado, criou
as condições que geraram a atual crise econômica. (Apresentei alguns dos contornos teóricos aqui). Alguém
foi “responsabilizado” por isso? Aliás,
quem no governo americano foi responsabilizado por qualquer coisa relacionada à crise financeira?
Você está nos dizendo que os pacotes de
socorro do governo foram um exemplo de virtuoso espírito público ao invés de um
explícito “presentinho” dado para os amigos e aliados do regime? Os socorros, na realidade, foram um exemplo
de intervenção estatal com o intuito de impedir que o livre mercado
responsabilizasse e punisse os executivos incautos.
Quer manter um executivo ou presidente
de empresa subordinado a você? Pare de
comprar seus produtos. Agora me diga:
como eu paro de comprar os “produtos” do governo? Ah, sim, eu havia me esquecido, eu não os compro – o dinheiro para
financiá-los é confiscado de mim.
Existe um mercado para o controle das corporações,
diga-se de passagem. Porém, as mesmas
pessoas que reclamam ruidosamente sobre executivos subordinados a nada e a
ninguém, tendem a ser as que mais se opõem e mais criam barreiras contra as aquisições
corporativas. Aqui, mais uma vez, temos
o governo impedindo o mercado de fazer suas tentativas de corrigir as más
alocações de recursos.
Agora, você pode dizer que estou sendo
muito duro com Che. O pobre garoto está
apenas repetindo o que aprendeu no ensino fundamental. Como posso culpá-lo? É esse tipo de propaganda que ensinam às
crianças, e não podemos criticar Che por estar simplesmente repetindo tudo
aquilo que seu professor falou.
Eu o culpo apenas por ser tão
incorrigivelmente apático e desinteressado.
Os garotos mais perspicazes são capazes de perceber que estão sendo
alimentados pelo tipo mais grosseiro e óbvio de propaganda, a qual é
esquematizada para torná-los pequenos servos obedientes a seus senhores
supremos, que alegam estar protegendo-os daqueles maléficos exploradores sobre
os quais eles lêem em seus livros-texto.
Os garotos perspicazes vão em busca da verdade e descobrem que os reais
exploradores são os próprios senhores supremos, parasitas da economia
produtiva, e que vivem dos frutos do trabalho alheio ao mesmo tempo em que dizem
que os resultantes malefícios sociais são culpa dos vários espantalhos que as
crianças foram ensinadas a odiar.
Os garotos mais lentos, em contraste,
apenas se limitam a memorizar toda a logorréia vomitada por seus professores, a
transcrever roboticamente tudo em suas provas e a repetir monotonamente todas
essas parvoíces pelo resto de suas vidas.
_________________________________________________
[1] A precificação dos
fatores no mercado, inclusive de fatores originais como mão-de-obra, ocorre por
meio de imputação reversa: da valoração que os consumidores fazem do produto
final. A teoria da produção é coberta
por Murray Rothbard em Man,
Economy, and State: A Treatise on Economic Principles (Auburn, Ala.:
Ludwig von Mises Institute, 1993 [1962]), caps. 5-9. Os vários mitos sobre a desigualdade do poder
de barganha da mão-de-obra e sobre a importância dos sindicatos para o
bem-estar material dos trabalhadores são discutidos em meu livro The
Church and the Market (Lanham, Md.: Lexington, 2005), pp. 73-78.
[2] Michael Cox and
Richard Alm, Myths of Rich and Poor (New York: Basic Books, 1999), p.
43.
O
Surgem
2.
Se
Comecei a semana pós-feriado lendo um ótimo texto!
Texto sensacional, assim como o Woods
Estupendo! Vou imprimir e distribuir pra alguns conhecidos cultores do atraso.
Excelente texto! É triste frequentar a Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia e constatar que boa parte dela é composta de “Ches”.
De fato, ótimo texto.\n\nGostaria de ver, no entanto, o “outro lado”.\n\nAssim, pergunto, onde posso encontrar a teoria marxista que embasa o seguinte trecho: “Por “exploração” ele presumivelmente está se referindo à teoria marxista de que uma concorrência intensificada leva a menores salários, uma besteira que já abordamos.” ?
Xico, só para avisar, toda a teoria marxista está embasada numa premissa falsa, a de que o valor de algo é proporcional ao trabalho aplicado para produzir esse algo.\nMas enfim, se ainda assim quiser perder teu tempo lendo marxismo, não vai faltar conteúdo na internet.
Texto magnífico! De um didatismo extraordinário!
Texto Ecelente.Realmente, é triste frequentar a Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia e perceber que está infestada de ” Ches”.
Caramba! Esse artigo tem de ser divulgado para o maior número de pessoas possível!
Não é à toa que o Woods é um grande palestrante: seu domínio teórico e sua segurança são invejáveis.
Mais, por favor, mais!
bom texto
apesar da plausibilidade do texto na maioria das abordagens, parece mais um recado para aqueles que se deixam levar pela teoria marxista. esse texto fala tanto da galera do ensino fundamental, como se o autor ja nascesse com nivel superior.
Nunca li um texto tão autoritário como esse.
Em que não existe argumentação contrária.
achei péssimo.
Brilhante texto….é o que penso…liberdade econômica.Precisamos melhorar o nivel dos professores das Universidades….a maioria com viés esquerdista em pleno século XXI..ACORDEM BRASILEIROS…….
Mercado é uma invenção para iludir e convencer as pessoas, que faz com que elas fiquem imobilizadas diante desse deus, esta entidade, ser extraterreno, imponderável, indefinível, inalcansável, incompreensível. \r
Não proteste, não discuta, não participe, é uma imposição do mercado. Na verdade o nercado é um grande embuste para calar-nos. \r
O mercado é muito bem conhecido, muito bem controlado pelos poderosos, que sabem tudo do mercado e controlam a economia para obter vantagens.
Brilhante!
Entendo… mas faltou alguns contrapontos:
Onde entra a Obsolescência Programada, nesse contexto?
Onde entra a quantidade de bugigangas inúteis que compramos iludidos pela TV?
Onde entra a escassez de recursos naturais, e o desejo insaciável de consumo?
Onde entra a bolha imobiliária e a crise europeia?
Ford uma vez disse: se eu perguntasse o que as pessoas queriam, elas me responderiam “cavalos mais rápidos”.
Proponho a algumas questões:
Será que o carro particular deveria ser o ideal meio de transporte de apenas uma pessoa?
Será que Londres não tem um melhor exemplo de mobilidade com sua malha de metrô?
Será que deveríamos ter abandonado as ferrovias no Brasil para movimentar a economia com a indústria automobilística?
Por diversas questões similares a essas, penso que o livre mercado ainda não é o “modelo” ideal.
Mas aguardo abertamente respostas a cada item acima.
Calma Guilherme,
Não leve para o lado pessoal, por favor.
Perdão se coloquei muita informação em pouco texto.
Minha discussão está sobre as sutilezas do óbvio.
Não venho com a verdade, tampouco quanto o comportamento “ideal” humano.
Assista ao documentário que passei por favor (vimeo.com/69855210), dá pra entender melhor esse texto meu bagunçado acima.
Em resumo, a impressora do rapaz tem um chip que conta páginas até parar de funcionar.
As lâmpadas possuíam vida longa até descobrirem que não se faz dinheiro se elas não queimarem.
Há uma lâmpada que continua acesa por mais de 100 anos nos EUA.
E muito dos restos eletrônicos vão para Africa contaminando o solo e as pessoas com minérios pesados.
Apenas proponho uma reflexão sobre o livre mercado.
Seria sensato eu usar da minha liberdade e desmatar uma área suficiente para provocar um grande impacto ambiental, apenas para adquirir um exorbitante lucro, enquanto pago miséria aos trabalhadores?
Devemos evitar isso? A liberdade minha é acima de todas as coisas?
Onde inicia e onde termina minha liberdade?
Até onde o Estado deve interferir? Ou NUNCA deve interferir.
E lembre-se, é só uma reflexão. Não leve isso a sério.
P.S.: por favor não me mande o post de liberdade que eu já li rs, quero uma resposta espontânea, já que é uma questão que os filósofos se contorcem pra responder! rs)
O que me diz a respeito do aumento do número de suicídios em crises econômicas?
revistaforum.com.br/blog/2013/08/suicidios-a-face-radical-da-austeridade/
A vida moderna é o grande símbolo do capitalismo, seja na sua face liberal ou na de Estado. Dentre essas duas formas de capitalismo, a que mais atinge gravemente o meio ambiente é de Estado. Vejam o caso da Petrobras quando há vazamento de petróleo: ela foi multada? foi; a multa foi paga? Entretanto, uma virtude do capitalismo é clara: a capacidade de propor soluções para males que ele mesmo tenha criado. Estaria enganado?
Este “Che” cometeu diversos outros erros de lógica. Um deles foi confundir “correlação” com “causalidade”.
Um bom exemplo é que as estatísticas mostram que em média as pessoas mais altas recebem remunerações maiores do que as mais baixas.
Em primeiro lugar isso é uma média. Não significa que toda e qualquer pessoa mais alta recebe mais do que toda e qualquer pessoa mais baixa.
Em segundo lugar, mesmo que haja uma correlação entre A e B, isso não significa que A causa B. Pode ser que B cause A ou que tanto A quanto B sejam causados por C, um terceiro fator não considerado.
Nenhum indivíduo recebe mais que outro só porque é mais alto. O que acontece neste caso é que as pessoas mais altas em geral tiveram melhor alimentação e melhores oportunidades de estudo e trabalho. Ou seja, tanto A quanto B são causados por C.
E o que provoca (ou deixa acontecer) isso não é o livre-mercado e sim o intervencionismo.
* * *
Questões escapam ao livre mercado e não podem ser bem explicadas por ele:
Capacidade de planejamento e estratégia em conjunto para o bem social: em serviços básicos para a sociedade, como pode o livre mercado prestar serviço de excelência? Não que a resposta seja necessariamente o inverso, mas qual é a resposta do livre mercado para, por exemplo, transporte público em grandes cidades? Todo mundo vai ter um carro? Certo. Nesse caso, quem constrói ruas e calçadas para tanto carro? As ruas e calçadas de uma cidade seriam entregues ao livre mercado também? Nesse caso, se uma empresa comprasse minha rua, e eu não gostasse da administração dela, eu simplesmente mudaria de rua? Quero dizer com isso que nem tudo pode ser privatizado, entregue ao livre mercado. Apenas para ilustrar essa questão, vale lembrar como funcionava o sistema de transporte no Rio de Janeiro até 1950, numa pura economia de livre mercado: não existiam itinerários fixos e nem linhas específicas: surgia-se ônibus de péssimas condições segundo a necessidade que operavam um trajeto e em determinado momento, faliam, ou não viam mais razões de explorar o serviço e simplesmente, de um dia para o outro paravam de passar. Pessoas que precisavam do serviço não tinham informações. Trajetos que não eram de grande rentabilidade não eram feitos. Metro é outro exemplo. Metrôs são, naturalmente, monopólios. Não tem como ter duas linhas de metro que operam a mesma linha, então são monopólios. Numa economia de livre mercado, monopólios são uma real ameaça.
Outra questão refere-se sempre a outros tipos de serviços públicos: como gerir interesses de linhas de barcas (mais uma vez em referência ao rio de janeiro) que passam por uma baía com capacidade limitada de transporte, e sendo isso uma necessidade básica, inevitável, como impedir a não formação de cartéis e monopólios dentro desse sistema sem algum tipo de regulação?
Lixo: qual é a sugestão do livre mercado para a gestão de lixo? Por uma questão de preço, que é sempre fundamental, cada empresa compraria seu próprio terreno e existiriam centenas de aterros sanitários ao redor das cidades? Esse esquema do lixo hoje em dia é facilmente visualizável, principalmente no Brasil: embora existam as companhias de serviço público que executam serviços, algumas empresas simplesmente pegam o lixo e jogam em outro lugar que não o aterro apropriado, gerido pelo Estado, que causa sérios problemas ambientais. Apesar de não se tratar apenas do livre mercado, pois nesse caso estamos falando de um crime ambiental previsto em lei, vale lembrar que ainda assim, quem escolhe o lugar dos aterros é necessariamente o Estado, de acordo com o interesse público, e ainda que escolhessem 100 lugares de aterros diferentes e depois vendessem à iniciativa privada, a impossibilidade de existência de novos aterros possibilitaria, mais uma vez, a existência de monopólios e cartéis, havendo necessidade portanto da criação de algum tipo de regulação governamental.
Outra questão é as empresas de telefonia, rádio e televisão. Ou vocês acreditam que seja possível a criação de quantas faixas de telefonia e televisão disponíveis? Vale lembrar que o setor de televisão especificamente é atualmente, no mundo quase inteiro, uma perfeita economia de livre mercado. Paga-se pelo conteúdo e assiste-se o canal que dá na telha, se quiser, e mesmo assim, é um monopólio absurdo que controla a quase totalidade dos canais de televisão, Sony, Warner Channel e Fox. Não estou falando da TV Globo, embora também seja um exemplo digno.
Energia elétrica: cada empresa que quiser vai começar a escavar uma rede de eletricidade pelas cidades para prestar serviço? E se ela falir, aí todo mundo fica no apagão? Cada rua teria 8 postes lado a lado de cada empresa? E no interior do país? Fica sem energia mesmo porque não é rentável para as empresas ou vai ter que pagar uma fortuna para ter energia elétrica?
Especulação imobiliária: dessa eu acho que nem preciso falar nada né.
Defensoria pública: Direitos Humanos sem Estado presente não existe. Advogado não trabalha de graça (salvo exceções, com as quais não se pode contar) e o Estado tem de garantir assistência jurídica a todos que necessitem.
Seguridade Social: é bonito ouvir dos bancos privados que devemos fazer nossos planos de seguridade privados, mas se o banco vai à falência, quem pagou a vida inteira não recebe nada. Já o Estado tem sempre suas obrigações.
E por último, um dos mais importantes pontos é a respeito da educação: Como colocar a educação nas mãos de empresas privadas e entregá-las ao livre mercado? Esse processo ocorreu já em vários países dentre os quais o Brasil. Naturalmente, uma empresa assume um serviço se tiver lucro, portanto, o sistema educacional precisa ser lucrativo. Até aí tudo bem. Entretanto, como permitir que esse sistema não excluiria da rede educacional alunos de baixa renda, sem capacidade de pagar escolas? Esse é realmente um ponto chave, pois não existe em NENHUM lugar do mundo e demonstra a importância do Estado em determinadas funções. Quem educa o cidadão é o Estado. A concorrência com escolas privadas por outro lado, como acontece aqui, é benéfica, evidentemente, pois se complementam. Outra questão é a das Universidades. No Brasil há o livre mercado no setor de ensino superior há anos, e no geral, o desempenho é ridículo. As melhores universidades são as públicas indiscutivelmente, aqui e no mundo inteiro. O setor privado não é um bom gestor da educação (e se as escolas públicas no Brasil são ruins não é porque elas não são privadas, e sim porque o Estado não investe o suficiente nelas, embora ainda assim haja MUITAS escolas públicas muito boas).
Resumindo, quando não se trata de vender produtos, isto é, para setores de primeira necessidade – energia elétrica, água potável, esgotamento sanitário, coleta de lixo, transporte público, educação pública, manutenção de espaços urbanos, etc… a responsabilidade deve sempre ser assumida pelo Estado, e não pela iniciativa privada. São setores que não dão lucro e portanto não podem estar incluídos numa economia de livre mercado. E quanto as concessões então, essa é a mais complexo. Porque aí o Estado esta abdicando do que seria sua função primária, dessas coisas não lucrativas aí em cima, e entregando a iniciativa privada, que com a certeza de uma remuneração lucrativa, farão sempre o pior serviço possível para obter mais lucro. E sim, eu sei que esse último ponto não se enquadra no que poderíamos classificar como livre mercado, apenas me deixa muito indignado.
O Estado precisa conviver com economia de livre mercado sim! Mas precisa encontrar o equilíbrio entre isso e proteção social, além de desempenhar suas funções intransferíveis.
Haja arrogância de alguns nesse site.
Sempre que alguém questiona o livre mercado aqui, alguns respondem com links de artigos.
Me desculpe, mas boa parte deles são questionáveis ao saírmos do ponto de vista econômico.
Alguém aqui pode me dizer países em que o livre mercado (com TOTAL ausência de Estado) promove cuidados sociais à sua população?
Por favor, não me venha APENAS com links do próprio site demonstrando arrogância, li muito dos artigos aqui, além de Smith e do próprio Von Mises, e até agora não se resolve questões sociais.
Vivemos um mundo cada vez mais artificial onde se cria soluções para problemas que nunca tivemos.
Eu respeito aos estudiosos de economia aqui, apenas acrescento que lhes falta estudo em sociologia, psicologia e filosofia.
Me refiro que os artigos não respondem à muitas perguntas.
Por exemplo, se falarmos de obsolescência programada, o artigo lá é incompleto.
Se eu cito aqui obsolescência programada como algo que funciona de maneira ecologicamente irresponsável, alguém aqui me mandaria o link do artigo pra ler, como a resposta perfeita para questões não respondidas.
Lá não vai me dizer o REAL motivo que minha impressora conta as páginas para não mais funcionar. Ou o porquê que minha lâmpada teve suas horas reduzidas para que eu compre mais lâmpadas.
Mas claro, o motivo é o mercado. É tudo que interessa para os economistas. O mercado.
E as questões sociais em que o livre mercado ignora?
O senhor idoso sem estudos, sem comida e água suficientes no sertão terá que esperar o mercado providenciar a solução pra vida dele? É realmente isso que querem defender?
Acham mesmo que eliminar o Estado é a solução pra esse senhor?
E os 20 filhos dele? Vão ter que pagar escola particular? Mesmo barateadas pela alta concorrência, eles não têm o que comer direito, assim como o pai, e vão ter que trabalhar na roça. Pois vocês “retiraram” o Estado da vida deles.
Como disse anteriormente, faltam em vocês economistas estudos complementares em sociologia, psicologia e filosofia.
Sobre questão da obsolescência programada, faço um adendo. A entidade que mais faz campanha para as pessoas se livrarem de coisas velhas e comprarem coisas novas é o governo (vide o programa do governo Lula de dar geladeiras novas para os pobres e vide o programa “cash for clunkers” do governo americano). Por que ele escapa da acusação de ser o fomentador da obsolescência programada?
Penso que nunca sairemos do estadismo, pelo simples fato de que nada impede os grupos poderosos (bancos, exportadores, empresários) de coagir financeiramente membros do governo (lobismo) para que os favoreça em detrimento da grande maioria da população. Vivemos em um estadismo corporativista! Talvez uma colossal crise financeira faça a grande massa populacional acordar para a realidade. Mas depois, quando a situação se estabilizar, os grupos poderosos poderão voltar a atuar. É frustante isso, saber que a formula da “riqueza das nações” existe, mas é mantida apenas na teoria.
Adorei o artigo. Realmente maravilhoso. Curso história na Universidade Federal do Ceará e desde que entrei a um ano e meio percebi que estava em um curral marxista, esquerdista etc, etc, etc. No C.A. chamado Frei Tito de Alencar (teólogo da libertação)tem um quadro enorme do Che. No ultimo ENEH – Encontro Nacional dos Estudantes de História – um dos “homenageados” foi o “saudoso” Hugo Chaves. Estou cansado de esse caras dizerem que o “Chaves é massa e que o Fidel é bom”. É ridículo ver essa galerinha militante “lutando” pela educação e passando em A.F. na maioria das cadeiras. É ridículo a bibliografia do curso privilegiar autores de esquerda. Estou cansado de ver o curso que amo ser manipulado. A UFC esta formando professores idiotas e mercenários. No mês passado tive de presenciar, para meu desgosto, uma professora parar a aula para defender o PT, o Genuino e toda a corja petista. E pior defender o massacre do “velho Che e do Fidelzinho”. “Eles estavam em uma guerrilha e em uma guerrilha se mata”(palavras da professora). E o que justifica a guerrilha? A revolução do proletário!?. Uma sociedade justa? Um mundo melhor? Por acaso a ditadura CIVIL-MILITAR brasileira também não lutou pelo melhor!!!??… Meu comentário pouco tem de ligação com o artigo, mas, por favor, entenda-o como um desabafo.
É isso mesmo.
Nossa discussões abrasivas aqui!
Qual sua opinião sobre a ECONOMIA BASEADA EM RECURSOS?
http://www.amo.cafe/guru/ideias/economia-baseada-nos-recursos/
Desde já agradeço!
Instituto Mises, uma sugestão:
Vocês poderiam disponibilizar os podcasts no Spotify. Seria uma maneira mais prática para acessá-los, e também uma maneira mais fácil para compartilha-los, visto que playlists podem ser divulgadas.
Agradeço.
Tem no spotfy?
att,
Prezados. Sou ouvintes de você a uns 2 anos. Sou formado em economia e meus ideais econômicos são bem distintos dos da escola austríaca. Mesmo assim gosto muito de escuta-los para fazer um contraponto entre essa escola de pensamento econômico e a escola que eu me identifico.
Venho aqui faze uma critica a esse ultimo programa. As análises do Plano de Governo do Fernando Haddad feitas pelo professor Ubiratan Jorge Iorio foram bastante superficiais e falaciosas.
Existem diversas formas mais honestas que criticar o Haddad e o Plano de Governo dele, porem essas analises foram um desserviço para o debate eleitoral. Em alguns pontos afirmo até se tratar de Fake News.
Att.
Consigo entender o argumento do professor Bira e não acho que algum liberal vá votar 13 ou nulo no 2º turno, mas a eleição do Bolsonaro também virá com seus custos para os liberais e libertários no longo prazo.
* Primeiro porque enquanto Brasil for Brasil com seus 26 estados, sempre vai ter um candidato querendo transformar o Brasil em um Cubão. Bolsonaro e Amoêdo foram bem, mas Ciro, Haddad e Daciolo também foram. Isso simplesmente é reflexo da mentalidade brasileira. A difusão de ideias liberais não é igual para todos os estados nem para todos os estratos da sociedade (a academia e mídia tradicional continuam progressistas), o que significa que quaisquer plataformas vermelhas vão encontrar um apoio considerável de vários setores da sociedade. Talvez daqui a uns 30 anos a conversa seja outra, mas é o que temos hoje no auge do anti-petismo.
Até aqui concorda comigo?
* Segundo porque é infinitamente mais fácil convencer o cidadão leigo que só quer mais segurança e menos corrupção (ou seus sinônimos, tipo PT) de que um regime misto de estatismo e livre-mercado é melhor do que um regime de livre-mercado. Tente ir até o cidadão médio e o convença de que não deve existir salário mínimo, por exemplo. Você pode até estar certo e ter bons argumentos, mas não há garantia nenhuma de que seu interlocutor é capaz de desenvolver o pensamento abstrato para chegar à sua conclusão; além disso, o arcabouço argumentativo necessário é muito maior, o que significa que o cidadão médio precisará estar sinceramente interessado em tudo que você terá de argumentar. Você está tentando convencer um cara de que tudo que ele ouviu nas aulas de história, geografia, sociologia e filosofia está errado.
A dificuldade retórica do libertarianismo significa que sempre que vier algum estatista do item A querendo transformar o Brasil em um Cubão, algum Bolsonaro (ou neo-con pagando de liberal) será sempre a opção mais viável e realista para enfrentá-lo. E os liberais vão ter que apoiar o Neo-Bolsonaro porque a alternativa, assim como na eleição de 2018, será transformar o Brasil em um Cubão.
O meu maior medo é que os liberais / libertários se tornem o que eles são nos EUA. A mídia independente pró-Bolsonaro, por exemplo, cresceu exponencialmente nesses últimos anos. Eles são os protagonistas inegáveis do movimento anti-PT e não temos motivos para acreditar que eles não continuarão a sê-lo, pois estarão sempre partindo de plataformas mais acessadas do que as nossas.
Viramos coadjuvantes.
http://www.poder360.com.br/eleicoes/comprova-comparacao-de-propostas-de-bolsonaro-e-haddad-tem-pontos-distorcidos/