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Os conservadores estão errados na economia

Veja como corrigir o problema

05/06/2024

Os conservadores estão errados na economia

Veja como corrigir o problema

O presidente argentino, Javier Milei, não se contentou em defender os ideais do livre mercado para a elite de compadrio que participa do Fórum Econômico Mundial. Ele também fez um discurso notável na Conferência de Ação Política Conservadora, reafirmando seu compromisso com a economia austríaca e a teoria libertária. Ele criticou modelos neoclássicos, citou economistas como Ludwig von Mises e Murray Rothbard e expôs falhas no cálculo econômico socialista.

De acordo com seu site, a Conferência de Ação Política Conservadora é uma organização de base fundada em 1964 que busca defender princípios conservadores. A primeira Conferência foi em 1974, com o grupo originário da campanha de Ronald Reagan. Hoje, a marca já foi exportada para outros países, com conferências em lugares como Brasil e Hungria.

Além da expansão mundial da Conferência, outra mudança aconteceu no movimento conservador. Uma mudança ideológica ocorreu nos últimos anos, com a antiga defesa de um governo um tanto limitado internamente e uma política externa intervencionista no exterior sendo cada vez mais questionada. De uma forma ou de outra, o fantasma de Ronald Reagan – ou pelo menos do que ele representa – parece ter sido enterrado por parte da nova direita.

Outros movimentos, como o conservadorismo nacional e o pós-liberalismo, surgiram, com o velho fusionismo entre libertários e conservadores sendo cada vez mais questionado. Com essas tendências em mente, dois comportamentos emergiram de dentro do movimento de liberdade: oposição e conciliação. Os oposicionistas defendem uma separação completa entre libertários e conservadores, considerados autoritários e populistas demais. O segundo grupo, no entanto, defende uma relação mais próxima com os conservadores, vendo oportunidades para conversas entre a nova direita e os austro-libertários com base na ideologia populista, no confronto das elites e na recente mudança de política externa não intervencionista.

Além do discurso de Javier Milei, outros dois austro-libertários fizeram um importante trabalho acadêmico com a abordagem conciliatória. Em The Church and the Market, o historiador e pesquisador sênior do Instituto Mises, Tom Woods, promove uma defesa católica do livre mercado, demonstrando a possibilidade de conciliar a doutrina social da Igreja com uma economia livre. Da mesma forma, um artigo recente do economista austríaco Alex Salter na Heritage Foundation tentou encontrar um terreno comum entre as ideias da nova direita e do livre mercado. Com base nesses dois trabalhos, os principais pontos de convergência e divergência que podemos ter em relação aos conservadores do ponto de vista tanto da tradição austríaca quanto da teoria libertária serão discutidos com mais detalhes. Ainda podemos influenciar os conservadores, mas o tempo está passando.

A propriedade como conceito-chave

Apesar de suas críticas ao livre mercado, muitos conservadores defendem direitos de propriedade privada para garantir a independência financeira das famílias. Os teóricos distributivistas defendem a manutenção da propriedade da terra e das pequenas empresas para evitar a dependência do mercado de trabalho.

Semelhante aos axiomas da Ação Humana, os defensores do distributismo católico veem a propriedade privada como um meio para fins específicos, apoiando agendas para fortalecê-la – especialmente em pequena escala – para o bem-estar familiar e para combater questões como a proletarização e a dependência econômica, como definido pelo economista Wilhelm Röpke.

No entanto, a defesa da propriedade privada feita por muitos críticos conservadores do livre mercado é apenas parcial, com uma visão excessivamente idealista do que as pequenas empresas e a propriedade da terra podem fazer para garantir a independência das famílias. Em primeiro lugar, a visão de que as pequenas empresas familiares trariam independência aos indivíduos ignora o conceito austríaco de empreendedorismo, uma vez que toda ação empresarial ocorre sob incerteza.

Para lucrar no mercado, o empresário depende de seu sucesso em fazer os cálculos econômicos corretos, com os preços de venda – os produtos das escalas subjetivas de avaliação dos consumidores – sendo superiores ao valor pago pelos fatores de produção acrescido da taxa de juros, que reflete as preferências intertemporais dos indivíduos. Em última análise, cada empreendedor depende da valorização do seu produto pelos clientes, sem total independência.

Outro conceito-chave ignorado é a divisão do trabalho e seus benefícios para a humanidade. Embora o ideal de alguns conservadores seja que cada família tenha uma propriedade com possibilidade de participar da agricultura de subsistência, muitos indivíduos não têm as habilidades necessárias para essas atividades e preferem entrar no mercado de trabalho onde puderem – a partir da renda que recebem, podem então comprar seus bens e serviços desejados. Em termos de renda, o argumento populista contra as elites atuais e o apelo por maior independência podem encontrar apoio nas críticas aos atuais sistemas monetário e bancário, que destroem o poder de compra dos cidadãos comuns enquanto beneficiam algumas elites, como discutido na seção seguinte.

Dinheiro e bancos

Para enfrentar a concentração de recursos entre as elites e enfrentar os fatores econômicos que prejudicam a vida familiar, a nova direita deve se envolver em discussões econômicas cruciais sobre a criação de moeda e o sistema bancário. Felizmente, a Escola Austríaca fornece um sólido arcabouço teórico para esses debates.

As políticas expansionistas dos bancos centrais beneficiam desproporcionalmente os destinatários iniciais dos recursos recém-criados, que são principalmente pessoas bem conectadas nos círculos de elite, enquanto os trabalhadores com salários fixos sofrem as perdas mais significativas com a inflação, como explica o economista Richard Cantillon. Isso leva a um aumento da desigualdade de renda e ao surgimento de elites não naturais, que ganharam sua riqueza e influência por meio da intervenção estatal em vez da criação de valor, e agrava os desafios enfrentados pelas famílias.

A inflação desestimula a poupança e a acumulação de recursos, promovendo comportamentos de alta preferência temporal prejudiciais à vida familiar. Também eleva o custo de vida e reduz os incentivos à formação da família, contribuindo para conflitos entre casais e maiores taxas de divórcio, como observa o economista Jeffery Degner. Como a inflação é um produto tanto dos bancos centrais quanto do sistema bancários com reservas fracionárias, os conservadores não devem se esquivar das discussões em torno dos incentivos generalizados criados por essas instituições, defendendo sua abolição.

Como melhor atacar elites

Além da questão bancária, uma forma muito comum de manutenção de privilégios utilizada por elites e agentes estatais é por meio de direitos e regulações monopolistas. Entendido em seu conceito original, monopólio pode ser definido como direitos especiais de proteção concedidos a empresas ou outros indivíduos pelo governo, reduzindo a capacidade de outros concorrentes – que poderiam fornecer melhores bens e serviços – entrarem no mercado.

As regulamentações aumentam os custos de entrada no mercado para novas empresas e promovem efeitos destrutivos na economia, impedindo a inovação e a criação de valor por novos empreendedores. Como resultado das regulamentações, as velhas elites podem continuar a prevalecer na sociedade, sem espaço para a ascensão meritocrática de outros indivíduos.

Portanto, a nova direita deve ter cuidado com as políticas que defende para supostamente eliminar essas elites, pois essas políticas podem ter o efeito oposto ao desejado. Ao pedir uma tarifa protecionista, por exemplo, populistas de direita podem fortalecer conglomerados econômicos ineficientes às custas de possíveis concorrentes externos que atenderiam melhor às necessidades da população. Uma agenda correta para atacar as elites também deve incluir o fim de todos os privilégios e subsídios atualmente concedidos.

Livre comércio

A oposição ao livre comércio é um dos maiores pontos de divergência entre libertários e conservadores céticos em relação ao mercado. Pensadores conservadores como Oren Cass, da American Compass, argumentam que o livre comércio e a globalização não trouxeram os benefícios prometidos, com a destruição de comunidades e oportunidades de emprego nos Estados Unidos. Eles também mencionam questões de segurança e competitividade nacional ao lidar com países como a China.

Ainda que esses pensadores conservadores estejam errados nesse ponto, alguns libertários falham em refutá-los por apresentarem apenas argumentos relacionados à eficiência, prejudicando assim a posição real. Como aponta o artigo de Salter, os conservadores tendem a se preocupar mais com quais medidas beneficiariam famílias e comunidades locais e menos com a eficiência de uma determinada política. Como tal, os argumentos que apontam apenas para o ganho econômico, sem qualquer resposta às preocupações morais levantadas, estão fadados ao fracasso.

É importante demonstrar os benefícios do livre comércio para todas as partes envolvidas, o que inclui famílias e comunidades locais. Mesmo com uma visão intelectualmente honesta das preocupações dos conservadores com o comércio internacional, pode-se demonstrar que o maior acesso a bens e serviços, sem tarifas protecionistas, fomenta comunidades e famílias mais ricas. Além disso, podemos demonstrar como o livre comércio é benéfico para outras questões atuais que preocupam a direita hoje, como a imigração e potenciais conflitos entre países.

Um aviso final aos libertários

Entre os pontos elencados, fica evidente que há potencial de diálogo e alianças com a nova direita. Sem uma abordagem conciliatória, libertários e defensores da Escola Austríaca de Economia podem perder a oportunidade de ocupar um vácuo de poder que poderia ser assumido por outros grupos, como o American Compass.

Essas alianças, no entanto, só serão possíveis se estivermos dispostos a entender os valores conservadores e as razões pelas quais eles são importantes para muitas pessoas. Assim como Alex Salter e Tom Woods fizeram, precisamos nos envolver com os argumentos da direita crítica de boa-fé ao livre mercado.

 

*Este artigo foi originalmente publicado em Mises Institute.

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Nota: as visões expressas no artigo não são necessariamente aquelas do Instituto Mises Brasil.

Sobre o autor

Marina Rocha

É economista, aprendiz no Mises Institute e trabalha como consultora.

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