No Brasil, o índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) subiu 10,25% nos últimos 12 meses. Trata-se do maior valor desde 2015.

Gráfico 1: evolução do IPCA acumulado em 12 meses desde 2004
A justificativa apresentada — e tal comportamento é um fenômeno mundial, utilizado por praticamente todos os governos do mundo — é que esta inflação de preços se deve a “choques de oferta” e a “gargalos nas cadeias de suprimento“.
Embora de fato haja alguns gargalos localizados, que afetam produtos específicos, o fato é que não há como um choque localizado de oferta produzir um aumento generalizado de preços.
Só é possível ocorrer um aumento generalizado de preços — isto é, só é possível ocorrer um aumento simultâneo de preços em todos os setores da economia, de commodities a serviços, passando por produtos industriais e vestuário — se a quantidade de dinheiro dentro da economia estiver aumentando.
Questão de lógica
Se a recente disparada de preços fosse realmente causada por gargalos que gerassem uma escassez de produtos, e não por um aumento da oferta monetária, então o PIB mundial estaria em forte queda. Mas este não é o caso. A própria OCDE estima que o PIB mundial crescerá 5,7% em 2021, após ter caído 3,4% em 2020. Ou seja, toda a produção perdida durante a pandemia será mais do que recuperada.
Esta tese de escassez de oferta baseia-se majoritariamente na evidência anedótica de que há demandas não-atendidas e aumentos de preços em determinados setores. Mais especificamente, é dito que “estão faltando” chips e semicondutores — e, consequentemente, faltam carros novos à venda —, bem como alguns móveis, metais e petróleo.
Certo.
Mas aqueles que alegam que a oferta destes produtos está insuficiente não se dão ao trabalho de investigar se este aperto na oferta se deve a uma escassez crônica na produção ou a um excesso de demanda. São coisas muito distintas.
Adicionalmente, ainda que a oferta realmente estivesse escassa para determinados produtos — como é o caso do petróleo —, não teria como haver um forte aumento generalizado em todos os preços da economia se a oferta monetária — e, por conseguinte, a demanda agregada — se mantivesse relativamente inalterada.
O aperto em determinadas cadeias de suprimento seria contrabalançado por uma menor demanda por outros bens e serviços, de modo que apenas os preços relativos iriam se alterar. Preços maiores para a energia levariam a um menor consumo de bens relativos ao setor de serviço e ao comércio em geral.
Se os preços da gasolina e do diesel sobem, mas a oferta monetária se mantém constante (o que significa que não há como haver um aumento na demanda geral), então terá de haver um menor consumo de automóveis e de materiais de construção, menos gastos em lazer, menos compras de roupas elegantes, menos viagens, menos saídas para jantar etc. Consequentemente, estes preços não terão como subir.
Se subirem, então é porque está havendo um aumento generalizado na demanda. E tal aumento só pode ocorrer se a quantidade de dinheiro na economia estiver em ascensão.
A banheira com três drenos
Uma boa analogia para se entender o que está acontecendo é pensar a economia como se fosse uma banheira. O dinheiro é injetado na banheira através da torneira. A banheira possui três drenos.
O primeiro dreno é o crescimento econômico.
Quanto maior o crescimento econômico, maior é a produção de bens e serviços. Maior a oferta de bens e serviços, menor a pressão para o aumento de preços.
O segundo dreno é a demanda por moeda, a qual também está relacionada ao crescimento econômico.
Quanto mais empresas estiverem sendo criadas, quanto mais investimentos estiverem sendo feitos, quanto mais pessoas estiverem sendo contratadas, maior será a demanda pela moeda. Afinal, é necessário dinheiro para fazer tudo isso. Empreendedorismo, investimentos, expansão dos negócios e produção significa mais pessoas demandando moeda.
O simples ato de um empreendedor ir ao banco ou ao mercado de capitais tentar empréstimo para abrir uma empresa, para comprar maquinário ou para expandir suas instalações já representa um aumento na demanda pela moeda. Antes, a moeda iria apenas para aplicações financeiras e títulos públicos; agora, ela poderá também ser direcionada para financiar a produção deste empreendedor. Ou seja, aumentou a concorrência para obter esta moeda. Aumentou a demanda pela moeda.
A taxa básica de juros também atua por este dreno. Um aumento nos juros tende a fazer com que estrangeiros venham para o país aplicar na renda fixa. Ao fazerem isso, trocam moeda estrangeira pela moeda nacional, o que aumenta a demanda por esta.
Em períodos da baixa inflação de preços, o fluxo de entrada oriundo da torneira é aproximadamente igual ao fluxo de saída destes dois drenos.
No entanto, se mais dinheiro estiver entrando do que saindo da banheira — isto é, a oferta monetária estiver aumentando a um ritmo maior do que o crescimento econômico e a demanda por moeda —, então o nível da água na banheira (preços) irá aumentar.
E irá seguir aumentando até finalmente alcançar o terceiro dreno, que é o dreno de transbordamento, também conhecido como o dreno da inflação de preços. Este dinheiro em excesso, que não está sendo absorvido nem pelo crescimento econômico e nem pela demanda por moeda, só poderá ser escoado da banheira via aumento de preços, que é o terceiro dreno.
Ou seja, apenas após todos os preços terem aumentado, de modo a refletir a nova realidade de mais moeda na economia, é que o nível da água na banheira para de subir.
No Brasil
Vejamos a banheira brasileira. Desde os meses iniciais da Covid-19, a torneira se manteve totalmente aberta. Entre janeiro de 2020 e setembro de 2021, a oferta monetária cresceu mais que 50%.
O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.
Gráfico 2: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil. (Fonte e gráfico: Banco Central)
Para se ter uma ideia do significado de tudo isso: um aumento de mais de 50% no M1 significa que, em um ano e meio, foi injetada na economia brasileira simplesmente a metade de todos os reais que já haviam sido criados entre julho de 1994 até janeiro de 2020.
E ainda há quem estranhe que os preços de tudo estão aumentando?
Já o M2 (que engloba todo o M1 mais caderneta de poupança e depósitos a prazo) aumentou quase 40% no mesmo período.
Gráfico 3: evolução do M2 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente, mais caderneta da poupança, mais todos os tipos de depósitos a prazo) no Brasil. (Fonte e gráfico: Banco Central)
Basicamente o que houve é que, com a Covid-19, o Banco Central — por meio do Orçamento de Guerra — passou a imprimir moeda para comprar ativos em posse dos investidores (os mecanismos e as leis que permitiram essa impressão monetária já foram detalhados aqui).
Foi uma política monetária claramente inspirada na Teoria Monetária Moderna, que está à esquerda de Keynes e que já foi considerada radical até mesmo por Paul Krugman.
A disparada nos preços dos combustíveis e dos alimentos são apenas a parte mais sensível desta política monetária.
Caso a quantidade de dinheiro na economia se mantenha em seus atuais níveis, ainda há muito espaço para futuros aumentos de preços. Ou seja, em nossa metáfora, o nível da água na banheira ainda não alcançou o dreno de transbordamento, e continuará subindo.
Para evitar que isso aconteça, há três alternativas: a economia passar a crescer velozmente (o que exigiria várias reformas econômicas do lado da oferta), a demanda por moeda aumentar muito (o que envolve uma mistura de crescimento econômico e juros), ou o Banco Central adotar uma política monetária fortemente contracionista (o que envolve juros muito altos), ao estilo daquela ocorrida em 2015.
Ou seja, ou os dois primeiros drenos são acionados, ou então não apenas fecha-se inteiramente a torneira, como esta ainda passa a sugar a água de dentro da banheira.
A conferir.
Conclusão
As causas de um aumento generalizado de preços não são “múltiplas e complexas”. Não decorrem de gargalos localizados (os quais não têm o poder de gerar carestia em todos os setores da economia).
Elas são simplesmente a consequência inevitável de uma criação excessiva de dinheiro. Não existe algo como “inflação de preços gerada pelo aumento dos custos”.
Se houver gargalos localizados na cadeia produtiva, mas não houver um aumento na quantidade de dinheiro na economia, não há como haver aumentos generalizados de preços. Preços maiores nos setores atingidos pelos gargalos levariam a uma redução do consumo nestes setores ou em outros setores.
A única maneira de haver aumentos generalizados de preços em todos os setores é se a quantidade de dinheiro na economia estiver aumentando. Preços maiores só se mantêm quando os consumidores têm mais dinheiro para pagar por estes preços mais altos.
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Leia também:
Sim, a inflação é mundial, mas não decorre só de gargalos – e pode abortar a retomada econômica


Dado que o PIB não vai crescer 50%, e dado que a demanda por reais não irá disparar sensivelmente (ao contrário: ao redor do mundo a demanda por papel-moeda só faz cair, inclusive em relação a dólar, euro e franco-suíço), a única solução será uma contração da oferta monetária — algo que, convenhamos, não é muito difícil após uma subida de 50% (uma contração de 10% fará com que o aumento total do M1 tenha sido de 35%).
Na altamente inflacionária década de 1970, com dois choques de petróleo, o IPCA da Alemanha mal se moveu.
d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/germany-inflation-cpi.png?s=grbc20yy&v=202110281232V20200908&d1=19760108&d2=19861108
Subiu pontualmente por conta dos preços da energia, que representam uma parcela grande da cesta de consumo, mas não houve inflação generalizada. Isso diz bastante sobre a seriedade de um Banco Central.
O BC está totalmente perdido. Hoje mesmo um diretor já admitiu que a instituição poderá aumentar a Selic em mais de 1,5 p.p. na próxima reunião.
valor.globo.com/financas/noticia/2021/11/08/diretor-do-bc-admite-possibilidade-de-alta-da-selic-maior-que-15-pp-na-proxima-reuniao.ghtml
Se a economia fosse dolarizada, e dado que já existe preços em dolares para a economia se basear(não precisa descobrir eles).. Seria recessivo uma dolarização para abater a carestia?
Cansei de falar isso, mas parece que há pessoas que insistem em não querer aprender e entender.
É muito gostoso o Bolsonaro falar que a culpa da inflação é dos políticos e burocratas que proibiram as pessoas de trabalhar. “A economia a gente vê depois?”. Pois é, mas como eles explicam sobre a inflação dos alimentos, já que houve recorde de safras no ano passado, com até alimentos e demais commodities exportados? Detalhe que teve país que importa alimento com inflação no setor menor do que aqui (como Singapura). Essa frase de efeito do Bolsonaro não difere muito do Powell que coloca a culpa da inflação somente nas cadeias de suprimento.
E um adendo importante: conforme eu falei no ano passado (não achei o meu comentário, se alguém achar eu agradeço), o índice de preços ao produtor brasileiro explodiu já em 2020, antes de quase todo o resto do mundo. Nos países desenvolvidos, o negócio começou só nos últimos meses, sendo que no ano passado muitos vivenciaram deflação de preços ao produtor, em pleno lockdown.
Peraí….. existe a inflação de custos que todo economista fala. O petróleo subiu porque um grupo de produtores resolveu repor os lucros perdidos na pandemia. Não tem relação com moeda alguma. Pelo menos imagino isso. Então os prejuízos da pandemia são repostos aumentando e aí os custos de toda a cadeia mundial de petróleo e produção aumenta. Então não seria somente monetário.
Programa ‘Direto ao Ponto’ entrevista Maílson da Nóbrega, ministro da fazenda do governo Sarney que enfrentou uma inflação de 1000%:
Se observarmos a explosão da oferta monetária, e levarmos em conta que a economia já está totalmente aberta, concluímos que ou esse M1 cai forte ou teremos um ensaio de um retorno à década de 1980.
Não há motivo nenhum de termos esse M1 com uma economia plenamente operante. A economia está mais ativa do que estava em 2016 e com um desemprego menor.
Todo esse M1 terá de vazar para algum lugar. O dreno maior até agora está sendo o dólar (que é um produto como qualquer outro), a gasolina e os alimentos.
Isso em efeitos práticos para pessoas significa o que? (claro, sabendo que nínguem tem bola de cristal)
– gasolina a 10 reais?
– preço dos alimentos mais caro?
– botijão de gás a 150 reais?
– desemprego em massa?
– salário mínimo de 2000 reais?
Pessoal, eu sempre passo mais tempo lendo os comentários do que as reportagens em si. Obviamente eu não concordo com tudo que leio, mas os comentários costumam ser um contraponto interessante, pois acho as respostas interessantes e pelo menos bem pensadas.
Daí fiquei na dúvida se não tem alguma comunidade online no Facebook, telegram etc na qual a galera possa conversar de uma maneira mais direta.
Então a justificativa da inflação em mais de 10% é a impressão do papel moeda?
Não sei se entendi.
usam sempre a desculpa de beneficiar as famílias pobres pra justificar aumento de imposto
valor.globo.com/brasil/noticia/2021/11/09/devolucao-de-imposto-sobre-consumo-pode-beneficiar-1-em-cada-3-brasileiros.ghtml?fbclid=IwAR0Jz-QPQPfKnFuDXpak1TClUaIB4lWagMuRgC8-Hrz86ssn9uSlk93Gt8g
O que acharam do discurso do Moro? Votariam nele?
O que o Governo BOlsonaro pode fazer pra diminuir a inflação ano que vem?
http://www.gazetadopovo.com.br/economia/propostas-de-sergio-moro-para-economia-reformas-pobreza/
de onde tiraram que inflação é sempre um fenômeno monetário ? kkkk ,cada uma
O interessante é que estamos voltando para algo que ocorreu há alguns meses: o real se fortalecendo, junto com a subida do DXY. DXY subiu forte nessas últimas horas.
Com a substituição do Kanczuk depois de dezembro, tomara que o substituto pelo menos use o gogó para defender um real forte. É algo tão fácil, que é inacreditável que poucos tenham percebido isso. Meirelles já disse que um câmbio estável é bom para a economia, o Gustavo Franco já defendia abertamente um real forte. Acho que ele era o único que não tinha medo de falar isso.
Não sou economista, mas já li manuais de economia mainstream trabalhando com essa ideia de inflação de custos, como algo que contaminaria todos os outros preços da economia.
Demorei um tempo até entender que era um fenômeno monetário. Mas melhor aprender isso tarde do que nunca.
Leandro, e a tal da inflação inercial? é outra falácia?
Uma dúvida: Como é que o mercado e os empreendedores [r]percebem ao mesmo tempo[/r] esse aumneto na oferta monetária?
Ciro veio novamente com essa idéia de alterar de preços da Petrobrás.
twitter.com/cirogomes/status/1459154445120544773?t=UjWg5c_AQof5zMDHwJKlRQ&s=19
Pior que para um leigo, a medida parece sensata. (A empresa ainda teria lucro e o combustível seria mais barato).
Porque essa medida não seria viável/ recomendavel ?
*(Pergunta de um leigo em economia, conhecendo recentemente as ideias liberais. Já li o artigo sobre a nossa moeda como causa principal da alta, mas gostaria de ver uma explicação sobre o equívoco dessa proposta de Ciro)
Encontrei este trecho em uma monografia
Caso o Tesouro não consiga vender os títulos de longo prazo no mercado primário, pois os compradores não estão interessados, não há problema, porque ele pode se financiar com a venda de títulos de curto prazo com a atuação do Banco Central no mercado secundário, além disso, com essas operações de curto prazo o Banco Central também conseguiria manter na meta a taxa de juros de curto prazo. Então, o maior impacto sobre a dívida seria apenas uma mudança dos perfis dos títulos, de longo para curto prazo, essa mudança não aumentaria ou geraria um risco maior do país de calote da dívida, pois a dívida está na sua própria moeda.
Onde está a falácia neste trecho,pois fica parecendo que o Bacen financia o Tesouro, seria esta a interpretação correta e onde está o equívoco?
Ou seja: existem soluções eficientes, mas elas contrariam interesses.
* * *
A imprensa está surpresa com o fato de todos os estados brasileiros terem batido recorde de arrecadação e estarem nadando no dinheiro.
http://www.poder360.com.br/economia/21-estados-e-df-registram-alta-no-superavit-primario/
Com uma expansão monetária de 50% em 12 meses, e com o ICMS sobre os combustíveis (cuja arrecadação aumenta de acordo com câmbio e barril de petróleo) , a alta na arrecadação vem por gravidade.
No Brasil, a piada já vem pronta: funcionários da instituição responsável por proteger a moeda estão em greve exigindo aumentos porque a instituição para a qual trabalham não protegeu a moeda.
E o povo paga a conta.
Banco Central: Servidores paralisam nesta quarta-feira por reajuste salarial
Será que a inflação brasileira não tem como maior causa o choque da oferta?
“Os principais vetores que causaram a aceleração da inflação vieram de choques de oferta: rápida recuperação do preço do petróleo, lenta recuperação da taxa de câmbio brasileira, que encarecem a gasolina, o gás de cozinha e o custo dos serviços de frete no país.
Uma das maiores secas do século afetou fortemente o preço de alimentos representativos da cesta do consumidor, além das tarifas de eletricidade dos domicílios e empresas. Devido à forte seca neste ano causada pela extensão da La Niña (o menor volume de chuvas em quase um século), os reservatórios das represas de usinas hidrelétricas no país estangularam fortemente sua capacidade produtiva. O salto da bandeira tarifária por si só traz um efeito muito semelhante em comportamento, apesar de menor magnitude, do petróleo enquanto insumo essencial no país.
Além disso, há um agravante de que a falta de chuvas traz efeitos fortes sobre o preço de produtos agrícolas, sendo o mais emblemático deles a soja, e consequentemente a carne, que tem um grande peso na cesta do consumidor brasileiro.
O Banco Central cortou juros de maneira esperada, e subiu de maneira esperada também, de acordo com uma regra de política monetária seminal estimada de 2008 até 2021T1. Há pouca margem para se argumentar alguma discricionariedade em qualquer direção por parte da atual diretoria do BCB.”
Dxy hoje
106.000 . Pre pandemia
Dxy hoje
106.000 .