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Como surgem os preços de mercado

Os preços refletem as relações de troca

Os preços, como demonstrou Carl Menger em seu livro Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (“Princípios de Economia Política“), surgem como um fenômeno acidental. Eles não são a essência da atividade econômica. 

Os preços são fortuitos, na medida em que são o resultado não-intencional de uma troca econômica que tem como base avaliações subjetivas. Os preços não determinam a troca; as avaliações subjetivas que os indivíduos fazem das trocas é que determinam os limites dentro dos quais o preço negociado (considerando os bens envolvidos na transação) será acordado. 

Não são os preços que movem a economia; o que move a economia é o esforço das pessoas para satisfazer suas necessidades da forma mais completa possível. Por esse motivo, as pessoas realizam trocas, e os preços aparecem como um efeito colateral não-intencional destas trocas.

Os preços aparecem na superfície como a parte visível das atividades econômicas. Como os preços são um fenômeno constante da vida econômica e são observáveis como fenômenos aparentemente objetivos, muitos economistas presumiram que eles também são a parte mais importante da economia e, portanto, da ciência econômica. 

Os preços aparecem na forma de quantidades numéricas e, portanto, é um erro compreensível considerar os preços o aspecto fundamental da economia. Esse erro gerou a insensatez de se considerar as quantidades de bens que aparecem em uma troca como equivalentes.

Tomando como ponto de partida o raciocínio de que o comércio é a troca de equivalentes, os economistas clássicos colocaram a economia em um caminho errado e inadvertidamente lançaram as bases para a teoria marxista da exploração. Esses estudiosos presumiram que o trabalho é o fator com o qual a equivalência entre os bens em troca poderia ser medida. 

Mas, como explicou Menger, não são os equivalentes que são trocados em uma transação; a transação é motivada porque há valorações e estimativas inversas em uma troca. As pessoas trocam mercadorias porque isso as deixa em melhor situação. Em toda e qualquer transação comercial, cada lado atribui àquele bem que está recebendo um valor subjetivo maior do que atribui àquele bem que está dando em troca. Não fosse assim, a transação simplesmente não ocorreria. 

Logo, a avaliação inversa dos bens entre os parceiros comerciais determina a relação de troca, e o preço resultante reflete essa relação de troca.

A essência de uma troca de bens e, portanto, dos preços que dela emergem, é que o bem específico que está à disposição de um agente econômico tem menos valor para ele em comparação ao outro bem que está à disposição de outra pessoa. Para cada pessoa envolvida na troca, a avaliação de um bem em termos do outro bem em consideração tem um limite. 

Os preços refletem a relação de troca específica de uma transação que determina quantas unidades do bem X são o máximo que alguém está disposto a trocar pelo bem Y, e vice-versa. O preço será acordado entre os limites dados por essas estimativas dos parceiros comerciais.

Princípio da formação de preços

Menger começa sua análise da formação de preços com o exemplo de um bem indivisível de um monopolista.

Um monopolista oferece uma unidade de um bem (um cavalo) a oito compradores potenciais no mercado (fazendeiros que oferecem em ordem decrescente um número específico de unidades de grãos em troca). 

Menger ilustra sua consideração com uma matriz (tabela 1).

tabela1.png

Tabela 1: Matriz de formação de preços

Conforme ilustrado na tabela, os compradores potenciais têm preferências de valor diferentes para um bem específico (colunas), mas também dependendo da quantidade de unidades desse bem (linhas). 

A matriz mostra oito compradores potenciais (B1 a B8) e sua disposição individual de pagar pelo bem oferecido em unidades de grãos. 

É fácil perceber que a mercadoria vai para o comprador com maior preferência. Quando esse monopolista oferece mais unidades do bem, a situação não muda fundamentalmente. O princípio é que o produto vai para o licitante com lance mais alto.

Conforme mostra a tabela, B1 tem a maior preferência pelo bem que está sendo oferecido no mercado e está disposto a oferecer oitenta unidades de grão em troca, ao passo que B8 tem a menor preferência, disposto a oferecer apenas dez unidades de grão em troca por um cavalo que está em oferta. 

O eixo horizontal (I a VIII) representa o número de unidades oferecidas, e as várias linhas mostram que cada potencial comprador tem uma disposição decrescente de oferecer grãos em troca de um número crescente de cavalos em oferta (I a VIII). 

Refletindo a utilidade marginal decrescente, B1, por exemplo, está disposto a dar oitenta unidades de grãos para um cavalo, mas diminuiria sua disposição de trocar para dez unidades de grãos para cada cavalo se estivesse considerando a aquisição de oito cavalos.

Na matriz, os agricultores individuais (B1 a B8) classificam suas preferências em termos de unidades de grãos, e é óbvio que o agricultor que oferecer a maior quantidade de grãos por apenas um cavalo irá obtê-los. Neste caso, o preço em termos de grãos ficaria abaixo do limite de oitenta e acima de setenta, e liquidaria com uma relação de troca definida dentro dessa faixa de acordo com o resultado da negociação entre os parceiros comerciais.

A situação não muda em princípio quando a quantidade oferecida do bem aumenta. Neste caso, também, os licitantes mais altos se tornarão os compradores. Caso sejam ofertadas três unidades, o preço ficará entre sessenta e setenta unidades do grão. Dentro desses limites, B1 pode melhorar sua situação econômica comprando dois cavalos, enquanto B2 comprará um cavalo. 

Se seis unidades forem oferecidas em vez de três, pode-se mostrar, similarmente, que B1 compraria três, B2 compraria dois e B3 compraria um cavalo. 

Neste caso, o preço de cada unidade cairia para entre cinquenta e sessenta unidades de grãos.

O mesmo princípio é válido quando os concorrentes entram no mercado e diferentes fornecedores oferecem o mesmo tipo de produto. No caso de dois concorrentes, dos quais o fornecedor A1 oferece um cavalo e o A3 dois cavalos, será oferecido um total de três unidades. Assim, o agricultor B1 compraria duas unidades e o agricultor B2 uma unidade, e a relação de troca se estabeleceria entre sessenta e setenta unidades de grãos. 

Se A1 e A2 trouxessem seis cavalos ao mercado, B1 adquiriria três, B2 dois e B3 uma unidade em oferta. Nesse caso, o preço cairia para entre cinquenta e sessenta unidades de grãos.

Monopólio e concorrência

Menger mostra com esses exemplos como a competição começa a aparecer partindo-se de um monopólio. O aumento da competição é a característica distintiva do desenvolvimento econômico, com o número e a variedade da oferta de bens se expandindo. 

O princípio da formação de preços, entretanto, permanece o mesmo. 

A quantidade de bens oferecidos para a venda chega às mãos dos compradores potenciais que oferecem o máximo em quantidades de troca, independentemente de ser um arranjo de monopólio ou de livre concorrência. As mercadorias chegam às mãos dos licitantes que têm os maiores graus de preferência por elas.

Os mercados funcionam de acordo com o princípio de que, quanto maior a quantidade de oferta, menor será o número de excluídos do lado da demanda. A competição tem o efeito de aumentar a satisfação dos participantes do mercado, pois menos pessoas são excluídas quanto mais unidades ofertadas entram no mercado. 

Em todos os casos, a formação do preço dá-se entre os limites fixados pelas respetivas quantidades que o potencial comprador mais interessado e o menos interessado se dispõe a dar em troca.

O monopolista pode aumentar seu lucro reduzindo a quantidade ofertada. Menger fornece os exemplos de um monopolista que tem mil unidades de um bem à sua disposição. Ele poderia vender todas as suas unidades ao preço de seis unidades de pagamento para cada uma, enquanto a venda de apenas oitocentas aumentaria o preço para nove unidades de pagamento. O monopolista que maximiza o lucro escolheria a quantidade menor pelo preço mais alto e simplesmente eliminaria os bens em excesso.

Quando a concorrência aparece, esse privilégio desaparece. Ao passo que o monopolista aufere grandes lucros por unidade com poucos clientes, a concorrência alcança lucros menores por unidade, mas ganha um grande volume de clientes. Quando mais concorrentes entram no mercado, a quantidade total de bens ofertados aumenta, e os concorrentes individuais não mais conseguem aumentar seus lucros limitando a oferta. 

Em um mercado competitivo, além de os fornecedores não conseguirem limitar a oferta, eles também perdem sua capacidade de segmentação de preços para diferentes grupos de compradores.

Conclusão

O objetivo de melhorar o bem-estar individual está no cerne das atividades econômicas, e é a razão das transações econômicas. Uma troca de equivalentes não contribuiria para esse objetivo e, portanto, não faria sentido. 

Os preços não são a essência da economia, mas são um sintoma do equilíbrio das múltiplas atividades econômicas humanas. Porque as pessoas se esforçam para melhorar sua condição, elas trocam mercadorias e, nesse sentido, os preços são uma consequência não-premeditada do esforço humano em prol da melhoria.

Os preços são, portanto, determinados pelas pessoas comprando e vendendo, e por aquelas que se abstêm de comprar e de vender. Em última instância, os preços são determinados pelo juízo de valor feito por cada consumidor. 

Cada indivíduo, ao comprar ou ao não comprar e ao vender ou não vender, dá a sua contribuição à formação dos preços de mercado. Porém, quanto maior for o mercado, menor será o peso da contribuição de cada indivíduo. Assim, a estrutura dos preços de mercado parece, a um indivíduo, um dado ao qual ele deve ajustar sua própria conduta. Aquilo a que chamamos de preço é sempre uma relação que ocorre no interior de um sistema integrado, sistema esse que é o resultado das várias relações humanas.

Preços são, em suma, um fenômeno do mercado. Eles são gerados pelo processo de mercado e são o cerne da economia de mercado. Não há como existir preços fora da economia de mercado. Preços não podem ser criados como se fossem produtos sintéticos.

Por fim, o princípio da formação de preços é o mesmo para o monopólio e para a competição. Concorrência significa que o número de bens em oferta aumentará e, portanto, a concorrência elimina as condições de obtenção do lucro extra do monopolista. O aparecimento de mais concorrentes é a marca do desenvolvimento econômico.

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71 comentários em “Como surgem os preços de mercado”

  1. Olá, como os preços são determinados nos casos de produtos/serviços exclusivos e essenciais (que não haja substitutos)? Por exemplo, um remédio fabricado por apenas um fabricante. O que acontece se ele resolve aumentar indiscriminadamente os preços?

  2. Suponhamos que eu tenho uma confeitaria onde fabrico e vendo bolos decorados. O preço de dos meus bolos não seria determinado pelos custos que tive para fazê-lo? ex: Farinha de trigos, gás, impostos, mão de obra….etc..etc?

  3. Seria cômico se não fosse trágico quando há tentativa de tabelamento de preços pelo estado ou com aval do estado.

    Sou advogado, não tenho muito tempo formado. Para praticar a minha profissão, a OAB estipula uma tabela com valores mínimos para a realização de determinados serviços.

    Porém, essa tabela é baseada na cabeça de algum burocrata da OAB/SP, sem qualquer correlação com as práticas de mercado. E com isso, quem é favorecido é o advogado que está há anos na profissão e tem seu nome feito, podendo cobrar o valor que está na tabela.

    O advogado recém formado, para conseguir concorrer com alguém com mais experiência e graduação, acaba tendo que atuar na margem da legalidade, com receio de sofrer um processo do tribunal de ética e disciplina da OAB; caso, contrário, o cliente irá simplesmente sair correndo quando for cobrado em R$ 400,00 por uma consulta ou em R$ 4.000,00 para um procedimento extrajudicial qualquer.

    Além do mais, fugindo do cerne do texto, a Ordem atrapalha os recém formados de inúmeras outras maneiras, como a proibição absurda e ridícula de marketing e propaganda (ex.: você pode fazer um texto informativo em rede social, mas se oferecer um serviço será punido)… O maior problema é ser condicionado o exercício da advocacia à inscrição na OAB, por imposição estatal…

  4. William Marques Zenotte

    Ok, existe a lei da oferta e da demanda. Quando a demanda aumenta e a oferta está baixa, os preços sobem. Até aí tudo certo.

    Mas como exatamente isso acontece? Como que o vendedor sabe “que a oferta está baixa e a demanda está alta, então, eu devo aumentar os preços"?

  5. Os preços são meras desviações dos valores das mercadorias.

    Se pegarmos 5 empresas A, B, C , D e E que fabricam tecidos mas que possuem capitais de composições orgânicas diferentes, veremos que os valores das mercadorias serão diferentes. Assim sendo, os preços de venda das mercadorias desviarão, para mais ou para menos, do valor das mercadorias.

    EXEMPLO: O valor de A é 90 e ela vendeu por 92 (2 acima do valor, ou +2); o valor de B é 111 e ela vendeu por 103 (8 abaixo do valor, ou -8); o valor de C é 131 e ela vendeu por 113 (18 abaixo do valor); o valor de D é 70 e ela vendeu por 77 (7 acima do valor); o valor de E é 2o e ela vendeu por 37 (17 acima)

    Entretanto, se somarmos, agregadamente, todas os desvios, o resultado que encontraremos será zero.

    2+(-8)+(-18)+(7)+(17) = 0

    Por outro lado, se pegarmos a diferença entre o preço de venda das mercadorias e o preço de custo delas, encontraremos aquilo que os economistas vulgares chamam de “lucro”.

    Exemplo: O custo de produzir A foi de 70 e ela vendeu por 92, portanto, o lucro é 22 (é só fazer como os outros)

    Se somarmos todos os lucros (no caso, eu falo dos lucros vulgares), o resultado será a soma de todas as mais-valias produzidas pelas empresas A, B, C, D e E. então:

    L(A)+L(B)+L(C)+L(D)+L(E) = m(A)+m(B)+m(C)+m(D)+m(E)

    L(A) é lucro de A, m(A) é mais-valia de A e assim por diante com B, C, D e E.

    Ou seja, a soma dos lucros é a soma das mais-valias e a mais-valia é o valor das horas de trabalho não pagas ao trabalhador (e tomadas pelo capitalista), algo bastante objetivo na realidade.

    Então, de “subjetivo” os preços não possuem nada, com a exceção de que a condição necessária para que uma coisa seja considerada como mercadoria é a presença do “valor de uso’, ou seja, da utilidade, algo que é subjetivo.

  6. Argentina esta certa?

    Pessoal, viram na Argentina? A esquerda tomou de lavada, aqui no Brasil foi um fracasso dia 12 do MBL, eai pessoal o que será?

    A pandemia saiu pela culatra? qual a leitura de vocês?

  7. Exatamante pela valoração ser subjetiva e as trocas ocorrerem por meio de uma escala pessoal de valores que uma intervenção do governo entre essas duas trocas, sempre, ou quase sempre, tende a diminuir a satisfação geral da economia.

    É algo simples, mas incrivelmente difícil de fazerem entender, até porque as implicações disso seriam grandes

  8. Alguém me explica por que mesmo com inflação/hiperinflação o Brasil tinha crescimento do PIB em vários anos da década de 80? Pelo que entendo inflação causa recessão, certo?

  9. Eu acho que o FED fez muito mal em baixar tanto o juros edênicas surgir todo tipo de piramide.

    Foi só ele dar um peteleco nos juros que as criptomoedas já desabaram. A hora que trouxerem pro devido lugar a taxa de juros, eu me arrisco a dizer que as criptos acabam.

    Mais uma bolha de malinvestment que será estourada por completo em breve

  10. Entre 2008 e a pandemia, houve quantitative easing? O problema dos bancos já era real antes de pandemia, os juros baixos causarão impressão de dinheiro na economia pelo FED? ate onde eu sei o FED imprimi e poe no balanço dos bancos e paga um rendimento, aquele esquema novo depois de 2008 né. Mas se o FED não imprimi direto pra economia, como então os bancos tiveram problemas alavancados? FOi por causa dos juros baixos que estimula crédito e gera bolha?

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