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“Não comemos PIB!”, gritam. Estes seis gráficos provam o contrário

Vez por outra, a frase “não comemos PIB” aparece nas redes e nos jornais

Apareceu quando o PIB começou a cair no governo Dilma, e reapareceu agora no governo Bolsonaro, quando o PIB subiu acima do esperado

A frase é interessante e merece atenção. 

De fato, literalmente não comemos PIB, também não vestimos PIB, não moramos no PIB e não saímos para dançar no PIB. PIB é uma construção teórica usada por economistas para tentar mensurar o quanto é produzido em uma região.

No PIB estão computadores, relógios, trigo, cortes de cabelos, massas e maçãs. “Quem é tanta coisa acaba por não ser nada”, pode dizer algum observador. Entretanto, esse observador estaria sendo injusto. 

Como outras medidas do tipo, o PIB simultaneamente carece e abunda de significados. A frase “não comemos PIB” é literalmente correta e bastante útil para apontar que existem coisas que o PIB não capta bem. Porém, a frase se torna enganosa quando usada para tirar relevância de uma queda ou de um aumento do PIB.

A criação de riqueza é o que interessa

Mensuramos o nível de pobreza de um indivíduo em relação a outro pela quantidade de bens e serviços disponíveis a ele. Uma pessoa será mais pobre que a outra quando possui menos bens e serviços à sua disposição para satisfazer suas necessidades.

Em termos de países, a situação é similar. Quanto mais bens e serviços disponíveis a seus habitantes, melhor será sua condição de vida e menor será o nível de pobreza. 

O padrão de vida de um país é determinado pela abundância de bens e serviços. Quanto maior a quantidade de bens e serviços ofertados, e quanto maior a diversidade dessa oferta, maior será o padrão de vida da população. Quanto maior a oferta de alimentos, quanto maior a variedade de restaurantes e de supermercados, de serviços de saúde e de educação, de bens como vestuário, imóveis, eletrodomésticos, materiais de construção, eletroeletrônicos e livros, de pontos comerciais, de shoppings, de cinemas etc., maior tenderá a ser a qualidade de vida da população. 

Logo no primeiro capítulo do livro Introduction to Modern Economic Growth, Daron Acemoglu, economista merecidamente festejado pelo livro Por que as nações fracassam?, trata de relação entre PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população, e os níveis de bem-estar de um país. 

Vale ressaltar que, embora possua falhas, o PIB per capita ainda é o melhor indicador para retratar a verdadeira riqueza de um país. Essencialmente, o PIB per capita representa a divisão entre o total de bens e serviços produzidos por uma economia e o total de sua população. O indicador busca apresentar uma mensuração média da riqueza dos indivíduos de cada país.

Consequentemente, quanto maior o PIB per capita, maior a riqueza média de cada indivíduo, e, por definição, menor a sua pobreza.

Uma maneira óbvia de garantir um alto PIB per capita é facilitar  o empreendedorismo — a produção de bens e serviços — de um país. Um país será tanto mais rico quanto mais sua economia produzir em termos per capita. 

Sim, comemos PIB – e também bebemos PIB e o utilizamos de esgoto

Para ilustrar este ponto, Acemoglu apresenta dois gráficos reproduzidos abaixo. 

O primeiro mostra a correlação (que não é causalidade!) entre o logaritmo do PIB per capita e o logaritmo do consumo per capita. Fica clara a relação positiva entre as duas variáveis, ou seja, não comemos PIB, mas, onde o PIB por pessoa é maior, o consumo por pessoa também é maior.

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Gráfico 1: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, o consumo per capita (em logaritmo)

O segundo gráfico mostra a correlação entre PIB per capita e expectativa de vida ao nascer. PIB não é comida nem remédio, mas, onde o PIB per capita é maior, as pessoas tendem a viver mais. 

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Gráfico 2: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a expectativa de vida

“Isso é óbvio”, alguém pode dizer. Correto, mas também deveria ser óbvio que crescimento do PIB é uma boa notícia e queda do PIB é uma notícia ruim.

Estimulado pelo trabalho de Acemoglu, tomei a liberdade de mostrar outras correlações entre o PIB per capita e algumas variáveis que alguém pode considerar relevantes. 

A figura abaixo mostra a correlação entre PIB per capita e o percentual da população com acesso a saneamento básico. 

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Gráfico 3: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a porcentagem da população atendida por saneamento básico

Além de consumir mais e viver mais, quem vive em locais com PIB per capita maior tem menos problemas de acesso à água tratada. 

Por causa do PIB? Não dá para dizer isso, lembrando que correlação não é causalidade. Mas, se é difícil, talvez impossível, estabelecer empiricamente uma relação de causalidade, não é tão difícil teorizar sobre tal relação – afinal, mesmo em um arranjo em que o saneamento é 100% estatal, mais riqueza criada permite mais tributação e uso de recursos em obras de saneamento.

Mas deixo isso para outra ocasião.

Consumir mais é bom, viver mais é bom, ter acesso a esgoto e água tratada é bom… mas o que vale tudo isso sem “tomar uma”? 

Pensando nisso, fui olhar a correlação entre PIB per capita e consumo de álcool. Deu positiva.

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Gráfico 4: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, o consumo de álcool per capita (em logaritmo)

Pois é. Em última instância, se nada do que foi dito até aqui foi o suficiente para convencer da importância do PIB, talvez saber que onde o PIB per capita é maior se bebe mais irá mudar a opinião de alguns.

Meu conterrâneo Belchior cantou que nada é maravilhoso. Receio que ele esteja certo, mas definitivamente não é em conceitos econômicos que vamos encontrar algo para contradizer o poeta cearense. O PIB também está correlacionado com coisas indesejáveis, como, por exemplo, a poluição. Países com maior PIB per capita emitem mais CO2. 

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Gráfico 5: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, emissão de CO2 per capita (em logaritmo)

Muita gente acredita que isso é motivo para não comemorar aumento de PIB. Por outro lado, poucas pessoas parecem dispostas a migrar para países que emitem pouco CO2. Não sou especialista no assunto, mas creio que sacrificar PIB para preservar meio ambiente é uma estratégia complicada e limitada. 

(O que, aliás, comprova a imensa hipocrisia de ambientalistas de países ricos que exigem que os países mais pobres sacrifiquem seu economia). 

Resta apostar que a chegada de novas tecnologias resolvam o problema e permitam a redução da correlação entre PIB e emissão per capita de CO2.

A última figura retorna à frase que motivou o artigo: não comemos PIB, mas, onde o PIB per capita é maior, o percentual da população subnutrida é menor.

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Gráfico 6: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a porcentagem da população subnutrida

Para concluir

Além da teoria, a própria empiria comprova a crucial importância do crescimento econômico para que uma população prospere. 

Se a economia cresce mais, isso significa que mais bens e serviços estão sendo produzidos. Consequentemente, maior será a qualidade de vida da população. Maior crescimento econômico também significa aumento da renda da população, o que por sua vez permite mais importações de produtos de alta qualidade, reforçando assim todo o ciclo virtuoso.

A solução para a pobreza, portanto, está em facilitar ao máximo o crescimento econômico. E, para que isso ocorra, o óbvio tem de ser feito: desburocratizar, desregulamentar, reduzir impostos (o que implica reduzir gastos do governo), facilitar o empreendedorismo e ter uma moeda forte.

O objetivo aqui não é contestar a frase de que “não comemos PIB”, mas contextualizar a importância do crescimento do PIB e como um maior PIB per capita está correlacionado com algumas características desejáveis de uma sociedade. 

Nunca é demais lembrar que, como também está registrado no livro de crescimento do Acemoglu, o processo de aumento do PIB per capita, embora geralmente bom para o bem-estar, cria perdedores e ganhadores – daí, talvez, as resistências.

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101 comentários em ““Não comemos PIB!”, gritam. Estes seis gráficos provam o contrário”

  1. Estado máximo, cidadão mínimo.

    É triste constatar que nenhum veículo grande aborde a economia desta maneira. Todos, quase sem exceção, apontam o império das bananas como um país já “riquíssimo”, “altamente privilegiado” de “cultura ímpar” e “abençoado”. Isso faz com que muitos simplesmente vivam de caneca na mão pedindo por distribuição dessa riqueza apregoada como já pronta e embalada para consumo.

  2. O autor só esqueceu de citar ás diferenças entre o crescimento do PIB impulsionado artificialmente pelos gastos de um governo, o crescimento impulsionado genuinamente pela iniciativa privada, e o crescimento impulsionado artificialmente pelo consumismo, causado devido a maior expansão da oferta de crédito fácil, mas ainda é um bom artigo, criado aparentemente para ser digerivel á leigos.

    Hoje em dia, pelo menos uns 40% do PIB é artificial, formado pela gastança governamental.

  3. Olhar apenas o crescimento do PIB é enganoso exatamente por causa da questão demográfica. De nada adianta o PIB crescer 5% se a população estiver crescendo 10%. Igualmente, um crescimento do PIB de 2% é excelente se a população estiver estagnada.

    Há anos venho dizendo que o “estrondoso” crescimento do PIB brasileiro na década de 70 se deveu muito mais a fatores demográficos (além do forte crescimento populacional, houve a entrada da mulher no mercado de trabalho) do que a alguma política econômica.

    Aliás, a própria década de 80 (a década perdida) também apresentou números robustos para o PIB. Pudera: a população brasileira cresceu forte naquela época, e a mulher entrou com ainda mais força no mercado de trabalho. O crescimento do PIB veio como que por gravidade.

    Atualmente, é muito irrealista querer que o Brasil cresça 5% ao ano durante a próxima década. Não com a nossa demografia. Também é irreal querer que qualquer país europeu cresça mais de 2% ao ano. Não com a demografia deles.

    Por isso o PIB per capita é o único indicador que deve ser olhado – se for para ser olhado.

  4. O PIB per capita é muito maior na Austrália do que na Índia. Mas existe mais desigualdade social na Austrália do que na Índia.

    Qual situação é melhor?

  5. Não gosto muito do PIB (sou entusiasta do PPR proposto por Rothbard), todavia, é o que tem. E mesmo utilizando esses dados criados pelo próprio governo, os austríacos ainda conseguem apontar tendências (até mesmo quando abordando o caso da China, onde os dados do PIB possuem uma acurácia ainda menor).

  6. Todos os anos baixo a planilha do heritage.org, que mede o grau de liberdade de cada país. Faço a correlação do PIB per capita dos países com o ranking de liberdade. A correlação é de mais de 60%. Isso é enorme! É a prova de que é a liberdade que leva à prosperidade.

  7. Centro Moderado Elegante

    To vendo um pessoal ai falando que desigualdade é bom e que sem desigualdade não há crescimento. QUe a Índia tem mais desigualdade que a Austrália etc.

    Um famoso filósofo dizia que a perfeição está na exata medida das coisas. O mesmo vale aqui!

    Um pouco de desigualdade é bom, sim! Mas a desigualdade a nível brasileiro é obsceno e indesejável!

    E mais, desigualdade não implica baixo crescimento. Razão pela qual não devemos dizer que temos que preferir entre um ou outro país que é mais ou mens rico e desigualdade. Acreditem, pode-se ter o dois. Quem criou esse falso trade-off?

    Finalizando: Esse assunto de “pessoas não comem PIB” voltou à tona agora. Se perguntaram por quê? Voltou porque tivemos crescimento de PIB e aumento da pobreza e insegurança alimentar. Na contramão do que diz o artigo.

    Saudações cordiais

  8. Bolsodilma cirolulaguedes

    dólar a 4.97 reecas agora

    o mercado está esperando dados de emprego dos EUA(quinta feira) e IBGE(quarta feira) no brasil.

    No plano econômico, a semana deve ser marcada por dados do emprego, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Na quarta-feira (30) o IBGE deve divulgar a PNAD Contínua, que deve trazer um novo panorama do emprego para o país.

    Apesar dos dados do PIB e outros indicadores apontarem que a economia brasileira caminha para uma retomada mais intensa das atividades, o desemprego ainda é um desafio. Na última leitura, o IBGE registrou 14 milhões de desempregados, aproximadamente 14,7% da população.

    Na terra do Tio Sam

    Mas outra taxa de desemprego deve estar no radar dos investidores brasileiros e do mundo. A partir de quinta-feira (1º) devem ser divulgados dados referentes ao emprego nos Estados Unidos, com os pedidos de auxílio desemprego no mesmo dia e o relatório de empregos (payroll) na sexta-feira (02).

    Até lá, os dirigentes do Federal Reserve devem fazer uma série de discursos ao longo da semana e reiterar o compromisso da instituição financeira em manter a taxa de desemprego baixa. Essas ações estão diretamente ligadas à política monetária do Fed, que incluem alterar a taxa de juros e retirar estímulos da economia.

    O Fed já anunciou que deve manter seus planos de retirada de estímulos e aumento da taxa de juros em 2023, mas outros líderes da instituição deram sinais de que o BC americano começou a debater uma alteração desse plano antes da hora.

  9. Sim, se formos desmanipular os dados, á taxa de desemprego servirá para alguma coisa, mas ainda assim é um dado extremamente patético que distorce diversas coisas.

    Para os macroeconomistas que fazem esses dados, um funça ou político é tão produtivo e criador de valor quanto um empregado ou empreendedor, e um mabalarista de transito satisfeito e que não vê necessidade em procurar um emprego é muito mais produtivo que um mendingo. É impressionante.

    Para os macroeconomistas que formulam á taxa de desemprego, alguém desempregado que vive de esmola governamental é tão produtivo quanto o Bill Gates ou o Elon Musk. É genial.

  10. O artigo está falando de PIB, então, eu vou perguntar:

    O capital financeiro (ou capital fictício) entra na conta do PIB? Quando um banco embolsa os juros ou quando os BaCens criam dinheiro do nada para recomprar os títulos dos bancos, o dinheiro envolvido entra na conta do PIB?

    Sabemos que é muito difícil para a economia produzir coisas materiais. É muito difícil produzir uma usina de energia, uma fábrica de roupas, uma safra de algodão, água tratada, minérios, trabalho humano etc

    Sabemos que é muito fácil criar “dinheiro do nada” que, depois, se concentra nas mãos dos bancos.

    O que que eu estou querendo dizer? Existe uma parte “hardware” e outra “software” da economia.

  11. Mas, se está tendo inflação, através do aumento de preços , isso não aumentaria o valor nominal do PIB, mas não o valor real que é os produtos produzido.

  12. O brasil não esta em recessão técnica? Não foi vocês que denunciaram o keynesianismo? Brasil foi muito bem na retomada, eai, agora que é positivo vão louvar Mises? Mas não era Keynes que estava reinando aqui neste periodo?

    Me expliquem, to confuso agora

  13. Curioso que tinha comentarista que achava que o PIB reanima métrica ruim… será que depois de ler esse artigo ele mudará de opinião?

    mises.org.br/article/2083/o-crescimento-economico-e-facil-e-natural–basta-o-governo-permitir#ac282926

    Pequeno detalhe: mesmo sendo claríssimo que o comentário colado acima e o artigo em tela sao inconciliáveis, terá gente defendendo que tudo é conciliável

  14. Pessoal, uma dúvida: quais seriam as consequências práticas provocadas pelo “plano” do Ciro Gomes de tirar as pessoas do SPC e do Serasa?

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