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A desigualdade é um indicador errado e enganoso – concentre-se na pobreza

Uma das questões
sociais mais abordadas da atualidade é a desigualdade. Vários órgãos da grande
mídia, da CNBC
americana ao O
Globo
brasileiro, publicaram com grande estardalhaço os resultados do
último relatório global da Oxfam sobre a desigualdade, o qual afirma haver um
abismo cada vez maior entre os ricos e os pobres.

No relatório de
2018, a Oxfam afirma que “82% de todo o crescimento na riqueza global no último
ano foi para o 1% mais rico, ao passo que a metade mais pobre da humanidade não
viu aumento nenhum”. E acrescenta dizendo que “Novos dados do Credit Suisse mostram que 42 pessoas
hoje detêm a mesma riqueza que 3,7 bilhões de pessoas mais pobres”. E completa
dizendo que “ao longo da última década, os trabalhadores comuns viram sua renda
aumentar a uma média de apenas 2% ao ano, ao passo que a riqueza dos
bilionários aumentou 13% ao ano — praticamente seis vezes mais rápido”.

Entretanto,
antes de jogar tudo para o alto e sair vociferando invectivas aos ricos, seria
prudente analisar mais de perto estas cifras para ver o que elas realmente
significam. Seria a desigualdade algo tão ruim quanto dizem? Ou será que os
pobres nunca estiveram em uma situação tão boa quanto estão hoje?

O problema com a desigualdade

Para começar,
olhar a desigualdade por si só é insuficiente, não importa qual seja sua ideia de “justiça
social”. Por definição, ela mensura o nível de renda ou de riqueza que um grupo
de pessoas recebe ou detém em relação a outro grupo de pessoas dentro de uma sociedade.
O termo-chave aqui é “em relação”. Por si só, não há qualquer informação sobre
se o quintil (os 20%) mais pobre possui um baixo ou um alto nível de renda. Com
efeito, não há nem mesmo qualquer informação sobre a qualidade de vida das
outras subdivisões.

Considerando a mensuração
padrão de desigualdade — o índice de Gini –,
um país com um índice de Gini baixo (ou seja, um país relativamente igual) não necessariamente
é mais desenvolvido ou rico que um país com um índice de Gini alto (relativamente
desigual).

Por exemplo,
Cuba, com um índice
de Gini de 0,38
, e Libéria, com
um de 0,32
, têm muito menos desigualdade que as altamente ricas e desenvolvidas
Cingapura e Hong Kong, cujos coeficientes de Gini são, respectivamente, 0,45 e
0,53. Cidadãos de um país pobre com baixa desigualdade são igualmente pobres.

Neste exemplo,
a desigualdade mensurada pelo Gini é incapaz de mostrar se os 20% mais pobres
(o quintil mais baixo) de Cingapura ou Hong Kong possuem uma qualidade de vida
melhor que os 20% mais pobres de Cuba ou Libéria, e vice-versa.

Aprofundando um
pouco mais este ponto: um aumento na desigualdade não necessariamente representa
um resultado negativo, assim como uma queda na desigualdade não é
necessariamente algo positivo. Uma sociedade em desenvolvimento, na qual pobres
e ricos estejam com sua renda real aumentando, embora a renda dos ricos esteja
crescendo mais rapidamente, irá vivenciar um aumento na desigualdade. Entretanto,
dado que pobres e ricos estão vendo suas rendas aumentarem, todos estarão em
melhor situação.

Inversamente, uma
economia combalida que vivencie uma redução na renda real tanto dos pobres
quanto dos ricos, e cuja renda dos ricos esteja declinando mais rapidamente,
irá apresentar uma redução na desigualdade. Entretanto, ambos os grupos estarão
agora em uma situação pior, ainda que a diferença de riqueza tenha diminuído. Neste exemplo, uma redução na
desigualdade foi algo negativo.

Este argumento
foi muito bem explicado na obra
de Simon Kuznets (1955)
sobre a relação entre crescimento
econômico e desigualdade de renda. O autor mostra que, em nações pré-industriais,
a desigualdade é baixa porque grande parte da população é igualmente pobre
(pense novamente em Cuba e Libéria).

E aí, à medida
que suas economias vão avançando e adotando as mais produtivas atividades
industriais, a desigualdade aumenta como consequência do simples fato de que
taxas de desenvolvimento não têm como ser igualitárias. Vários países atuais da
América Latina se encaixam nesta categoria.

Finalmente, tão
logo uma nação se desenvolve por completo e se torna rica, as diferenças entre
cidade e campo são reduzidas, a maioria dos membros da sociedade se aproxima dos
mais ricos, e um sistema de bem-estar é ampliado a todos os participantes,
reduzindo novamente a desigualdade. Os países nórdicos são os que estão
mais próximos deste estágio.

Outra limitação
está no fato de que os defensores da igualdade quase sempre estudam os
indicadores errados. Utilizar a riqueza ou o patrimônio líquido não apenas é
algo enganoso, como também é incorreto. O patrimônio líquido é simplesmente o
resultado dos “ativos menos passivos” de um indivíduo, e não reflete sua
qualidade de vida. Por exemplo, um estudante de Harvard com um empréstimo estudantil
de US$ 100.000 terá um patrimônio líquido negativo, embora possa viver
confortavelmente em uma casa bem mobiliada, com Netflix e várias outras
amenidades, e tendo férias uma vez por ano.

No entanto,
pelos padrões da Oxfam, ele é considerado mais pobre que uma menina de seis
anos de idade com $0,10 em seu bolso, ou até mesmo mais pobre que um homem na África
que vive com $2 por dia. (Confira aqui as bizarrices metodológicas da Oxfam).

Com efeito, segundo o relatório da Oxfam, é necessário
um patrimônio líquido de US$ 68.800 para fazer parte dos 10% mais ricos do
mundo. Nos países desenvolvidos, a maioria das pessoas com uma casa própria e já
quitada preenche com sobras este pré-requisito. Já para fazer parte do 1% mais
rico, o piso é de US$ 760.000.

A real situação dos pobres

Logo, se a
desigualdade tem suas limitações, quais indicadores podem nos dar uma ideia
sobre a real situação dos pobres?

O mais
significante é a contagem por cabeça de pessoas vivendo globalmente abaixo da
linha de pobreza. Outros indicadores de desenvolvimento incluem expectativa de
vida, taxas de mortalidade infantil, acesso a água potável, taxas de alfabetização
e escolaridade, e vários outros itens.

Todas essas variáveis
mensuram padrões de vida (e, consequentemente, pobreza). E, apesar do tão atacado
aumento nos níveis de desigualdade, todas essas variáveis melhoraram — e
continuam melhorando — a um ritmo veloz desde a Revolução Industrial,
especialmente nos anos mais recentes.

Nos itens
abaixo, você encontra hyperlinks para alguns gráficos compilados da partir dos dados do Banco Mundial.
Infelizmente, nem todos os dados disponíveis possuem o mesmo intervalo de tempo.

A linha da pobreza global

O limiar da
pobreza extrema global é definido pelo Banco Mundial como sendo uma renda de US$
1,90 por dia
. Outras linhas de pobreza estabelecem US$ 3,20
e US$
5,50
por dia.

Contabilizando a
quantidade de pessoas em cada uma dessas três categorias, os números caíram desde
que o Banco Mundial passou a mensurá-los.

Em 1981, 42,2%
da população mundial vivia na extrema pobreza. Em 2013, o percentual já havia caído
para 10,7%. Trata-se de uma redução de impressionantes 74,3% em 32 anos.

E é importante
ressaltar: a pobreza extrema está em declínio ao mesmo tempo em que a população
mundial está aumentando. Não só o número de habitantes no mundo
aumentou, como ainda cada habitante aumentou sua renda e há cada vez menos
pessoas na pobreza. Isto é uma façanha extraordinária. (Veja aqui os motivos).

Em 1990, as Nações
Unidas estipularam que o primeiro Objetivo do Milênio era cortar os níveis de
pobreza pela metade até 2015. Esse objetivo foi alcançado cinco anos antes
do prazo
, em 2010.

Expectativa de vida no nascimento

Similarmente, a
expectativa de vida
está hoje no nível mais alto da história, e crescendo.

Mortalidade infantil

As taxas
de mortalidade infantil
estavam em 6,5% em 1990. Em 2016, foram cortadas em
mais da metade, caindo para 3,05%.

Acesso a água potável

Embora o acesso
a água potável em áreas urbanas já fosse relativamente alto no início de 1990,
ocorreu um significativo avanço nas áreas rurais.

Taxas de alfabetização

As taxas
de alfabetização global
alcançaram 86,2% em 2016, e continuam subindo.

Escolaridade infantil

A porcentagem
de crianças
fora das escolas
e sem receber educação formal caiu de 27,6% em 1970 (35,4%
para meninas) para 8,7% em 2014. Meninas continuam apresentando uma taxa mais
alta que meninos (9,5% versus 8,0%, respectivamente).

Conclusão

Da próxima vez
que você ouvir lamentos sobre os números da desigualdade, pense em suas limitações
e em todas as maneiras como os pobres do mundo estão melhorando de vida e estão
hoje em melhor situação do que estavam quando a desigualdade era menor.

Hoje, uma pessoa sai da pobreza extrema a cada segundo,
graças a melhores sistemas econômicos, a um maior conhecimento adquirido, e a
melhores e mais baratas tecnologias, as quais já chegam a quase todas as áreas
do globo. Cada vez mais
pessoas têm uma expectativa de vida maior e vivem com mais saúde e com mais
conforto em relação a qualquer outro período da história humana.

A qualidade
global de vida é hoje melhor do que jamais fôra em outras eras.

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Leia também:

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31 comentários em “A desigualdade é um indicador errado e enganoso – concentre-se na pobreza”

  1. Se a desigualdade econômica é uma opressão, punir o esforço, o mérito e o sucesso não é uma cura. Medidas coercivas que visam à redistribuição de riqueza farão apenas com que os espertos e os politicamente bem-relacionados enviem sua riqueza para o exterior ao passo que os desafortunados terão de arcar com o fardo do inevitável declínio econômico.

    Uma medida muito mais produtiva seria reduzir o imenso e burocrático aparato governamental, que, com suas regulações que impedem a livre concorrência, com sua inflação que destrói o poder de compra, com suas tarifas de importação que proíbem a aquisição de produtos bons e baratos do exterior, faz com que os pobres se perpetuem nessa condição.

  2. “Tentativas de se equalizar os resultados econômicos geram desigualdades maiores e mais perigosas de poder político“. – Thomas Sowell

    “Uma sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade terminará sem as duas. O uso da força para alcançar a igualdade irá destruir a liberdade, e a força, introduzida com bons propósitos, irá terminar nas mãos de pessoas que irão utilizá-la para promover seus próprios interesses”. – Milton Fridman

  3. Amigos do IMB, me esclareçam uma dúvida…

    Ao invés de termos um Estado provedor(que é a intenção do Brasil com sua Constituição de 88) que tenta oferecer educação,saúde “de graça” para as pessoas não seria melhor que as próprias pessoas conseguissem isso com o dinheiro delas ? E isso só seria possível tendo uma moeda forte ?

    Uma moeda com alto poder de compra, que fosse capaz de comprar “educação, saúde etc” e ainda restasse alguns trocados no bolso do cidadão ? E ele por si só faria suas escolhas sem precisar de “ajuda” do governo ?

    Não seria a melhor política contra a desigualdade(a melhor política social) você ter uma moeda forte ?

    Seria interessante o IMB fazer um novo artigo sobre a questão da moeda forte, a questão do poder de compra e como isso reflete na vida das pessoas.

    Nós devemos brigar por um país com moeda forte.

    Vocês não acham que a moeda forte indiretamente força o Estado a se endireitar num caminho mais “libertário” ?

  4. No final, não se trata de uma questão de desinformação. E nem mesmo de ignorância. Muitos que criticam a desigualdade e defendem a redistribuição de renda sabem que a redistribuição não resolve o problema, mas continuam defendendo essa ideia simplesmente porque ganham muito dinheiro com isso. (Os burocratas da Oxfam são mais ricos que 99,7% da população mundial.)

    Enquanto a distribuição do dinheiro acontece, uma boa porção vaza para o bolso deles. Acabar com a pobreza de vez não é o objetivo deles, senão perderiam a teta.

    Ao mesmo tempo, seu discurso insere um sentimento de revanchismo nos pobres, fazendo-os voltar sua insatisfação para os inimigos errados. Ao invés de se voltar contra aqueles que os roubam e os mantêm na pobreza, se voltam contra os únicos que realmente são capazes de fazer seu padrão de vida melhorar.

  5. “As taxas de alfabetização global alcançaram 866,2% em 2016, e continuam subindo.”

    Alguma coisa está errada nessa frase hehehe… provavelmente era pra ser 86,2%

  6. O historiador Walter Scheidel (Stanford) decidiu olhar para o passado em busca daquilo que realmente faz com que a renda seja mais bem distribuída e concluiu que só grandes catástrofes sociais dão conta da missão –e mesmo assim apenas por tempo limitado.

    O resultado de suas pesquisas está em “The Great Leveler” (a grande niveladora). Ao longo de mais de 500 páginas, ele mostra com muita erudição histórica que a tendência geral das sociedades, desde a Idade da Pedra até hoje, é concentrar riqueza e que essa orientação só é revertida de forma um pouco mais perceptível em situações extremas das quais queremos manter total distância. Não é uma coincidência que o autor chame as forças niveladoras que identificou de quatro cavaleiros do apocalipse.

    Continua.

    www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/06/1891959-igualdade-ou-morte.shtml

  7. Por favor me digam, como diabos alguém realmente acha ser possível medir corretamente (e sem qualquer chance de fraude maciça) a igualdade em termos de sua fatia do bolo versus a de outra pessoa?

    Você pode ter um enorme patrimônio líquido com baixa renda (aposentado) ou ter um enorme patrimônio negativo com uma alta renda (uma pessoa ainda no início de carreira). E pode existir absolutamente qualquer situação entre esses extremos.

    Como você mensura qualquer coisa de significativa nisso tudo?

    Não estou nem aí para o tamanho do bolo de alguém em relação ao meu. O que me interessa é meu padrão de vida e a facilidade que tenho para aumentá-lo.

  8. Corroborando todos os comentários até agora, não é coincidência que todos os estatistas dêem voz às falácias da Oxfam, e eles sabem ANTES de nós.

    Pois os “miseráveis” não irão pessoalmente tungar os ricos, somente quem detém o monopólio da coerção o fará – mediante, é claro, um pedágio que os transformam nos verdadeiros concentradores de riqueza.

  9. Interessante o texto, mas não acho que a quantificação da desigualdade seja um patinho feio assim.

    Na verdade, penso a desigualdade e a pobreza como duas faces da mesma moeda.

    Como pensar que a riqueza provinda de meios ilícitos (muito comum no Brasil) – como a de políticos enchendo o bolso por causa de lobies com grandes empresários e banqueiros – não vai onerar a população nos seus direitos básicos como educação, saúde, segurança, etc… ??

    Por outro lado, como esse povão todo poderia prosperar nesse ambiente tão hostil, nessa verdadeira selva que é o Brasil e que foi desenhado como um modelo que promete esses direitos básicos em troca de altas taxas de impostos e forte ônus às iniciativas privadas, principalmente para quem está começando?

    Portanto, desigualdade poderia ser sim um excelente indicador para países de economia mais aberta, sabido que este é um ponto fraco. Da mesma forma a pobreza para países de estado forte. No caso do Brasil, em que a gente mistura tudo, tem mais é que usar as duas mesmo! 😉

  10. Quanto mais socialista é um país, maior a porcentagem de pessoas que são pobres e mais concentrado fica o poder nas mãos de uma diminuta elite.

    Por isso os demagogos fazem discursos atacando os “ricos” (dos quais fingem não fazer parte) para obter e manter o poder, mas na prática eles empobrecem a classe média para acumular cada vez mais riqueza e poder.

  11. Existe mais desigualdade social na Austrália do que na Índia. Mas a Índia tem muito mais miséria que a Austrália.

    Qual situação a esquerda prefere?

  12. É importante ressaltar que o aumento da riqueza – e a consequente redução da pobreza – nos últimos 40 anos se deu a DESPEITO da intervenção social democrata. Os estados, de maneira geral, aumentaram o esbulho a partir da década de 60,70. Esquerdistas podem argumentar dessa maneira. É evidente que sabemos que isso se deve apesar do estado e em função das aberturas asiáticas.

  13. Alguém pode me explicar o efeito da moeda forte na composição dos custos de forma abrangente, apesar do fortalecimento do euro frente ao real o preço das passagens aéreas e hospedagem para o verão europeu estão mais baratas, meus clientes falam que estou ficando louca e só acreditam quando emito o voucher com os valores mais em conta que ano passado.

  14. Renato Fernando Menegazzo

    Sou biólogo e pouco entendo de Economia. Por isso, escrevo apenas para agradecer pelos artigos e comentários. É como diz meu filho André: “menos Marx, mais Mises”!

  15. Uma pergunta que talvez ajuda a compreender melhor a desigualdade:

    As operações puramente financeiras que o governo faz entram no calculo do PIB? (quando o governo “injeta liquidez”, faz “quantitative easing”e compra títulos dos bancos) Ou é só aquilo que está na economia real?

    Se o governo injetar 5 trilhões no Banco X e esse dinheiro não cair na economia, os 5 trilhões de reais entram na economia?

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