A França é o segundo país mais
importante da zona do euro e da União Europeia (considerando a saída do Reino Unido).
Em abril de 2017, o país escolherá seu próximo presidente. Os desdobramentos
dessa eleição serão cruciais para o futuro tanto do euro quanto da União
Europeia.
Eis cinco fatos de crítica
importância.
1.
Os Republicanos estão prestes a nomear um candidato com uma plataforma de
cortar gastos do governo
Domingo passado, o Partido
Republicano francês (Les Républicains) realizou, pela primeira vez em sua história,
primárias para definir quem será seu candidato a presidente. Neste primeiro
turno, 7 candidatos concorreram. As pesquisas previam que o prefeito de
Bordeaux, Alain Juppé, um político tradicional
de centro-direita com grande apreço pela União Europeia, venceria com
tranquilidade, sendo seguido pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy.
Em uma surpreendente reviravolta, o
ex-primeiro ministro de Sarkozy, François Fillon, sagrou-se
vencedor com 44,1% do votos, ao passo que Juppé terminou em segundo, com 28,6%.
A surpresa não somente foi a
vitória de um candidato que não é um político profissional — desta maneira
invalidando as pesquisas e os comentaristas políticos –, como também o fato de
que as propostas deste candidato giram em torno de uma redução do tamanho do
estado (algo atípico e impopular na França).
François Fillon deixou claro que
quer demitir 500.000 funcionários públicos
em cinco anos, reduzir impostos e contribuições à seguridade social em um montante € 50 bilhões, e
reduzir os gastos totais em € 100 bilhões. Fillon também fala em aumentar consideravelmente a
autonomia das escolas (deixando-as mais livres das imposições estatais) e
quer abolir em definitivo o aumento de impostos implantado por François Hollande
sobre as rendas mais altas — chamado de “imposto de
solidariedade sobre as grandes fortunas“.
Mas nada
de ficar animando. Esse bem-vindo corte de gastos anunciado por Fillon oculta o
fato de que ele defende
um aumento de 2% nos impostos sobre o consumo. Ele também quer intensificar a guerra
às drogas, é a favor de que o parlamento introduza uma
cota anual nas imigrações, e quer proibir
o burkini.
Fillon
foi o primeiro-ministro de Sarkozy de 2007 a 2012, um período caracterizado por
aumentos de impostos e um volumoso pacote de socorro aos bancos.
2. François Hollande pode ser derrubado pelo
seu próprio partido
Na mais recente pesquisa de
popularidade, apenas 4% dos franceses
consideravam o desempenho do atual presidente socialista François Hollande como
“satisfatório”.
Com uma taxa de aprovação menor que
a porcentagem de álcool em uma garrafa de Bordeaux tinto, Hollande causou
sérios problemas para si próprio e para seu partido. Pesquisas atuais mostram que
Hollande, que busca a reeleição, seria trucidado no primeiro turno das eleições
de 2017, o que vem dividindo seus colegas partidários.
É comum na França que o atual presidente,
ao tentar a reeleição, não seja desafiado dentro de seu partido por outro
candidato que queira tentar sua vaga. No entanto, a impopularidade
historicamente baixa de Hollande levou o Partido Socialista a marcar sua
primária para janeiro de 2017. Os principais rivais de Hollande
nessa disputa são seu próprio primeiro-ministro Manuel Valls e seu ex-ministro da economia Arnaud Montebourg, conhecido por seu inflexível
keynesianismo na defesa de mais gastos governamentais.
De acordo com as pesquisas,
ambos derrotariam facilmente Hollande nas primárias de janeiro.
3.
Sim, Marine Le Pen tem grandes chances de vitória
Ela provavelmente é o grande
elefante na loja de porcelana. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, um partido nacionalista, disparou tão acentuadamente
nas pesquisas, que seu partido nem sequer se preocupou em organizar uma
primária. Ela já é a candidata natural.
As pesquisas mostram que, hoje,
ela estaria tranquilamente no segundo turno, deixando-a tão perto da presidência
quanto seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2002. Ela
tem o dobro de votos de Hollande.
A grande questão é se há mais espaço
para Marine Le Pen continuar crescendo, pois sua agenda política sempre foi muito
clara: interromper a imigração, abandonar o euro e sair da União Europeia, e
reintroduzir o velho e ineficiente protecionismo. Logo, nenhuma mudança de
discurso ou de mensagem aumentaria sua preferência. Quem a apoia e quem é
contra já sabem muito bem o que ela defende.
Ironicamente, o único fator que
pode conferir novo impulso a Le Pen e à Frente Nacional são os seus opositores políticos.
De um lado, a derrota de Nicolas
Sarkozy nas primárias republicanas significa que seus apoiadores mais radicais
podem migrar para Le Pen. Como disse o jornal Le Figaro: “A Frente Nacional almeja
adotar os órfãos de Sarkozy”.
De outro, a baixíssima popularidade
do Partido Socialista pode ser também um grande ativo para Le Pen, que poderá
ganhar o apoio de socialistas desiludidos. Afinal, sua agenda econômica é
altamente intervencionista (bem ao gosto dos socialistas) e contrasta com a
abordagem mais liberal de François Fillon e com as convicções pró-União
Europeia de Alain Juppé.
Brigas entre vários grupos
políticos e desilusões ideológicas sempre favorecem a ascensão de nacionalistas
mais extremistas.
4.
Um candidato independente e simpático ao livre mercado já está com dois dígitos
nas intenções de voto
Emmanuel Macron, que chegou a ser ministro da economia no
governo socialista por um curto período de tempo, renunciou e agora está
concorrendo como candidato independente. Na França, ele é amplamente conhecido por
ter criado a Lei Macron (oficialmente: Lei
para o Crescimento, Eficácia e Igualdade de Oportunidades Econômicas).
Tal lei contém uma ampla
variedade de alterações nas regulamentações econômicas, trabalhistas e de
transporte.
Macron abriu o mercado de ônibus intermunicipais,
acabando com os monopólios protegidos pelo estado e permitindo a entrada de
novos concorrentes. Tal medida gerou mais concorrência no mercado, reduziu os preços
das passagens e criou 13 mil novos empregos no
setor privado.
Adicionalmente, houve também uma
reforma nas leis trabalhistas que versavam sobre a proibição de trabalhar aos
domingos: Macron não apenas ampliou as exceções a essa lei (o que possibilitou
que mais negócios pudessem abrir aos domingos), como também aumentou o número
de permissões concedidas pelas autoridades locais.
Outra medida foi a introdução de
maior flexibilidade na profissão dos notários (profissionais
que emitem notas, certidões e que fazem protestos de títulos; também conhecidos
como tabeliães) por meio da criação de 247 zonas chamadas de “zonas de
livre estabelecimento” ao redor de toda a França. Nestas zonas, os tabeliães não
precisam ser regulados pelo governo, podendo exercer livremente sua profissão. Isso
basicamente liberaliza o mercado de notários e reduz o preço para seus
consumidores.
Macron está atualmente com dois
dígitos na preferência dos eleitores, os quais, notavelmente, são oriundos de todos os lados do espectro
político.
5.
O ponto de virada para o país chegou
A segurança nacional se tornou um
assunto extremamente importante para os franceses após vários terroristas islâmicos terem cometido horrendos ataques que
resultaram na morte de centenas de pessoas.
Adicionalmente, o PIB per capita
do país não aumentou entre 2007 e 2015.
E, embora sucessivos governos
tenham prometido combater o desemprego, a taxa não consegue ficar abaixo de 10%.
E um número alarmante de pessoas desempregadas não mais conseguiu trabalhar
desde a crise de 2008. O número
absoluto de desempregados é recorde histórico.
A dívida do governo em relação ao
PIB está perigosamente perto de 100%, e os déficits financeiros do governo estão
entre os maiores da zona do euro (“estranhamente”, os déficits nada fizeram
para aditivar a economia, como defendem os keynesianos).
A social-democracia francesa
chegou ao limite. Há muito tempo.
Porém, por causa do enorme poder político
dos sindicatos, qualquer reforme visando a reduzir gastos com assistencialismo praticamente
não tem chances reais.
Conclusão
A França chegou a uma conjuntura
crítica. Não há dúvidas de que as consequências desta eleição serão por
décadas.
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Leia também:
A França e o ápice da
social-democracia: impostos para todos, emprego para poucos
A social-democracia no
Brasil entrou em colapso – abandonemos os delírios e sejamos mais realistas
Ótimas notícias.
Que bom, afinal algum lugar está prestes a mudar, dá até medo fazer um prognóstico parecido para Brasil 2018.
Alguém sabe de algum prognóstico político semelhante para a Itália? Parece que por lá os sindicatos estão bem mais desarmados que na França.
Ótimo resumão!
Bem interessantes as medidas adotadas pelo Macron. Resta saber o seu posicionamento a respeito da UE e a imigração.
Ao menos para os Socialistas, haverá uma nova queda da Bastilha.
Esperem para ver Salvini ou Georgia Meloni na Itália.
Algum deles está disposto a mudar o hino sanguinário e socialista da França?
A França não é parlamentarista? Portanto o presidente governa ou ele é chefe de estado deixando ao primeiro ministro a função de governar?
Qualquer semelhança com a social-democracia do fabianismo brasileiro não é mera coincidência.
Leandro,
Qual sua opinião sobre esta avaliação (sucinta) dos políticas fiscais dos governos Bill Cliton, G. W. Bush e Barack Obama: http://www.valor.com.br/brasil/4784575/virtude-da-disciplina-fiscal
Obrigado antecipadamente e um abraço!
Sou a favor da Le Pen, no momento cujo a Europa está passando, apesar de que o Macron poderia ser uma boa escolha, mas não sei se ele tem pulso para comandar a nação!
O problema da França não é fiscal, mais sim cambial.
A Argentina e o Brasil viram muito bem as consequências horrorosas de um câmbio apreciado no início desse século. Enquanto o ”euro francês” for lastreado no ”euro alemão”, o desemprego seguirá alto e a economia não crescerá. Nessas horas é que é importante ter uma moeda própria para desvaloriza-la e assim fazer o ajuste cambial, algo que só acontecerá se a França sair da zona Euro.
Moeda forte é sinônimo de desgraça.
Marine Le Pen é a Joana D’ark do século XXI!Ela irá salvar a França da ameaça islâmica e da praga do socialismo.
E por falar em França…
Eu NÃO QUERO DEMOCRACIA, EU QUERO LIBERDADE!
.
Rousseau, o gigolô, bem matou a charada desde muito posta como pretensão filosófica de solução. Pergunta que durou seculos pelo embate entre TEORIA e PRATICA (praxis, como Marx preferia).
Sim, há a teoria sobre o certo, mas sem o experimento, a pratica, ela jamais deixará de ser uma teoria. Daí a questão filosófica:
– JUSTIÇA É A VONTADE DO MAIS FORTE?
A prática informava que o mais forte chamava sua vontade de justiça e em nome de tal a impunha(como faz o Estado hierarquizado).
Porém, a teoria dizia que força e verdade nada possuem em comum.
Então Rousseau matou a charada:
“O FORTE NÃO SERÁ SEMPRE O MAIS FORTE SE NÃO FIZER DA SUA FORÇA UM DIREITO E DA OBEDIÊNCIA ALHEIA UM DEVER.”
É por isso que toda a ambição de Poder exige OBEDIÊNCIA CEGA em nome da LEI. Como se a lei detivesse por si só o caráter da verdade e do direito.
Ora, como disseram os pais fundadores dos EUA, uma lei injusta não deve ser obedecida e por isso o ABSOLUTO DIREITO DOS INDIVÍDUOS POSSUIREM E PORTAREM SUAS ARMAS para resistirem até mesmo à TIRANIOA LEGALIZADA embora ILEGITIMA.
LEGAL É DIFERENTE de LEGITIMO.
bem como
DEMOCRACIA É MUITO DIFERENTE DE LIBERDADE.
Democracia é apenas um método para os ESCRAVOS votarem nos candidatos a Senhores dos senhores ou, como foi no FEUDALISMO, votarem para o SUZERANO dos SUZERANOS, como era chamado o Rei.
De que adiantaria aos SERVOS de GLEBA (ESCRAVOS) votarem nos nobres u seus vilões (feitores)???
Absolutamente nada, pois a VASSALAGEM continuaria, bem como a SERVIDÃO. Afinal a MORAL na qual foram ADESTRADOS e DOUTRINADOS fez da SERVIDÃO aos “escolhidos por deus” um dever e um mérito para ostentação do ORGULHO de SERVIR. Sim, a idéia foi MANIPULAR a vaidade dos tolos e sem autoestima para serem HUMILDES por OSTENTAÇÃO de soberba.
Coisa de estúpidos, mesmo. Algo semelhante ao pobre e OBEDIENTE SOLDADO que orgulha-se de morrer no lugar dos seus senhores que criam as guerras para se locupletarem e MANTEREM-SE no PODER.
O soldado idiota vai à guerra sem nem mesmo saber a razão e muitos menos concordar com ela. APENAS OBEDECE à HIERARQUIA QUE LHE FOI INCUTIDA pelo ADESTRAMENTO MILITAR (é assim mesmo que se chama). Afinal, os SENHORES olham para seus SERVOS como se estes fossem meros ANIMAIS criados para SERVI-LOS até com a vida.
Gostei das propostas de Marcon ,se fosse Francês votaria nele.Acho importante que neste momento em que os regimes políticos do mundo todo começam a se desfazer e a incompetência e o autoritarismo dos políticos começa a ficar evidente para a população precisamos de cada vez mais pessoas que defendam abertamente a redução do estado.
“A surpresa não somente foi a vitória de um candidato que não é um político profissional — desta maneira invalidando as pesquisas e os comentaristas políticos…”
Déjà vu! Engraçado, parece que já ouvi isso antes…
Sobre Marine Le Pen, criticá-la ou não votar nela é machismo, fascismo. cubismo, etc.! A Hillary e seus apoiadores não disseram que é importante ter mulheres na presidência? Atendendo a pedidos…
Marine Le Pen será a Joana Darth Vader!
Macri na Argentina, Macron na França, espero que não tenhamos no Brasil um Micro! Ou melhor, só se for para minimizar o Estado!
Os pré-candidatos franceses não são tão bons quanto os pré-candidatos do Partido Republicano dos EUA, mas são melhores do que a maioria dos pré-candidatos brasileiros.
* * *
Le Pen perde para todos no segundo turno. Ainda bem, uma versão francesa do Bolsonarismo com toda sua ignorância econômica.
O que esse instituto tem a dizer da proposta bancaria/moeda da Le Pen? Algum risco de isso gerar inflação para os Franceses ou ela quer fazer uma moeda solida?
Estava lendo que ela quer sair do Euro, até ai nada demais, afinal, a Inglaterra também não está no Euro, nem a Suíça, e ambos tem uma moeda mais forte. Porem, como o a Le Pen não é liberal, isso pode ser apenas uma desculpa para financiar o governo criando dinheiro do nada.. É isso mesmo? A franã ta louquinha pra entrar em inflação-hiperinflação?
Macron ganhou no primeiro turno, mas ainda haverá um segundo turno.
Apesar da catástrofe em conduzir a ditadura sanitária e em sua retórica ambientalista, Macron conseguiu cortar impostos corporativos (já estão ainda menores do que os pornográficos 34 % do Brasil). Todavia, ele aumentou a alíquota máxima do imposto de renda para pessoa física e o imposto da seguridade social. A lógica de se cortar imposto corporativo e aumentar imposto de renda para pessoa física e de seguridade social, é algo que me causa muitas dúvidas. Ele fez uma reforma previdenciária por decreto ainda em 2020, além de já ter comprado briga com poderosos sindicatos franceses. Ao que consta, essa reforma não veio e virou uma pauta nessas eleições. Macron também disse sobre reformas pró-mercado e na legislação trabalhista (bom, até que a taxa de desemprego na França está baixa).
Da parte previdenciária, eu critico o aumento de idade da aposentadoria porque isso é uma forma de aumentar impostos, embora isso seja o único jeito de sustentar a pirâmide (por mais alguns anos). Deveria ser copiado (pelo menos) o que foi feito no Chile. Com esse regime de repartição, vai ser sempre isso, com aumento na idade e nas alíquotas, para não quebrar de vez.
O problema da Marine Le Pen é que a sua política econômica lembra bastante a da Dilma, com protecionismo e dirigismo econômico. Ela falou em sair da UE (embora eu não saiba se ela mantém ainda essa posição), o que não sei se faria muita diferença. A candidata abertamente condenou a invasão russa na Ucrânia, algo que o Bolsonaro deveria ter pensado em fazer (ainda que eu entenda a importância das boas relações diplomáticas por causa de fertilizantes e outros produtos).
A França é um problemão em termos fiscais, não tendo nenhum superávit nominal (nem ocasional) há muito tempo, com uma dívida explosiva e gastos governamentais consumindo pouco mais da metade do PIB. A Grécia já entrou em programa de austeridade, é a vez da França.
O que salva é a inflação de preços baixa (mesmo agora, com inflação mundial, o índice de preços no país está menor, embora em alta histórica na França) e a boa capacidade empreendedorial (com as marcas Louis Vuiton e Chanel entre os destaques do segmento de luxo e moda), além do setor de turismo muito forte. Os franceses são também extremamente produtivos, amenizando a menor jornada de trabalho ante algumas economias desenvolvidas.
Pobre França!
Segundo turno bom no país mais visitado do planeta seria o lacrador que ama as riquezas da Amazônia brasileira e o Zammour. Seria bacana ver o último jantando eleitoralmente o primeiro.
Ressuscitando a discussão desse artigo…
Macron foi eleito e provocou choro dos neocons, como se a Le Pen pudesse salvar aquilo dos muçulmanos (ela teria que implantar uma espécie de estado policial e criar uma espécie de fiscais do Sarney, para poder tentar tirá-los, já que uma parte já é nascida lá ou se converte). Enquanto tiver desarmamento civil, assistencialismo e o país continuar intervindo no Oriente Médio, isso não vai mudar (a Suíça é um exemplo de que isso funciona). https://www.youtube.com/watch?v=pMheuisjcrQ&t=601s%5DA Le Pen é tão estatista que faz o FHC parecer liberal.
Veremos agora o que esse parasita vai aprontar. O Trump já virou um fantoche dos globalistas.