Não é desarrazoado imaginar que o sucesso do filme O Regresso
faça com que os casacos de pele voltem a ser um item da moda — e, naturalmente,
reacenda a controvérsia sobre isso.
Por todo o filme, a maioria dos homens veste casacos
de pele. É claro que não são itens
adquiridos em lojas chiques, mas sim os despojos de animais mortos no Oeste
genuinamente selvagem e desabitado dos EUA.
O ano é 1823, e os cenários são os estados de Wyoming e Dakota do Sul —
gelados, inabitados, e insanamente perigosos tanto para o homem quanto para a
natureza.
As condições físicas apresentadas no filme são
inacreditáveis. Embora filmes ainda não
sejam capazes de fazer você sentir na pele a sensação do congelamento —
felizmente, assisti ao filme dentro de uma sala de cinema aquecida, sentado em
uma cadeira reclinante e de couro, bebendo vinho e comendo uma Caesar Salad –,
a fotografia é impactante e chega muito perto de fazer você realmente se sentir
congelando.
Quando o protagonista, que está literalmente
morrendo de frio, consegue vestir a pele arrancada de um urso, abrindo nela um
buraco para sua cabeça, o espectador consegue sentir o seu alívio. Em outra cena, também prestes a morrer por
causa do frio, ele arranca a cabeça do seu cavalo, retira todas as entranhas do
animal, e passa a noite dentro da carcaça.
Várias noites.
A cena mais memorável do filme envolve uma luta de vida ou
morte contra um urso.
Esse é um material digno de Oscar.
Os produtores do filme disseram que não queriam que o urso parecesse
bravo ou malvado. Eles apenas queriam
que ele se comportasse como um urso se comportaria quando estivesse protegendo
suas crias, um
recurso que acaba por intensificar a dramaticidade da cena.
E como eles sabiam como é um ataque de urso? Eles analisaram
um apavorante vídeo em que um urso de verdade ataca
um homem em um zoológico da Alemanha. Todos os movimentos e ritmos do urso foram
minuciosamente examinados. A equipe do
filme utilizou métodos de alta tecnologia para fazer com que a cena fosse a
mais real possível. E o resultado é de
cair o queixo. Os detalhes são
cativantes — como o ar da respiração do urso congelando assim que ele sai de
suas narinas.
O
valor da pele
Na época em que filme é ambientado, vestir pele não
é uma questão de luxo, mas sim de pura necessidade — pelo menos para os
caçadores e comerciantes naquela terra perigosa. É o que eles têm de vestir para permanecer
vivos. É também o seu meio de vida. Com efeito, a pele (bem como o couro que vem
junto com ela) tem mais valor do que a própria vida humana. Ao longo da história, ela foi universalmente
utilizada para fazer vestimentas e, à medida que o tempo foi passando, para
satisfazer a crescente demanda por chapéus nas cidades e em grandes centros
populacionais. (Um motivo por que os
chapéus caíram em desuso, mesmo nos países de clima frio: as pessoas passam a
maior parte do tempo dentro de edifícios com aquecimento central).
Todo o propósito das perigosas expedições àquelas
terras selvagens era o de conseguir o maior volume possível de pele de animais,
levar de volta às bases, transportar para as cidades e vender. Em um determinado momento do filme, um dos
caçadores menciona que eles estão carregando uma fortuna em peles. Com efeito, um estudo da história
econômica do comércio de pele naqueles anos parece confirmar a
autenticidade da afirmação.
O valor da vida
Ao longo do filme, várias pessoas morrem. A morte é encarada com uma alarmante
indiferença. Os nativos que matam os caçadores
de pele não têm nenhuma consideração pela vida deles. E os próprios caçadores, ao perderem mais da
metade dos homens em sua expedição, demonstram uma assustadora ausência de
sentimentos. Sua principal preocupação é
apenas coletar as peles e ir embora o mais rapidamente possível do perigo.
Com efeito, o principal enfoque da trama — não é um
spoiler; está tudo no trailer —
envolve um homem (Leonardo DiCaprio) ferido mortalmente que é abandonado à
própria sorte pelos colegas porque se tornou um fardo pesado demais para ser
carregado em uma maca durante a expedição.
Incrivelmente, ele sobrevive e volta para se vingar. Durante sua batalha pela sobrevivência, ele
tem de se sustentar utilizando apenas os elementos da natureza selvagem,
comendo búfalo cru, pegando peixes com as mãos, curando suas feridas com
pólvora, e por aí vai. (Veja aqui algumas destas
cenas).
O
que tudo isso significa?
Por causa de toda a fartura e abundância com a qual
nos acostumamos, possibilitadas pelo capitalismo, histórias sobre privações em
terras inóspitas e confrontos com a natureza selvagem são realmente
intrigantes. Filmes que nos levam a
pensar sobre questões como sobrevivência, moralidade, economia e política
tornam o entretenimento ainda mais completo.
Neste quesito, o
filme é perfeito.
A primeira coisa que vem à mente é o movimento pelos
direitos dos animais — mais particularmente, o movimento
contra o uso de casacos de pele. Em
algumas cidades, as pessoas que ainda se arriscam a utilizar casacos de pele já
se acostumaram a ser repreendidas verbalmente e até mesmo a serem
atacadas com sangue falso jogado por ativistas ambientalistas. Seja você contra ou a favor do uso de peles
hoje, o fato é que houve uma época em que se opor a matar animais e utilizar
sua pele era algo totalmente impensável.
Estando sujeito ao estado bruto da natureza, temos de fazer a única
escolha possível: vida para os seres humanos e morte aos animais.
Filmes ambientados em terras inóspitas, porém em
épocas mais recentes, como é o caso de O
Regresso, são particularmente intrigantes porque não retratam exatamente
uma selva em épocas primitivas e hobbesianas.
Os comerciantes e caçadores já tinham armas, facas e alimentos, todos os
quais existiam porque já havia uma divisão do trabalho mais ampliada. Tais pessoas eram completamente civilizadas
em todos os sentidos que conhecemos. A
vida nas cidades já era uma realidade. A
humanidade já havia há muito superado seu estado primitivo.
No entanto, os homens que faziam aquelas expedições imediatamente
se descobriam remetidos de volta às condições mais brutais da natureza. Eles enfrentavam o risco da extinção. As opções eram matar ou morrer.
As cenas na natureza crua e bruta são incrivelmente
belas, mas também profundamente perigosas.
Uma tempestade mais forte podia aniquilar todos. Um ataque de urso era o fim da expedição. Até mesmo pequenos ferimentos podiam se
tornar letais. A fome e o risco de morte
por inanição eram uma constante.
O mais interessante é que, se você realmente parar
para ouvir a conversa dos ambientalistas modernos, terá a impressão de que a natureza,
se deixada em paz, não apenas é algo extremamente belo como também
incrivelmente caridoso, nos provendo automaticamente com todas as nossas
necessidades. A realidade, no entanto, é
totalmente oposta. A natureza tem de ser
constantemente domada e repreendida para que possamos sobreviver. Poucos de nós poderíamos sobreviver na vasta
imensidão selvagem e desconhecida de uma floresta por muito tempo. A
natureza não é amigável ao homem. Nunca foi. Por isso, ela deve continuamente
domada. A própria existência da
humanidade depende da subjugação da natureza, a qual deve ser constantemente domesticada
e adaptada aos nossos conformes. Se algum dia isso não mais for feito, as
selvas irão retomar as cidades.
Mesmo com Leonardo DiCaprio sendo um famoso ativista
ambientalista, eu diria que este filme não é exatamente o melhor veículo de
propaganda para o ativismo verde.
A questão mais complicada, no entanto, envolve o
valor da vida dos outros seres humanos.
Como já mencionado, parecia ser muito baixo. Por isso, não deixa de ser curioso que os
ambientalistas se compadeçam pela pele arrancada dos animais, mas ignorem o
fato de que mais da metade das forças expedicionárias era recorrentemente
aniquilada em ataques perpetrados pelos nativos da região. O que houve com os direitos humanos? Onde está a consideração pela dignidade
humana? Parece que a pele dos animais tem
mais direitos do que os humanos.
Quando
os tempos são difíceis, a moralidade cede
Tudo isso nos faz pensar: como as condições
econômicas afetam nosso sentido prático de moralidade? Baseando-se no que testemunhamos em épocas de
guerra e de pobreza extrema — o Grande Salto Para a Frente
chinês é o exemplo mais premente –, conceitos como direitos humanos são os
primeiros a ser abolidos tão logo as provisões materiais acabam. Isso talvez signifique que a noção de
direitos humanos foi uma das últimas a ser adotada na história da evolução
social.
Afinal, antes de necessidades básicas como comida,
vestuário e abrigo serem atendidas, seres humanos agindo de acordo com a mais
alta moral da dignidade universal o fazem sob o risco da própria
sobrevivência. E se você não tem a
segurança para agir moralmente, então é impossível que uma norma ética surja e
se torne uma característica persistente e confiável.
Qual fenômeno ocorreu ao longo da evolução social
que fez com que o valor da vida humana fosse mais apreciado? Você pode dizer que foi a religião ou a
filosofia. Mas ainda assim, se a
condições materiais não forem propícias para fazer com que as pessoas tenham
bons motivos para valorizar seus semelhantes, como poderemos supor que as
normais mentais farão o serviço?
Digamos que tenhamos um sistema em que cada um de
nós precisa de terceiros para melhorar nossas próprias vidas. Sem a sua produção agrícola, eu não consigo
me alimentar. E sem a minha criação de
ovelhas, você não consegue se vestir.
Repentinamente, temos um interesse um no outro. Eu passo a ver você como um investimento, e
você passa a me ver da mesma maneira.
Sua vida se torna valiosa para mim; e a minha, para você.
Quanto mais as pessoas passam a integrar este
sistema de especialização e divisão do trabalho, mais o valor da vida humana se
torna uma característica inerente à própria sociedade. O mesmo vale para a propriedade privada:
quanto mais necessitamos que os direitos de propriedade de terceiros sejam
respeitados para que possamos prosperar, mais estes terceiros estarão dispostos
a respeitar a nossa propriedade.
Em O Regresso,
os personagens não estão fazendo transações comerciais entre si. Eles fazem
parte de um grupo expedicionário que irá interagir apenas temporariamente. Fora isso, são apenas bocas a serem
alimentadas. À medida que a comida
começa a escassear, essas bocas se tornam custos em vez de ativos. A ética é um luxo que se torna um
passivo. Repentinamente, o líder da
expedição é abandonado à própria sorte.
Seus companheiros simplesmente seguem em frente.
Jamais retornemos
Uma das piores características de uma economia rica
e desenvolvida é o quão pouco valor as pessoas dão à incrível bonança que as
cerca, a qual nos foi legada à custa de muito trabalho, genialidade e riscos
incorridos pelas várias gerações que nos precederam.
E não se trata apenas de bens físicos. Pense na questão moral: a maneira como
veneramos os direitos humanos, a maneira como brincamos com a ideia de que a
natureza é caridosa e benevolente, a maneira como desdenhamos os casacos de
pele. Tais preocupações são belíssimas e
é realmente uma dádiva que possamos nos dar ao luxo de tê-las. E só podemos nos dar a esse luxo por causa do
complexo e intrincado sistema de divisão do trabalho, propriedade privada e
transações comerciais que a humanidade conseguiu estabelecer ao longo dos
séculos.
Qual frágil é esse arranjo? Muito. Ele
pode desmoronar a qualquer momento. Guerras,
inanições, pandemias, pestilências — condições extremas que interferem em
nossa capacidade de sermos valiosos para os outros e eles, para nós.
O
Regresso é um lembrete assustador — e como precisamos
deles! — de como nossa vida é boa. Que
vestir casacos de pele seja um ato hoje controverso e desdenhado por várias
pessoas mostra o tanto que evoluímos materialmente.
Belíssimo texto. Emocionante.
Apesar do perrengue que DiCaprio passou nas filmagens para encarnar o personagem, parece que ele não aprendeu NADA do que Jefrey Tucker ensina neste artigo, que ao meu ver é a constante luta contra a natureza para o progresso e continuidade da espécie humana:
quando recebeu o Oscar, DiCaprio enfatizou O discurso do Aquecimento Global, que é a questão favorita da esquerda, para ter a desculpa de expropriar bens das pessoas, e mante-las no subdesenvolvimento.
Eu sou um que, desde pequeno, nunca achei a natureza bondosa e benevolente.
Vários filmes que eu via me levavam a concluir que se alguém se perder em uma floresta, no meio do oceano, etc… Aquele alguém terá que matar para sobreviver, ou isso ou ser morto bela boníssima mãe natureza, com seus outros filhos que os enxergam como alimentos e ou ameaças.
Acho um tanto perturbador que a cena do urso tenha causado impactado a mais espectadores do que com a cena em que o filho de Hugh Glass é assassinado. Ainda que a humanidade tenha evoluído tanto, como bem afirma Jeffrey Tucker, será que essa percepção não nos mostra uma tendência à banalização da vida humana?
O Stefan Molyneux certa vez fez um comentário bastante preciso: a “mãe natureza” não está nem ai para você. É um ambiente extremamente perigoso e difícil de viver, cheio de perigos iminentes. Desde plantas venenosas que você pode comer por acidente, um graveto pontiagudo infectado com bactérias que pode te furar e te causar uma infecção fatal, extemos de temperatura que podem necrosar suas extreminades ou até animais que podem literalmente te devorar como um bando de coiotes, ursos e felinos superiores.
A ideia de que a natureza é “bela e inocente” é típica da nossa sociedade organizada em civilizações modernas, na qual desfrutamos de luxos que, entre outras coisas, nos permitiram exatamente se distanciar de todos esses perigos constantes da natureza. Hoje olhamos com vislumbre e um certo saudosismo boboca as lindas paisagens da natureza, mas nos esquecemos do quão difícil era efetivamente precisar sobreviver naquele ambiente inóspito e perigoso.
excelente artigo!
a mae natureza está mais para uma madrasta bem malvada.
outro filme que retrata a dureza da vida de um passado não tao recente é The Homesman, ou Dívida de Honra em português. Retrata bem como era a vida no velho oeste americano
Bom dia!
Sugiro novamente informar antecipadamente quando no artigo constar spoiler de filmes, seriados, livros, etc.
Abç,
André
Não entendi.
Eu posso domar a natureza a traves da mineração, da siderurgia, da física, da matemática, da medicina, …
construindo barcos, pontes, carreteiras, aquedutos, …..
A caça já e outro assunto.
Porque não criavam coelhos ao invés de ir "sei lá onde" com grande risco de perder a vida?
Muito parcial este assunto desenvolvido pelo JT
eh.net/encyclopedia/the-economic-history-of-the-fur-trade-1670-to-1870/
http://www.encyclopedia.com/topic/hunting.aspx
https://en.wikipedia.org/wiki/Hunting
a brutalidade da mãe natureza transparece na constatação que todo animal se alimenta de outro ser vivo usando de expedientes nada amorosos — a “civilização” amaciou estes expedientes no que toca ao ser humano que esqueceu dissso, desinterpretou — passou a ignorala e a dizer bobagens sem fim
Artigo interessante:
mises.org.pt/2016/02/5639/
“Manual para a Eliminação da Liberdade por Processos Democráticos”
Eu consigo ver a beleza da natureza, pois ela é a mais majestosa representação do livre mercado: só sobrevive o mais forte, o mais astuto, o mais esperto e o que sabe viver em sociedade com os recursos escassos que consegue acumular.
A natureza pode ser dura, inóspita, cruel etc., mas ela é antes de mais nada JUSTA, pois o sol nasce para todos. Quando chove, igualmente. Nas noites frias só aqueles que procuraram abrigo durante o dia vão ver o nascer do sol seguinte. E só aqueles que pouparam poderão prosseguir e sobreviver.
Portanto, mesmo que eu agradeça ao capitalismo por me proporcionar conforto, sempre olho para as origens naturais com amor e respeito, pois sem essa didática forte e implacável, jamais teríamos chegado até aqui.
Até nossa visão idílica de natureza dócil, romantica, só foi possível após séculos de doma.
Teve que passarem gerações de cabras da peste, limpando tudo com facao, matando bichos selvagens com flechas e lanças, para as atuais gerações de frescos encherem o saco.
Excelente artigo.
Certa vez, quando eu estava vendo um programa de TV, um homem que mora na cidade mais afastada do Alaska disse: “Antes, ainda no começo do século XX, de cada 10 homens da região pelo menos 8 sabiam como sobreviver com poucos recursos e enfrentando o nosso clima hostil. Hoje, tu só encontras um no meio de milhares…”
O mundo mudou, e continua mudando, o mercado nos têm oferecido bens e acessos que nos permite pensar cada vez menos em como sobreviver e mais em como adquirir bens e confortos.
Não há nenhuma – absolutamente nenhuma – contradição lógica entre as assertivas “a natureza é hostil” e “devemos buscar preservá-la”. A natureza não precisa ser “gentil” para que se a defenda.
Como ler este artigo e não lembrar do “homem-massa” e do “senhorzinho satisfeito” do Ortega y Gasset?
O império das massas: a atualidade de Ortega y Gasset
Ortega y Gasset: a barbárie é a violência como "prima ratio"
* * *
Off-topic…
Não encontrei artigos no site falando sobre maçonaria, iluminatis e outros doutrinadores infiltrados no governo.
Não podemos desconsoderar que o governo sofre influências dessas pessoas. Não são apenas empresários, comunistas e socialistas infiltrados no governo.
Achei o filme muito realista e mostra a relação homem-natureza, com dois opostos extremos de fúrias. Merecia ter ganho o Oscar de Melhor filme na minha opinião.
Vejam o filme “Into the Wild” que conta a história de Chris McCandless que se isolou do mundo. Tadinho, esqueceu que a natureza não é idealista. Spoiler: ele morre de fome no final.
Excelente reflexão. Texto muito interessante!
pessoal necessita ler sobre o desastre em mariana, maior catastrofe do brasil.. qualquer um que entenda de biologia e quimica sabe que ira demorar para, quem sabe, voltar a ser o que era
Esse artigo me fez lembrar de uma experiência de quando servi no EB, durante o nosso campo básico, eu e a minha turma tivemos que ficar de guarda durante a madrugada. Me lembro que quando fui pro meu turno, nunca senti tanto frio na minha vida. Estava abaixo de zero, e mesmo com todos o uniforme pro clima frio, inclusive um casaco camuflado que parecia mais um trambolho eu ainda sentia muito frio, como se atravessasse meus ossos. Se o planeta está realmente aquecendo, não deveria estar tão frio, e olha que o ano em que servi começou com seca, o exercício em questão foi em Abril, bem antes do inverno. As vezes até me pergunto como que não neva aqui no Sul. A experiência que eu passei me fez duvidar muito da retórica ambientalista, e me fez ter bem mais respeito pela civilização, bastou sair apenas alguns quilômetros fora do meu “habitat” e pra perceber como seria estar a mercê do que a natureza pode fazer.
Admito que a natureza é extremamente hostil. Admito que jogar sangue falso em quem usa casacos de pele é crime (ativistas sérios não fazem isso).
Mas a defesa do uso de casacos de pele como um luxo merecido é inadmissível nas condições tecnológicas de que dispomos hoje.
O próprio autor argumenta que é o progresso tecnológico que diminui a barbárie. Assim sendo, qual a justificativa para ainda nos inserirmos em ambientes inóspitos como geleiras e florestas, para arrancar a pele de ursos e vesti-las, se existem alternativas sintéticas que cumprem perfeitamente a função de nos proteger do frio? Nessa situação, os agressores somos nós, não os animais.
“Eles se preocupam com os animais mas não estão nem aí para a sobrevivência dos seres humanos”. Esse argumento é de um amadorismo que eu não esperaria de alguém embasado como Tucker. Ele deveria saber o quanto a exploração animal é antieconômica. Um boi só devolve, na forma de carne, 10% da proteína que comeu ao longo da vida. Logo, produzir carne não é produzir comida, é DESPERDIÇAR comida.
A pecuária joga toneladas de esterco em lençóis freáticos. Florestas inteiras são devastadas para criar pastos. O prejuízo causado por tudo isso é brutal. A devastação da Amazônia foi a principal causa da seca do Sistema Cantareira (g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/08/falta-dagua-em-cidades-tem-ver-com-devastacao-desenfreada-da-amazonia.html). O sr. Tucker deveria saber o quanto a água faz falta para o crescimento econômico.
Alguns usos de animais são justificáveis (em testes de remédios, por exemplo). Mas a exploração de animais para fins de alimentação, vestuário e entretenimento é, na melhor das hipóteses, fútil. Na pior, é prejudicial. Se parássemos de produzir carne, casacos de pele e zoológicos, haveria muito mais do que comer, vestir e se entreter.
Por fim, há uma contradição gritante no texto. Ele diz que o conforto atual nos tornou insensíveis. Pois bem, desprezar o sofrimento de seres sencientes é o primeiro passo para desprezar os direitos de outros seres humanos.
Texto muito bom.