
Nota da edição:
Este texto é a segunda parte de uma série que analisa as raízes institucionais e econômicas do colapso estrutural na Venezuela. Confira a primeira parte aqui.
Os moradores que perderam suas casas já conhecem o desfecho dessa história. O que ainda precisa ser explicado é por que uma tragédia anunciada terminou sendo inevitável. Esta segunda parte não recapitula a origem da promessa nem a inauguração dos urbanismos, vai direto ao ponto em que tudo começou a ruir: quando a política passou a substituir os mecanismos que permitem a uma sociedade coordenar recursos, avaliar riscos e construir com segurança.
O roubo como consequência de um desenho institucional
Existe um mito que convém desmontar antes de qualquer outro: a ideia de que faltou dinheiro à Venezuela. Entre 2011 e 2016, em plena bonança petroleira, o próprio Nicolás Maduro afirmou perante a Conferência Hábitat III da ONU, em Quito, que seu governo havia investido US$ 95 bilhões na construção de 1.160.000 moradias da Gran Misión Vivienda Venezuela. Organizações como a Transparencia Venezuela contestam esse número. A partir da execução orçamentária verificável da primeira década do programa, estima-se investimentos próximos de US$ 15,5 bilhões.
A diferença não é apenas contábil, ela revela um problema mais profundo: ninguém consegue explicar como desapareceram dezenas de bilhões de dólares. Essa opacidade dificilmente pode ser tratada como um simples desvio administrativo. Ela fazia parte do próprio funcionamento do sistema.
Quando o estado concentra todas as decisões sobre produção, financiamento, contratação e distribuição de recursos, elimina simultaneamente os mecanismos que permitem comparar custos, avaliar alternativas e corrigir erros. Sem concorrência, sem preços livres e sem contabilidade auditável, a própria possibilidade de cálculo econômico desaparece.
É precisamente essa lógica que Gabriel Zanotti sintetiza em A Economia da Ação Humana. No Teorema 55 da economia política, ele afirma que toda intervenção que restrinja a propriedade, a livre entrada no mercado e os preços como síntese do conhecimento disperso amplia a descoordenação entre os agentes econômicos. Em outras palavras, quando o estado venezuelano substituiu os processos competitivos por adjudicações políticas centralizadas, não apenas abriu espaço para a corrupção, mas destruiu o único mecanismo capaz de transmitir informações sobre custos, escassez e risco.
Sob essa perspectiva, a corrupção deixa de ser a causa principal do fracasso e passa a ser um de seus sintomas mais previsíveis. O caso Odebrecht ilustra esse padrão em outra escala. A construtora brasileira recebeu contratos públicos que somaram quase US$ 30 bilhões no país e reconheceu perante a Justiça dos Estados Unidos o pagamento de US$ 98 milhões em propinas a funcionários venezuelanos entre 2006 e 2015. Longe de representar uma exceção, o episódio evidencia um ambiente institucional em que contratos públicos deixaram de responder à lógica da eficiência para obedecer prioritariamente a incentivos políticos.
O Urbanismo Hugo Chávez, em Playa Grande, tornou-se talvez a expressão mais dramática desse modelo. Contratada em 2011, a empresa turca Summa ergueu 196 torres em prazo recorde por meio de um convênio binacional pouco transparente, avaliado em US$ 113 milhões. O terreno era arenoso, sedimentar e sujeito à liquefação. O cronograma político previa apenas dez meses para a conclusão da obra. Projetado para simbolizar o sucesso da Revolução Bolivariana, o empreendimento acabou revelando suas fragilidades estruturais. Cada torre representava, para milhares de famílias, a esperança de finalmente deixar para trás anos de precariedade.
Quando o duplo terremoto atingiu a costa venezuelana, aquelas edificações — apresentadas durante anos como a materialização do direito à moradia — transformaram-se em ruínas, levando consigo a confiança de milhares de moradores que acreditavam ter encontrado um lar definitivo.
Sem preços livres capazes de sintetizar informações dispersas sobre custos, riscos e alternativas, ninguém possuía instrumentos para dimensionar corretamente o perigo de construir sobre aquele solo. Exigir fundações mais profundas significava aumentar custos, atrasar cronogramas e comprometer a velocidade da propaganda política. Com a fiscalização técnica do Colegio de Ingenieros de Venezuela deliberadamente afastada, a decisão deixou de obedecer aos limites impostos pelo conhecimento técnico e passou a responder exclusivamente às prioridades do poder.
A morte da técnica
O segundo nível desse colapso foi menos visível, mas igualmente devastador: a destruição da capacidade técnica do próprio estado venezuelano.
Em 2005, a Agencia de Cooperación Internacional del Japón (JICA) entregou ao governo um estudo detalhado alertando para o elevado risco sísmico de Caracas e La Guaira. O relatório concluía que a implementação das medidas preventivas custaria cerca de 3% do PIB da época. Nunca saiu do papel.
A deterioração alcançou inclusive os próprios instrumentos de monitoramento. Segundo o geofísico Raúl Estévez, fundador do Laboratório de Geofísica da Universidad de Los Andes, a Fundación Venezolana de Investigaciones Sismológicas (Funvisis) chegou a operar entre 250 e 300 estações sismológicas. Em junho de 2026, restavam menos de dez em funcionamento. Não por acaso, a instituição levou horas para emitir seu primeiro comunicado oficial após o terremoto: faltavam equipamentos, recursos e profissionais especializados. O colapso econômico destruiu os salários e acelerou a fuga de cientistas e engenheiros, processo documentado por organismos internacionais como a OIT.
Esse apagão técnico não foi um acidente burocrático. Foi o resultado lógico de um modelo institucional incapaz de produzir e conservar conhecimento.
É justamente aqui que a teoria do cálculo econômico oferece sua contribuição mais importante. Como observa Gabriel Zanotti ao desenvolver o Teorema 86, quando desaparecem a propriedade privada, os preços e a livre coordenação dos mercados, desaparece também a possibilidade de realizar cálculo econômico. Sem esse sistema de informação, os planejadores deixam de distinguir entre investimentos produtivos e desperdício de recursos. Tornam-se estruturalmente incapazes de estabelecer prioridades, avaliar riscos ou antecipar consequências.
Enquanto essa capacidade institucional desaparecia lentamente, quem pagava o preço eram justamente aqueles venezuelanos que acreditaram que aquelas moradias lhes ofereceriam um futuro mais seguro.
A auditoria final
O contraste regional é revelador. Embora nenhum terremoto seja perfeitamente comparável, países como Chile e México demonstram que sociedades igualmente expostas a riscos sísmicos conseguem reduzir drasticamente o número de colapsos estruturais graças ao cumprimento de normas técnicas, à continuidade institucional e à preservação da capacidade de planejamento.
Os edifícios caíram em segundos. A confiança de milhares de cidadãos já vinha ruindo havia anos. O terremoto de 2026 foi, em última análise, a auditoria empírica que a sociedade venezuelana jamais teve autorização para realizar. Ele revelou que o verdadeiro colapso não começou quando a terra tremeu, mas muito antes, quando a política substituiu o cálculo econômico como princípio organizador do estado.
O desastre não destruiu apenas concreto e aço. Destruiu a ilusão de que um estado incapaz de coordenar informação, conhecimento e recursos poderia garantir segurança às famílias que depositaram nele suas esperanças. O colapso das construções, contudo, foi apenas o começo. A terceira parte desta série mostrará como o próprio aparato estatal entrou em colapso quando a população mais precisava dele.


