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O tormento de quem só quer servir bem

Somos uma empresa enxuta. A regra é
simples: Se adiciona valor ao cliente, fazemos. Se não, paramos de fazer.
Resumidamente, o que não gera valor, gera desperdício.

Um dos maiores aprendizados que tive como empreendedor é
separar uma coisa da outra e, com isso, aprendi a importância e o poder da
palavra não.

O que acontece é que quando dizemos sim para
alguma coisa, estamos automaticamente dizendo não para todas
as outras. Aprendendo a utilizar melhor?–?e mais frequentemente?–?nossos
“nãos”, ganhamos mais “sims” para usar com aquilo que
realmente importa.

E o que realmente
importa?

Desde o início, sempre foi claro para nós que o objetivo
final da nossa empresa é atender às necessidade das pessoas. Afinal, são elas
que decidirão, ou não, fazer negócios conosco. Sempre vimos todo e qualquer
retorno financeiro apenas como um resultado da nossa
capacidade de resolver estas necessidades delas.

Como consumidor, sempre achei interessante a inversão de
prioridades que muitas empresas têm: contratam cinco pessoas para digitar
pedidos, gerar notas fiscais e fazer reviravoltas contábeis, legais ou não,
para tentar reduzir marginalmente os impostos, mas automatizam seu atendimento
e mandam e-mails padrão para os seus clientes quando precisam de ajuda.

De fato, algumas destas atividades são necessárias, mas a
verdade é que não geram valor ao cliente. Elas não fazem as
pessoas quererem mais o seu produto e muito menos fazem que elas estejam
dispostas a pagar mais por ele. Afinal, o verdadeiro valor de algo é aquele que
as pessoas estão dispostas a pagar. É assim que conseguimos quantificar a
relevância do que fazemos.

Como encontramos
tempo para concentrar no que importa?

Em todas as empresas existem processos e burocracias que não
agregam valor ao cliente, mas que não podem ser deixados de lado: seja para
controle interno ou por requerimento do governo.

Nestes casos, utilizamos a tecnologia como uma grande
aliada. Ela nos permite automatizar estes desperdícios obrigatórios, ou
demandas que não geram valor, nos poupando tempo valioso para focar na criação
de ótimos produtos e oferecer um atendimento realmente pessoal, ajudando nossos
clientes como as pessoas completas que são.

Felizmente, os números têm comprovado a importância e a
eficácia desta clara definição de valores. Enquanto as diferentes crises nacionais
e mundiais acontecem, tivemos um crescimento muito acima do resto do país. Por
quê? Simplesmente porque ainda conseguimos entregar ao cliente um valor maior
do que as barreiras que surgiram.

Mais importante do que isso, também alcançamos um índice de
99% de satisfação em 2015. Sabemos disso porque usamos o Zendesk para nos auxiliar com os
nossos atendimentos. Todos os clientes são consultados sobre a experiência que
tiveram depois de serem atendidos.

Isso significa que as coisas saíram perfeitas em 99% das
vezes? Nem de perto. Significa apenas que as pessoas ficaram
satisfeitas com o resultado final, independente do problema que possa ter
acontecido. Nós gostamos de transformar os problemas?–?que inevitavelmente
acontecem no dia a dia?–?em oportunidades para demonstrar a seriedade do nosso
trabalho. Isso significa que, mesmo que a pessoa venha a pedir um reembolso,
queremos que ela fique contente com a facilidade e a velocidade com que o
processo se deu.

O tempo extra ganho pela grande redução de desperdícios nos
permitiu focar na satisfação e na felicidade das pessoas, que por sua vez
voltaram a fazer negócios. Isso fez a economia girar, a empresa crescer e as
pessoas felizes, tendo acesso àquilo que desejavam.

Como a mudança do ICMS afetou profundamente nosso negócio
de e-commerce

Acredito que a melhor forma de explicar o tamanho e o
impacto das mudanças da lei do ICMS seja com um exemplo prático.

Segue abaixo uma comparação da burocracia necessária para
entregar um produto antes de 2016, e agora. Para o exemplo, simulo a venda para
o estado do Rio de Janeiro, considerando que somos do Rio Grande do Sul.

Os passos são difíceis de seguir, e este é
exatamente o ponto
. Peço que você faça um esforço para entender a
burocracia criada e que todas as lojas online do país já são obrigadas seguir,
em cada uma das suas vendas.

Antes de 2016:

1- Gerar a nota fiscal eletrônica.

2- Imprimir duas vias da nota fiscal.

3- Adicionar uma via junto ao produto.

4- Enviar o produto.

5- Pagar a guia do imposto SIMPLES no final do mês.

Em 2016:

1- Gerar a nota fiscal eletrônica.

2- Imprimir duas vias da nota fiscal.

3- Checar a tabela de alíquota de ICMS, de acordo com o seu
estado e o do cliente.

4- Calcular a diferença da alíquota interna e
alíquota interestadual entre os dois estados. No caso de uma
venda do RS ao RJ, a alíquota interna é de 19% e a interestadual é de 12%. Ou
seja, o valor da diferença de ICMS é de 7%.

icms1.gif

5- Dividir esta diferença de 7% em duas partes: 40% dela
ficam para o estado do cliente e 60% para o nosso.

6- Entrar no site do SEFAZ e emitir a guia para pagamento
dos 40% dos 7% que vão para o estado do RJ. Este site varia de
acordo com o estado do cliente e os campos a serem digitados também mudam.
Digitar as informações da sua empresa e da venda manualmente para emitir o
GNRE?–?Guia Nacional de Tributos Interestaduais.

7- Imprimir a guia do GNRE.

8- Pagar a guia do GNRE.

9- Imprimir o comprovante de pagamento do
GNRE.

10- Juntar a nota fiscal, a GNRE emitida e paga, assim como
o comprovante de pagamento e coloque-os junto ao produto.

11- Enviar o produto ao cliente.

12- Pagar a guia do imposto SIMPLES no final do mês.

Se você achou o processo complicado, imagine chegar ao
trabalho pela manhã e se deparar com 40 novos pedidos.

Em vez de ficar feliz com as boas vendas e seguir com os
envios de forma ágil, o sentimento é de ansiedade e frustração em possivelmente
não conseguir fazer tudo. Mais do que isso, a sensação de gastar o seu dia com
tarefas repetitivas que jogam pelo ralo toda a sua capacidade intelectual para
fazer algo muito mais útil.

A verdade é que vender bem se tornou um grande problema em
nossa e em muitas outras empresas. Não porque não estamos preparados, não
porque não temos os produtos. Simplesmente porque não damos mais conta
da papelada.
 Não é interessante como conseguem inverter as coisas?

No dia a dia, os impactos disso se manifestam de diversas
formas. O que acontece se algo der errado? Se a impressora falhar, se a
internet cair, se a luz acabar, se o site do banco ou do próprio sistema de
emissão da GNRE estiver fora do ar?–?o que já aconteceu?–,?nosso trabalho se
torna imediatamente um inferno.

Nestes casos, não podemos fazer os envios no prazo, os
clientes mandam emails de frustração?–?os quais não podemos responder com a
eficiência e atenção de sempre, exatamente pela grande demanda extra –, abrem
reclamações no Reclame Aqui e, no
final, todos perdemos. Mesmo tendo tudo para darmos certo, nosso grande desafio
é não entrar para o crescente grupo de empresas brasileiras que cobram demais e
entregam de menos.

Essas mudanças obviamente contribuíram imediatamente para
mais um aumento de preços. Mais impostos, mais folhas de papel, mais tinta para
a impressora e, principalmente, mais caríssimas horas de trabalho para fazer
algo que não agrega valor algum. Até hoje, não conheci ninguém que decidiu
comprar um produto porque foi necessário imprimir seis folhas A4 de notas
fiscais, boletos e comprovantes para que ele fosse vendido.

Fico tentando entender: se já pagamos o SIMPLES e todos os
dados do comprador estão na nota fiscal eletrônica, num sistema integrado e
computadorizado, por que simplesmente não incluem ali a nova alíquota e depois
redistribuem a receita internamente? Ainda mais difícil de entender é a
necessidade de termos de pagar antecipadamente o imposto, produto
por produto. Será que os estados não confiam entre si nem para repassar os
impostos?

Com tanta distração, fica até fácil esquecer que somos uma
empresa de acessórios de couro e que a nossa preocupação deveria ser entregar
os melhores produtos e experiências possíveis, enquanto o governo facilita o
processo e garante o poder de escolha e a liberdade das pessoas.

A realidade é que nos tornamos escravos e gastamos uma parte
cada vez maior da nossa vida para sustentar um pequeno grupo que se importa
somente com o poder. Se não fazemos o que eles mandam, nos tiram inclusive o
direito à liberdade.

Visualizo um futuro no qual as crianças, em um mundo muito
mais livre e descentralizado, estão estudando a história da nossa sociedade
atual assim como estudávamos o feudalismo e nos perguntávamos: Como é
que ninguém fazia nada?


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24 comentários em “O tormento de quem só quer servir bem”

  1. Esse é o sentimento do empreendedor brasileiro: um governo — em todos os níveis — que só cria regras para atrapalhar quem quer trabalhar e empreender e para enriquecer seus comparsas.

  2. Olá. Boa noite.
    Sim, observei o drama.
    Uma pergunta: “E se a empresa de e-comerce ter uma equipe só para fazer essa a tarefa tributária e afins”? Bem, pergunto isso, pois, “ao que parece do texto”; as empresas de e-comerce não contam com uma boa estrutura. (Minha humilde conclusão da leitura do texto).

  3. Que bom ler um artigo no Mises Brasil a respeito desta sandice. Já havia enviado e-mail há uns meses atrás alertando a equipe do portal a respeito deste Convênio ICMS 93/2015, mas tudo tem um tempo certo, e a entrada em vigor da sandice criou uma maior visibilidade para o assunto. Os efeitos serão melhores do que se algo fosse publicado lá em setembro/outubro. Vejam o depoimento emocionado de um comerciante catarinense que teve que fechar as portas por causa destas novas regras: https://www.youtube.com/watch?v=pHM7CWedbNE . O vídeo é longo, mas vale a pena ser assistido.

  4. Por mim, o ICMS ficava todo com o estado da loja, aí os estados menos burocráticos onde a galera se sente mais a vontade pra empreender seriam recompensados.

  5. É revoltante mesmo, acho que essa lei é a mesma da tal da SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA, não é? Substituição o tóbinha deles, se você já é empresa simples e conta com uma aliquota de icms fixa, o resultado não é substituição, mas adição tributária. As empresas lucro real e presumido ainda conseguem abater estes pagamentos, mas as simples não. E ainda por cima o governo presume a margem que você terá, que não sei de onde eles tiram isso, pois no mercado que eu atuo o produto SEMPRE tem que ser vendido com margens inferiores, ou seja, mesmo que eu fosse lucro real, pagaria mais imposto do que o necessário. Tem jeito esse tal do brasil??????

  6. Tiago Cosolin Martins

    A cada nova demanda uma nova solucao.
    Nossa empresa esta preparada para fazer os calculos e gerar a gnre automaticamente em varios estado do brasil, tudo rapido, automatico, e online.
    Controle de estoque, fluxo de caixa, Nf-e e tudo mais.

  7. Igor,
    reflexão excelente e ponderada. Parabéns!
    Se conseguíssemos investir metade do tempo desperdiçado com essas insanidades em negócios, tenho certeza de que o crescimento voltaria ao nosso país rapidamente.
    Abraço

  8. isso é o estado centralizador e mamute.

    Nao possui capacidade de planejar , mas somente de cobrar.

    Criar Leis , mas NAO executa as que servem.

    Paulo Rabello de Castro ja diz e disse que o Brasil é 1 Manicomio Tributario.

    No Fim de Tudo , o principal problema do Brasil é o Estado.

  9. Ótimo artigo. Muito explicativo e elucidador. Nos da tervari.com estamos Atônitos até agora. Sem acreditar no tempo que estamos gastando com isto. Sem contar no custo que sem dúvida vai impactar no nosso produto tornando-nos cada vez menos competitivos e quebrando cada vez mais empresas. Parabéns ao governo brasileiro. Vocês acabaram com o sonho de muita gente. Márcio – http://www.tervari.com.br

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