Nota da edição:
Este artigo é a publicação do 17º capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.
Confira também o 16º capítulo
“The liberty of a man consisteth in the absence of external impediments.”
“A liberdade de um homem consiste na ausência de impedimentos externos.”
— Thomas Hobbes, Leviathan (1651)
O que nos interessa aqui não é a disputa entre regimes políticos nem o nascimento formal do liberalismo, mas a transformação silenciosa do modo como o homem passou a habitar o tempo. A diferença decisiva entre Hobbes e Locke não reside no tipo de governo que cada um defendeu, mas na concepção de ação humana, de segurança e de futuro que cada um elaborou. Trata-se de uma inflexão discreta, quase invisível à historiografia tradicional, mas essencial para compreender a travessia que conduz da filosofia política à economia como ciência da ação.
Thomas Hobbes escreveu a partir do colapso. A Europa ainda sangrava após a Guerra dos Trinta Anos. A Inglaterra ardia em guerras civis. Reis eram decapitados, igrejas profanadas, cidades arruinadas. O mundo parecia ter perdido qualquer eixo estável. Hobbes nascera em 1588, ano da derrota da Armada Invencível espanhola, e registrou em tom autobiográfico a frase que se tornaria emblemática: “Minha mãe deu à luz gêmeos: eu e o medo.” Não é figura literária. É diagnóstico histórico.
Por isso, Hobbes não descreve o homem como lobo por pessimismo abstrato, mas por experiência direta. Em Leviatã (1651), o tempo natural aparece como ameaça. O futuro não é promessa, é risco. Cada instante pode significar a morte violenta. Nesse estado, não há cálculo, nem poupança, nem projeto. Onde não há futuro confiável, não há ação deliberada. O homem não antecipa, reage.
O contrato social surge, então, como gesto de desespero racional. É a tentativa de conter o fluxo imprevisível do tempo humano, impedir que o amanhã se dissolva no medo permanente. O poder absoluto não é, para Hobbes, um capricho autoritário, mas uma engenharia temporal, um dique erguido contra a corrente do caos. O contrato suspende o medo, mas cobra seu preço. Ao transferir ao soberano o direito de decidir por todos, o indivíduo abdica também do direito de errar, de esperar, de escolher. O tempo social converte-se em tempo político, regulado e previsível. A ordem substitui o fluxo.
Algumas décadas depois, John Locke enfrenta o mesmo problema a partir de um mundo já parcialmente pacificado. A Inglaterra de Locke já não é a Inglaterra em ruínas de Hobbes. Após a Revolução Gloriosa de 1688, descobre-se que é possível limitar o poder sem dissolver a ordem. Nesse novo contexto, Locke retorna à pergunta fundamental: o que sustenta a convivência humana quando o medo deixa de ser absoluto?
Sua resposta não é o comando, mas o trabalho.
Para Locke, o homem adquire propriedade quando mistura seu tempo com a natureza. O trabalho é o gesto pelo qual a duração interior se converte em realidade exterior. Ao cultivar um campo, colher um fruto ou construir uma casa, o homem imprime na matéria a marca do tempo investido. A propriedade não nasce da força, mas da aplicação da vida ao mundo. O tempo torna-se substância moral.
Aqui ocorre uma revolução silenciosa. Se o trabalho transforma tempo em valor, o futuro deixa de ser ameaça e passa a ser possibilidade. O indivíduo torna-se administrador do próprio amanhã. O contrato social deixa de ser pacto de submissão e transforma-se em pacto de confiança.
O Estado, nessa concepção, não cria a ordem. Apenas reconhece a ordem que emerge do trabalho, da prudência e da cooperação entre indivíduos livres. A estabilidade deixa de ser produto do comando e passa a ser fruto da conduta. O cálculo, que em Hobbes era defesa, em Locke torna-se virtude. A ação humana deixa de ser mera sobrevivência e começa a organizar-se como escolha orientada ao futuro.
É nessa passagem do tempo do medo ao tempo da confiança que nasce a primeira forma de capital: a duração. Investimento, poupança e juro ainda não possuem nome técnico, mas já existem como realidade moral. O juro não é exploração, é o preço do tempo. E o tempo, o espaço ético da ação.
O estado de natureza lockeano também não é o caos hobbesiano. É um estado de possibilidade. Não está isento de conflitos, mas é fértil em oportunidades. Ao reconhecer o direito de punir quem viola a propriedade alheia, Locke afirma que a ordem não depende de um poder central absoluto, mas da reciprocidade moral entre indivíduos. A sociedade não nasce da força. Nasce da confiança.
A divergência entre Hobbes e Locke, portanto, não é apenas política. É civilizacional. Em Hobbes, o tempo precisa ser contido. Em Locke, precisa ser cultivado. Em Hobbes, o futuro é risco. Em Locke, promessa. Em Hobbes, o contrato nasce do medo. Em Locke, da cooperação. A ordem hobbesiana é construída contra o tempo. A ordem lockeana nasce dentro dele.
Dessa inflexão emerge a noção moderna de confiança: confiança como continuidade no tempo, como expectativa racional de que o esforço presente encontrará resposta futura. É nesse fio que, séculos depois, Menger e Mises reencontrarão o núcleo da ação humana: o tempo como condição de escassez, a ação como resposta ao tempo, a economia como ciência do agir.
O tempo, que em Hobbes tremia diante do caos, em Locke amanhece com o trabalho. Nesse intervalo entre medo e confiança, o homem descobre sua própria medida. Aprende a esperar e, esperando, aprende a agir. A duração torna-se esperança. A esperança, cálculo. O cálculo, liberdade.
Entre o medo e a confiança, nasce a economia humana.
