O velho e apocalíptico temor marxista da crescente
desigualdade nas sociedades capitalistas não pára de aumentar. A elite capitalista, dizem eles, se beneficia
de uma dinâmica de infinita acumulação de riqueza e, com isso, brevemente será
capaz de comprar tudo e a todos, inclusive o governo.
Este temor de ilimitada acumulação de riqueza nas mãos
de poucos foi o principal tema do livro O Capital no Século XXI,
do francês Thomas Piketty, publicado em 2013.
Em seu livro, Piketty escreve:
Seria
um erro negligenciar a importância do princípio da escassez para a compreensão
da distribuição mundial da riqueza no século XXI — para se convencer disso,
basta substituir, no modelo de David Ricardo, o preço das terras agrícolas pelo
dos imóveis urbanos nas grandes capitais […]Sem
dúvida, existe um mecanismo econômico bem simples que permite equilibrar o
processo: o mecanismo da oferta e da demanda. Se a oferta de qualquer bem for
insuficiente e o preço estiver exageradamente elevado, a procura por esse bem
deve baixar, o que permitirá uma redução do preço. Em outras palavras, se os
preços dos imóveis nas grandes cidades ficarem muito altos e o custo do
petróleo aumentar, as pessoas podem decidir morar em áreas mais afastadas ou
até andar de bicicleta (ou, quem sabe, os dois ao mesmo tempo). No entanto,
além de desagradáveis e complicados, tais ajustes podem levar várias décadas
para ocorrer; nesse ínterim, os proprietários de imóveis e os donos dos poços
de petróleo podem acumular créditos tão volumosos em relação ao restante da
população que poderão facilmente vir a possuir tudo o que houver para possuir,
inclusive as terras no interior e as bicicletas. (Piketty
2013)
Deixemos de lado o tolo exemplo envolvendo uma
bicicleta como resposta de mercado para a escassez (tal exemplo implica um
choque tecnológico negativo, sendo que vivemos hoje em um mundo extremamente
inovador). O fato é que Piketty
realmente acredita que uma única pessoa ou entidade se tornando proprietária de
“tudo” é algo possível de ocorrer em um capitalismo de livre mercado. De acordo
com Piketty, se r > g (ou seja, se a taxa de retorno sobre o capital
investido é maior do que a taxa de crescimento econômico), haverá uma “infinita
espiral de desigualdade”.
Se Piketty houvesse lido os economistas seguidores da
Escola Austríaca, e estivesse a par do debate sobre o cálculo econômico, ele já
teria percebido que, em um mercado livre e desimpedido [no qual não há privilégios
e subsídios
estatais, tarifas
protecionistas e agências
reguladoras protegendo empresas], não há como surgir uma situação de acumulação
de riqueza na qual há apenas um único indivíduo ou cartel dominando tudo. Com efeito, uma situação em que há um único e
poderoso cartel ou um único e poderoso proprietário é o equivalente a um
completo socialismo e, portanto, a uma situação em que uma alocação racional de
recursos seria impossível, como Mises explicou clara e
profundamente.
Foi
Murray Rothbard quem brilhantemente demonstrou que a capacidade do cálculo econômico
decresce à medida que aumenta o tamanho da empresa. Só que esse argumento pode ser igualmente
aplicado à concentração de propriedades nas mãos de um só indivíduo. Como demonstrou
Rothbard:
O
livre mercado impõe limites definidos sobre o tamanho da empresa, isto é,
determina os limites da possibilidade de cálculo no mercado. Para calcular os lucros e os prejuízos de
cada departamento, uma empresa tem de ser capaz de comparar suas operações internas
aos mercados externos para cada um dos vários fatores de produção e produtos intermediários. Se qualquer um desses mercados externos
desaparecer, pois todos foram absorvidos e se tornaram parte de uma única empresa,
a capacidade de cálculo econômico desaparece, e não mais há nenhuma maneira de
uma empresa racionalmente alocar fatores para aquela área específica. Quanto mais esses limites são transgredidos, maior
se torna a esfera da irracionalidade econômica, e mais difícil será evitar prejuízos. Um grande e único cartel não seria capaz de
alocar racionalmente fatores de produção, e isso faria com que fosse impossível
evitar prejuízo severos. Consequentemente,
tal arranjo jamais poderia realmente ser estabelecido; e, ainda que fosse,
jamais poderia ser mantido. Rapidamente
ele se desintegraria.
Logo, e contrariamente ao que Piketty e outros
defensores do igualitarismo pensam, uma ilimitada concentração de riqueza é
tecnicamente impossível em uma economia de mercado. É por essa razão que “um único e grande
cartel” controlando toda a economia jamais surgiu em um livre mercado, e é por
essa razão que a concentração de riqueza sempre será limitada.
A falta de rigor teórico no livro de Piketty é alarmante. Embora ele supostamente seja um estudioso da dinâmica
da desigualdade de renda nas sociedades capitalistas, Piketty praticamente não analisa
o papel do empreendedorismo; e, nas raras vezes em que o faz, não fornece
absolutamente nenhuma definição sobre o que seja empreendedorismo. Essa total falta de rigor o permite liderar
uma batalha ideológica contra os ricos, os quais ele considera serem “imerecedores”. Similarmente, seja Piketty, seja Anthony Atkinson, nenhum desses modernos adeptos do
igualitarismo menciona o papel da divisão do trabalho na distribuição de
riqueza.
Mas sabemos, no entanto, que a divisão do trabalho é
uma característica crucial (e necessária) da economia de mercado. Com efeito, a própria existência de capitalistas
ricos não é uma questão de herança ou de sorte imerecida, mas sim o resultado
da “lei das vantagens comparativas”. Um capitalista
é alguém que possui uma vantagem comparativa em alocar capital — ou seja, ele
tem uma capacidade superior aos outros neste quesito — e, consequentemente, é
especialista nesta tarefa. Em um mercado
livre e desimpedido, aqueles
que tendem a ser os mais ricos também tendem a ser os mais eficientes na alocação
do capital. Se sua capacidade de alocação
for ruim, então os consumidores irão puni-los.
Se sua capacidade de alocação for boa, os consumidores irão recompensá-los.
Frédéric
Bastiat, em seu leito de morte em Roma, e não obstante estar severamente
doente, deixou muito claro para o seu amigo Prosper
Paillottet que os economistas deveriam se concentrar
majoritariamente no consumidor. O consumidor,
disse ele, é a fonte primária de quaisquer fenômenos econômicos. A principal falha do livro de Piketty é que
ele explica a desigualdade começando não pelas escolhas dos consumidores, mas
sim pela propriedade do capital. Os proprietários
do capital, diz Piketty, se beneficiam de uma taxa de retorno sobre o capital
e, quando esta taxa é maior que a taxa de crescimento econômico, ela
intensifica as desigualdades de renda.
Para Piketty, a taxa de retorno sobre o capital é como
se fosse um mítico fluxo de renda que depende não da capacidade dos proprietários
do capital, mas sim de quanto capital você detém. Só que a distribuição de riqueza não é tão arbitrária
quanto Piketty gosta de imaginar. O consumidor
detém a palavra final na decisão sobre quem deve ser o proprietário dos fatores
de produção. Como explicou Mises em Ação Humana, os
ricos “não são livres para gastar um dinheiro que os consumidores não estão
dispostos a lhes fornecer continuamente ao pagarem mais pelos produtos”.
No mercado livre e desimpedido, os ricos só
conseguem acumular mais riqueza se eles foram eficientes na tarefa de alocar
capital, para o benefício de todos os consuidores. Há de se admitir que não há nada de
moralmente errado nisso. Ao contrário: devemos aplaudir esse arranjo.
Dado que a teoria econômica que fundamenta a tese de
Piketty é fraca, suas explicações não batem com as evidências empíricas. Com efeito, o próprio Piketty
teve de admitir que “não vejo r > g como a única, ou mesmo a principal,
ferramenta para se considerar alterações
na renda e na riqueza no século XX, ou para prever o caminho da desigualdade no
século XXI”. E, de fato, r > g não é
um ferramenta útil para a discussão sobre a crescente desigualdade na renda do
trabalho. Surpreendentemente, o próprio Piketty admitiu a debilidade de seu
modelo perante o fato de que o aumento da da renda dos mais ricos nos EUA
durante o período 1980–2010 deveu-se majoritariamente a uma crescente
desigualdade nos salários, e não à taxa de retorno do capital.
Adicionalmente, deve-se ressaltar que, tanto em
termos teóricos quanto empíricos, quanto mais rico é um indivíduo, mais volúvel
é a riqueza dele: todos
os bilionários da lista da Forbes da década de 1980 deixaram de sê-lo
atualmente. Sendo assim, se a
riqueza é tão instável para o 1% mais rico, podemos concluir que a infinita concentração
de riqueza é um mito que não ocorre em uma economia de mercado. Ao contrário, sociedades capitalistas são mais tendentes a uma
mobilidade inter-geracional, tanto para cima quanto para baixo.
Consequentemente, embora a desigualdade de renda, em
um determinado momento, em sociedades capitalistas possa ser maior do que em
economias mais socialistas, a economia de mercado pode perfeitamente oferecer mais igualdade se considerarmos a evolução
das disparidades de renda entre indivíduos ao longo de um grande período de tempo.
Mais de 100 anos atrás, um economista Frances publicou
um livro sobre desigualdade. Assim como
o livro de Piketty, aquele livro foi celebrado nos EUA. Porém, ao contrário de Piketty, Paul Leroy
Beaulieu tentou explicar em seu livro, Essai sur la Répartition des
Richesses (1881), por que ele acreditava que a desigualdade, sem ser
erradicada, diminuiria nas sociedades capitalistas. A radical diferença de tom entre os dois livros
é uma boa ilustração da falência intelectual tanto dos EUA quanto da França
desde a Belle époque. Do
liberalismo clássico, sucumbimos à ilusão do igualitarismo; e do otimismo
liberal quanto à ordem de livre mercado, degeneramos para o pessimismo
socialista e igualitário.
Atualmente, a grandes desigualdades econômicas se
devem à violenta intervenção do governo no mercado (ver aqui, aqui e aqui). Por isso, deveríamos repensar se não seria
mais sábio dar mais atenção a Paul Leroy Beaulieu do que a Thomas Piketty.
_____________________________________
Leia também:
Os
três principais erros de Piketty
Algumas
frases aterradoras contidas no livro de Thomas Piketty
Thomas
Piketty e seus dados improváveis
O
que houve com os ricaços da década de 1980?
As
“descobertas” de Piketty estão invertidas
A
moral de Piketty – por alguém que realmente leu todo o livro
Mais um artigo sobre o [livro do] Piketty?
Cara isso já tá ficando chato. Quem leu o primeiro já se convenceu que o carinha é uma mala em termos econômicos…
Abraços
Para refutar Piketty por completo basta pegar a lista da Forbes de 1987 e comparar com a de 2015. Creio que não há um único prenome ou nome igual na lista, assim como na de 2030 provavelmente será diferente também.
E eu duvido, repito, duvido, que algum mortadela tenha lido esse livro por completo, suas mais de 700 páginas e um monte de anexos, notas, gráficos.
E pensar que esse livro tem sido aclamado como um dos melhores guias para economistas por aí a fora.
Vejamos as suas dicas, no Capítulo 16:
“[…] Como fazer para reduzir de modo significativo uma dívida pública alta como a dívida europeia atual? Existem três métodos principais, que podem ser combinados em diversas proporções: o imposto sobre o capital, a inflação e a austeridade. O imposto excepcional sobre o capital privado é a solução mais justa e eficaz. Na ausência dela, a inflação pode ser útil — aliás, foi assim que a maioria das grandes dívidas públicas foram reabsorvidas ao longo da história. A pior solução, tanto em termos de justiça como em termos de eficácia, é uma dose prolongada de austeridade. No entanto, essa é a opção adotada hoje na Europa. […]”
E essa dica vai para quem está pensando em adquirir títulos do governo:
“[…] São duas as principais formas de um Estado financiar suas despesas: por meio de impostos ou por meio de dívidas. De uma maneira geral, o imposto é uma solução infinitamente melhor tanto em termos de justiça quanto de eficácia. O problema da dívida é que quase sempre ela precisa ser paga. Portanto, financiar a dívida é, acima de tudo, do interesse de quem tem os meios para emprestar ao Estado, e seria melhor para o Estado taxar os ricos em vez de pegar dinheiro emprestado deles. […]”
O maior instrumento de concentração de riqueza,são os governos que existem para beneficiar meia dúzia de pessoas bem conectadas,e para ferrar com o resto da população.
O estado é uma mãe cheia de tetas para mamar e como é lucrativo e entorpecedor disputar esses recursos financeiros,políticos e financiadores de campanhas se digladiam diariamente atrás dos mesmos ou trocando em miúdos todo mundo quer ter uma boquinha no erário público onde as oportunidades é para poucos e o triste disso tudo é(a massa)que somos obrigados a votar nesses fanfarrões e mafiosos e ainda pagar a conta desse banquete em que não somos convidados ao contrário somos expulsos feito cachorro sem dono pensando bem que mundo estranho nós vivemos pois sustentamos uma maquina que nos espolia dia e noite em troca de uma falsa e ilusória sensação de segurança,obrigado IMB por libertar nossas mentes desse lixo que é o estatismo e seu filho bastardo que é o esquerdismo e seu filho primogênito a direita,duas faces do mesmo mal e ainda somos obrigados a engolir mentiras e heresias contra a liberdade feito essas teorias furadas contra o capital vinda desse ridículo do Piketti …
Senhores, o que acham desse artigo?
professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/266213509/quem-e-mais-corrupto-o-estado-ou-o-mundo-empresarial-e-financeiro?utm_campaign=newsletter-daily_20151211_2442&utm_medium=email&utm_source=newsletter
Piketty é mentiroso compulsivo, bem pago pra isso, ele n comete erros.
“A Idade da Pedra não acabou pela falta de pedra, e a Idade do Petróleo irá acabar muito antes que o mundo fique sem petróleo.” Sheik Ahmed Zaki Yamani
Como a maioria dos “progressistas”, as afirmações de Piketty contra o capitalismo são pura Falácia do Espantalho.
* * *
Uma vez aqui no site um comentarista afirmou que o monopólio será formado no capitalismo devido ao fato de que os recursos são escassos e que uma industria ou uma pessoa poderiam dominar o material por completo e vende-lo pelo preço que quisesse.
Eu discordo devido ao fato de que é impossível ter acesso a todos os recursos da Terra. Uma vez que têm muitos países competindo no mercado. E também sempre existe a possibilidade de criar um recurso alternativo para determinada coisa. Carvão mineral esta com preço muito alto ? Usamos petróleo.
Olá, alguém aqui no mises me receitaria um livro com dados coesos provando alguns dos pontos do livre mercado? Falo isso porque acabo de ler o livro “Bad Samaritans” de Ha-Joon Chang, na qual me deixou com grandes dúvidas, pois, mesmo não concordando com o livro de Chang, os argumentos do livro foram explanados com uma boa base de dados. Por exemplo, ele mostra que países como Reino Unido e Estados Unidos possuíam alta carga tributária contra produtos estrangeiros antes de os mesmos se tornarem potências mundiais. Outro exemplo é o esse rapaz do artigo de hoje, o Piketty, que mesmo escrevendo asneira, tentou fundamentar seu livro com uma extensão de dados.
Procuro algum livro liberal com o mesmo peso, pois, as vezes acho que os liberais se concentram mais na teoria, mas a teoria de uma economia liberal ou libertária já entendo, gostaria de ver algo mais “”prático””. Sei que deve ter livro assim, por isso é que estou perguntando algum livro do tipo. Um dos exemplos de livro com uma excelente fonte de dados é o livro de Rothbard sobre a recessão de 29. Gostaria de saber alguma sugestão de mesmo peso. Valeu.
Olhem isso:
m.youtube.com/watch?v=Si4iyyJDa7c
Éuma entrevista chamada”os gênios da economia” com paul krungman e thomas piketty
Kkkkkkkkkkkkk
Esse livro deveria chama “O assassinato da liberdade”.
Se o rico compra ouro, tem um pobre garimpeiro para vender ouro.
Se o rico deixa o dinheiro no banco, esse dinheiro pode ser emprestado pelo banco.
Se o rico investe em imóveis, mais pessoas terão onde morar.
Se o rico resolve comprar dólares, alguém deve ter lucrado com a venda desses dólares.
Se o rico resolve investir em uma fábrica, mas pessoas poderão consumir.
Se o rico compra artigos de luxo, empregos serão gerados para produzir artigos de luxo.
Acho que a única maneira do dinheiro ficar parado na conta de um bilionário, é colocando esse dinheiro debaixo do colchão ou em cofre.
A questão é mais simples do que parece. Como alguém consegue sumir com uma montanha de dinheiro e não deixar ninguém ser beneficiado com isso ?
Hoje eu estava na Avenida Faria Lima e vi dezenas de carros de luxo. Eu não consigo entender como alguém anda de Porsche em SP, mas não consegue ir embora dessa república bolivariana do Brasil.
Eu estou muito feliz e satisfeito que abriram um processo de cassação da presidente da republica, pois será julgado se as eleições realmente foram válidas ou não, se realmente a presidente trapaceou pra ganhar, se ela representou realmente a maioria dos brasileiros. Que bom que a democracia está evoluindo. Eu sou contra o impeatman pois não se tira uma pessoa da presidência por ser incompetente e irresponsável, e nem se vende a alma do povo pro diabo chamado Eduardo Cunha para tirar a presidente por impeatman isso sim seria um golpe
Mesmo que ele estivesse certo, seria preferível do que o arranjo atual, em que vagabundos se elegem para espoliar o povo por meio de leis. CAPITALISMO NELES!
COM EXCEÇÃO DO FRIBOI QUE CRIOU O MONOPOLIO DA CARNE
Vejam mais um idiota (ops!… mais um “economista”) tentando explicar o inexplicável:
http://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economiaenegocios/pobreza-e-desigualdade-s%c3%a3o-insepar%c3%a1veis-diz-atkinson/ar-BBpGYxT?ocid=spartandhp
– Hoje é impossível falar de “desigualdade” sem falar de Thomas Piketty e seu bestseller “O Capital no Século XXI”, mas há economistas que estudam o tema há décadas.
O mais importante deles talvez seja o britânico Anthony Atkinson, professor da Universidade de Oxford que está sempre entre os mais cotados para o prêmio Nobel.
Mentor de Piketty na criação de um banco de dados mundial de renda e riqueza, Atkinson quer agora “ampliar a imaginação das pessoas” mostrando o que pode ser feito em relação ao problema.
Seu novo livro “Desigualdade: O Que Pode Ser Feito”, lançado no Brasil pela editora Leya, é um chamado à ação que inclui ingredientes tradicionais (como tributação mais progressiva sobre herança, renda e propriedade) e outros bem mais polêmicos.
Atkinson defende que o Estado deve oferecer emprego público com salário mínimo para quem o procurar, além de um tipo de herança mínima para todos que atingirem a idade adulta.
Ele conversou por telefone com EXAME.com sobre alguns temas do livro. Veja a seguir:
EXAME.com – Por que devemos pensar na desigualdade como um problema em si e não apenas em reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida para todos?
Anthony Atkinson – Primeiro porque não dá para separar pobreza e desigualdade. Se você quer reduzir a pobreza, precisa pensar na distribuição dos resultados, porque eles estão interconectados.
Cito uma frase do [economista inglês] Richard Tawney: “O que os ricos ponderados chamam de problema da pobreza, os pobres ponderados chamam de problema da riqueza”.
Segundo porque quando falamos de bem-estar, a maioria pensa em algum tipo de igualdade de oportunidade e chance de desenvolver seus talentos. E é impossível ter igualdade de oportunidade com desigualdade excessiva de resultados.
A desigualdade de renda e riqueza significa que não temos um campo de atuação equitativo. As pessoas podem ir para a mesma escola, mas ir com ou sem café da manhã faz a diferença se elas vão se beneficiar daquela educação.
EXAME.com – Você diz que uma das armas contra a desigualdade é a tributação. Os Estados Unidos chegaram a ter uma taxa máxima de 90%, mas isso não seria muito mais difícil hoje, com a mobilidade do capital?
Atkinson – O livro é sobre o século XXI. Estou levando em conta a importância da globalização, e ela limita mesmo o que pode ser feito.
Mas o nível existente hoje (certamente no Reino Unido e em muitos outros) é baixo e fruto de razões ideológicas. Quando os países aumentam suas taxas – não diria para 90%, mas algo como 60% – isso não tem efeito negativo na receita.
EXAME.com – Você menciona a América Latina no começo do século como um exemplo de redução da desigualdade, mas estudos mostram que pesquisas de domicílio não revelam a riqueza no topo. Nossa desigualdade não pode ser ainda maior?
Atkinson – Sim. Informações de vários países mostram que é muito difícil capturar o que está acontecendo no topo do topo através de pesquisas, e por isso usamos outros registros.
Talvez a redução da desigualdade não tenha sido tão grande, o que também revela a atuação dos muito ricos em ver sua real posição revelada.
EXAME.com – O Brasil está em uma recessão profunda. O que a história mostra sobre o efeito de crises e contrações sobre o nível de desigualdade?
Atkinson – Primeiro, eu separaria crises de recessões. Crises de várias formas frequentemente iniciam recessões.
Eu diria que muito da recessão mundial, por exemplo, foi resultado não da crise, mas das políticas feitas em resposta a ela. A Europa está em recessão principalmente por causa das respostas macroeconômicas falhas, não pela crise em si.
Se você perseguir políticas macroeconômicas que só focam em reduzir déficits do governo e inflação e não o emprego, isso tem no geral um efeito negativo para a maioria da população em termos de mais desigualdade.
EXAME.com – Você diz no livro que a tecnologia não deve ser vista como algo que simplesmente vem do céu. Mas não podemos partir do pressuposto de que a automatização vai sempre matar empregos?
Atkinson – Não. A tecnologia deixou as pessoas muito mais produtivas, então eu tenho uma visão muito positiva dela. O que eu enfatizaria é quais partes da economia estão tentando melhorar com a tecnologia.
Por exemplo: os governos dos EUA e a Europa estão gastando muito para desenvolver carros sem motorista, o que provavelmente vai matar empregos como os de motoristas de táxi.
Uma alternativa para gastar esse dinheiro seria melhorar a tecnologia robótica que faz com que pessoas não precisem sair de casa para ter tratamento. Isso vai junto com o avanço do trabalho, porque você teria pessoas entrando para fazer o acompanhamento.
É um exemplo de como beneficiar os consumidores e ainda criar empregos. Ao escolher financiar os carros ao invés do tratamento domiciliar, nossos políticos fizeram escolhas que tem implicações para o nível de trabalho.
EXAME.com – Até que ponto a alta da desigualdade nas últimas décadas é reflexo da ascensão da China e de um mercado de trabalho globalizado?
Atkinson – A resposta padrão de um economista seria de que isso beneficiou o trabalhador qualificado em detrimento do não qualificado.
Eu não estou convencido, porque uma grande parte do aumento da desigualdade vem do topo da distribuição. Não é o graduando que está se beneficiando, é o 1%, o 0,5% mais rico. E ninguém fica rico assim só por ter um PhD.
Precisamos ver o que está gerando isso, como o aumento forte da compensação aos presidentes de empresas. Se você olhar o que eles ganhavam 20 anos atrás para fazer o mesmo trabalho, é uma fração do que é hoje, e é difícil de entender o porquê.
EXAME.com – Mas não há forças que estão fora do nosso controle – como o fato de que as pessoas geralmente conhecem seus parceiros na faculdade e casam com quem tem nível de renda parecido?
Atkinson – Há um elemento disso, mas não diria que 2 pessoas que juntas ganham 200 mil dólares por ano vão entrar na lista da Forbes ou algo assim. Isso não é a chave; já a herança é, sim, um elemento bem mais importante.
Mas onde as duas coisas se juntam é na igualdade de oportunidade. Os filhos desse casal vão ser duplamente favorecidos em seu acesso à educação, por exemplo.
EXAME.com – Mas nem sempre é fácil avaliar os efeitos de uma determinada política. As universidades públicas brasileiras, por exemplo, são dominadas por estudantes que vieram de escolas privadas. Mas eliminá-las acabaria de vez com a possibilidade dos mais pobres terem ensino superior.
Atkinson – É difícil pegar uma coisa isoladamente, é preciso olhar nas relações. A pergunta é: o que está acontecendo nos níveis mais baixos da educação? Por que as pessoas não estão conseguindo ou querendo tentar o ensino superior?
É difícil abordar um problema sem falar de outros, e isso volta para a questão de um campo de atuação equitativo e aquilo que o economista americano James Heckman enfatiza: o investimento nos primeiros anos da infância. Sem isso, deixamos as pessoas em desvantagem a partir de uma idade muito pequena.
EXAME.com – Das propostas que você cita, qual seria a mais efetiva e qual seria a mais fácil politicamente?
Atkinson – Essa resposta fica com os leitores e será muito diferente de um país para o outro. Não estou dizendo que você deve fazer isso ou aquilo, e sim que se vocês quiserem fazer algo, pode ser feito. É mais sobre criar uma coalizão do que escolher uma política só.
As organizações internacionais sempre focam em uma coisa só, os governos só falam de educação e treinamento, mas há mais que pode ser feito. Eu quis ampliar a imaginação das pessoas.