“Keynes não refutou a Lei de Say. Ele a rejeitou emocionalmente, mas não apresentou um único argumento sustentável para invalidar sua lógica”.
— Ludwig von Mises no livro Planning for Freedom
Dos muitos obstáculos à nova economia de Keynes, o mais significativo era aquilo que normalmente se chama de Lei de Say. Ele superou esse obstáculo por meio de uma manobra brilhante, reformulando-a em uma observação quase incompreensível que se aproximava apenas de forma vaga de algo que poderia estar relacionado aos principais elementos de algo descrito como uma lei. Mas ela só pode ser compreendida adequadamente em sua forma ampliada, como uma explicação de como e por que os mercados livres funcionam. Hoje, se você perguntar aos economistas sobre a Lei de Say, na maioria das vezes eles recorrerão a alguma variação da distorção introduzida por Keynes.A única referência de Keynes à Lei de Say em The General Theory of Employment, Interest and Money [A Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda] aparece logo no início, na página 26, descartando-a para que seu livro possa então prosseguir com base na premissa de que ela sequer existe. Esta é a passagem relevante:
“Assim, a Lei de Say, segundo a qual o preço de demanda agregada da produção como um todo é igual ao seu preço de oferta agregada para todos os volumes de produção, equivale à proposição de que não existe obstáculo ao pleno emprego. Se, contudo, essa não for a verdadeira lei que relaciona as funções de demanda e oferta agregadas, então existe um capítulo de importância vital da teoria econômica que ainda precisa ser escrito e sem o qual todas as discussões acerca do volume de emprego agregado são inúteis”.
Portanto, o preço de demanda agregada da produção como um todo é igual ao seu preço de oferta agregada para todos os volumes de produção. O máximo que se pode dizer é que a formulação de Keynes não é falsa, mas ela representa apenas uma conclusão derivada da lei, e não a própria lei. Não importa: Keynes então passa a escrever aquele capítulo de importância vital da teoria econômica mencionado na citação acima, que ele agora inventa, antes que o leitor, talvez fascinado pela reputação do autor, tenha tempo de refletir sobre o fato de que o truísmo mais fundamental da economia clássica foi sumariamente descartado.
Para compreender a profundidade dessa deturpação, precisamos abandonar as versões simplificadas da Lei de Say e examinar o que a economia clássica realmente nos diz sobre o assunto. Desde que o homem descobriu os benefícios da cooperação social, aprendeu que cada indivíduo possui habilidades e características pessoais que pode utilizar para maximizar sua produção. Ao trocar sua produção pela produção dos outros, satisfaz da forma mais eficiente suas próprias necessidades e desejos, bem como os daqueles com quem interage. As trocas entre indivíduos são facilitadas pelo uso de uma mercadoria comum, adequada e aceita por todos, em um sistema de trocas indiretas. Esse é o fundamento da divisão do trabalho e o elemento que sustenta a cooperação e a coesão social.
Colocada de forma tão direta, apenas um ignorante poderia discordar da Lei de Say. O truque de Keynes equivale a um reconhecimento do obstáculo que sua verdade representa para suas intenções. Essa verdade precisava ser sufocada. De sua ocultação surge o fundamento da macroeconomia: a ideia de que, de alguma forma, o que acontece no nível individual é diferente do que acontece no nível da comunidade. Mas isso também não pode ser verdade, porque a Lei de Say é uma descrição da cooperação em nível comunitário. A criação da macroeconomia precisa então pressupor que as nações não são compostas por comunidades cooperativas, uma proposição igualmente impossível de aceitar, mas sobre a qual Keynes passa a construir sua teoria.
Após descartar a Lei de Say, o restante do livro desenvolve os fundamentos da macroeconomia, um mundo de alguma forma separado da experiência humana. Se uma comunidade prospera por meio da divisão do trabalho, não há espaço para uma terceira parte em nenhuma das transações individuais entre compradores e vendedores. Keynes agora nos diz que, em um nível macroeconômico, pode existir uma terceira parte: o estado. Assim, o estado democrático pode justificar um papel econômico, conduzindo a nação na direção que considera adequada para o benefício daqueles que representa.
A lógica por trás da lista de desejos apresentada por Keynes nas conclusões da Teoria Geral é que, ao redistribuir riqueza daqueles que a possuem de forma desproporcional para aqueles que não a possuem, os benefícios econômicos para a sociedade como um todo superam os prejuízos causados à riqueza de alguns indivíduos. E, como, de acordo com os princípios da divisão do trabalho, parte do consumo é egoisticamente reservada para uso futuro na forma de poupança, a ser reciclada em investimento de capital, os poupadores precisam sofrer uma “eutanásia” (os rentistas, como Keynes os chamou), juntamente com os capitalistas exploradores. Embora reconheça que os pontos de partida de ambos não resistem a um exame rigoroso, a criação da macroeconomia por Keynes talvez seja ainda menos sustentável logicamente do que as formulações de Marx em Das Kapital [O Capital], porque Marx não comprometeu sua teoria com concessões impraticáveis.
O temor que o establishment nutria pelo comunismo há um século era que ele ameaçava tomar tudo da burguesia. A macroeconomia keynesiana, por parecer fundada em um terreno familiar de livre mercado, foi prontamente abraçada pelo establishment. Ainda assim, trata-se de uma forma alternativa de socialismo. Mais importante ainda: ao entregar aos governos e seus bancos centrais a responsabilidade pela criação de moeda, ela também se torna inflacionista, tanto quanto foram as políticas de John Law, que em uma era anterior levaram à bolha do Mississippi e à subsequente destruição da economia francesa.
Mas foi justamente a natureza conciliadora da macroeconomia keynesiana que garantiu sua sobrevivência, ao passo que o caráter intransigente do marxismo, apesar da repressão e do massacre em larga escala de seus opositores, fracassou de maneira evidente. Nos estados comunistas asiáticos, estima-se que mais de cem milhões de pessoas tenham morrido por execuções e fome. Os sistemas políticos dos dois maiores exterminadores de suas próprias populações, a União Soviética e a China, colapsaram para depois serem reinventados como estados mercantilistas. Os intervencionistas keynesianos ainda não fracassaram de forma tão dramática, mas, ainda assim, parecem seguir uma trajetória similar.
As Consequências Econômicas de Lord Keynes
O socialismo keynesiano sobreviveu por tanto tempo porque nunca chegou a estrangular completamente a livre iniciativa. Enquanto os indivíduos mantiverem alguma liberdade para dividir seu trabalho, eles possuem uma capacidade notável de se adaptar às circunstâncias impostas pelos governos.
Nas raras ocasiões em que os governos limitam rigidamente seu peso econômico sobre os setores produtivos, fica demonstrado, justamente por sua ausência, que o socialismo keynesiano representa um custo econômico, e não um benefício. A lógica confirma as evidências: se você destrói a riqueza de algumas pessoas, a economia como um todo fica mais pobre. Não é preciso ser um economista clássico ou austríaco para compreender isso. O que realmente exige compreensão da teoria econômica é explicar por que o ciclo econômico descrito por Keynes não tem origem na atividade do setor privado, mas sim na intervenção estatal, especialmente no campo monetário. O ciclo econômico é apenas o sintoma; o ciclo de crédito é a causa.
Ao defender um papel monetário ampliado para o estado, Keynes tornou o ciclo de crédito consideravelmente pior e mais desestabilizador. As evidências que apontam para a causa e, portanto, para o verdadeiro responsável são rotineiramente encobertas por palavreado macroeconômico vazio, manipulação estatística e ainda mais desvalorização monetária, um processo que não pode continuar indefinidamente. O legado de endividamento que surgiu como consequência aprisiona tanto os governos quanto o setor privado em armadilhas de dívida, cujo colapso é apenas adiado por mais inflação monetária. A moeda estatal é disponibilizada com tanta facilidade que todos agora esperam receber dinheiro sem precisar produzi-lo. Os governos estão tão sobrecarregados com dívidas já existentes e obrigações futuras inevitáveis que sua única rota de fuga parece depender de taxas de juros cada vez mais negativas e de uma aceleração contínua da desvalorização da moeda.
A ciência inventada da macroeconomia sempre se dobra para justificar a si mesma. Os bancos agora estão deixando de criar crédito para a economia produtiva, exceto para os tomadores de empréstimos maiores e mais seguros. Os macroeconomistas mal percebem isso. Na prática, o inflacionismo já não produz benefícios além da mera sobrevivência dos governos e de seus bancos licenciados. Em vez da utopia prometida, o socialismo keynesiano nos levou à beira do abismo que destruiu o comunismo nos anos 1980.
Somos sistematicamente cegos às consequências de ter derrubado a Lei de Say e os demais princípios econômicos estabelecidos no século XIX e posteriormente desenvolvidos pelos mestres austríacos.Ah, se tivéssemos ouvido Hayek. O sonho utópico de Keynes está se transformando em um pesadelo para todos nós.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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Keynes e a economia keynesiana
A Imoralidade da Economia Keynesiana