Nota da edição:
Este artigo é a publicação do 14º capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.
Confira também o 13º capítulo
“Ex ordine universi unitas divinae mentis manifestatur.”
“Da ordem do universo manifesta-se a unidade da mente divina.”
— Tomás de Aquino, Suma Teológica (Summa Theologiae), I, q. 47, a. 1
Chamavam-no, em tom de brincadeira, “o boi mudo”. Era grande, silencioso e de olhar concentrado, um jovem dominicano que preferia o estudo ao debate ruidoso. Isso acontecia em Colônia, quando frequentava as aulas de Alberto Magno, um dos maiores sábios do século XIII. Entre os colegas, o apelido parecia adequado, até o dia em que o mestre, impressionado pela clareza e profundidade com que Tomás resolvera uma questão teológica, respondeu aos risos da turma: “Vocês o chamam de boi mudo, mas ouvirão o seu bramido ressoar por todo o mundo.” A previsão cumpriu-se.
Tomás de Aquino tornar-se-ia o mais luminoso pensador da Escolástica, aquele que soube transformar o silêncio em ordem e a reflexão em ponte entre a fé e a razão.
Nascido em 1225 em Roccasecca, próximo à cidade italiana de Aquino, ingressou ainda jovem na Ordem dos Dominicanos e dedicou sua vida à busca de harmonia entre o pensamento humano e o divino. Em um tempo marcado por tensões entre herança clássica e teologia cristã, construiu um edifício intelectual sustentado por uma convicção central: o Logos é uno, e nenhuma verdade pode contradizer outra verdade.
Para Tomás, a filosofia não rivaliza com a teologia. Ela a prepara. A razão é o preâmbulo natural da fé. Criada por Deus, participa de Sua sabedoria e, por isso, não pode conduzir ao erro quando corretamente exercida. Aquilo que é racional não se opõe à fé, mas a esclarece em seu próprio plano. A verdade é una, ainda que se manifeste em níveis distintos, o natural e o sobrenatural.
Nesse sentido, o tomismo realiza uma reconciliação decisiva entre o mundo clássico e o cristianismo. A physis, entendida como natureza criada em movimento, não se opõe ao Ser eterno, mas o reflete de modo imperfeito e participado. O cosmos não é divino, mas ordenado. E essa ordem não é fruto do acaso, mas expressão da inteligência criadora.
A partir dessa convicção, Tomás empreende a grande síntese entre Aristóteles e o cristianismo. Recupera o método analítico, a doutrina das quatro causas e a distinção entre ato e potência. Dessa integração nasce a Suma Teológica, na qual apresenta as cinco vias para a demonstração racional da existência de Deus. Não se trata de provas geométricas, mas de caminhos que partem da experiência sensível e conduzem à causa primeira.
Entre essas vias, a do movimento ocupa lugar central. Tudo o que se move é movido por outro. Se não houver um primeiro motor imóvel, nada poderia mover-se. Esse primeiro motor não é um elo da cadeia causal, mas o fundamento de toda atualização. É o Ser que move sem ser movido, causa final de todo movimento.
Aqui se estabelece o núcleo de uma metafísica da ação. Nada se move sem finalidade. Todo fim é um bem. O mundo não é uma sucessão de eventos fortuitos, mas uma ordem teleológica. O homem, dotado de intelecto e liberdade, participa dessa ordem como agente. Age no tempo, mas orienta-se por um fim que o transcende.
O tempo, nesse horizonte, deixa de ser simples sucessão de instantes. Torna-se o espaço da atualização. É no tempo que a potência se converte em ato. É no tempo que o ser humano caminha em direção ao seu fim. Essa concepção antecipa, em chave metafísica, aquilo que mais tarde será descrito como ação humana, a escolha situada no tempo que transforma possibilidades em realidade.
Na Suma Teológica (II-II, q. 77–78), Tomás examina o comércio, as trocas e a justiça nas relações econômicas. Seu ponto de partida é claro: o valor das coisas não é fixo nem arbitrário. Ele depende da utilidade, das circunstâncias concretas e da relação efetiva entre as partes envolvidas. O chamado justum pretium não é tabelamento nem imposição externa. É contextual, relacional e circunstancial.
O preço justo emerge da troca livre quando esta é regulada pela prudência e pela equidade. O lucro é legítimo, desde que não se converta em “fim” absoluto, mas permaneça meio ordenado à subsistência e ao bem comum. O equívoco moderno consiste em ler o justum pretium como antecipação de controle estatal, quando ele nasce, na verdade, da observação moral da troca concreta.
Tomás lança, assim, os fundamentos de uma economia moral. A atividade econômica aparece como extensão da virtude da prudência, que regula as ações humanas segundo a reta razão. A moeda, o trabalho e a propriedade não são corrupções do espírito, mas instrumentos naturais da ordem do ser. Cada ato econômico possui dimensão ética, pois envolve o uso do tempo, dos bens e da liberdade.
A influência de Tomás prolonga-se até o século XVI, quando os escolásticos de Salamanca aplicam essa estrutura filosófica às novas realidades do comércio, do crédito e da expansão marítima. Nesse ponto ocorre uma transição decisiva. A metafísica permanece intacta. O foco analítico, porém, desloca-se. O centro da investigação passa do Ser eterno à ação humana concreta no tempo.
Não há ruptura, mas mudança de plano. A ordem do ser continua a fundamentar a ordem da ação, agora descrita a partir da escolha, do valor e da escassez. É nesse deslocamento que se abre o caminho para a economia como ciência autônoma, tal como será formulada, séculos depois, por Carl Menger.
Entre Tomás e Menger, o que se perde não é a verdade, mas a centralidade explícita da metafísica. A estrutura moral da ação permanece, ainda que expressa em linguagem estritamente econômica. O tomismo torna-se, assim, a espinha dorsal invisível da economia ocidental.
Com Tomás de Aquino, o tempo encontra seu centro na eternidade. Com a Escola de Salamanca, esse centro começa a manifestar-se no mercado. A liberdade emerge como expressão da lei natural. O Logos torna-se humano, falando pela escolha, pelo valor e pela ação. O caminho da eternidade abre-se, então, para o tempo econômico.