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As barreiras psicológicas para a liberdade

Imaginemos por um momento que estamos em um museu. Em uma ala, são exibidas as grandes conquistas da intervenção governamental: rodovias, represas, escolas públicas e inúmeros outros projetos engenhosos, organizações e realizações. Coisas que utilizamos em nossa vida cotidiana e que, para o bem ou para o mal, supostamente garantem o funcionamento harmonioso da sociedade. Placas e painéis nas paredes dessa ala destacam os milhões de empregos e trilhões de dólares criados pelo estado, além de listar as diversas maneiras pelas quais ele teria contribuído para o crescimento do livre mercado.

A segunda ala do museu é a “ala vazia”, que apresenta as muitas contribuições potenciais que foram tributadas ou reguladas de modo a desaparecer antes mesmo de nascer. Milhares de novas invenções médicas, escolas melhores e até mesmo riqueza e empregos foram todos esmagados pelo peso do governo antes que pudessem se concretizar. Percebemos que muitos escolhem visitar a ala que mostra aquilo que existe, em vez daquilo que poderia ter existido. A mentalidade estatista preocupa-se apenas com o que foi alcançado e com o que está presente, em vez de perguntar o que poderia ter sido realizado caso as pessoas tivessem sido deixadas livres para agir por conta própria.

O que se vê e o que não se vê

Como exemplo, considere uma ponte financiada pelo governo. Essa ponte hipotética custou aos pagadores de impostos dos Estados Unidos 70 milhões de dólares. Esse gasto reduz o montante de capital que poderia ser investido na economia pelos consumidores em pelo menos o mesmo valor despendido pelo governo. Embora de fato uma ponte tenha sido construída, e talvez alguns empregos temporários tenham sido criados durante sua construção, como um estatista poderia apontar, esses resultados não passam de fragmentos visíveis de crescimento. Essa é a economia do que se vê.

A economia que não é vista, por outro lado, é composta pelas milhares de decisões individuais, investimentos e compras que teriam sido realizados com esses 70 milhões de dólares caso eles não tivessem sido apropriados pelo governo. Ao retirar esse dinheiro das mãos do consumidor, o governo diretamente aboliu a capacidade dessas pessoas de tomar decisões guiadas por seus próprios valores no momento presente. Como apontou Mises, a ação humana é intencional e orientada à busca de circunstâncias subjetivamente melhores; assim, o redirecionamento de recursos pelo estado não apenas deslocou dinheiro, mas destruiu objetivos. Também é importante destacar que a decisão do governo de construir essa ponte não necessariamente corresponde a uma necessidade econômica no momento, mas sim à conveniência política.

Os quatro pilares do muro cognitivo

Para comunicar de forma eficaz a ideia da economia que não é vista àqueles que a negam, é preciso compreender o muro cognitivo enfrentado pelos defensores do intervencionismo econômico. Existem quatro fenômenos psicológicos principais diretamente relacionados a esse problema, sendo o primeiro o viés do status quo, que consiste na tendência humana de preferir o estado de coisas existente, mesmo quando subótimo, em vez de alternativas desconhecidas. Para o estatista, o sistema atual é adequado simplesmente porque é familiar.

Em segundo lugar, o viés de ancoragem, que decorre da tendência humana de “ancorar-se” na primeira informação apresentada. Como o governo geralmente é o primeiro a oferecer determinado serviço — seja os correios, as estradas ou a educação —, ele passa a ser mentalmente associado à própria definição desse serviço. Quando um libertário sugere a privatização das estradas, o estatista não escuta “transporte otimizado”, mas sim a destruição da única coisa que ele reconhece como estrada. Qualquer alternativa passa a ser percebida como perda, e não como um possível ganho.

O terceiro pilar a ser compreendido é a aversão à perda e o efeito dotação, tema amplamente estudado por Daniel Kahneman. Segundo Kahneman, as perdas têm um peso psicológico maior do que os ganhos, em uma proporção de 2:1. Isso significa, essencialmente, que a dor de uma perda é psicologicamente duas vezes mais intensa do que o benefício de um ganho evidente. Pode-se, portanto, argumentar que, para um estatista aceitar, por exemplo, a privatização completa da saúde, ele teria de acreditar que os benefícios “não vistos” superariam a saúde socializada por uma margem extremamente ampla. Naturalmente, como esses benefícios não podem ser observados na ala vazia de nosso museu hipotético, ele tenderá a permanecer no sistema subótimo que é “visto” por ele — isto é, o governo — evitando assim uma perda percebida.O último pilar do muro cognitivo enfrentado por aqueles que defendem a economia planejada é a teoria da justificativa do sistema (System Justification Theory, SJT). Esse pilar ajuda a explicar o apego emocional irracional à ala “visível” do museu. John T. Jost — o principal pioneiro da SJT — argumentou que a justificação de um sistema exerce uma função de alívio psicológico. É psicologicamente doloroso acreditar que se vive em uma sociedade injusta, ineficiente ou coercitiva. Assim, os indivíduos “racionalizam” a ponte de 70 milhões de dólares ou o sistema público de educação ineficiente. O estatista não está apenas ignorando a ala não vista, mas também recorrendo à racionalização como forma de proteção mental contra a ideia de que seu dinheiro de pagador de impostos foi desperdiçado e seu potencial foi abortado.

A arrogância fatal do plano

Uma falha significativa dos coletivistas é sua exigência de evidências empíricas das afirmações sobre o livre mercado, exigindo, em essência, um plano detalhado que não pode ser previamente impresso. Evidentemente, é muito mais fácil argumentar, de um ponto de vista conservador, a favor de um mercado não livre, no qual estatísticas podem ser apresentadas justamente porque essa economia regulada é a que existe. Entretanto, do ponto de vista do libertário de princípios, aquele que defende um mercado verdadeiramente livre, nossas evidências baseiam-se principalmente na praxeologia — a lógica da ação humana — a qual eles se recusam a aceitar como coerente. Como mencionado anteriormente ao tratar do efeito dotação, não existe uma medida estatística pela qual se possa comparar os custos e benefícios de uma economia socializada com os do laissez-faire, razão pela qual eles descartam nossas afirmações como meramente teóricas.

Em A Arrogância Fatal, Friedrich A. Hayek argumentou que muitos socialistas acreditam que o homem é capaz de moldar o mundo ao seu redor de acordo com seus próprios desejos. Essa não é apenas uma formulação teórica sua; Lester Frank Ward — considerado o pai do estado assistencial nos Estados Unidos — acreditava que a “invenção social” deveria substituir a “evolução natural”, como evidencia sua famosa afirmação:

“A supremacia do indivíduo já durou tempo suficiente. Chegou o dia de a sociedade tomar seus assuntos em suas próprias mãos e moldar seus próprios destinos”.

As pessoas que propagam essas teorias são indivíduos que concluíram que seu intelecto é superior aos vastos mecanismos da sociedade como um todo, que apenas eles podem oferecer a solução para os problemas sociais por meio de uma reorganização fundamental da sociedade de acordo com suas preferências. Em termos simples, os coletivistas carecem da humildade necessária para reconhecer que seu intelecto individual não é superior aos esforços combinados de bilhões de seres humanos, todos trabalhando em direção a seus próprios fins por meio do mesmo sistema. Seu complexo de superioridade pode ser demonstrado empiricamente: 1 em cada 3 “extremistas” acredita que sua ideologia estava 100% correta, em comparação com apenas 1 em cada 15 moderados.

Esse resultado foi bipartidário, aplicando-se tanto a conservadores quanto a progressistas. No entanto, pode-se argumentar que a economia austríaca de livre mercado constitui a posição intelectualmente mais humilde. Em vez de afirmar de forma rígida que a economia pode ser plenamente compreendida, planejada e executada, e que a sociedade pode ser moldada conforme desejarmos para se adequar a um objetivo futuro, reconhecemos a infinita incompreensibilidade do mercado. Enquanto o estatista afirma saber o que é melhor para todos nós, o austríaco reconhece não apenas que não temos o direito de tomar essa decisão, mas também que não dispomos dos dados necessários sequer para tentar fazê-lo.

Conclusão: para onde vamos agora?

Com isso, analisamos o raciocínio psicológico por trás da recusa dos intervencionistas econômicos em aceitar ideais de mercado verdadeiramente livre. Embora muitos outros fatores também influenciem suas crenças, como padrões morais formados pelo ambiente e o igualitarismo, o objetivo principal deste artigo não é examinar as condições sociológicas, mas sim as barreiras cognitivas que enfrentamos em nossos esforços. Não afirmo possuir uma solução eficaz para neutralizar esses vieses psicológicos, mas espero que argumentos futuros levem esses fatores em consideração ao buscar derrotar adversários políticos ou persuadir aqueles que permanecem indecisos. Somente ao compreender os vieses mais profundos que afetam aqueles com quem interagimos poderemos apresentar argumentos que eles estejam dispostos a aceitar.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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