“O governo é bom em cobrar impostos, tirar sua liberdade e matar pessoas. Fora isso, não é bom em quase nada.” — Tom Clancy
No estudo de sistemas complexos e dinâmicos — a chamada “ciência do caos” —, “atratores” são princípios operacionais ao redor dos quais a turbulência e o caos aparente são harmonizados. Aquilo que as nossas simples experiências passadas descartam como sendo aleatoriedade e desordem, o estudo do caos e da complexidade revela como sendo padrões profundos de regularidade. Atratores ajudam a identificar a dinâmica por meio da qual sistemas complexos se organizam autonomamente. Assim sendo, pode-se dizer que uma falha geológica serve como um “atrator” para forças geológicas em placas tectônicas, assim como redes de drenagem são atratores para um curso d’água exercer contínuas relações com as forças da gravidade. Em um nível social, um leilão de bens antigos pode ser visto como um atrator para negociantes de antiguidades; aterros sanitários, como atratores para propriedades abandonadas; e hospitais, como atratores para doenças. Na economia de mercado, o sistema de preços é um atrator para compradores e vendedores que buscam trocar direitos de propriedade.
O estudo do caos nos está ajudando a compreender por que todos os sistemas políticos são disruptivos e destrutivos para os processos vitais. Por meio desta nova ciência, estamos descobrindo — ao contrário das arrogantes suposições de Platão — que sistemas complexos produzem comportamentos que são, ao mesmo tempo, determinados e imprevisíveis. Se deixado à mercê das forças que operam sobre ele, um sistema complexo irá espontaneamente gerar consequências implícitas — embora imprevisíveis — dentro dele.
Mas sabemos que muitas pessoas não gostam de um mundo imprevisível e indiferente aos seus interesses particulares. Assim, um empresário que seja incapaz de competir efetivamente por clientes em um livre mercado pode tentar perturbar a ordem que não atende aos seus caprichos. Ele pode começar buscando acordos voluntários com seus concorrentes para reduzir o ritmo com que eles perseguem seus respectivos interesses — uma estratégia que raramente tem sucesso. Quando a abordagem voluntária não satisfaz todos os membros da indústria, ele e muitos de seus rivais comerciais recorrem ao estado para obter, pela força, resultados inalcançáveis no mercado. Meu livro, In Restraint of Trade: The Business Campaign Against Competition, 1918–1938, documenta essa politização do sistema empresarial.
O estado é quase universalmente definido como um sistema que usufrui de um monopólio legal do uso da violência dentro de um dado território. Não obstante todo o alarde da mídia, o condicionamento das escolas governamentais e demais propagandas institucionais criadas para pintar os sistemas políticos como agências nobres e moralmente íntegras, devotadas a servir ao bem-estar geral, o estado é capaz de fazer apenas uma coisa: compelir as pessoas — por meio da violência e da ameaça de violência — a fazer aquilo que elas não escolheriam fazer, ou a se abster de fazer aquilo que gostariam de fazer. Como o proletariado subjugado e explorado de A Revolução dos Bichos, um número crescente de homens e mulheres lê as palavras de abertura do preâmbulo da Constituição — “Nós, o Povo” — e descobre a identidade do “povo” que controla e se beneficia do sistema que foi criado.
Se o estado é definido em termos de seu monopólio do uso da violência, qual é o caráter das pessoas que seriam atraídas para o uso de suas ferramentas e práticas violentas? Que tipo de pessoa seria atraída por carreiras que lhes conferem o poder arbitrário de obrigar terceiros à sua vontade — um trabalho cuja premissa está no imperativo da obediência? É quase divertido ver legisladores conduzindo audiências sobre o problema do bullying nas escolas: muitas vezes me pergunto se esses políticos estão projetando suas próprias forças do “lado sombrio” nos outros, usando valentões de playground como bodes expiatórios para o bullying muito mais difundido que é a própria razão de ser da política. Ou talvez esses sábios legisladores estejam simplesmente tentando eliminar a concorrência, da mesma forma como os governos locais guerreiam contra as gangues de rua que dominam violentamente os bairros urbanos — papel que o sistema policial do estado quer monopolizar para si.
Há um continuum entre o comportamento “sociopata” e o “psicopata”, separando graus de conduta antissocial. Um funcionário dos Correios ou um recepcionista de uma agência do DETRAN pode perfeitamente não exibir nenhum desses traços. Mas e quanto aos funcionários públicos cujas atribuições são fazer cumprir algum decreto ou programa governamental? O homem ou a mulher que está preparado para iniciar um ato de punição com o intuito de compelir a obediência a um mandato governamental facilmente deriva para o membro do esquadrão de assalto, o policial brutal ou aquele que tortura outrem. É o apetite pelo poder supremo sobre os outros o que impulsiona tais pessoas. Chegamos agora ao ponto mais vicioso desse continuum: o sistema de guerra, onde o assassinato indiscriminado de pessoas inocentes — muitas delas crianças — torna-se justificado pelos amantes psicopatas da guerra com o único fundamento de que têm o poder de infligir morte em larga escala.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas cometeram crimes de guerra tão cruéis quanto os perpetrados pelos inimigos derrotados. Os psicopatas nazistas que gerenciavam os campos de extermínio encontraram seus equivalentes nos oficiais aliados que bombardearam cidades não militares como Dresden e Hamburgo, e vaporizaram dezenas de milhares de civis — além de alguns prisioneiros de guerra americanos — em Hiroshima e Nagasaki. O bombardeio nuclear dessas cidades japonesas foi feito principalmente para impressionar a União Soviética, ao passo que cidades outrora belas como Dresden foram arrasadas porque, nas palavras de um oficial da RAF, “não nos restavam mais cidades para bombardear”. O comandante do Comando de Bombardeiros da RAF, Arthur “Bomber” Harris, afirmou, trinta anos depois, que faria a mesma coisa novamente se confrontado com as mesmas escolhas. Tal é a mentalidade do psicopata!
Sean Hannity e muitos de seus correligionários neoconservadores partilham do mesmo raciocínio do “Bomber” Harris. Com um número crescente de americanos decentes e inteligentes percebendo que a guerra planejada contra a Síria se baseia no mesmo tipo de mentiras e falsificações que levaram à guerra contra o Iraque, os amantes da guerra estão tentando uma abordagem diferente. Se as pessoas não estão dispostas a “disparar alguns mísseis na Síria”, argumentou Hannity, um ataque ao Irã seria uma ação ainda melhor. Sua posição — e a de tantos outros neoconservadores — se resume a pouco mais do que isso: se o povo não está comprando nosso plano contra a Síria, vamos atacar outra pessoa antes que qualquer oposição surja. A guerra é um fim em si mesma, e importa pouco quem é escolhido como o inimigo do ano. Se você tem alguma dúvida sobre isso, assista ao excelente filme antibelicista Wag the Dog.
Se, como Randolph Bourne advertia, “a guerra é a saúde do estado”, aqueles que são atraídos pelo exercício da violência sobre os outros podem se iludir acreditando ser profissionais de saúde de um sistema em guerra com a própria vida.
Assim como não esperaríamos que a Madre Teresa administrasse um bordel, também não podemos imaginar que genuínos defensores da paz e da liberdade sejam bem-vindos na gestão do estado. É por isso que Ron Paul era tão persona non grata para os membros da elite política. Ele queria reduzir — talvez até eliminar — a natureza violenta do estado-nação americano. Ele quase foi vaiado e retirado do palco em uma convenção republicana por sugerir que este país adotasse a “Regra de Ouro” como base de sua política externa. Ele queria minimizar aquilo que atrai os sociopatas e psicopatas para o estado: a oportunidade de usar níveis crescentes de violência destrutiva contra seus semelhantes.
Este artigo foi originalmente publicado no Lew Rockwell.com