O marxismo da Escola de Frankfurt infelizmente ainda está vivo e atuante. De fato, Jürgen Habermas — o principal filósofo da Escola, que agora está na casa dos noventa anos [nota da edição: quando o artigo foi escrito Habermas ainda não havia falecido] — publicou uma enorme história da filosofia em três volumes. Esse livro foi agora publicado em tradução para o inglês sob o título Also: A History of Philosophy. O lançamento do terceiro volume em tradução inglesa levou Daniel Steinmetz-Jenkins — um admirador de Habermas fervoroso — a realizar uma entrevista com ele que foi publicada neste mês na revista The Nation. A entrevista oferece uma maneira rápida de compreender a essência do projeto de Habermas, poupando o leitor da necessidade de enfrentar 1.500 páginas da difícil prosa de Habermas. Na coluna desta semana, gostaria de mostrar como Habermas subordina totalmente a filosofia à propaganda ideológica marxista.
A filosofia procura responder a certas questões que não são abordadas pelas ciências físicas e sociais, como: O que é a verdade? O que é o conhecimento? Qual é o fundamento do valor? e assim por diante. Essas questões são muito difíceis de responder, e parte do fascínio da filosofia está no intricado jogo de argumentos envolvido em sua investigação.
Habermas reconhece que há espaço para tais questões, mas, para ele, trata-se de um espaço bastante secundário. O principal objetivo da filosofia é legitimar o regime. Como veremos, ele possui ideias bastante definidas sobre como esse regime deve ser. Ele afirma:
“Sim, nesse sentido o próprio campo de investigação da filosofia naturalmente inclui as condições de possibilidade da percepção e do conhecimento em geral, bem como aquelas da ação e da fala. No entanto, seu tema efetivo é mais geral — como eu disse, uma elucidação metodicamente orientada daquela compreensão geral do mundo e de nós mesmos, na qual nós e nossos contemporâneos sempre já nos apoiamos para nos orientar em nossa vida. Mas uma história da filosofia também deve abordar as mudanças que o seu papel sofre dentro de sua própria sociedade. Seu papel mais evidente é oferecer contribuições críticas para a legitimação da respectiva forma de dominação política”.
Habermas apresenta, no primeiro volume de sua trilogia, uma elaborada exposição de diversas visões de mundo religiosas, fortemente influenciada pela noção de uma “Era Axial”, proposta por Karl Jaspers. Mas o tempo da crença literal nessas religiões já passou há muito. Os conceitos teológicos teriam “migrado para o profano” e, quando isso ocorre, fica claro que eles sustentam a democracia em sua batalha contra os “extremistas de direita”. Como Habermas afirma:
“[Theodor] Adorno estava convencido de que os conteúdos teológicos não sobreviverão a menos que sejam traduzidos em termos seculares. Essa ideia sempre me influenciou profundamente. Em meu livro, tracei passo a passo como o desenvolvimento acima mencionado do direito natural cristão em direção ao direito natural racional moderno conduz a uma justificação discursiva dos direitos fundamentais e dos direitos humanos. Dessa forma, a filosofia pode fornecer uma justificativa razoável dos princípios constitucionais do estado democrático de direito contra o potencial atualmente crescente do extremismo de direita. Assim, a filosofia pode fornecer ao estado constitucional um tipo de apoio completamente diferente daquele oferecido pela visão positivista do direito, que, em última análise, fundamenta a pretensão de validade de uma constituição não no poder de boas razões, mas apenas na expressão da vontade do legislador”.
Habermas é sensível às acusações de que teria traído os objetivos revolucionários do marxismo com as prescrições inofensivas da social-democracia. Não é esse o caso, afirma ele. O que de fato aconteceu é que o estado capitalista se mostrou mais profundamente enraizado do que os pioneiros do marxismo imaginaram. Sua esperança agora é expandir o estado de bem-estar social de maneira radical, de modo que isso acabe resultando em socialismo. Ele explica sua visão da seguinte forma:
“Se você perguntar o que aconteceu com minha ligação com a tradição do marxismo ocidental, eu lembraria que a pesquisa da Teoria Crítica esteve, desde o início, focada em explicar a estabilidade inesperada do capitalismo, apesar de todas as suas crises. E, no que diz respeito ao meu envolvimento na política cotidiana da Alemanha Ocidental, devo confessar que, como alguém de esquerda, estive principalmente preocupado com a luta para liberar a mentalidade política de uma população que inicialmente permaneceu profundamente ligada ao regime nazista. No que diz respeito ao desenvolvimento capitalista, uma transformação revolucionária da ordem econômica social democrata estabelecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial já não era viável, em qualquer caso, sob as condições de competição sistêmica com o regime soviético. E, desde o fim da Guerra Fria, menos ainda. A partir do período pós-guerra, meu próprio interesse voltou-se para reformas do estado de bem-estar social que, se suficientemente radicais, poderiam transformar as democracias capitalistas de maneira irreconhecível”.
Uma objeção à versão de social-democracia radical defendida por Habermas é que ela meramente expressa seus próprios juízos de valor. E se não compartilharmos esses juízos? Habermas está bem ciente dessa objeção, que ele associa à distinção feita por Max Weber entre fatos e valores. Ele rejeita a afirmação de Weber de que os valores são meras suposições arbitrárias. Pelo contrário, as próprias opiniões de Habermas seriam demonstráveis racionalmente:
“A perspectiva de Max Weber é a de um sociólogo e historiador que vê a história como um campo de batalha entre sistemas rivais de crenças. Hoje, a própria história dá credibilidade a essa perspectiva, como mostram exemplos evidentes, como o renovado conflito entre as potências nucleares Índia e Paquistão. Por outro lado, Weber ainda não teve de lidar com o contraexemplo do estabelecimento de uma ordem internacional baseada em direitos humanos. O fato de que as Nações Unidas tenham surgido dos horrores da Segunda Guerra Mundial pode explicar por que esse sistema jurídico é reconhecido por 193 nações. Em nosso contexto, no entanto, o que é interessante é o fato geral de que normas podem reivindicar precedência sobre os valores particulares de seus diversos destinatários, desde que a validade dessas normas se baseie no fato de serem geralmente reconhecidas. Tal consentimento pode basear-se em compromissos e, portanto, no acordo contingente de diferentes interesses. No entanto, essa é uma base frágil, pois os interesses podem mudar a qualquer momento. Por essa razão, a validade das normas jurídicas deve, em princípio, basear-se em boas razões que sejam convincentes para todos os seus destinatários. Max Weber não reconhece a racionalidade que normas reconhecidas podem reivindicar em relação a meras orientações de valor”.
Basta dizer que Habermas nunca conseguiu apresentar as “boas razões” para a defesa da social democracia das quais fala.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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